Sivuca: o poeta do som

Por: Paula Farias, de Fortaleza, CE*

Severino Dias de Oliveira, paraibano, conhecido por seu apelido Sivuca, levou a sanfona para as maiores salas de concerto do mundo. Como um poeta do som, tocou do popular ao erudito. Multi-instrumentista, tornou-se referência para músicos brasileiros e estrangeiros. E no Nordeste transformou-se em ícone daqueles que têm a sanfona, ou acordeom, como seu principal instrumento. Não há um sanfoneiro desta região do Brasil profundo que não tenha em seu repertório a música Feira de Mangaio. Nesse período de festas juninas é uma das canções mais tocadas junto com as músicas de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e tantos outros que fazem da sanfona um instrumento tão popular neste período do ano.

O Severino, a sanfona e o mundo
sivuca (1)Severino é um nome tão comum na Paraíba como o “Zé” da música de Jackson do Pandeiro (Como tem Zé na Paraíba, 1962). Sivuca nasceu em 1930 em Itabaiana interior da Paraíba. De uma família de sapateiros, aos oito anos apaixonou-se pelo órgão da igreja e queria aprender a tocar. Mas, aos nove anos, no dia de Santo Antônio, ganhou o seu primeiro instrumento: a sanfona de oito baixos, um órgão de suspensórios, único instrumento que a família pode lhe presentear. Em entrevista, no ano de 2001, revelou que era tão louco por música que frequentava o cinema só para decorar as canções para tocá-las.

Aos quinze anos Severino mudou-se para Recife. Saindo de Itabaina de trem, foi para a capital pernambucana, considerada referência musical do Nordeste, para buscar oportunidade cultural. Apresentou-se na Festa da Mocidade no Parque Treze de Maio e na Rádio Clube de Pernambuco em programas de calouros. Tocando Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu) chamou a atenção por seu virtuosismo, por tocar diferente e ser albino (como disse Dominguinhos: nego aço ou diabo loro). O diretor artístico da Rádio Clube, Nelson Ferreira, um grande compositor de frevos e maestro, ao ouvi-lo reconheceu o seu potencial e o contratou para tocar em um programa desta Rádio. Passou, então, a apresentar-se sozinho e em grupo.

Aos dezessete anos, morador da Rua do Hospício em Recife, levava a sanfona para tocar na mureta do Parque Treze de Maio. E nesse ano, 1947, compôs a valsinha que na década de 1970 recebeu letra de Chico Buarque tornando-se um grande sucesso na voz de Nara Leão, João e Maria.

Aos dezoito anos transfere-se para a Rádio do Comércio. Conhece o maestro Guerra Peixe e com ele tem suas primeiras aulas de música. Começa a estudar teoria musical e harmonia. Esta experiência transformou Sivuca em um músico pronto para fazer orquestração e tocar para qualquer tipo de conjunto. Guerra Peixe, natural de Petrópolis no Rio de Janeiro, foi um importante compositor e estudioso da música brasileira. Foi para o Nordeste com o objetivo de estudar a música e folclore nordestino: frevo, xaxado, maracatu. Sivuca tinha um grande apreço e admiração por este gênio da música brasileira, seu mestre, e juntos trocaram experiências: aprendia sobre música sinfônica na medida em que apresentava ao maestro a diversidade da cultura nordestina.

Na Rádio Jornal do Comércio nosso Severino compôs trilhas sonoras para novelas e foi convidado pela cantora Carmélia Alves, considerada a rainha do baião, um grande sucesso na década de 1950. Partiu para São Paulo para gravar com Carmélia e realizar temporadas como músico em algumas rádios da Paulicéia.

Em 1951 grava o seu primeiro disco interpretando Carioquinha do Flamengo (Waldir Azevedo e Bonfiglio de Oliveira) e Tico-Tico no Fubá acompanhado do grupo regional de Canhoto. Nesse mesmo ano, lançou o primeiro sucesso nacional, em parceria com Humberto Teixeira, a linda Adeus, Maria Fulô que fala sobre a partida do sertão por causa da seca: Adeus Maria Fulô/ Marmeleiro amarelou, adeus Maria Fulô olho d’água estorricou / Adeus, vou me embora meu bem/ chorar não ajuda ninguém/ enxugue seu pranto de dor/ que a seca mal começou. O grupo Os Mutantes fez uma versão psicodélica desta música e a regravou nos anos 1960.

