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12 Junho, 2017
  • Arábia Saudita lança bloqueio contra o Qatar

    Por Aldo Sauda, São Paulo/SP

     
    No dia cinco de junho, os chefes de estado do Egito, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, além dos governantes Iêmen e da região oeste da Líbia – ambos países em estado de guerra civil – romperam relações militares e diplomáticas com o emirado do Qatar. A medida, anunciada no canal de televisão estatal saudita ao invés de canais diplomáticos tradicionais, foi apresentada como retaliação ao apoio de Doha ao “terrorismo” e “instabilidade regional”.

    Em um acerto de contas geral com o emirado por seu papel desestabilizador durante a chamada “primavera árabe”, o bloco anti-Qatar, dirigido por egípcios e sauditas, tem interesse especial em encerrar o canal televisivo pan-arabista e pan-islâmico Al Jazeera. Os grupos islamistas financiados pelo emirado – que incluem o Hamas em Gaza e a Irmandade Muçulmana no Egito – são igualmente objeto da ofensiva. A proximidade entre o país árabe e o Irã, também. Com relação a este último, o Qatar, maior exportador de gás natural do mundo,  compartilha o imenso campo de onde retira suas fabulosas riquezas com a potência regional xiita.

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    Além do fim das relações com seus vizinhos, o Qatar foi expulso da coalizão aérea, comandada pela Arábia Saudita, que bombardeava o Iêmen. A operação militar, que conta com o apoio americano, é responsável pelo massacre de milhares de civis e a destruição de boa parte do país. Segundo monitores da ONU, distintas ações da coalizão podem ser “consideradas crimes de guerra”. A inesperada ruptura de relações entre os países do golfo pérsico e o Qatar, segundo o NYT, foi incentivada pelo governo norte americano

    Em uma serie de tweets, Trump disse que seu chamado para que se colocasse um fim ao financiamento de grupos radicais levou a Arábia Saudita e quatro outros países a tomar medidas esta semana contra o Qatar, um pequeno emirado, rico em recursos energéticos, que possivelmente é o principal posto militar avançado dos EUA no Oriente Médio.

    “Durante minha recente viagem ao Oriente Médio afirmei que não pode mais haver financiamento à Ideologia Radical, ” Trump escreveu em um post pela manhã. “Os líderes dirigiram o dedo ao Qatar – veja! ”.

    Monarquia absolutista na qual mais de 90% de seus 2.1 milhões de residentes são não cidadãos, o regime do Qatar, assim como de seus adversários no golfo, é um dos mais reacionários do mundo. Machista, LGBTfóbico e patrocinador do fundamentalismo religioso, uma das principais características de sua economia é que boa parte da classe operária – formada por imigrantes africanos e asiáticos – trabalha em condições análogas à escravidão. Como em todos os países do Golfo, adota o sistema de residência temporária para os seus trabalhadores vinculados à licença de trabalho. Se perdida, devem abandonar o país. Os trabalhadores imigrantes não possuem direito de se organizar em sindicatos, não têm quaisquer direitos trabalhistas e podem ter sua permanência cassada a qualquer demonstração de inconformidade ou em crises econômicas ou políticas. A agressão do bloco anti-Qatar busca, dentre deste contexto, eliminar as poucas políticas que dão ao regime uma face progressista – como a emissora Al Jazeera – ou seu apoio aos palestinos em Gaza.

     

    Agressão reacionária

    Apesar de Arábia Saudita, Qatar e Bahrein já terem rompido relações com o Qatar em 2014 por motivos similares, a atual rodada de hostilidades é mais violenta. Segundo o NYT

    Estes países árabes não apenas romperam abruptamente as relações diplomáticas, como fizeram no passado, mas, surpreendendo a muitos, cortaram o acesso via terra, ar e mar ao país. Todos, menos o Egito, que tem 250 mil pessoas trabalhando na península, mandaram seus cidadãos sair de lá.

    A medida criou uma imediata crise no Qatar, cuja única fronteira terrestre é com a Arábia Saudita e que importa cerca de 40% de sua comida dos sauditas. Moradores disseram que as pessoas estão estocando comida e dinheiro. Diplomatas do Qatar assim como seus cidadãos estavam correndo para saírem, dentro do prazo de 48 horas, de alguns países do Golfo no qual estavam morando.

    Destaca-se na agressão comandada pelo Cairo e Riad a tentativa de censurar a imprensa árabe dissidente. Segundo o Newsweek

    é provável que desta vez os estados do golfo exijam o fechamento do canal de TV Al Jazeera antes do início de qualquer negociação. Além disso, terão que diminuir o financiamento de veículos de imprensa, como Al Araby Al Jadeed (O novo árabe), criado originalmente para competir com a Al Jazeera e encabeçado pelo ex-político palestino de cidadania israelense Azmi Bishara.

    Outras emissoras acusadas de incitação na imprensa dos rivais do Qatar no golfo incluem “Al Quds Al Arabi” (Jerusalém Árabe), o jornal fundado em Londres em 1989, um portal online de notícias árabe, “Arabi 21”, o site baseado em Londres “Middle East Eye” (Olho do Oriente Médio), que é a versão árabe do Huffington Post, dirigida pelo ex-diretora da Al Jazeera, Waddah Khanfar, assim como o site “Al Khaleej Al Jadeed” (o Novo Golfo).

    Para solucionar a crise anterior, de 2014, o Qatar fechou seu canal televisivo voltado ao Egito, “Al Jazeera Masr”, que apoiava a irmandade muçulmana e se opunha ao governo do General Abdel Sisi. Mesmo assim, a perseguição à emissora não se encerrou. Em dezembro de 2016, Mahmud Hussein, jornalista egípcio do canal, foi preso pelo crime de espalhar “notícias falsas”, continuando preso até hoje.

    A ação anti-Qatar conta também com o apoio explícito de Israel, cujo lobby nos EUA apoiou ativamente a medida. Financiador da reconstrução de Gaza desde a última guerra de Tel Aviv contra o território palestino, em 2014, o Qatar é o principal apoiador árabe do Hamas, que governa a faixa. Segundo o jornal israelense Haaretz

    Nos anos recentes o Qatar tornou-se um dos últimos apoiadores do regime do Hamas. As relações do grupo com o Egito foram danificadas após o golpe de 2013 que trouxe os generais de volta ao poder no Cairo. O Irã reduziu seu apoio financeiro ao Hamas (apesar de ele ter sido parcialmente restaurado recentemente) devido à disputa entre xiitas e sunitas na guerra civil síria, enquanto o interesse da Turquia por Gaza diminuiu após o acordo de reconciliação do país com Israel e as complicações domesticas e estrangeiras do presidente Recep Tayyip Erdogan.

    O pequeno e rico estado do golfo continuou a apoiar o Hamas e mais de uma vez se dispôs a ajudar a resolver faltas temporárias de recursos do grupo.

