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8 Junho, 2017
  • Duas perguntas erradas e duas respostas honestas

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    A lei fundamental da revolução, confirmada por todas as revoluções, e em particular, pelas três rcvoIuções russas do século XX, consiste no seguinte: para a revolução não basta que as massas exploradas e oprimidas tenham consciência  da impossibilidade de continuar vivendo como vivem e exijam mudanças; para a revolução é necessário que os exploradores não possam continuar vivendo e governando como vivem e governam. Só quando “os de baixo” não querem e os “os de cima” não podem continuar vivendo como antes, só então pode triunfar a revolução.(grifo e tradução nossos) [1]
                                                                        Vladimir Ilitch Ulianov, alias, Lenin

    1 – A campanha pelas Diretas é uma armadilha que diminui a preparação da greve geral?

    Não. Não há razão alguma para concluir que a campanha por ‘Diretas, Já’! diminui, ameaça, ou, pior ainda, sabota a preparação da greve geral do próximo dia 30 de junho. Ao contrário, os atos já realizados pelas Diretas Já acumulam forças para que a próxima greve geral possa até ser superior à última greve em 28 de abril. Porque respondem à questão central da conjuntura, que é a possibilidade de derrubar Temer. O exemplo dos artistas defendendo a greve geral no ato por Diretas Já, no Largo da Batata, em São Paulo, no domingo passado, é irrefutável.

    A conjuntura mudou com a delação da JBS e abriu a possibilidade de derrubar Temer. Por quê? Porque precipitou uma ofensiva do PGR (Procuradoria Geral da República) contra Temer, que pode vir a culminar com o pedido do seu indiciamento como réu. Possibilidade não quer dizer que vai acontecer.

    A campanha pelas ‘Diretas, Já’, ainda que limitada, porque não incorpora a luta por eleições gerais, entre outros possíveis exemplos, facilita a luta pela derrubada de Temer. E a possível queda de Temer favorece a luta contra as reformas. Essa conclusão é simples: não é por outra razão que o centro da intervenção do governo tem sido tentar votar a reforma trabalhista o mais rápido possível, para “mostrar serviço” para o mercado.

    Mas, se não ocorrerem grandes mobilizações populares para deslocar Temer, como os atos de rua e a greve geral, o destino do atual governo e suas reformas ficará nas mãos do Ministério Público e da Polícia Federal, ou seja, imprevisível. Isso seria um desenlace desfavorável da situação política: uma oportunidade perdida de colocar os trabalhadores e seus aliados como os sujeitos sociais de uma saída para a crise.

    E para conseguir realizar grandes mobilizações para tirar Temer da Presidência é necessário apresentar uma resposta à questão de quem deve governar. Os trabalhadores e o povo estão muito desconfiados e, também, inseguros. Não teremos grandes mobilizações sem um programa que demonstre que há um caminho para além da derrubada de Temer. ‘Diretas, Já’ é uma resposta parcial, porém, progressiva, diante da alternativa da eleição de um novo presidente por este Congresso Nacional.

    Uma ampla maioria da população está contra as reformas Trabalhista e Previdenciária. Mas, não é menor a parcela dos trabalhadores e do povo que está contra Temer. A mudança na conjuntura, em função do acordo de delação premiada que presenteou os donos da JBS, abriu a possibilidade de derrubar Temer. O caminho para derrotar as reformas passa agora pela queda de Temer.

    Seria de um sindicalismo estrábico separar uma tarefa da outra. Qualificar os atos pelas ‘Diretas, Já’, que são um instrumento para a unidade na ação para derrubar Temer como regressivos ou, em versões mais exaltadas, de reacionários, quando a luta para derrubar Temer adquire possibilidade real, é insustentável.

    A greve geral se prepara a partir de um chamado feito pelas centrais sindicais, um espaço de articulação no qual se constrói uma frente única de organizações de trabalhadores. Os atos pelas ‘Diretas, Já!’ são uma iniciativa de unidade na ação, mais ampla social e politicamente do que a articulação pela greve geral. Esta ampliação social e política, tentando atrair setores da classe média, é positiva porque enfraquece Temer e, também, o bloco burguês que conspira por uma eleição indireta via Congresso Nacional.

    A ideia de que esta unidade na ação prejudica a luta contra as reformas e dificulta a preparação da greve geral é equivocada. Por que hoje a realização da greve geral contra as reformas no dia 30 de junho, diferente de há um mês, é indivisível da luta pela derrubada de Temer.

    A luta por eleições antecipadas para a Presidência, ou mesmo para o Congresso, ou mesmo para governadores, vai “mudar a vida”? Sim e não. O Brasil precisa de uma revolução. Acontece que não estamos em uma situação revolucionária. Apostar em uma estratégia que flerta com o “insurrecionalismo”, em uma situação em que a luta aberta e franca pelo poder não está colocada com possibilidades mínimas de vitória, é uma tentação substitucionista, portanto, alimenta perspectivas aventureiras.