Em 1955 mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a trabalhar na rádio Tupy. Fez arranjos, compôs trilhas para filmes nacionais. Conheceu diversos músicos, entre eles Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Por onde passava Sivuca se destacava por sua versatilidade e por sua técnica. Dominguinhos destaca que o diabo loro tocava a sanfona com muita velocidade e aprimorava o instrumento para além do forró e do baião. Com essa técnica influenciou muitos acordeonistas do país, incluindo Dominguinhos. Nesse período, Sivuca já tocava tudo: Bach, Pixinguinha e outros choros, frevos, baião. Transitava do erudito ao popular com muita virtuosidade.

Em 1958, fez sua primeira excursão para a Europa, onde tocou acordeom no grupo Os Brasileiros do qual participavam vários músicos, como o Trio Irakitan. A temporada no exterior foi parte do projeto de divulgação da música brasileira. Em três meses apresentaram-se em shows no Olympia de Paris, no London Palladium e na Exposição Internacional de Bruxelas. O trabalho resultou no disco Os Brasileiros na Europa, lançado pela gravadora Odeon.

Em 1959, foi demitido da Tupy por aderir a uma greve de músicos que reivindicava melhores salários. Juntou-se então ao grupo Brasília Ritmos, integrado por Waldir Azevedo, Trio Fluminense e outros. No mesmo ano, novamente com o grupo Os Brasileiros, retornou à Europa e após a excursão com o grupo, resolveu não voltar ao Brasil. Por dezoito anos residiu e trabalhou em vários países como Portugal, França e Estados Unidos. Gravou discos com músicos como Putte Vickman, clarinetista de jazz sueco.

Participou de programas de TV, documentários, apresentou-se como instrumentista em diversas salas de concerto e festivais. Em 1962 foi considerado o melhor instrumentista pela imprensa parisiense.

O telegrama de Miles Davis: treze anos em Nova Iorque
Em 1964, Sivuca retornou ao Recife, mas com o golpe militar instalado, resolve seguir para os Estados Unidos com a cantora fluminense Carmen Costa.

Estabeleceu-se em Nova Iorque, encontrou dificuldades para arranjar trabalho. Fez bicos e deu aulas de violão. Outra dificuldade foi quebrar o preconceito, do público e do meio artístico, com a sanfona. Um instrumento execrado, incompreendido por diversos músicos e com pouco espaço em salas de concerto norte-americanas.

Após participar de um premiado documentário na qual aparece tocando e falando sobre o acordeom, Sivuca é surpreendido com um telegrama do trompetista Miles Davis, um dos maiores músicos de jazz americano, que dizia o seguinte: “finalmente eu encontrei alguém que me fizesse fazer as pazes com esse maldito instrumento, o acordeom”.

De 1965 até 1969, trabalha como instrumentista da cantora Miriam Makeba, cantora sul-africana e ativista contra o apartheid. Sivuca participa do arranjo e gravação de Pata-Pata, juntamente com os colegas músicos africanos da cantora. Essa música transforma-se em grande sucesso internacional. À época, é aplaudido de pé quando se apresenta com Makeba no Carnegie Hall, em Nova Iorque. Com ela, realiza turnês por quatro Continentes. Makeba grava composições de Sivuca como Adeus, Maria Fulô e de outros músicos brasileiros como Jorge Ben Jor. Em 1966, chega a Estocolmo, capital da Suécia, onde grava o LP Sivuca med Putte Vickman Orquester.

Em 1968, morando em Nova York, volta duas vezes para temporadas de shows na Escandinávia, que resultam em programas de televisão para a Finlândia e a Noruega. Ainda em 1968, chega ao Japão, registrando como violonista o compacto duplo Golden Bossa Nova Guitar, pela gravadora Reprise.

Em janeiro de 1969, novamente acompanhando Miriam Makeba, regressa a Estocolmo e grava dois discos: um deles com o título Sivuca e outro chamado Putte Vickman – Sivuca. Em 1970, atua no musical Joy (de Oscar Brown), como seu diretor musical, instrumentista, compositor e arranjador. Compõe Mãe África para esse mesmo musical, que permanece em cartaz por um ano, em São Francisco, Chicago e Nova Iorque, onde o show é gravado ao vivo pela RCA.

Em 1971, Harry Belafonte, ator e cantor, parceiro de Makeba, o convidou para arranjar e tocar no especial dele e de Julie Andrews, na TV NBC, na cidade de Los Angeles. Fez uso de violão e sanfona, arranjou para orquestra de cordas, a quatro mãos, com o compositor e arranjador Nelson Riddle, inclusive o arranjo de uma canção escrita para Julie Andrews. Atua intensamente no importante álbum Belafonte… Live!, gravado ao vivo pela RCA, no O´Keefe Centre, em Toronto, Canadá. Nessa época, ao lado de Hermeto Pascoal, Flora Purim e Airton Moreira, registra o disco Natural Feelings.