    A política externa de Doha, cujos recursos financeiros bancaram diversas organizações e movimentos reacionários durante os levantes árabes de 2011, causou graves impactos negativos à região. Mas a exigência saudita e egípcia de que o Qatar feche ou mude a linha editorial da cadeia televisiva Al Jazeera significa um ataque às liberdades de expressão em toda a região. Paga o preço por ter apoiado o levante contra Mubarak no Egito. O ultimato para que rompa relações com o governo de Gaza é um ataque direto ao povo palestino, que deve ser denunciados. Será a população da faixa, estrangulada pelo bloqueio de terra e mar imposto pelos governos de Israel e Egito, quem mais sofrerá as consequências da ofensiva contra o Qatar.

  • TSE: Os diversos pesos e medidas do poder

    Por: Aderson Bussinger*, de Niterói, RJ

    Advogado trabalhista desde sempre, me vi obrigado, na década de 90, a atuar na Justiça Eleitoral, especialmente perante o TSE, quando fiz parte da equipe de advogados do PSTU, meu ex-partido, a fim de cuidarmos dos procedimentos jurídicos de sua legalização, bem como a defesa de nossas candidaturas.

    Recordo-me que, embora já tivesse, jovem ainda, uma ideia formada sobre como funcionam os tribunais, fiquei bastante impressionado com o caráter político deste tribunal, que sabe ser muito rigoroso com os pequenos partidos de esquerda, com os candidatos populares, mas extremamente maleável, condescendente, com os poderosos, mormente as grandes máquinas eleitorais dos tradicionais partidos brasileiros, hoje incluso o PT, cujo financiamento de campanhas o Ministro Herman Benjamim no recente julgamento da chapa Temer-Dilma soube tão bem explicar, sobretudo para quem ainda alimentava alguma ilusão no sistema eleitoral vigente.

    Com efeito, basta ver até hoje o tratamento de “dois pesos e duas medidas” que dão às contas de partidos como o PSOL, PSTU, PCB, chegando às raias do preciosismo na identificação de parcas doações de operários e estudantes, enquanto fecharam os olhos, sucessivamente, nas últimas campanhas eleitorais, para os caixas 1 e 2 do PSDB, PT, PMDB, para citar aqui somente estes três partidos.

    Mas, voltando ao resultado de 4 x 3, em favor da permissividade de uma chapa notoriamente bancada por empresários e farto dinheiro público, este veredito somente comprova a natureza de classe dos tribunais no interior deste sistema econômico, o qual visa, em última instância, viabilizar interesses, vazados tecnicamente em teses jurídicas das mais variadas formas e teor, sendo que, no caso de Temer, a maioria deste Tribunal, presidida por um confesso amigo do presidente subjúdice, foi compelida a adentrar pelo caminho difícil para qualquer tribunal: a contradição jurídica. E o desnudamento dos interesses políticos do voto predominante.

    Sim, tivemos uma aula de contradição, de uma Corte Superior que prorrogou a data do julgamento final deste processo de cassação, por mais de dois anos, sob o argumento de que fazia-se necessário aprofundar as apurações, especialmente os depoimentos relativos à Petrobras, e agora resolveu, nada mais, nada menos, que excluir parte da prova produzida sob o pretexto de que teria sido carreada aos autos em momento posterior.

    Francamente, além de desnudarem o compromisso político em assegurar sua cota de sobrevida ao moribundo presidente, o que por si só é contraditório com o papel institucional da Justiça Eleitoral, pelo menos na teoria especial deste ramo do Direito, foram obrigados, com pouca margem de disfarce discursivo e retórico, – e ainda creio que o fizeram intimamente com alguma vergonha – a abraçarem a defesa não somente dos advogados de Temer e Dilma, mas militarem contra a própria lógica da Justiça Eleitoral brasileira, que sabidamente não prima pelo conceito de defesa das partes, como nos demais ramos do direito, mas sim (teoricamente) o conceito de defesa da sociedade e tutela dos interesses do eleitor e a legalidade de todo o processo eleitoral, como o seu interesse finalístico e maior.

    Mas, não! O que ficou patente é que o TSE, funciona sim, não somente com dois pesos e duas medidas, mas com diversos pesos e medidas, na proporção dos interesses que batam à sua monumental porta, enquanto mais um tribunal subalterno, dirigido pelos interesses do Planalto, que mais uma vez agiu politicamente. Através da maioria constituída antes e durante o julgamento, a partir da indicação de mais dois novos ministros “amigos” do presidente, para favorecer não somente o mesmo “amigo” presidente e também a ex-presidente (que também foi golpeada por outra artimanha jurídica), mas também para endossar, ratificar, homologar o papel omisso que tiveram durante todo o processo eleitoral brasileiro, desde a abertura dos primeiros prazos para registro de candidaturas, até a aprovação de contas, esta última de maneira fictícia, irreal, para “ inglês ver”, conforme restou apurado pelo Ministro Herman.

    Importante destacar que este julgamento, histórico em sua contradição e serviço politicamente prestado a um governante ilegítimo, se soma a vários outros julgamentos políticos e relevantes que já ocorreram em nossas terras, como a decisão do STF, que na década de 40 cassou o registro do PCB. A entrega da militante alemã Olga Benário ao Estado nazista, quando grávida de um brasileiro. A omissão ante ao golpe militar de 1964 e, mais recentemente, a anistia aos torturadores da ditadura civil-militar de 1964. Ainda mais recentemente, episódios e comportamentos que, em minha opinião, ilustram bem o caráter político e reacionário também do STF, ao longo da história.

    Evidente que não estou abstraindo que existam decisões progressivas, como a decisão sobre o casamento gay, a garantia das cotas para negros, agora recentemente, inclusive, nos concursos para o serviço público, e outras jurisprudências importantes como em relação à liberdade de expressão e anistia política. Sim, não estou fazendo juízo de valor sobre pessoa e reconheço haverem entendimentos positivos, justos, assim como podemos encontrar no próprio sistema judiciário escravocrata que antecedeu a república, com decisões importantes em favor dos negros, as quais o grande jurista negro Luiz Gama (Montesuma) soube tão bem utilizar em suas defesas em favor dos irmãos escravos.

    Mas isto não muda, por exemplo, o caráter conservador e subalterno da cúpulas dos tribunais superiores, cuja indicação tem forte elemento político-partidário-classista, a sua essência, que segue sendo subalterna aos interesses que predominam na sociedade, na economia.

    Que as ruas se movimentem, os trabalhadores façam greves, como a convocada greve geral do próximo dia 30 de junho, protestem, saiam definitivamente e decididamente áàluta e demonstrem a emergência de um novo direito, igualitário e justo, popular e democrático, que, evidentemente, exigirá no futuro novos tribunais e juízes, certamente eleitos pelo povo.