    Algumas de centrais sindicais são, por enquanto, contra a luta pelas ‘Diretas, Já’. Mas a Força Sindical, por exemplo, era contra o Fora Temer quando da preparação da greve geral do 28 de abril, e isso não impediu a frente única, nem a Marcha a Brasília. Dificilmente a greve geral poderá repetir, ou até superar a força do 28 de abril, se ignorar que Temer pode cair, e não oferecer uma resposta de qual deve ser a saída imediata. Essa saída precisa ser compreensível. Não pode ser uma fórmula de propaganda: “poder popular”, ou “os trabalhadores devem governar”.

    A resposta da imensa maioria da classe dominante é a eleição de um novo presidente pelo Congresso Nacional. A alternativa que pode  repercutir, massivamente, é a exigência de ‘Diretas Já’, ainda que seja também verdade que em setores de massa dos trabalhadores o desgaste com o regime eleitoral seja grande. Infelizmente, é justamente nesta franja que a audiência de Bolsonaro é maior.

    Seria melhor, evidentemente, que fossem eleições gerais, e a esquerda socialista deve explicar o porquê. Mas, não sendo possível uma campanha unitária por eleições gerais, seria ultimatismo, por esta razão, não participar da campanha por ‘Diretas Já’. Ultimatismo significa fazer declarações retóricas: apresentar um programa e proclamar, incondicionalmente, exigências, desconhecendo as relações políticas de forças entre as organizações, ou seja, desconhecer que a CUT e a direção do PT ainda têm posições majoritárias entre os setores organizados da classe operária e do povo.

    2- Quem está interessado nas ‘Diretas, já’ é somente o PT? Essa campanha só serve para abrir o caminho para Lula?

    Não. Não é verdade que a campanha por ‘Diretas, Já’ é um trampolim para tentar eleger Lula. A campanha interessa a todos os que querem derrubar Temer e impedir que o Congresso Nacional eleja o possível sucessor a portas fechadas. Se Temer cair, e não venhamos a conquistar as ‘Diretas, Já’, as mesmas forças políticas que sustentaram Temer, até ontem, elegerão, facilmente, alguém que receba a confiança da classe dominante, e manterão a agenda das reformas e manterão Meirelles.

    O fato de Lula estar em primeiro lugar nas pesquisas de opinião, ainda que com uma taxa de rejeição muito elevada, não deveria ser um obstáculo para que a esquerda anticapitalista se comprometa com esta campanha.

    É verdade que a estratégia do PT, até três semanas atrás, era fazer pose de oposição às reformas (afinal, Dilma Rouseff era, também, a favor de uma reforma nas relações trabalhistas e da previdência, não esqueçamos), desgastar Temer, e acumular forças para a campanha eleitoral de  Lula 2018. Mas, a conjuntura mudou, e a direção do PT mudou, também, a sua localização. Passou a apostar que é possível derrubar Temer. Sabe que sairá fortalecida se Temer, que chegou ao poder através do impeachment de Dilma Rousseff, vier a cair. Ignorar este reposicionamento seria uma tolice obtusa.

    O PT, ou o PCdoB merecem confiança como aliados nesta campanha para tentar derrubar Temer e conquistar ‘Diretas, Já’? Não, nenhuma. Mas a forma educativa de alertar o melhor do ativismo para o caráter vacilante destas lideranças é através de exigências que levem a luta contra Temer e por eleições gerais até o fim. Não a denúncia, a priori, portanto, antecipada e incompreensível de que não têm compromisso em querer derrubar Temer, quando eles afirmam que o têm. As direções da CUT, da CTB e da UNE tampouco merecem confiança e isso não nos deve impedir de buscar a frente única para construir a greve geral.

    Mais de uma vez, no passado, os dirigentes do PT dissimularam posições de luta em público, enquanto, discretamente, faziam negociações paralelas. Não há razões para pensar que mudaram, ou que será diferente neste processo. São especialistas na arte do “faz de conta”, na mágica de “sair de costas fingindo que estão entrando pela frente”. Tanto mais que agora a direção do PT está consciente de que uma condenação de Lula em Curitiba é iminente. Não perderão a oportunidade de tentar negociar a preservação de Lula, e de outros líderes acossados pela Lava Jato, em troca de um compromisso com a “governabilidade”. Este perigo é real.

    Não obstante, não participar dos atos pelas ‘Diretas, Já’, porque poderá ocorrer uma vacilação ou conchavos futuros, facilita a possibilidade da direção do PT e seus satélites realizarem manobras. Porque, quando quiserem negociar uma “redução de danos”, terão que sabotar a luta pelas ‘Diretas, Já’. Mas é muito mais difícil legitimar acordos espúrios com massas nas ruas.

    Portanto, a questão central é derrubar Temer e boicotar o “acordão” para preservar a aprovação das reformas, o mais rápido possível. Este plano reacionário seria, contudo, muito mais difícil se ocorrerem eleições antecipadas. Porque defender as reformas nas ruas, a “quente”, é mais difícil que neste Congresso a “frio”. Por isso, uma esquerda radical, portanto, séria, não pode ser indiferente à luta pelas ‘Diretas, Já’.

    Em resumo: a campanha por ‘Diretas, Já!’ é um instrumento para derrubar Temer nas ruas. Temer ainda não caiu. Poderá, ou não, renunciar. Poderá, ou não, ser investigado como réu. A divisão burguesa abriu uma oportunidade. Mas, devemos alertar contra a confiança em instituições como o Ministério Público, a Polícia Federal, ou os Tribunais. Devemos alertar os trabalhadores, a juventude e o povo a só confiarem nas suas mobilizações independentes.

