Medicina de família: relato de um médico alagoano

Por: Hammel Amorim, de Maceió, AL

A medicina de família e comunidade é um programa reconhecido internacionalmente. É sabido que a saúde é dividida em níveis de atenção. A medicina de família ocupa a posição primária. Com a assistência básica e tomando medidas de promoção de saúde e prevenção de doenças, a partir do entendimento do contexto da comunidade, e acompanhando-a ao longo do tempo, é possível resolver mais de 75% dos problemas de saúde. É nesse nível de atenção que resolvi atuar, por entender o seu nível de complexidade e a realidade alagoana. Dessa forma, gostaria de tecer um breve relato sobre minha atuação.

Sou médico da família e comunidade em Santana do Mundaú, um município que fica há cerca de duas horas da capital alagoana, Maceió, onde moro. Diariamente, como muitos de nós, acordo às cinco da manhã, no raiar do dia. É uma jornada longa, porém gratificante, com direito a uma bela visão.

Às 8h30 inicio os meus trabalhos na minha unidade de saúde, em área rural. Atendemos cerca de 500 famílias e uma população com, em média, três mil pessoas, cuja maioria tem renda inferior a um salário mínimo e em maioria trabalha com agricultura familiar. Pessoas simples, receptivas, com grandes histórias de vida. Santana Mundaú, que há um pouco mais de meio século se transformou em município, carrega também a história do Quilombo dos Palmares, terra de Dandara e Zumbi. Dessa forma, atendo a várias famílias quilombolas, cujo território diminui a cada ano, graças à invasão de grandes latifundiários.

Especialmente às quartas-feiras, exercitamos nosso trabalho para reconhecimento da comunidade, promovendo saúde. Em particular, visitamos as famílias das áreas rurais, priorizando os pacientes com dificuldade para se locomover até a unidade de saúde próxima. Trabalhamos em equipe: uma enfermeira, uma técnica, seis agentes e eu. Nesse dia não tem descanso: é hora de subir as barreiras, serras, ladeiras para conseguir chegar em locais que, embora tenham difícil acesso, necessitam de assistência tão quanto os outros. Para nós é muito gratificante trabalhar, faça chuva, ou sol.

Com o suor na testa, os sapatos sujos do barro molhado e algumas aulas de equilíbrio, chegamos aos locais para conhecer as histórias. Muitos se impressionam como conseguimos chegar lá, uma novidade para os mesmos ter um médico em suas casas, cuidando da sua família e sabemos que não deveria ser assim. Não há sensação mais gratificante do que o sorriso destas famílias e sua gratidão.

Com o reconhecimento das áreas, podemos trabalhar junto a outras equipes, como a do nosso NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família) centrado nos problemas que mais assolam a comunidade. Reconhecemos as doenças endêmicas e crônicas, alimentamos os indicadores de saúde, ofertamos assistência materno-infantil para diminuição das afecções neonatais e suas complicações e, com nosso pequeno trabalho, tentamos fazer o SUS funcionar.

É claro, temos problemas: trabalhamos com uma estrutura complicada, com filas enormes para execução de exames laboratoriais e de imagem, bem como encaminhamentos a outros níveis de atenção. Problema tais que envolvem muito a falta de verba e outras dificuldades na operacionalização do serviço. Entretanto, temos a certeza de que estamos ofertando um mínimo de conforto e fazendo uma diferença, grande parte, ao sistema de saúde como um todo.

Os governos fecham os olhos para a importância da atenção primária, sobrecarregando os municípios. Em todo lugar vemos apenas os lados negativos do SUS e suas dificuldades. É necessário pensar sobre a saúde que queremos, e sem dúvidas a saúde da família precisa ocupar um lugar especial. O ser humano como um todo é nosso foco.

Foto: Valdecir Galor / SMCS / Fotos Públicas (21/02/2015)

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