    No plano mais imediato da política, este julgamento insólito do TSE demonstrou que somente a mobilização popular pode nos livrar deste inconveniente presidente, que, como sabemos, deseja findar com os poucos direitos sociais que duramente conquistamos.

    *Aderson Bussinger é advogado, conselheiro da OAB-RJ e integra o MAIS – Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista.

    Foto: 07/06/2017- Brasília- DF, Brasil- O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) retoma o julgamento da ação em que o PSDB pede a cassação da chapa Dilma-Temer, vencedora das eleições presidenciais de 2014 | Por: José Cruz/Agência Brasil

  • 23 anos de impunidade: Zé Luiz e Rosa Sundermann presentes

    Por: João Zafalão*, de São Paulo, SP
    *é militante do #MAIS. Em 1994, cursava o terceiro ano de Ciências Sociais na UFSCar e militava com Rosa e Zé Luiz Sundermann.

    Em um domingo, dia 12 de junho de 1994, Zé Luiz e Rosa Sundermann foram brutalmente assassinados em sua própria casa, na cidade de São Carlos, interior de São Paulo. O crime abalou a cidade, tida como a capital da ciência e tecnologia, por abrigar a Universidade Federal de São Carlos e um campus da USP.

    Zé Luiz era vice-presidente do SINTUFSCar (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de São Carlos) e Rosa era da direção nacional do PSTU, recém fundado, no fim de semana anterior.

    Exatamente um ano antes, Rosa e Zé Luiz foram as principais lideranças da greve dos cortadores de cana da Usina Ipiranga (ver relato). Durante essa greve, Zé Luiz foi ameaçado de morte pelos usineiros e até por policiais. Há poucas semanas da nova provável greve dos cortadores de cana da Usina Ipiranga, Rosa e Zé Luiz foram covardemente assassinados.

    A própria polícia comprometeu o local do crime, deixando dezenas de bitucas de cigarro e de todas as fotos tiradas no local do crime, apenas uma foto pôde ser utilizada, pois as demais queimaram durante a revelação. Foram vários delegados que passaram pelo caso e sempre relutaram em investigar o óbvio, que o crime era político e que havia sido encomendado. Sempre orientamos a polícia a seguir essa linha de investigação, que reiteradamente se recusava. Os poderosos da região de São Carlos tinham interesse na morte de nossos camaradas.

    O crime foi denunciado em organismos internacionais. O Brasil chegou a ser condenado, mas apesar disso, 23 anos depois, o crime segue impune. Rosa e Zé Luiz eram militantes revolucionários e tombaram na luta pelo socialismo.

    Assim como o PSTU, nossa jovem organização, o #MAIS, reivindica a história e luta de Rosa e Zé Luiz Sundermann como parte de nossa trajetória.

    O legado de Rosa e Zé Luiz seguem pulsando nos trabalhadores e na juventude, que fizeram a Greve Geral e o Ocupa Brasília e que estão construindo a Greve Geral de 30 de junho.

    Zé Luiz e Rosa, presentes!

    Um breve relato da Greve dos Cortadores de cana da Usina Ipiranga
    Um ano antes do assassinato, em 1993, os trabalhadores rurais (cortadores de cana) que prestavam serviço para a usina Ipiranga, decidiram entrar em greve por melhores salários e condições de trabalho. Para isso, procuraram o SINTUFSCar e pediram ajuda para organizar a greve.

    Esse foi um dia inusitado, pois três ônibus com boias-frias adentraram no campus da UFSCar, pararam em frente ao SINTUFSCar e pediram ajuda para fazer a greve. Zé Luiz, prontamente, recebeu os trabalhadores rurais e já agendou com eles uma assembleia para o dia seguinte, ainda na madrugada, para organizar a greve.

    Acontece que prestavam serviços um grupo de trabalhadores que residiam na Cidade Araci (bairro popular de São Carlos), um outro grupo que residia em Santa Eudóxia, um distrito mais afastado de São Carlos e um grupo menor que morava em Descalvado. Fizemos uma reunião aquela noite mesmo e nos dividimos. Zé Luz e Rosa foram na madrugada organizar a assembleia da Cidade Araci e eu com outro estudante da UFSCar fomos a Santa Eudóxia organizar a assembleia lá.

    Com 100% de adesão, no segundo dia fomos organizar a greve em Descalvado. Foram 10 dias de greve total, que contou com amplo apoio da população, quando veio à tona as denúncias de que trabalhavam sem EPI (equipamentos de proteção individual), que em Santa Eudóxia tinha trabalho análogo à escravidão, pois moravam na casa fornecida pelo “gato” (empreiteiro que os contrata) e ainda tinham conta no mercadinho. Era comum ficarem devendo no fim do mês.

    Nestes 10 dias, a PM interferiu em prol da Usina Ipiranga, chegando a atirar contra um piquete, cena inesquecível e que demonstra a coragem e garra do Zé Luiz, que não teve dúvida e segurou o braço do policial para cima enquanto este disparava dois tiros. Logo após isso, Zé Luiz representou contra o PM.

    No meio da greve, Rosa com oito trabalhadores foram detidos no piquete na cidade de Descalvado. Fomo todos para a porta da delegacia. Dizem os juristas, que habeas corpus pode ser redigido até em papel de pão, pois bem, cerca de 300 trabalhadores rurais, ao saberem da prisão da Rosa, chegaram riscando o asfalto com o foião (facão utilizado no corte da cana) na porta da delegacia.

    Em menos de 20 minutos, Rosa e os demais trabalhadores foram liberados. O habeas corpus foi riscado no asfalto. No dia do pagamento da quinzena (durante a greve), a usina não efetuou o depósito. Os trabalhadores ocuparam a agência do Bradesco e em algumas horas o crédito foi feito. Foi uma greve que marcou profundamente nossas vidas, pela força dos trabalhadores e pela liderança de Zé Luiz e Rosa. No ano seguinte, exatamente às vésperas da nova campanha salarial destes trabalhadores, Rosa e Zé Luiz foram assassinados na casa em que moravam.

    Alguns fatos marcam nossas vidas. Sem dúvida, o assassinato de nossos camaradas marcaram profundamente as vidas de quem os conheceu e pôde conviver com eles. Rosa e Zé Luiz tinham dois filhos à época. Duda, o filho mais velho, veio a falecer alguns anos depois, com 19 anos de idade em um acidente. A filha segue em São Carlos.

    Abaixo, o link de um documentário feito em 2014 (20 anos de impunidade)

  • A aguda crise política e o lugar da luta de classes

    Por: Gabriel Casoni, de São Paulo, SP

    A crise política é colossal. Temer vive hoje para não morrer amanhã. É uma agonia por dia no desenrolar de um filme macabro.