Em 1973, em meio às turnês com Harry Belafonte, grava em estúdio nova-iorquino o LP Sivuca. Nesse mesmo ano, projeta-se com seu show de música brasileira, no Village Gate. Grava ao vivo o álbum Life from the Village Gate, lançado em 1975.

Em abril de 1975, casa-se com a médica e compositora Glória Gadelha, também conhecida como Glorinha Gadelha e com quem desenvolve vasto trabalho de composição, com destaque para Feira de Mangaio, considerado um clássico do forró. Nessa época, deixa sua marca de sanfona/voz no antológico solo improvisado no disco do Paul Simon (1975) e Bette Middle (1976). Também participa de um LP de Hugh Masekela (1976) e outro disco de Dom Um Romão – Hotmosphere, de 1976. Ainda nesse ano de 1976, volta ao Brasil, via Paris, onde acompanha Harry Belafonte no especial de Marcel Marceau para a TV francesa.

Feira de Mangaio e Glorinha Gadelha
A música Feira de Mangaio é provavelmente uma de suas músicas mais conhecidas. “Fumo de rolo arreio de cangalha/Eu tenho pra vender, quem quer comprar(…)/Tinha uma vendinha no canto da rua/ Onde o mangaieiro ia se animar/Tomar uma bicada com lambu assado/E olhar pra Maria do Joá/Porque tem um Sanfoneiro no canto da rua/Fazendo floreio pra gente dançar/Tem Zefa de Purcina fazendo renda/E o ronco do fole sem parar…” Não há um sanfoneiro que não saiba tocar e cantar esta canção. É um baião, forró, que virou um clássico na voz de Clara Nunes e um de seus grandes sucessos. Inicialmente foi gravada pelo próprio Sivuca e sua parceira musical e de vida, Glorinha Gadelha.

Feira foi composta em Nova Iorque, em uma lanchonete, num dia de inverno rigoroso. Morando há anos nos EUA a saudade da Paraíba, das feiras do interior e as lembranças foram transformados em versos que até hoje faz todos dançarem. E confesso que está entre as músicas que mais gosto! O arranjo é de Sivuca que também propôs uma palavrinha num único verso que a compositora considerava mal resolvido. Feira foi a primeira canção do casal que marcaria uma parceria de mais de trinta anos.

Vale destacar a relação de amor à música que Glorinha e Sivuca cultivaram em anos de parceria. O primeiro instrumento de Glorinha foi, também, a sanfona que ganhou ainda quando era criança. A música sempre esteve presente na sua vida, mas cursou medicina sem nunca exercer a profissão, pois casou-se com Sivuca e decidiu dedicar-se integralmente à música. Gravou vários discos, fez apresentações na Europa, EUA e no Brasil; compôs para diversos artistas como Clara Nunes, Elba Ramalho, Dominguinhos. Entre seus sucessos, além de Feira estão Amar, amar, amar, amar e Como é grande e bonita a natureza. No Nordeste, destaque-se, muitas mulheres fizeram sucesso cantando, tocando e compondo a vida dos nordestinos. O forró, por aqui, tem voz de mulher: Anastácia, Marinês e Amelinha são algumas notórias da cultura nordestina.

A paixão pela música e por Glorinha foi expressa em um poema dedicado à Sivuca escrito pelo jornalista José Nêumanne Pinto: “[…] a Glória de Sivuca tem nada a ver com fortuna.[…] Ela tem a ver é com a sorte, com a sorte até pode ser, mas não a sorte no jogo e, sim, a sorte no amor. Pois a Glória é menina, a Glória é moça, seu nome é Severino e é nome de mulher. Pois é, a Glória é mulher. E também é melhor: é gáudio, é orgia, é folia, carinho, estripulia”.

O poeta do som
Instrumentista, arranjador, compositor, acordeonista, violonista, guitarrista. Estilista da sanfona, Sivuca foi um dos músicos mais influentes na arte desse instrumento, em diversos casos, mais do que o pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989). Se Gonzagão redimensionou e popularizou o instrumento ao colocá-lo na condução de seu invento, o baião, Sivuca o expandiu, contribuindo significativamente para seu enriquecimento, bem como o da música brasileira em geral, com o requinte de seus arranjos a beleza de suas melodias e a versatilidade de instrumentista, transitando com desenvoltura entre o erudito e o popular, o jazz, o choro e os ritmos nordestinos.

