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EDITORIAL

A esperança que vem de Hamburgo

Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP

Desde o dia 6 de julho, está ocorrendo em Hamburgo, na Alemanha, a cúpula do G20 – reunião dos 20 países mais ricos, incluindo o Brasil. Essa reunião pretende delimitar o papel reservado na economia e geopolítica internacional para cada um destes países e nesse sentido tem uma importância para entender o futuro da política internacional. Porém, para nós, lutadores anticapitalistas, a esperança está do outro lado da barricada: desde antes do início da reunião, grandes manifestações têm repudiado a cúpula e enfrentado a polícia conforme não víamos há anos.

Bem-vindos ao inferno
A escolha de Hamburgo como sede da reunião do G20 foi na prática uma afronta ao movimento anticapitalista. A cidade alemã é conhecida pela presença de fortes movimentos anticapitalistas, incluindo grandes ocupações de prédios, como a Rote Flora, teatro ocupado desde 1989 por anarquistas.

O movimento anticapitalista, antiglobalização e internacionalista, junto a sindicatos e adeptos da tática Black Block, se organizaram há alguns meses para conseguirem realizar uma resistência a invasão policial da cidade. O Estado alemão deslocou 20 mil policiais, 3 mil veículos, 11 helicópteros, 185 cachorros e 70 cavalos para reprimir os movimentos. Os acampamentos dos militantes que se deslocaram para a cidade para protestar, foram desmantelados antes do início da cúpula, com jatos de água. Tudo isso não impediu as manifestações.

Uma das primeiras manifestações foi intitulada “Bem-vindos ao inferno”. Ela partiu com cerca de 10 mil pessoas do bairro de Sankt Pauli, onde fica o estádio do time antinazista com o mesmo nome. Os confrontos com a polícia aconteceram rapidamente: 44 militantes foram presos, enquanto 111 policiais ficaram feridos). As manifestações continuaram no dia 7, com vários confrontos pela cidade. A polícia foi obrigada a pedir um reforço de cerca de mais de mil policiais. Apesar de não conseguirem o cancelamento da cúpula, os protestos conseguiram atrasar a presença de diversas reuniões, incluindo o impedimento de Temer de voltar ao hotel após a reunião.

Neste sábado, 8 de julho, ocorreu a maior manifestação, com cerca de 76 mil pessoas de acordo com os organizadores. Foi uma grande manifestação com sindicatos, movimentos sociais e diversos grupos políticos que demonstrou que o espírito antiglobalização parece readquirir uma nova força.

Do espírito de Seattle a uma necessária perspectiva estratégica
Sem dúvida alguma é bastante animador a volta dos grandes protestos contra as cúpulas neoliberais. Em determinado sentido, o movimento altermundialista teve seu nascimento e auge na grande batalha de Seattle (EUA) contra a terceira reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1999. Diversos coletivos, grupos políticos, sindicatos e movimentos sociais organizaram uma contra-cúpula com protestos diários que conseguiu atrapalhar e cancelar eventos da reunião da OMC.

Em determinado sentido, Hamburgo recuperou esse espírito que atravessou tantas outras reuniões como a reunião do G8 em Gênova, na Itália, em 2001 na qual a polícia assassinou o militante Carlo Giuliani e reuniões em países como França e Espanha.

Sem dúvida alguma, a recuperação dessas manifestações é uma demonstração de que a retomada das ruas é a única maneira efetiva para se contrapor aos defensores das políticas genocidas do imperialismo e também da política neoliberal que praticamente todos os grandes líderes mundiais defendem. Assim como na virada do milênio, é importante que milhares de jovens e trabalhadores se entusiasmem com essas manifestações e repudie a política neoliberal. Isso só tende a fortalecer nossa resistência.

Mas ao mesmo tempo, é necessário fazermos uma reflexão mais aprofundada sobre o que foi o movimento antiglobalização e sua onda de fluxos e refluxos. Essa reflexão deve se pautar por compreender quais foram os objetivos desse movimento e quais foram suas limitações, no sentido de estabelecermos uma estratégia que não só enfrente as cúpulas, mas que também que coloque em xeque a política imperialista.

Nesse sentido, nos parece importante retornar ao debate estratégico e principalmente à questão de construir os meios para destruir o poder imperialista e construir um novo poder baseado na democracia dos trabalhadores e da juventude. Dessa forma, será possível fazer com que os ventos de esperança de Hamburgo possam não se desvanecer como aqueles que vieram de Seattle.

Foto: Albiladdailyeng