    O governou venceu na batalha do TSE, mas a fração político-institucional articulada em torno da Lava Jato ainda tem balas na agulha. O procurador-geral, Rodrigo Janot, deve enviar ao STF, possivelmente nessa semana, o parecer incriminando Michel Temer (PMDB). A denúncia detonará mais um abalo político. Deve-se considerar, também, a alta probabilidade do surgimento de “fatos novos”, com aparecimento de novas delações e vazamentos seletivos.

    12/06/2017- Brasília - DF, Brasil- Foto: Beto Barata/PR

    12/06/2017- Brasília – DF, Brasil- Foto: Beto Barata/PR

    Ante a iminência do novo estouro, a tropa de choque governista, comandada pelos insuspeitos Romero Jucá, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, já arregaça as mangas para barrar a denúncia de Janot, no Congresso. A estratégia é unificar os ‘políticos’ contra a ofensiva jurídico-policial da Lava jato.

    Por sua vez, os tucanos, principais sócios do PMDB no governo, vivem uma grave crise que divide o partido ao meio. De um lado, a cúpula (Aécio, Serra, FHC, Alckmin, Aloysio Nunes) quer seguir na sustentação de Temer; de outro, parte significativa dos deputados tucanos, especialmente os mais jovens, receosos dos efeitos negativos da aliança nas próximas eleições, defendem o desembarque imediato do governo.

    Em meio ao quadro político-institucional em rápida deterioração, Michel Temer tem na agenda de contrarreformas seu principal trunfo. Não se sabe até quando, mas o peemedebista ainda mantém uma significativa base parlamentar. O andamento da Reforma da Previdência foi paralisado na Câmara, mas a Reforma Trabalhista, ainda que de modo mais lento, está avançando no Senado. Até aqui, parte do grande empresariado, perante a falta de uma alternativa segura, segue amparando o governo em razão da política econômica.

    A rigor, a classe dominante está dividida sobre o que fazer com Temer. Com o aprofundamento do lodaçal político, mais setores passaram a defender o fim do governo e a adoção de eleições indiretas, com a manutenção da equipe econômica de Henrique Meirelles. As posições editoriais das organizações Globo e da Folha de S. Paulo, que advogam pela saída de Temer, expressam esse movimento crescente de ruptura com o governo no interior da burguesia.

    Imprevisibilidade e choques: o lugar da luta de classes
    O grau de imprevisibilidade político-social é enorme, e decorre do quadro de turbulência e choques agudos, os quais produzem um quadro de relativo descontrole, por parte da classe dominante, das coordenadas principais do processo.

    Esse momento extraordinário, de crise de direção burguesa, expressa num governo suspenso no ar e no sério conflito político-institucional (Lava Jato versus sistema político-partidário), abre margens para diversos desfechos, positivos ou regressivos, tanto no curto, quanto no médio prazo. Será na (e pela) luta política, num ambiente de mal estar social e recessão econômica, que se decidirão os rumos dessa crise.

    Neste contexto particular, abriu-se uma janela de oportunidade que deve ser aproveitada. O desafio decisivo, do ponto de vista da esquerda, segue sendo colocar a classe trabalhadora no centro da conjuntura, de modo a deslocar as frações burguesas dominantes em confronto e, assim, abrir caminho para um projeto de transformação política e social anticapitalista.

    Nesse sentido, impõe-se como a ação e método prioritários a construção pela base da greve geral marcada para o dia 30 de junho. É preciso alcançar uma contundente paralisação geral e grandes protestos de rua para sacudir o país.

    As bandeiras do povo estão tremulando: Fora Temer e as reformas! ‘Diretas, Já’, para presidente e o Congresso!

    Foto: Carol Burgos | Esquerda Online

  • O 6º Congresso do PT e o futuro da esquerda

    Por: Rodrigo Bocão, de São Paulo, SP

    O 6º congresso do PT aconteceu nos dias 1, 2 e 3 de junho, em Brasília. Foi o primeiro congresso do Partido dos Trabalhadores depois da derrota do golpe parlamentar que afastou Dilma Roussef (PT) da Presidência da República, após a derrota na campanha eleitoral de 2016 e dos escândalos de corrupção que decapitaram a maior parte dos quadros históricos do PT.

    Não foram poucos os rumores sobre uma eventual ruptura do partido. As principais expectativas nos debates e resoluções eram o balanço das administrações Lula e Dilma, a política do PT para a conjuntura atual de crise e a possibilidade de derrubada do governo Temer.

    O crescimento de Lula nas pesquisas e a diminuição das tensões internas

    03/06/2017- Brasília- DF, Brasil- Encerramento do 6º Congresso Nacional do PT Maria Letícia Lula da Silva 2017 Fotos Ricardo Stuckert

    03/06/2017- Brasília- DF, Brasil- Encerramento do 6º Congresso Nacional do PT Maria Letícia Lula da Silva 2017 Fotos Ricardo Stuckert

    O impeachment de Dilma Roussef e a derrota eleitoral nas eleições municipais de 2016 abriram forte tensão interna no PT. A pressão da possibilidade de perda dos aparatos parlamentares, a diminuição do número de filiados e de diretórios municipais e a desmoralização causada pelo golpe abriram possibilidades de deserções internas. O início do congresso do partido, ainda em 2016, foi marcado por essa tensão.

    A interrupção da experiência em curso da vanguarda dos trabalhadores e da juventude com o lulismo, uma das contradições do golpe parlamentar, somada aos efeitos do governo Temer e ao projeto da burguesia de acelerar os ataques a direitos históricos da classe trabalhadora e da juventude, geraram, contraditoriamente, em setores da vanguarda, um fortalecimento do lulismo e dos seus satélites políticos.

    Esse processo começou a se irradiar para um setor de massas, na medida em que a experiência com Temer avançou e a memória dos anos de crescimento econômico no governo Lula ainda é muito presente. Isso explica a liderança de Lula nas pesquisas e a disputa que estamos enfrentando com o lulismo pelo melhor do ativismo que surge nas lutas.

    Somado a isso, a conjuntura de resistência da classe trabalhadora e da juventude com a greve geral de 28 de abril abre um novo cenário no movimento de massas. Fato inédito para toda uma geração de ativistas. Depois de 13 anos de domesticação do movimento social petista aos governos de Lula e Dilma, a burocracia cutista passou para o lugar de oposição no governo Temer. Não foi o PT quem rompeu com a burguesia, foi a burguesia quem rompeu com o PT. O ataque desferido contra a classe trabalhadora, contra as burocracias sindicais e contra a cúpula petista foi tão grande, que mudou completamente o papel das centrais sindicais no Brasil, até mesmo as mais ligadas à direita tradicional, como a Força Sindical. A CUT relocalizou-se e cumpriu um papel nas mobilizações dos dias 15 de março, 31 de março e na greve geral do dia 28 de abril, como não fazia desde a passeata dos cem mil, em 1999, contra o governo FHC.

