Três tarefas e três destinos possíveis para a Oposição de Esquerda da UNE

Por Lucas Brito, de Brasília, DF

Há anos, os congressos da UNE “passam batido” frente às grandes tarefas dos trabalhadores e estudantes brasileiros. O nível de contribuições desses congressos, bem como de sua entidade, foi resumido ao limite. A UNE perdeu seu brilho e seu vigor. Sob a direção do bloco majoritário liderado pela UJS/PCdoB a entidade viu sua história, sua capilaridade e referência entre os estudantes serem utilizados como instrumentos para a simples perpetuação burocrática desse setor em sua direção.

Do ponto de vista político, essa burocracia submeteu a entidade aos mandos e desmandos dos governos de conciliação de classes encabeçados pelo PT de Lula e Dilma. Sendo assim, em nome da defesa da expansão universitária e do sonho de milhões de poder chegar ao ensino superior, a UNE se dobrou diante dos tubarões de ensino, vendo os cofres desses se multiplicar ao extremo.

Contudo, a história guarda suas ironias e agora, diante do governo golpista de Michel Temer e o avanço das reformas que acabarão com todos os direitos dos trabalhadores e o futuro da juventude, mais uma vez a UNE se vê confrontada pelo destino, agora localizada na oposição ao atual governo. Honrará sua história mais antiga de lutas, ou seguirá empoeirada pelos fofos tapetes dos gabinetes da história mais recente?

Até aqui, a entidade seguiu tímida, não conseguindo cumprir papel de destaque na greve geral do dia 28, ou na grande ocupação de Brasília, no dia 24. Os dois destinos possíveis aumentaram as expectativas no 55º CONUNE. Agora, depois de décadas, o Congresso da UNE volta a ser esperado e sobre ele rodeiam esperanças e exigências. Da nossa parte, assim como os coletivos da Oposição de Esquerda, temos certeza, nos preparamos para uma grande luta contra o Campo Majoritário, mas também contra o Campo Popular, para que a UNE não vacile na luta pela derrubada de Temer, pelo fim da tramitação das reformas e anulação do que já foi aprovado, e a convocação de um processo democrático de saída para a situação do Brasil,  o que acredito passar pela convocação de eleições diretas para presidente e também para o Congresso Nacional.

As três tarefas da Oposição de Esquerda da UNE
A juventude do MAIS recém ingressou enquanto organização política na UNE, o que foi completado pela nossa adesão ao campo político da Oposição de Esquerda da UNE. Como somos uma corrente recém-ingressante ao campo, pedimos licença para apontar aquilo que achamos ser fundamental como tarefas políticas do mesmo.

1 – Disputar politicamente o CONUNE e toda a UNE para ser uma Frente Única das lutas

Em primeiro lugar, esse Campo Político é o único capaz de representar hoje o passado de triunfos e coragem da UNE. Reivindicamos líderes como Honestino Guimarães e tantos outros que deram suas vidas para construir uma entidade de lutas. A UJS e seu bloco político sustentado por acordões já se demonstrou incapaz de conduzir politicamente a entidade para as lutas. Só o fará quando derrotada, provavelmente não do ponto de vista formal, pois sabemos bem das fraudes e outras formas de se perpetuar na direção da entidade, mas na arena da política. A Oposição de Esquerda deve almejar a disputa política da UNE e de todos os estudantes que resguardam referência ou esperança nessa entidade. Devemos disputar a UNE para que essa cumpra um papel de Frente Única na luta pelo Fora Temer e suas reformas.

Isso significa a batalha cotidiana para que a UNE exista e organize os estudantes nos locais de estudo. Que coloque toda a sua estrutura a serviço das lutas, que mobilize os estudantes junto com os trabalhadores. Logo após o CONUNE, teremos um grande teste, a greve geral do dia 30 de junho. Devemos jogar todo o nosso empenho para que a UNE aprove uma série de medidas para construir uma grande greve nacional estudantil com ocupação das ruas ao lado dos trabalhadores.

2 – Servir como uma frente de esquerda unificada na juventude, por um novo projeto político para o Brasil

Além de imobilizar a entidade para as lutas, a direção majoritária da UNE também submeteu esta a um projeto político de conciliação de classes e de pequenas reformas, visando o enfrentamento à pobreza por meio do consumo, aprofundando ainda mais a desigualdade social. Esse projeto político encabeçado pelo PT se demonstrou incapaz de conduzir o país a uma nova agenda de desenvolvimento econômico e redução das desigualdades de fato. Verificando-se apensas um período de crescimento econômico dependente do mercado internacional, quando esse acabou, com ele também acabou nosso “desenvolvimento”. Não o estamos questionando por não terem feito revolução, o criticamos por aquilo que pretenderam fazer e, além de não fazerem, jogaram na lata do lixo todo o projeto político que encantou milhões desde as lutas do fim dos anos de 1970.