Fez muitos discípulos pelo mundo como Richard Galliano (francês, fez diversos arranjos para acordeom das composições de Bach e Mozart; destacou-se tocando Piazzolla) e René Lacaille. No Brasil é reverenciado por acordeonistas de Norte a Sul do país: de Dominguinhos à Borghetti. Influenciando ainda hoje, jovens como Mestrinho (Sergipe) e Lucy Alves (Paraíba).

Um instrumento do povo do Nordeste que foi abrasileirado por este mestre Severino. E se a sanfona no Brasil, principalmente no Nordeste, pode ser sinônimo de forró, para Sivuca era importante estudar o instrumento para conseguir ir além do forró e explorar sua riqueza musical, sinfônica e harmônica. Por isso Sivuca considerava que sem o choro, não seria possível existir o forró. Justificando sua admiração por Pixinguinha, Waldir Azevedo e outros músicos do choro.

Nosso Sivuca foi um apaixonado pela música sinfônica. Gostava tanto de Bach que fez arranjos de composições para a sanfona. A admiração pelo erudito, clássico, significava a sua vontade de aprimoramento da técnica e de explorar ao máximo o potencial de seu instrumento. Nosso Severino tinha o objetivo de escrever para Orquestras Sinfônicas, mas tinha medo. Até que, em 1985, fez sua primeira partitura sinfônica inspirado no tema Asa Branca. Buscou incansavelmente levar a sanfona para o convívio com a sinfônica tentando quebrar o preconceito dos músicos eruditos com seu instrumento principal.

Depois de rodar o mundo, Sivuca voltou a morar em João Pessoa, para tratar um câncer. Foi perdendo a voz, mas a alma de instrumentista permanecia viva. Ironizou numa entrevista: “Vim para Paraíba para descansar, mas nunca trabalhei tanto na vida”.

Um dos discos mais emblemáticos da carreira do artista é o Sivuca Sinfônico (Biscoito Fino, 2006), em que ele toca ao lado da Orquestra Sinfônica do Recife sete arranjos orquestrais de sua autoria, um registro inédito e completo de sua obra erudita. Também em 2006 o músico lançou o DVD Sivuca – O Poeta do Som, que contou com a participação de 160 músicos convidados. Foram gravadas 13 faixas, além de duas reproduzidas em parceria com a Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Em algumas oportunidades, como no documentário O Milagre de Santa Luzia onde Dominguinhos percorre o Brasil para contar a história da sanfona, Sivuca expressou que seu grande sonho era tocar saxofone. Como se apaixonou pelo acordeom ele declara: “toco o fole como se tivesse soprando um sax”. A sanfona, seu órgão de suspensórios e sua técnica, representam a vontade do músico popular brasileiro em tocar música clássica, que apresenta uma dificuldade técnica maior. A sanfona, seu principal instrumento, segue com o desafio de manter representantes que destaquem toda a sua riqueza harmônica e sua qualidade sinfônica. Temos bons acordeonistas aqui, espalhados por esses rincões do nosso Brasil profundo. Há outros tantos no resto do mundo. Outros poetas do som podem surgir. Para isso é importante investir, estimular, incentivar o estudo concentrado deste instrumento, tão popular entre o povo nordestino, para além das notas do forró.

Sivuca faleceu na cidade de João Pessoa no dia 14 de dezembro de 2006, depois de lutar trinta e dois anos contra um câncer que o acometia desde 1968. E hoje precisamos lembrarmo-nos dele. Viva Sivuca, o poeta do som!

*Cearense de nascença. Filha e neta de paraibanos. Apaixonada por música e pelo Nordeste. Agradeço e dedico este texto ao Lucas por despertar e estimular minha curiosidade musical. E a meu pai, filho de um Severino (Bil Capiba), que me falou que Luiz Gonzaga é o rei do baião, mas Sivuca é o mestre da sanfona, um poeta do som.

Ilustração: Stephanie Soares, estudante de Artes Visuais da UFPB. Uma artista linda, de grande talento e sensibilidade. Mais sobre o belíssimo estudo/trabalho dela: https://www.facebook.com/stephanie.soares.3762 Instagram: @tephsart

Referências:
Site Sivuca
Sivuca no Dicionário MPB
Sivuca no Wikipedia
Sivuca no Uol
Sivuca no Estadão

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