    A luta por unir os atos por ‘Diretas, Já’ à preparação da greve geral desestabiliza a dominação burguesa, permite acumular forças, e pode paralisar os planos burgueses de uma política de choque, através das reformas ultrarreacionárias. Manter a mobilização dos trabalhadores em permanência, unindo o programa democrático radical às reivindicações de classe, transitórias, é que pode abrir o caminho. Se considerarmos aonde estávamos em novembro do ano passado, a situação melhorou muito.

    [1] LENIN, Vladimir Ilitch Ulianov, La maladie infantile du communisme (Le Gauchisme), Pekin, Editions en langue etrangéres, 1970, parte IX,  p.85.

  • ‘Itabuna pela vida das mulheres’: atividade vai denunciar casos de estupro coletivo em Itabuna, BA

    Da Redação

    Será realizada, nesta segunda-feira (12), em Itabuna, BA, das 14h30 às 17h, a atividade “Itabuna pela vida das mulheres”, para denunciar os casos de estupros coletivos sofridos na cidade. Será no Sindicato do Magistério Itabunense, na Av. Manoel Chaves. Divulgamos a nota do movimento, na íntegra, onde são denunciados os abusos:

    Nota ‘Itabuna pela vida das mulheres’

    Na ultima quinta-feira, dia 1° de junho, a população de Itabuna foi surpreendida com mais um caso de estupro coletivo contra uma adolescente. A vítima foi dopada e violentada por colegas de escola, que filmaram a agressão e veicularam nas redes sociais. Este já é o segundo caso que veio a público em menos de três meses e que revela uma situação diagnosticada cotidianamente pelos professores: a violência de gênero tem se ampliado entre um público cada vez mais jovem.

    Essa situação não está deslocada da realidade nacional. O Brasil é o 5° país no ranking de violência no mundo e a Bahia está entre os estados líderes nessas estatísticas. Em 2016, o relatório baiano de violência contra mulher apontava Itabuna como a 2° cidade mais violenta a partir dos dados dos três primeiros meses do ano, perdendo apenas para a capital, Salvador.

    Para combater este problema, movimentos sociais lutaram para incluir o debate de gênero nas escolas, através do Plano Nacional de Educação (PNE). Mas, a proposta foi retirada do plano no ato de sanção da presidente Dilma, em 2012. A ação também se repetiu como uma caça às bruxas, por partes de partidos conservadores, como o PSC de Bolsonaro e Feliciano, tanto na aprovação dos planos estaduais, como nos municipais.

    O Comitê em Defesa de Educação Publica de Itabuna, movimentos sociais e feministas, professores e populares que assinam esta nota, repudiam qualquer ato de violência machista contra as mulheres, e solidarizam-se com as vítimas dessa violência. Nada justifica tamanha violência e nenhuma vítima pode ser responsabilizada pela agressão sofrida.

    No intuito de combater efetivamente o problema, acreditamos que a secretaria de educação municipal de Itabuna e a secretaria de educação da Bahia precisam se responsabilizar por esta situação. Não podemos nos contentar com ações pontuais dos movimentos feministas em parceria com as escolas, tão pouco com a ação isolada de professoras e professores consciêntes.

    Para tanto, convidamos a todas e todos que estão sensíveis e preocupados com esta situação a participar da plenária “Itabuna, pela vida das mulheres” que acontecerá na próxima segunda-feira 12 de junho, as 14:30 horas, no auditório do SIMPI ( Av. Manuel Chaves, São Caetano). Vamos organizar a mobilização social em defesa desta Luta!

    “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livre” Rosa Luxemburgo

    Evento no Facebook

  • Sobre a polêmica da #SeNadaDerCerto

    Por: Morghana Benevenuto, de Porto Alegre, RS

    Terceiro ano do Ensino Médio. Ano no qual estamos nos formando no colégio, ano em que fechamos mais uma etapa em nossa vida, e o ano no qual temos a difícil decisão de escolher qual faculdade queremos cursar, ou se queremos fazer uma faculdade. Bom, para uma pequena parte da população é isso que significa o último ano na escola, e para essa mesma pequena parte da população, não fazer uma faculdade e seguir uma profissão que não tenha prestígio social é sinônimo de “não dar certo na vida”. Sim. Isso mesmo que você acabou de ler, não dar certo na vida.

    Para os jovens brancos, da Instituição Evangélica de Novo Humburgo (IENH), no Rio Grande do Sul, por exemplo, não dar certo na vida virou, inclusive, tema de uma festa que é tradição no último ano do Ensino Médio. A #SeNadaDerCerto foi o que incentivou esses alunos a se “fantasiarem” de profissões como a de faxineira, caixa de supermercado, gari, churrasqueiro e até morador de rua. Essa #SeNadaDerCerto também já foi tema de outra escola privada em 2015, dessa vez de Porto Alegre, o colégio Marista Champagnat.