    A postura em Brasília e principalmente a hesitação em marcar um novo dia de greve geral não deixam dúvidas sobre os limites deste giro da burocracia cutista. Mas os limites da reorganização brasileira também pesam sobre a percepção da vanguarda e especialmente das massas em relação aos vacilos das direções tradicionais.

    Assim, esse cenário político fortaleceu as tendências centrípetas em torno à figura de Lula e exerceu uma pressão sobre a ala esquerda do partido. Apesar da expressiva votação do candidato de oposição, Lindbergh Farias (38%), todas as resoluções políticas, de balanço e de estratégia foram votadas por unanimidade. Ocorreram ainda situações inusitadas, ou não, como a corrente O Trabalho ter apoiado a chapa da CNB, antiga articulação, com defesa conjunta de tese.

    O 6º Congresso do PT aumentou a dependência do futuro do PT do destino político de sua principal liderança, Lula. A unidade interna expressa no congresso está alicerçada na sua figura, nos balanços dos governos do PT, que são defendidos por todas as correntes.

    Sobre uma aparência de força está ai a grande fraqueza do congresso. O PT está refém, mais do que nunca, de Lula. O grande problema é que a hipótese mais provável é que Lula seja condenado por Moro entre os meses de junho e julho. A sentença de condenação do TRF da quarta região, em segunda instância, segue sendo a hipótese mais provável. Isso impediria a candidatura de Lula. Além disso, o Lula de 2018 não será o mesmo de 2002. Embora tenha recuperado índices de popularidade, é também o candidato com maior rejeição em todos os cenários políticos.

    A aparência de estabilidade não muda o cenário potencial de crise do PT. O mais provável é que tenha ocorrido o adiamento de um processo de crise inevitável.

    A falta do balanço dos erros dos governos de Lula e Dilma

    1º/6/2017- Brasília- DF, Brasil- Abertura do 6º Congresso do Partido dos Trabalhadores em Brasília, com a presença do ex-presidente Lula, Rui Falcão e Dilma Rousseff. Foto: Ricardo Stuckert

    1º/6/2017- Brasília- DF, Brasil- Abertura do 6º Congresso do Partido dos Trabalhadores em Brasília, com a presença do ex-presidente Lula, Rui Falcão e Dilma Rousseff. Foto: Ricardo Stuckert

    O grande tema ausente nos debates foi um sério balanço dos governos de Lula e Dilma Roussef. Embora as teses das correntes da esquerda petista tivessem críticas a colaboração de classes nos governos do PT, não foi esse o tema que polarizou o congresso. Na verdade essa discussão foi totalmente marginal.

    O grande elemento de coesão interna é justamente a defesa dos mandatos de Lula e Dilma. Esse discurso transformou-se no lema do PT, direção e oposição afirmam que nunca os trabalhadores tiveram tantos benefícios. A figura de Lula é quase mitificada como grande messias, como inquestionável. Rui Falcão perguntou na hora da votação simbólica da candidatura Lula: “Quero ver. Alguém vai votar contra Lula?” A pergunta foi respondida de imediato pelos cerca de 600 delegados. Votação unânime no ex-presidente.

    Para eles, foi preciso construir uma leitura de que o PT, pelo que fez para o povo, foi punido por uma burguesia egoísta, mal agradecida, que pensa apenas no seu próprio interesse. O máximo de crítica a que se chegou tem como símbolo uma frase do Senador Lindbergh Farias: “O PT subestimou demais essa burguesia vendida”, ou ainda “ é preciso balançar essa burocracia partidária”.

    Uma análise crítica da carta aos brasileiros de 2003; da chapa com José Alencar; da coalizão com o PMDB presente desde o primeiro mandato de Lula e reforçada com o cargo de vice de Michel Temer no governo de Dilma Roussef; da relação com o capital financeiro internacional feita através de Henrique Meireles nomeado pelo PT ao Banco Central, dos pactos com o agronegócio, do rigoroso pagamento da dívida, da aliança privilegiada com um setor da burguesia nacional representada pelas construtoras e indústrias de alimentos; as relações promíscuas com esses empresários e, por consequência, as relações de trocas com o financiamento das campanhas. Tudo isso ficou longe dos debates.

    Ficou esquecido que essas alianças e concessões foram uma escolha feita em detrimento da classe trabalhadora e dos grandes projetos de mudança estrutural. A reforma agrária ficou nos discursos, a auditoria da dívida não foi sequer cogitada, não houve reforma urbana, o direito à moradia virou negócio, foram aplicadas contra reformas e as medidas mais populares foram os programas sociais compensatórios.

    Não assistimos a qualquer fala dura sobre o tema. A qualquer resolução que proíba coligações com os partidos burgueses, como o PSDB, PP e PMDB. Não houve uma visão crítica sequer do passado. A história é contada pelos dirigentes do PT como se estivéssemos nas eleições de 2014 e nada tivesse acontecido. Segue a política da defesa acrítica ao que passou.

    A armação política do PT para a candidatura Lula 2018 lembra a frase de Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

    A Esquerda Socialista frente ao PT na oposição
    O congresso do PT votou uma resolução política. Entre as suas principais medidas definiu a luta pelo Fora Temer, a defesa das ‘diretas, já’, com a proibição do partido e de seus parlamentares participarem de um eventual colégio eleitoral para uma eleição indireta, apoio à greve geral e à luta contra as reformas, à candidatura presidencial de Lula e a defesa de uma constituinte soberana para mudar as contrarreformas aprovadas por Temer.

    A resolução política do PT aponta um reposicionamento político da direção do partido a partir da oposição ao governo Temer. É uma situação diferente do que presenciamos nos últimos 13 anos, quando o PT esteve dirigindo o governo.

    Esse reposicionamento do PT traz novos desafios. Existe uma pressão de ordem ultraesquerdista que ignora o fato do PT e de Lula serem majoritários na classe trabalhadora e propõe ao PT e à sua base social a mesma política da época em que este partido esteve no governo, ignorando que o golpe parlamentar interrompeu a experiência de um setor das massas e da vanguarda sobre a direção lulista e seu programa de colaboração de classes.

    Seria equivocado ignorar, também, o perigo de ordem oportunista que não leva em consideração os 13 anos do PT à frente do Governo Federal, seu programa de colaboração de classes, o desgaste da figura de Lula e do PT em distintos setores sociais e sugere uma unidade política. Ambas posturas beneficiam a direção petista de maneira diferente.

    Por um lado, precisamos reconhecer que o PT, Lula e seus aliados estão na oposição. Que não são mais governo. Que mudaram a política. O giro da direção petista pelo Fora Temer, por ‘diretas, já’, em apoio à greve geral e contra as reformas é uma mudança em relação ao que vivemos na luta de classes nos últimos 13 anos. Mesmo que saibamos da enorme distância entre os discursos e a prática e dos objetivos da direção pestista de reeditar o projeto da frente popular no Brasil, salvar Lula da Lava Jato e não ir até as últimas consequências para derrubar Temer, nos exige, em primeiro lugar, reconhecer a importância da frente única e das táticas de exigência e denúncia em relação à direção lulista, frente à ofensiva da burguesia.

