Viver é melhor do que sonhar: a relação entre a militância e a saúde mental

Por: Gabriel Santos, de Maceió, Alagoas

Todo militante de uma organização, ou movimento social, que tenha certo tempo de militância, às vezes nem isso, conhece ou sabe de algum companheiro que se afastou das lutas diárias por causa de problemas psicológicos, muitas vezes ansiedade e, ou depressão.

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estado Unidos estima que cerca de 125 mil pessoas são hospitalizadas por ano em decorrência de depressão. Entre 50 a 70 mil pessoas cometem suicídio anualmente por conta dessa doença. No Brasil, quase 6% da população sofre da depressão ultrapassando a média mundial. Somente no ano passado, mais de 75 mil pessoas foram afastadas de seus empregos no Brasil por conta da doença psíquica.

Diversas pesquisas mostram que o adoecimento mental está ligado também ao modelo de vida que temos hoje. A este sistema capitalista que explora e oprime.

No seio das organizações de esquerda, como este problema é visto? Como a saúde mental e a dor subjetiva dos militantes são tratadas? E qual o motivo que faz com que tantos companheiros se afastem para “acalmar a cabeça”? O objetivo deste texto não é trazer respostas, mas sim criar dúvidas e questionamentos. É ao mesmo tempo um desabafo e uma auto-crítica, por me ver nos dois lados das ações.

Antes de tudo, acho que é preciso reconhecer alguns fatos: existe dor na militância, é preciso reconhecer isto. Assim como é preciso apontar que militantes podem adoecer de maneiras invisíveis.

Aqueles que entram no projeto revolucionário, de uma luta anticapitalista, na construção de um Partido, onde se busca construir outro tipo de sociedade, ainda vivem na sociedade que buscam superar, e muitas vezes repetem na militância cotidiana e na organização vícios da sociedade capitalista.

Falamos da pressão por produtividade no trabalho, mas repetimos a mesma cobrança nos militantes. Cobramos resultados com base em números. Ignoramos que, para além da militância, o companheiro ao lado tem também sua vida pessoal, seus problemas, seus anseios, seus desejos, seus medos, trabalho estressante, problemas familiares e de relacionamento, entre outros.

A frustração com o esforço empreendido em determinada luta. O desgaste físico, emocional, psicológico e das relações para conseguir efetivar tais pautas. Muitas vezes nos esquecemos que são pessoas de carne e osso que estão fazendo esta política, e muitas vezes, também esquecemos que somos feitos deste mesmo material, nos cobrando de forma absurda.

Militar requer sacrifício. É abrir mão voluntariamente de seu tempo em nome da construção de algo maior. É dedicar parte de sua vida em nome de um projeto. Um projeto que não pode ser individual. Mas, um projeto comum, coletivo. E apesar disto, custa dizer que nos falta empatia e sensibilidade, para todos nós.

Militar requer sacrifício, sim, porém, não podemos cobrar a dose desse sacrifício que o outro está disposto a empreender. A cobrança deve ser mediante o sacrifício que o outro fez, e aquilo que ele pode suportar. Militar pode afastar uma pessoa da organização. É preciso reconhecer isto. Como o histórico líder trotskista James Cannon afirmou, “o trabalho de massas é um trabalho duro, e devora muita gente”.

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