    A escola de Novo Humburgo lançou uma nota dizendo que a atividade visava “trabalhar o cenário de não aprovação no vestibular, de forma alguma foi fazer referência ao não dar certo na vida”. Justificou também que “atividades como essa auxiliam na sensibilização dos alunos quanto à conscientização da importância de pensar alternativas no caso de não sucesso no vestibular e também a lidar melhor com essa fase”. Na nota também publicada pelo site Bomborns, a instituição pede desculpas pelo mal entendido e diz que a atividade não teve como objetivo discriminar profissões.

    A Black Face da Democracia Racial
    Sim, cara, gente branca, a #SeNadaDerCerto é racista!

    Dear White People (Cara Gente Branca) é uma série Netflix que discute as diferentes formas que o racismo se expressa em uma universidade norte-americana, mas também como ele se manifesta na sociedade. Inicialmente, a discussão sobre racismo gira em torno de uma festa chamada Black Face, onde pessoas brancas se fantasiam de negras. E além de se fantasiarem, o que já um tanto problemático, estigmatizam completamente o que é ser negro, os colocando como sinônimos de bandido, traficantes, entre outros.

    Episódio da série Cara Gente Branca, na Netflix | Foto: Reprodução

    Episódio da série Cara Gente Branca, na Netflix | Foto: Reprodução

    Mas, no país da democracia racial essa festa nunca aconteceria. Se fantasiar de ‘nega maluca’ no Carnaval!? Faz parte do nosso passado, pois somos um país de miscigenados. A moda agora é se fantasiar de profissões ocupadas majoritariamente por pessoas negras e dizer que isso é sinônimo de não dar certo na vida.

    Talvez uma boa parte desses jovens não tenha parado para refletir o quanto o tema #SeNadaDerCerto foi carregado de racismo. Talvez porque vivemos no Brasil, onde impera o mito da democracia racial, onde somos todos supostamente iguais e essas “brincadeiras” quando problematizadas sempre chocam aquela parcela da sociedade branca que acredita que pobreza é uma questão de escolha, que cotas raciais são benefício e não direito, que a meritocracia em um sistema injusto desigual é eficiente, pois tudo é uma questão de escolha.

    Quem dera se fosse…
    Em 2014, a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) desenvolvida pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em cinco grandes capitais brasileiras (Porto Alegre, Fortaleza, Recife, Salvador e São Paulo), mostrou que em três dessas cidades o nível de desemprego era maior entre os negros (80%). Os negros só são maioria no setor de construção (987 empregados contra 716 brancos) e nos serviços domésticos (846 contra 540), áreas que historicamente pagam menores salários e demandam um grau de instrução mais baixo. Esses empregos serviram de fantasia para vários alunos que não correspondem a esses dados, pois são brancos e de classe média.

    Mesmo com todos os retrocessos que estamos vivendo, o debate político e, especificamente, o debate sobre opressões, vem ganhando cada vez mais espaço, principalmente no mundo do cyberativismo, por isso revolta ver que ainda existam jovens que expressem um pensamento tão elitista, mas ao mesmo tempo não surpreende. O mito da democracia racial está tão impregnado em nossa sociedade que muitos simplesmente invisibilizam quem ocupa esses empregos, porque quem ocupa esses empregos é desumanizado constantemente.

    A Maria não é a Maria, é a tia da limpeza; seu João não é o João, é o zelador; a Vera não é a Vera, é a tia do lanche, é a babá, é a gari, é a catadora de latinhas, tudo, menos uma pessoa. Se esses jovens vissem a tia da limpeza como a Maria, talvez não se vestiriam de “tia da limpeza”, porque talvez entenderiam que ela, assim como a maioria das mulheres negras, não teve as mesmas oportunidades que eles e nem vive em um sistema que buscou em algum momento proporcionar políticas que de fato promoveriam uma qualidade de vida melhor e diminuiriam a desigualdade de gênero, raça e classe

    Aqueles adolescentes refletiram na sua “brincadeira” os valores preponderantes da nossa elite, e os valores que o Estado ainda busca manter. As reformas Trabalhista e da Previdência são um reflexo dessa mentalidade de que a pobreza é culpa do pobre, logo ele que trabalhe até morrer, enquanto os ricos mantêm seus privilégios.

    Foto: Montagem Reprodução Facebook

  • Governo Temer afronta autonomia da UFAL e exonera gestora do Hospital Universitário

    Por: André de Albuquerque, de Maceió, AL

    A superintendente do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes, vinculado à Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Profa. Dra. Maria de Fátima Siliansky de Andreazzi, foi exonerada do cargo em portaria publicada nesta quarta-feira, dia 7, no Diário Oficial da União.

    A exoneração ocorreu uma semana após a gestora, durante uma audiência pública na Câmara dos Deputados, criticar o desmonte da saúde pública e a gestão da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).

    Na ocasião, Fátima Siliansky ressaltou que, após quatro anos de criação da Ebserh, é possível avaliar esse modelo de gestão nos hospitais-escolas, destacou que os hospitais continuam funcionando devido aos recursos públicos e que a empresa vem descumprindo o contrato com a UFAL. Por fim, sugeriu a criação de uma emenda constitucional para proteger os funcionários da Ebserh, integrando-os no Regime Jurídico Único.