    Não podemos enfrentar o peso da direção petista nos organismos de massas da classe trabalhadora, negando a frente única e hierarquizando a atuação dos revolucionários apenas pelas denúncias. É preciso chamar essas direções para as lutas e, ao mesmo tempo, hierarquizar pelas exigências e diferenças programáticas.

    Esse não é um debate simples. O principal culpado é o PT. Os 13 anos do PT à frente do Governo Federal e sua política reformista e oportunista de capitulação à burguesia geram como efeito imediato o sectarismo e ultraesquerdismo de uma parcela da esquerda socialista.

    Por outro lado, não podemos ignorar os 13 anos do PT à frente do Governo Federal. Devemos impulsionar a reorganização e um projeto alternativo ao lulismo. Neste sentido, a necessidade da frente única e da unidade de ação não se confundem com um projeto político comum. Devemos impulsionar pela esquerda uma alternativa política com os setores sociais que representam a possibilidade de um projeto de esquerda anticapitalista e socialista.

    A apresentação, por parte do PSOL, de uma candidatura própria à Presidência da República é um ponto de apoio necessário para o fortalecimento de um projeto alternativo ao lulismo. O prestígio alcançado pelo MTST na luta contra o golpe parlamentar e nas ocupações urbanas de São Paulo é outro ponto de apoio fundamental.

    “Não existe nenhuma lei que determine um matrimônio indissolúvel das massas com seu líder”
    Por hora, a figura de Lula mantém a unidade do partido dos trabalhadores. Essa é a grande fragilidade do PT. Como já afirmamos, o mais provável é que Lula não possa ser candidato em 2018. E sem esse projeto é uma incógnita o futuro do PT.

    O Partido dos Trabalhadores de hoje é diferente daquele que surgiu do processo objetivo de greves e lutas da classe trabalhadora, no final dos anos 70 e anos 80. Um partido que defendia a independência da classe trabalhadora frente à burguesia com programa e estratégia bem concebidos e que apaixonava milhões. Isso dava a sustentação política e ideológica ao partido. Hoje, o que sustenta o PT é a figura de Lula.

    É certo que Lula mantem um prestígio superior inclusive ao mantido pelo PT. No entanto, é algo diferente do que a esperança de mudança que embalava a figura de Lula e do PT nos 80 e 90. Não existe matrimônio indissolúvel da classe trabalhadora com suas lideranças. A aposta do Lulismo é pelas evidências e decisões do 6º congresso reeditar os governos de colaboração de classes.

    Cabe à esquerda socialista indicar um novo caminho. Existe uma base social que rompeu com o PT pela esquerda. Que foi contra o golpe, mas que não concorda com o programa de conciliação de classes. Falamos aqui de milhares, ou, o mais provável, de milhões de pessoas.

    O PSOL e o MTST devem ter coragem para, desde já, apresentarem uma proposta de frente de esquerda alternativa ao lulismo. Essa é a estrada que evitará a desmoralização de uma geração que despertou para as lutas sociais depois de junho de 2013. Uma geração que não tem o peso das derrotas do passado e que pode embalar novamente esperança para o povo brasileiro, com um novo projeto programático para a esquerda.

    Foto: 03/06/2017- Brasília- DF, Brasil- Encerramento do 6º Congresso Nacional do PT Maria Letícia Lula da Silva 2017 | Ricardo Stuckert

  • Dória e Alckmin voltam a atacar a população da Cracolândia na madrugada mais fria do ano

    Por Carolina Freitas, de São Paulo, SP

    São Paulo, Praça Princesa Isabel, domingo, 11 de junho, 06 horas da manhã, 8ºC. A Tropa de Choque e a Força Tática cercam quarteirões inteiros no bairro de Campos Elíseos, ao redor da concentração de pessoas em situação de rua no novo espaço onde se situa o fluxo da Cracolândia. Há três semanas, a mesma Polícia Militar expulsava a tiros e bombas, prendia e tomava os pertences de centenas de pessoas a 400 metros dali, nas calçadas das Ruas Helvétia e Dino Bueno. Na ocasião, Dória disse que estava acabando com o “problema” da Cracolândia na cidade. Hoje, em pronunciamento feito depois da operação, Alckmin afirmou que o problema “não acaba do dia para noite” e que é preciso “intervenção permanente”.

    A operação deste domingo teve como pretexto acabar com o lixo da Praça Princesa Isabel, prender outros traficantes no fluxo e tirar a posse das barracas da população ali concentrada. Segundo os governos municipal e estadual, as operações agora focarão no fim das barracas, supostamente usadas como esconderijo dos usuários para fumar crack. Muitas barracas e objetos foram queimados por quem estava no fluxo, em protesto ao novo ataque militar. Um grande incêndio tomou conta da Praça e a operação não cessou enquanto pessoas se reagrupavam em ruas paralelas. Muitas bombas eram jogadas para certificar que novas concentrações não fossem formadas e a população do fluxo fosse para longe dali.

    O lixo a ser varrido, que seria o motivo principal, segundo Dória e Alckmin, para este último ataque policial, parece ser as próprias pessoas em situação de rua que se reorganizaram na Praça Princesa Isabel desde a brutal operação militar no dia 21 de maio. Com o inverno se avizinhando e as temperaturas cada vez mais baixas, a operação de ontem significa que estes governos, mais uma vez, serão responsáveis por futuras mortes da população em situação de rua no centro da cidade, cada vez maior nesse contexto de crise.

    Criticados pelo Judiciário, por especialistas da saúde e da assistência social, por movimentos sociais, coletivos ligados ao território e por moradores da área, com popularidade em queda por conta da outra operação em maio na Cracolândia, Alckmin e Dória não têm outro idioma para lidar com a grave condição de miséria, fome, frio e desemprego que sofrem os usuários do fluxo e a população de rua da cidade. A única resposta é tiro, porrada, bomba, camburão e internação. O destinatário da resposta? Os grandes especuladores imobiliários que querem fazer da região da Luz um grande negócio. Mesmo que isso signifique tornar ainda mais cruel a situação de quem vive na Cracolândia. Difícil imaginar o que de pior pode vir nas próximas semanas.

    Foto: Leonardo Benassatto/Framephoto/Estadão Conteúdo

     

  • Três tarefas e três destinos possíveis para a Oposição de Esquerda da UNE

    Por Lucas Brito, de Brasília, DF

    Há anos, os congressos da UNE “passam batido” frente às grandes tarefas dos trabalhadores e estudantes brasileiros. O nível de contribuições desses congressos, bem como de sua entidade, foi resumido ao limite. A UNE perdeu seu brilho e seu vigor. Sob a direção do bloco majoritário liderado pela UJS/PCdoB a entidade viu sua história, sua capilaridade e referência entre os estudantes serem utilizados como instrumentos para a simples perpetuação burocrática desse setor em sua direção.