Agora, não satisfeitos, os setores da direção majoritária e o Campo Popular propõem reeditar a história, defendendo o mesmo modelo de governo de conciliação de classes para o Brasil, em 2018. É preciso aprender com o passado, especialmente o recente, e sob o qual sofremos suas piores consequências. Um projeto político de acordões entre trabalhadores e empresários/banqueiros mostrou que quem sai ganhando é o dono do bolo, o lado de lá. Passado um ano desde o golpe parlamentar, todas as pequenas conquistas e concessões do governo estão sendo perdidas. Nas universidades, o cenário de precarização, ausência de assistência estudantil e etc são a prova da ineficiência desse modelo de políticas públicas.

Portanto, a Oposição de Esquerda tem a tarefa política e estratégica de representar na juventude a conformação de uma frente de esquerda capaz de impulsionar a construção de um novo projeto político para o Brasil. Livre da conciliação de classes e com um projeto que se oriente pelo combate à desigualdade social, reconhecendo o papel dependente do nosso país, suas “missões” de exploração de outros países, ou seja, de gerente do imperialismo norte americano nos países vizinhos no nosso continente e no continente africano; à ditadura “velada” contra jovens negros nas periferias e ao conjunto das consequências da escravidão que ainda hoje dão base para imensos índices de superexploração da nossa classe trabalhadora, entre outros.

Sendo assim, extrapolar os muros da UNE e do movimento estudantil e servir como uma referência política para os jovens que nutrem a coragem de construir um futuro diferente para o Brasil. Devemos ser, no Brasil, a expressão da radicalidade à esquerda enquanto saída para a situação de crise mundial que mais uma vez o capitalismo impôs à humanidade.

3 – Servir como organizadora das lutas e dos lutadores

Sem prejuízo à tarefa de lutar por uma UNE das lutas. O Campo da OE – UNE já mostrou que tem capacidade de organizar lutas e seus lutadores. Esse campo, para além de se organizar para disputar os fóruns da UNE, deve servir como uma referência direta para os estudantes, por meio de chamados próprios, agenda de atividades nacionais e regionais, publicações periódicas. Ou seja, servir como uma organizadora coletiva dos jovens lutadores pelo Brasil.

Acabamos de encerrar a fase de eleição de delegados ao 55º CONUNE. Como não poderia deixar de ser, esse período é marcado por intensos conflitos e o índice de tensão vai lá para as alturas.

O desafio da unidade às vésperas do CONUNE
é sabido que, desde o último CONUNE, o bloco da Oposição de Esquerda da UNE veio se defrontando com os desafios próprios do repique cada vez mais acelerado da conjuntura. São várias as organizações políticas nesse bloco e, do ponto de vista tático, há importantes diferenças.

Contudo, o nível de tensão instaurado entre os coletivos da oposição de esquerda não se explica pelas pequenas diferenças de análise, caracterização e política para a realidade. Isso não significa que não haja diferenças. Mas, por mais que possam parecer, não são suficientes para nutrir o nível de tensão atual. Desde o início dos governos do PT, esse é o maior desafio com que a esquerda radical se defronta. É natural que faça com que borboletas façam rasantes em nossos estômagos. Mas, como disse minha amiga Camila do GT Nacional do Juntos! em seu facebook: “O movimento estudantil é portador do novo, por isso nossa tarefa é fortalecer o campo dos que lutam, mas sabemos que não nos bastamos sozinhos nessa tarefa. Por isso a unidade do campo da Oposição de Esquerda é fundamental”. E como não começamos agora, sabemos bem não só as delícias, mas também as dores da construção da unidade. Essa não se faz por decreto, nem por imposição. A unidade é uma construção onde cada parte importa e que muitas vezes devemos optar por ir mais devagar para irmos juntos. E uma ótima definição sobre o método da relação entre as correntes surgiu no texto recentemente lançado pelo RUA – Juventude Anticapitalista: “a política e o respeito a posições diferentes devem ser sempre os critérios-mestres na relação entre as organizações de esquerda, balizadores de uma política democrática, assim como são entre uma diretoria e as bases de um DCE ou de um sindicato”.