    O discurso da superintendente incomodou o presidente da Ebserh, Kléber Morais, nomeado pelo governo ilegítimo de Michel Temer, que a exonerou numa clara atitude de perseguição política e grave afronta à autonomia universitária.

    A Ebserh e a privatização da saúde
    A Ebserh é uma empresa pública de direito privado criada pelos governos de Lula e Dilma (PT) com a justificativa de resolver o cenário caótico dos hospitais universitários do Brasil, em decorrência do subfinanciamento e, sobretudo, da falta de pessoal, após décadas sem realizar concursos públicos e mantendo milhares de trabalhadores em situação irregular.

    Entre inúmeros prejuízos, a Ebserh representa a implantação da lógica do mercado nos hospitais universitários, a iminente possibilidade de abertura aos convênios privados de saúde e a perda de seu caráter de hospital-escola. Ainda provoca divisões e desigualdades entre os trabalhadores dos dois vínculos, estatutários e celetistas.

    Apesar de uma grande mobilização contrária, em dezembro de 2012 o então reitor da UFAL, num ato monocrático, entregou à Ebserh a gestão do Hospital Universitário.

    Em 2015, a professora Valéria Correia, integrante da Frente Nacional Contra a Privatização da Saúde, venceu as eleições para a reitoria da UFAL e, ao assumir, nomeou Fátima Siliansky como superintendente do Hospital. A nomeação precisou ser homologada pela Ebserh.

    Mesmo sem esconder os posicionamentos políticos que a levou à reitoria, a gestão de Valéria e de Fátima vem mantendo uma relação responsável e altiva em relação à Ebserh, entendendo que é preciso, antes de tudo, garantir a proteção aos trabalhadores contratados pela empresa, já expostos a uma relação contratual vulnerável.

    Autonomia universitária em xeque
    Desde a criação da empresa, os movimentos sociais vêm alertando para o enorme risco que a Ebserh significa à autonomia universitária, uma conquista da constituição federal de 1988.

    De acordo com este princípio, as universidades têm autonomia didático-científica, administrativa, financeira e patrimonial. Isto significa que a criação de cursos, ou a definição de linhas de pesquisa, por exemplo, bem como a sua estruturação interna, devem se guiar pelas características próprias e não podem sofrer interferências. As universidades têm suas instâncias decisórias.

    Do mesmo modo, os hospitais universitários são, antes de tudo, um espaço de formação acadêmica. Sua atividade deve estar vinculada à prática social, inspirada na liberdade e na solidariedade humana, nunca nos interesses privados.

    É neste sentido que os trabalhadores da UFAL, em assembleia, repudiaram a exoneração e, em seguida, realizaram uma ocupação da superintendência do Hospital. Em nota, o Sintufal faz um chamado “a todos trabalhadores da UFAL para lutar incansavelmente, lançando mão de todos os instrumentos legítimos de luta, contra essa absurda ingerência”.

    Em tempos de golpes contra a democracia e de retrocessos contra os direitos sociais, essa luta ganha ainda mais importância.

    Acesse a íntegra do documento enviado pela reitoria à Ebserh

    Acesse a íntegra da nota de repúdio do Sintufal à exoneração 

    Veja ocupação no vídeo

    Foto: Ascom UFAL

  • Estudantes ocupam reitoria da Unioeste, no Paraná

    Por: Marcello Locatelli, Curitiba, Paraná

    Hoje (8) pela manhã, estudantes ocuparam a reitoria da Unioeste na cidade de Cascavel. Foi uma ocupação simbólica e temporária para demonstrar que os estudantes estão mobilizados e se preparando para ampliar a resistência contra a truculência do governador Beto Richa. Ontem, ao divulgar vídeo ameaçando o reitor da Universidade Estadual de Maringá, o governador revoltou a comunidade universitária das instituições estaduais de ensino superior.

    O governo estadual quer acabar com a autonomia universitária, através do projeto chamado ‘Meta4’. Segundo o estudante e membro do DCE da Unioeste, Nicolas Pacheco, “nas principais universidades estaduais do Paraná, o movimento estudantil está disposto a construir a unidade junto com técnicos e professores para resistir a este ataque”, disse.

    Na UEM (Universidade Estadual de Maringá), UEL (Universidade Estadual de Londrina), Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa) diversas iniciativas de luta estão sendo organizadas.

    É importante lembrar que o movimento estudantil das universidades estaduais do Paraná têm uma importante história e tradição de luta. Protagonizou greves importantes no início dos anos 2000 e foi fundamental para impedir a privatização da Companhia Paranaense de Energia Elétrica quando Jaime Lerner era governador.

    O método de luta unificada está registrado na história destas universidades e pode contribuir para reeditar o movimento unificado de estudantes, técnicos e professores, que foi tão importante e vitorioso em outros momentos.

    Assista aos vídeos

    Fotos: Reprodução Facebook

  • Bloco de Esquerda Socialista realiza seminário programático em Fortaleza

    Por: Thiago Sabino, de Fortaleza, CE

    Após a vitória das mobilizações unitárias de março (8M, 15M e 31M), da greve geral de abril e da marcha a Brasília em maio, as centrais já marcaram uma nova data de greve geral para o dia 30 de junho. Também ocorreram atos no país pelas “Diretas Já” para botar para fora Michel Temer (PMDB) da Presidência da República. Será nesta conjuntura que ocorrerá, nos dias 9 e 10 de junho, o seminário “A Crise, as Contrarreformas e a Alternativa dos Trabalhadores”, organizado pelo Bloco de Esquerda Socialista, em Fortaleza.