    Do ponto de vista político, essa burocracia submeteu a entidade aos mandos e desmandos dos governos de conciliação de classes encabeçados pelo PT de Lula e Dilma. Sendo assim, em nome da defesa da expansão universitária e do sonho de milhões de poder chegar ao ensino superior, a UNE se dobrou diante dos tubarões de ensino, vendo os cofres desses se multiplicar ao extremo.

    Contudo, a história guarda suas ironias e agora, diante do governo golpista de Michel Temer e o avanço das reformas que acabarão com todos os direitos dos trabalhadores e o futuro da juventude, mais uma vez a UNE se vê confrontada pelo destino, agora localizada na oposição ao atual governo. Honrará sua história mais antiga de lutas, ou seguirá empoeirada pelos fofos tapetes dos gabinetes da história mais recente?

    Até aqui, a entidade seguiu tímida, não conseguindo cumprir papel de destaque na greve geral do dia 28, ou na grande ocupação de Brasília, no dia 24. Os dois destinos possíveis aumentaram as expectativas no 55º CONUNE. Agora, depois de décadas, o Congresso da UNE volta a ser esperado e sobre ele rodeiam esperanças e exigências. Da nossa parte, assim como os coletivos da Oposição de Esquerda, temos certeza, nos preparamos para uma grande luta contra o Campo Majoritário, mas também contra o Campo Popular, para que a UNE não vacile na luta pela derrubada de Temer, pelo fim da tramitação das reformas e anulação do que já foi aprovado, e a convocação de um processo democrático de saída para a situação do Brasil,  o que acredito passar pela convocação de eleições diretas para presidente e também para o Congresso Nacional.

    As três tarefas da Oposição de Esquerda da UNE
    A juventude do MAIS recém ingressou enquanto organização política na UNE, o que foi completado pela nossa adesão ao campo político da Oposição de Esquerda da UNE. Como somos uma corrente recém-ingressante ao campo, pedimos licença para apontar aquilo que achamos ser fundamental como tarefas políticas do mesmo.

    1 – Disputar politicamente o CONUNE e toda a UNE para ser uma Frente Única das lutas

    Em primeiro lugar, esse Campo Político é o único capaz de representar hoje o passado de triunfos e coragem da UNE. Reivindicamos líderes como Honestino Guimarães e tantos outros que deram suas vidas para construir uma entidade de lutas. A UJS e seu bloco político sustentado por acordões já se demonstrou incapaz de conduzir politicamente a entidade para as lutas. Só o fará quando derrotada, provavelmente não do ponto de vista formal, pois sabemos bem das fraudes e outras formas de se perpetuar na direção da entidade, mas na arena da política. A Oposição de Esquerda deve almejar a disputa política da UNE e de todos os estudantes que resguardam referência ou esperança nessa entidade. Devemos disputar a UNE para que essa cumpra um papel de Frente Única na luta pelo Fora Temer e suas reformas.

    Isso significa a batalha cotidiana para que a UNE exista e organize os estudantes nos locais de estudo. Que coloque toda a sua estrutura a serviço das lutas, que mobilize os estudantes junto com os trabalhadores. Logo após o CONUNE, teremos um grande teste, a greve geral do dia 30 de junho. Devemos jogar todo o nosso empenho para que a UNE aprove uma série de medidas para construir uma grande greve nacional estudantil com ocupação das ruas ao lado dos trabalhadores.

    2 – Servir como uma frente de esquerda unificada na juventude, por um novo projeto político para o Brasil

    Além de imobilizar a entidade para as lutas, a direção majoritária da UNE também submeteu esta a um projeto político de conciliação de classes e de pequenas reformas, visando o enfrentamento à pobreza por meio do consumo, aprofundando ainda mais a desigualdade social. Esse projeto político encabeçado pelo PT se demonstrou incapaz de conduzir o país a uma nova agenda de desenvolvimento econômico e redução das desigualdades de fato. Verificando-se apensas um período de crescimento econômico dependente do mercado internacional, quando esse acabou, com ele também acabou nosso “desenvolvimento”. Não o estamos questionando por não terem feito revolução, o criticamos por aquilo que pretenderam fazer e, além de não fazerem, jogaram na lata do lixo todo o projeto político que encantou milhões desde as lutas do fim dos anos de 1970.

    Agora, não satisfeitos, os setores da direção majoritária e o Campo Popular propõem reeditar a história, defendendo o mesmo modelo de governo de conciliação de classes para o Brasil, em 2018. É preciso aprender com o passado, especialmente o recente, e sob o qual sofremos suas piores consequências. Um projeto político de acordões entre trabalhadores e empresários/banqueiros mostrou que quem sai ganhando é o dono do bolo, o lado de lá. Passado um ano desde o golpe parlamentar, todas as pequenas conquistas e concessões do governo estão sendo perdidas. Nas universidades, o cenário de precarização, ausência de assistência estudantil e etc são a prova da ineficiência desse modelo de políticas públicas.

    Portanto, a Oposição de Esquerda tem a tarefa política e estratégica de representar na juventude a conformação de uma frente de esquerda capaz de impulsionar a construção de um novo projeto político para o Brasil. Livre da conciliação de classes e com um projeto que se oriente pelo combate à desigualdade social, reconhecendo o papel dependente do nosso país, suas “missões” de exploração de outros países, ou seja, de gerente do imperialismo norte americano nos países vizinhos no nosso continente e no continente africano; à ditadura “velada” contra jovens negros nas periferias e ao conjunto das consequências da escravidão que ainda hoje dão base para imensos índices de superexploração da nossa classe trabalhadora, entre outros.

    Sendo assim, extrapolar os muros da UNE e do movimento estudantil e servir como uma referência política para os jovens que nutrem a coragem de construir um futuro diferente para o Brasil. Devemos ser, no Brasil, a expressão da radicalidade à esquerda enquanto saída para a situação de crise mundial que mais uma vez o capitalismo impôs à humanidade.

    3 – Servir como organizadora das lutas e dos lutadores

    Sem prejuízo à tarefa de lutar por uma UNE das lutas. O Campo da OE – UNE já mostrou que tem capacidade de organizar lutas e seus lutadores. Esse campo, para além de se organizar para disputar os fóruns da UNE, deve servir como uma referência direta para os estudantes, por meio de chamados próprios, agenda de atividades nacionais e regionais, publicações periódicas. Ou seja, servir como uma organizadora coletiva dos jovens lutadores pelo Brasil.