O ambiente da disputa de delegados e cargos na UNE é asfixiante. Isso, pois a estrutura dessa disputa está corrompida por anos de condução burocrática pela UJS e seu grupo de aliados. Sabemos que, por todas as fraudes, o controle da máquina e as artimanhas burocráticas, a eleição da direção da UNE abre muito pouca margem de incertezas, quase um jogo de cartas marcadas. Sendo assim, os coletivos da Oposição de Esquerda se defrontam com a ansiedade justa por disputar o melhor posicionamento possível, buscando impor, por menor que sejam, derrotas à UJS. E uma das regras básicas que vale para todos os terrenos: dividir quando se tem pouco é sempre uma sentença de conflitos. Portanto, somente compreendendo a real magnitude da nossa estratégia é que poderemos enxergar que não lutamos por alguns delegados a mais e veremos que o espaço que almejamos ocupar é muito maior que todos nós juntos. A unidade do bloco da Oposição de Esquerda depende cada vez mais da capacidade dos coletivos em compreender a importância do crescimento do conjunto do campo. As vitórias da UJR também são vitórias do MAIS, e assim também da UJC e etc. Engana-se a corrente que acredita, mesmo que por um momento, que ganha com o enfraquecimento de outra força política da OE. Para crescer o bloco, devem crescer todos os coletivos. Isso significa não se pautar pela autoconstrução apenas, mas entendendo o valor estratégico desse campo.

A tensão sobre nós é desproporcional se insinuamos jogar no campo do inimigo e passamos a ser pressionados essencialmente pela quantidade de delegados, quando deveríamos estar utilizando todas as forças para fortalecer nossa unidade desde a construção das chapas nas universidades e trazer as batalhas para a nossa arena, a política. É aí que estamos mais fortes. Nossa disputa é, em primeira ordem, política. E o restante são nossos instrumentos para melhor dar essa batalha de forma unificada.

Os três destinos possíveis da Oposição de Esquerda da UNE
Tenho a impressão de que a Oposição de Esquerda está diante de um grande desafio histórico, o maior desde sua criação. E como não poderia deixar de ser, o desenvolvimento da sua história se dará em saltos. Sendo assim, vejo três destinos possíveis.

O primeiro seria o seu fim. Nos perdermos no terreno burocratizado das disputas da UNE, sucumbirmos às pressões que os setores da Frente Popular lançam contra nós e sobrevalorizarmos as diferenças políticas táticas que existem no nosso campo. Esse destino seria um marco de derrota para o cenário do 55º CONUNE, para a luta pelo Fora Temer e contra as reformas, as também para o possível cenário político futuro. Essa seria uma derrota para a reorganização política da nossa classe no meio do seu setor mais entusiasmado, a juventude.

O segundo destino possível é uma sobrevivência apática, por inércia. O cenário em que ninguém aceita ser o coveiro, então deixa a unidade vagando como apenas uma sombra do que foi, ou poderia ser. Nas aparências seguiríamos compondo um campo político, mas em essência já não haveria nada. Com as relações de confiança rompidas, os laços políticos esquecidos, só nos restariam algumas – poucas – agitações comuns no meio das preocupações sobre qual setor aparece mais e primeiro e etc. Esse destino não passaria de um caminho diferente que levaria, inevitavelmente, ao primeiro. Seria só uma forma de atrasar a derrota política imposta pelas disputas pequenas.

Já o terceiro destino é o do crescimento e fortalecimento do campo da Oposição de Esquerda. Onde saibamos utilizar os dois novos ingressos, do MAIS e da UJC. Nesse CONUNE deveremos alcançar a maior delegação da nossa história, mostrando um acerto político do campo. Nesse destino, nos nutriríamos da crescente radicalidade dos setores de esquerda da sociedade e das crescentes mobilizações. A juventude de luta e que não está atrelada ao passado é a real portadora do novo. Esse destino é o do salto de qualidade positivo para a Oposição de Esquerda – UNE. Assim, assumiríamos o gigantismo das nossas tarefas políticas.

Para tal, se faz necessário, nesse momento, deixar de lado as disputas pequenas e nos apoiar nas qualidades das correntes e nos nossos acordos, ao invés de nos centrarmos nos defeitos de cada uma e nas nossas diferenças. Pois a batalha que temos pela frente se dará em dois fronts ao mesmo tempo. De um lado, a grande luta fundamental e amplamente unitária contra Temer e os interesses diretos da burguesia com as reformas trabalhista e previdenciária; do outro lado, seguirá a batalha para impedir que a juventude e os setores mais avançados do povo trabalhador voltem mais uma vez, por medo, a embalar os projetos de conciliação de classes e de pequenas concessões experimentados nos governos do PT. O MAIS, de Norte ao Sul do país, em todos os seus setores, especialmente nossa juventude, se coloca à disposição para o destino de fortalecimento da Oposição de Esquerda da UNE.

Vida longa à Oposição de Esquerda da UNE! Vida longa ao novo! Está na hora de virar o jogo!

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