    Na sexta-feira (9), haverá a mesa de conjuntura a partir das 18h30, com a fala de organizações que compõem o bloco, como a Insurgência (Cecilia Feitoza), MAIS (Valerio Arcary), NOS (Anna Karina Cavalcante), Comuna (Ailton Lopes) e PCB (Mauro Iasi).

    No sábado, a partir das 8h30, terão os seguintes painéis:

    Estado e democracia (Valério Arcary)
    Imperialismo (Ana Cavalhaes)
    Teoria das crises (Marco Pestana)
    Consciência de classe (Mauro Iasi)
    Questão ecológica (João Alfredo e Téssie Reis)
    A inscrição para os painéis com direito à alimentação será de R$ 10,00, com isenção para quem estiver desempregado.

    Em meio a tudo o que ocorre na política brasileira, precisamos debater o programa do socialismo e apresentá-lo como alternativa aos milhões de trabalhadores e trabalhadoras, jovens e ativistas que lutam para barrar as contrarreformas, para derrubar Temer e impor as eleições diretas.

    Participe! Chegue junto! Chegue em Bloco!

    SERVIÇO
    Local: Sintro – Sindicato dos Rodoviários (Av. Tristão Gonçalves, 1380)
    Confira aqui o evento no Facebook.

  • Reforma Trabalhista avança no Senado e só a greve geral poderá pará-la

    Editorial 08 de junho

    O Congresso Nacional já há muito tempo não é bem visto pela população. Agora, parece que os deputados e senadores se esforçam para ser odiados. Mesmo com todos os escândalos e uma evidente instabilidade e ilegitimidade política, eles seguem fingindo que está tudo normal para fazer avançar as reformas anti-povo. Mesmo atolados até o pescoço com escândalos de corrupção, o Senado, no último dia 6, aprovou na Comissão de Assuntos Econômico a Reforma Trabalhista.

    Sete em cada dez deputados foram financiados por uma ou mais empresas do grupo das dez principais financiadoras do Congresso (JBS, Bradesco, Itaú, OAS, Andrade Gutierrez, Odebrecht, UTC, Queiroz Galvão, Grupo Vale e Ambev). Deputados e Senadores não estão nem um pouco preocupados com o que a população pensa deles. O único interesse deles é agradar os banqueiros e grandes empresários, seus reais eleitores.

    A Reforma Trabalhista é um imenso retrocesso
    Os defensores da Reforma Trabalhista fazem chantagem com os trabalhadores desempregados, dizendo que ela é necessária para a criação de vagas. Isso não é verdade. Os únicos interessados nesta reforma são os patrões, que poderão até demitir funcionários para colocar os que sobraram para trabalhar mais. Vejamos algumas mudanças propostas:

    A carga horária vai aumentar de até 44 para 48 horas semanais
     Isto poderá ser feito por “livre negociação” entre patrão e empregado. Na teoria, você vai trabalhar as 44 horas e ganhar quatro horas extras. Na prática, o ganho em horas extras vai se perder, porque seu salário vai parar de aumentar. Por quê? Com o aumento de carga horária, o patrão vai poder demitir trabalhadores. Isso vai aumentar o desemprego e toda vez que você pedir aumento vai ouvir um “sabe quantos querem sua vaga?”

    Será legalizada a chamada jornada intermitente
    Se você for contratado por este regime, não terá um horário de trabalho definido, nem um salário definido. Não vai poder programar sua vida, nem seu orçamento. Vai ficar 24 horas por dia e sete dias por semana à disposição do patrão.

    Vários direitos que antes eram obrigatórios passarão a ser “optativos”

    (inclusão do artigo 611-A na CLT). O patrão vai conceder estes direitos se quiser. Ou seja, não vai conceder. Isso é o que eles chamam de “livre negociação”. Funciona assim: seu patrão te obriga a assinar um acordo renunciando direitos, ou você está demitido. Entre os direitos que deixarão de existir, na prática estão: participação nos lucros e resultados, adesão ao Programa Seguro-Desemprego e plano de cargos, salários e funções.

    Estes são apenas alguns exemplos das mudanças previstas. A reforma prevê mais de cem alterações nas leis trabalhistas. E os empresários não querem limites. Até trabalho em troca de comida eles estão propondo. Com a reforma, está aberto o precedente para a volta da escravidão.

    30 de junho: greve geral para barrar as reformas contra o povo
    Em uma situação dessas, apenas a mobilização direta nas ruas pode fazer valer a vontade popular. As centrais sindicais marcaram uma greve geral para o próximo dia 30. Temos tempo de dialogar com os trabalhadores em cada local de trabalho e aprovar a greve em assembleias. As direções sindicais que não estão se mexendo devem ser cobradas.

    A última greve geral, no dia 28 de abril, conseguiu atrasar a tramitação das reformas Trabalhista e Previdenciária. Pelas previsões do governo, elas já deveriam ter sido aprovadas. Outra grande mobilização pode acabar com as reformas de vez.