    Acabamos de encerrar a fase de eleição de delegados ao 55º CONUNE. Como não poderia deixar de ser, esse período é marcado por intensos conflitos e o índice de tensão vai lá para as alturas.

    O desafio da unidade às vésperas do CONUNE
    é sabido que, desde o último CONUNE, o bloco da Oposição de Esquerda da UNE veio se defrontando com os desafios próprios do repique cada vez mais acelerado da conjuntura. São várias as organizações políticas nesse bloco e, do ponto de vista tático, há importantes diferenças.

    Contudo, o nível de tensão instaurado entre os coletivos da oposição de esquerda não se explica pelas pequenas diferenças de análise, caracterização e política para a realidade. Isso não significa que não haja diferenças. Mas, por mais que possam parecer, não são suficientes para nutrir o nível de tensão atual. Desde o início dos governos do PT, esse é o maior desafio com que a esquerda radical se defronta. É natural que faça com que borboletas façam rasantes em nossos estômagos. Mas, como disse minha amiga Camila do GT Nacional do Juntos! em seu facebook: “O movimento estudantil é portador do novo, por isso nossa tarefa é fortalecer o campo dos que lutam, mas sabemos que não nos bastamos sozinhos nessa tarefa. Por isso a unidade do campo da Oposição de Esquerda é fundamental”. E como não começamos agora, sabemos bem não só as delícias, mas também as dores da construção da unidade. Essa não se faz por decreto, nem por imposição. A unidade é uma construção onde cada parte importa e que muitas vezes devemos optar por ir mais devagar para irmos juntos. E uma ótima definição sobre o método da relação entre as correntes surgiu no texto recentemente lançado pelo RUA – Juventude Anticapitalista: “a política e o respeito a posições diferentes devem ser sempre os critérios-mestres na relação entre as organizações de esquerda, balizadores de uma política democrática, assim como são entre uma diretoria e as bases de um DCE ou de um sindicato”.

    O ambiente da disputa de delegados e cargos na UNE é asfixiante. Isso, pois a estrutura dessa disputa está corrompida por anos de condução burocrática pela UJS e seu grupo de aliados. Sabemos que, por todas as fraudes, o controle da máquina e as artimanhas burocráticas, a eleição da direção da UNE abre muito pouca margem de incertezas, quase um jogo de cartas marcadas. Sendo assim, os coletivos da Oposição de Esquerda se defrontam com a ansiedade justa por disputar o melhor posicionamento possível, buscando impor, por menor que sejam, derrotas à UJS. E uma das regras básicas que vale para todos os terrenos: dividir quando se tem pouco é sempre uma sentença de conflitos. Portanto, somente compreendendo a real magnitude da nossa estratégia é que poderemos enxergar que não lutamos por alguns delegados a mais e veremos que o espaço que almejamos ocupar é muito maior que todos nós juntos. A unidade do bloco da Oposição de Esquerda depende cada vez mais da capacidade dos coletivos em compreender a importância do crescimento do conjunto do campo. As vitórias da UJR também são vitórias do MAIS, e assim também da UJC e etc. Engana-se a corrente que acredita, mesmo que por um momento, que ganha com o enfraquecimento de outra força política da OE. Para crescer o bloco, devem crescer todos os coletivos. Isso significa não se pautar pela autoconstrução apenas, mas entendendo o valor estratégico desse campo.

    A tensão sobre nós é desproporcional se insinuamos jogar no campo do inimigo e passamos a ser pressionados essencialmente pela quantidade de delegados, quando deveríamos estar utilizando todas as forças para fortalecer nossa unidade desde a construção das chapas nas universidades e trazer as batalhas para a nossa arena, a política. É aí que estamos mais fortes. Nossa disputa é, em primeira ordem, política. E o restante são nossos instrumentos para melhor dar essa batalha de forma unificada.

    Os três destinos possíveis da Oposição de Esquerda da UNE
    Tenho a impressão de que a Oposição de Esquerda está diante de um grande desafio histórico, o maior desde sua criação. E como não poderia deixar de ser, o desenvolvimento da sua história se dará em saltos. Sendo assim, vejo três destinos possíveis.

    O primeiro seria o seu fim. Nos perdermos no terreno burocratizado das disputas da UNE, sucumbirmos às pressões que os setores da Frente Popular lançam contra nós e sobrevalorizarmos as diferenças políticas táticas que existem no nosso campo. Esse destino seria um marco de derrota para o cenário do 55º CONUNE, para a luta pelo Fora Temer e contra as reformas, as também para o possível cenário político futuro. Essa seria uma derrota para a reorganização política da nossa classe no meio do seu setor mais entusiasmado, a juventude.

    O segundo destino possível é uma sobrevivência apática, por inércia. O cenário em que ninguém aceita ser o coveiro, então deixa a unidade vagando como apenas uma sombra do que foi, ou poderia ser. Nas aparências seguiríamos compondo um campo político, mas em essência já não haveria nada. Com as relações de confiança rompidas, os laços políticos esquecidos, só nos restariam algumas – poucas – agitações comuns no meio das preocupações sobre qual setor aparece mais e primeiro e etc. Esse destino não passaria de um caminho diferente que levaria, inevitavelmente, ao primeiro. Seria só uma forma de atrasar a derrota política imposta pelas disputas pequenas.

    Já o terceiro destino é o do crescimento e fortalecimento do campo da Oposição de Esquerda. Onde saibamos utilizar os dois novos ingressos, do MAIS e da UJC. Nesse CONUNE deveremos alcançar a maior delegação da nossa história, mostrando um acerto político do campo. Nesse destino, nos nutriríamos da crescente radicalidade dos setores de esquerda da sociedade e das crescentes mobilizações. A juventude de luta e que não está atrelada ao passado é a real portadora do novo. Esse destino é o do salto de qualidade positivo para a Oposição de Esquerda – UNE. Assim, assumiríamos o gigantismo das nossas tarefas políticas.

    Para tal, se faz necessário, nesse momento, deixar de lado as disputas pequenas e nos apoiar nas qualidades das correntes e nos nossos acordos, ao invés de nos centrarmos nos defeitos de cada uma e nas nossas diferenças. Pois a batalha que temos pela frente se dará em dois fronts ao mesmo tempo. De um lado, a grande luta fundamental e amplamente unitária contra Temer e os interesses diretos da burguesia com as reformas trabalhista e previdenciária; do outro lado, seguirá a batalha para impedir que a juventude e os setores mais avançados do povo trabalhador voltem mais uma vez, por medo, a embalar os projetos de conciliação de classes e de pequenas concessões experimentados nos governos do PT. O MAIS, de Norte ao Sul do país, em todos os seus setores, especialmente nossa juventude, se coloca à disposição para o destino de fortalecimento da Oposição de Esquerda da UNE.

    Vida longa à Oposição de Esquerda da UNE! Vida longa ao novo! Está na hora de virar o jogo!