    Em julho, o Congresso entra em recesso e só volta a trabalhar em agosto. No segundo semestre, já começam as articulações para as eleições previstas para 2018. E, cada vez mais, a aprovação das reformas representa um desgaste para os parlamentares. Por isso, a batalha do dia 30 de junho será decisiva. Se a reforma não for aprovada até este dia, ela tem boas chances de ser descartada.

    Sendo assim, é preciso construir, desde já, uma grande mobilização para a greve geral ser maior e mais forte que a última. Comitês pela greve geral devem ser criados por local de trabalho, categoria ou bairros. Além de uma ampla articulação unitária entre os movimentos sociais do campo e da cidade, sejam sem teto; estudantes; mulheres, LGBTS e negras(o)s. Devem ser impulsionadores da nova data em que pararemos o país.

    Foto: CAE – Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) realiza reunião deliberativa com 11 itens. Na pauta, o PLC 38/2017, que trata da reforma trabalhista. Mesa: relator da PLC 38/2017, senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES); presidente da CAE, senador Tasso Jereissati (PSDB-CE); vice-presidente da CAE, senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) | Por: Marcos Oliveira/Agência Senado

  • ENTREVISTA | Estudante cotista é excluída da UFRGS por perseguição política

    Da Redação RS

    Lorena Castillo, cotista, estudante de Geografia da UFRGS e militante da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), foi excluída da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) após revisão de sua análise sócio-econômica. Neste processo, o órgão responsável da UFRGS questionou sobre sua militância e insinuou que ela receberia dinheiro da FAG. Afirmou que a estudante possui uma renda que, na verdade, ela não possui, como pretexto para desligá-la da universidade. Esta não é a primeira ação contra a FAG no Rio Grande do Sul. Confira, abaixo, a entrevista exclusiva com Lorena Castillo.

    EO – Lorena, pode nos contar brevemente o que é o processo que te deixou fora da UFRGS? Do que exatamente a UFRGS te acusa? E qual o pretexto que eles usam?

    Lorena – Resumidamente. Fui selecionada pelo vestibular da UFRGS em 2016. No segundo semestre, comecei a frequentar as aulas. Me candidatei como cotista (renda baixa e oriunda de escola pública). No ato da matrícula já constava que eu teria pendências no meu ingresso: por motivos de falta de análise, minha condição era “precária”. Para comprovação de renda baixa é preciso entregar para a instituição muitos documentos, extratos, declarações, detalhes de toda nossa vida socioeconômica. Bastante burocracia mesmo. É muito constrangedor ter que ficar provando que tu é pobre. Como meu salário na época, o maior que já tive, era de R$ 1126 “líquido”, eu estava dentro de todos critérios de aluna cotista, sim.

    O que acontece é que nas análises da minha renda me acusam passar 200 reais a mais, por conta de “entradas” na minha conta bancária, sendo que já havia declarado que era um auxílio financeiro que o pai do meu filho mandava no período que ele morava comigo. A UFRGS acrescentou o valor porque contabilizaram oito meses anteriores do meu ingresso. Mas, não contabilizaram outra pessoa, uma criança, meu filho, e vivíamos com uma renda bem menor do que a UFRGS me acusa ter. Quando recorri via UFRGS, para que refizessem os cálculos, meu pedido foi negado.

    Tirando as injustiças nos cálculos, as burocracias, fui convidada a comparecer em uma entrevista na Pró Reitoria de Graduação (PROGRAD) da universidade. Esperava eu que esta pudesse, enfim, ser um momento para esclarecer para a equipe todas as dúvidas dela e minhas, assim como solucionar toda a documentação, que por várias vezes, me pediram a mesma coisa, mais de uma vez. Esta entrevista foi na própria PROGRAD, com duas mulheres do quadro técnico, uma assistente social.

    Começamos pelo meu histórico de vida, de origem bem de baixo mesmo, meus pais são trabalhadores pobres, nunca foram donos de nada e também não conseguiam me ajudar economicamente. Fui acampar no MST, com 17 anos, ainda sem concluir meus estudos. Passei seis anos da minha vida embaixo da lona, ocupando terra e também sendo solidária em outras lutas.

    Quando vim pra cidade novamente, vivi como vivo até hoje, do esforço do meu trabalho. Esta entrevista averiguou detalhes bem específicos, mas isso não era um problema, já que o correto seria mesmo fazer um levantamento do meu histórico de vida socioeconômica, etc. Só que, parece que a equipe tinha outros interesses bem peculiares em relação a mim. Bom lembrar que estou falando de uma entrevista que ocorreu logo após as ocupações da UFRGS, onde estive metida.

    Foi quando percebi que havia motivações em me “interrogar” sobre minha vinculação política. “Lorena, você milita na FAG, certo? Quando você ingressou na FAG, como funciona a FAG? Qual sua função na FAG? É executiva, ganha por isso?” Uma pergunta atrás da outra foram suficientes pra eu me dar conta de que havia uma investigação indevida. Inclusive enfatizaram “basta colocar seu nome no google”. Perguntei se era rotina delas conferirem os vínculos políticos dos alunos, mas a resposta veio em gestos de desconforto e com o fim da entrevista, o “aguarde nosso parecer”.

    O parecer chegou com a notícia de que eu estaria sendo desligada da universidade por “ter uma renda superior”, sendo que já estou no segundo semestre do meu curso de Geografia. Mas, a peculiaridade do processo, além de injusto pelos cálculos, é sim me “investigarem” por “vias online” e registrarem isso no processo escancaradamente. O que significa isso?

    A última vez que fui interrogada daquela forma foi dentro de uma delegacia de polícia quando a Yeda Crusius (PSDB) era governadora e mandou invadir nossa sede e apreender nossos materiais de serigrafia, livros, etc. Estamos falando de 2009, ano em que a BM matou um sem-terra com um tiro de 12 pelas costas e a nossa propaganda (da FAG) era de denúncia a este caso. E por isso a FAG foi tornada “ameaça perigosa” para a tal governadora.

    EO – No processo, eles citam nominalmente a Federação Anarquista Gaúcha (FAG). O que é a FAG?

    lorena – Somos a Federação Anarquista Gaúcha, organização política de viés especifista, com mais de 20 anos de trabalho social, militância de base, de muitas peleias. Orientada por princípios revolucionários do anarquismo, somos de esquerda obviamente. Somos também uma organização com militantes inseridos em diferentes frentes sociais de luta, com orientação tático estratégica de ruptura com o sistema de dominação. Em Porto Alegre, por exemplo, estivemos envolvidos nas principais lutas populares, aportando nosso grão de areia na luta contra a opressões e desde o princípio, a nossa organização se constituiu como iniciativa organizadora dentro do marco coletivo de um projeto libertário para atuar nas lutas sociais do Brasil e nessa região do mundo.

    EO – Por que você acha que está ocorrendo esse processo de perseguição política? Qual a relação desse processo com a criminalização dos ativistas do Bloco de Lutas, a condenação de Rafael Braga e as inúmeras prisões ocorridas nos atos Fora Temer?

    Lorena – Já em 2013, nossa organização foi atacada política e judicialmente pelo governo petista, na mesma campanha que criminalizou e invadiu casa de outros militantes, companheiros de outras agrupações políticas. Nesta época, a mando do Governador Tarso Genro (PT), nossa sede foi arrombada pela polícia duas vezes. Nenhuma constava para nós mandados judiciais de busca, mas apreenderam novamente livros, materiais nossos e fichas de associados em nossa biblioteca. Se intensificou fortemente uma campanha contra os “radicais”, os “subversivos”, onde nós e todos que compunham o Bloco de Lutas de POA éramos os principais opositores, não só para a máfia do transporte, mas também para os políticos e burocratas de gabinetes. Os nossos livros e materiais nunca foram devolvidos e alguns militantes estão prestes a ter seu primeiro julgamento por fatos criados em meio a uma farsa para incriminar militantes políticos.

    Falar e combater a criminalização política é ordem do dia para qualquer militante e organização de cunho revolucionário, ou mesmo que preze pela liberdade de associação e expressão. Ora, acharíamos nós natural estas perguntas feitas dentro da UFRGS? Por que perguntar da FAG? Nossa organização não é nem nunca será uma empresa que paga funcionários e qualquer pessoa pode constatar isso, mesmo que de forma rasa e por vias “online”.

    Para nós foi como ligar o sinal de alerta, porque não estamos falando só de um desligamento injusto por um cálculo frio e mal feito, mas estamos falando de um precedente perigoso que não podemos aceitar. Sabemos, e repito isto, que a luta que os cotistas passam para ingressar no ensino superior é descomunal, constrangedora e muitas vezes seletiva. Sabemos também que quem sofre com este “apartheid” é o povo negro e os mais pobres, já que as condições de estudo para os de baixo já é uma luta por si só. São centenas de casos acumulados por desligamentos e indeferimentos injustos. E, por isso mesmo, resolvi falar, questionar, buscar apoio, fazer a denúncia. Não podemos aceitar estas injustiças e muito menos vamos tolerar a mordaça ideológica.

    O ódio de classe contra o povo pobre se expressa todos os dias, quando não combatemos ele, este se torna estrutural, se torna corpo nas nossas relações sociais e culturais. Não é à toa o racismo asqueroso disseminado na sociedade brasileira durante séculos, somado ao genocídio do povo negro e dos indígenas. O ódio de classe se expressa no encarceramento do negro e do pobre, na mutilação de nossa gente, se expressa nas humilhações cotidianas, nos direitos nossos que são usurpados para garantir a regalia e os privilégios dos poderosos.

    EO – E agora, Lorena, quais os próximos passos?

    Lorena – A ideia é seguir difundindo o tema e também buscando contato com os demais cotistas que foram desligados injustamente. E está sendo muito difícil encontrar esses cotistas, até porque são raros os casos que entram na justiça ou levam paro campo político da denúncia e mobilização. E também avançar na luta jurídica: essa semana vamos entrar com uma ação na justiça federal. E então fazer um movimento externo e interno à universidade para pressionar por um processo justo e sócio econômico e não puramente rentista. E seguir erguendo a bandeira de uma UFRGS democrática, autônoma e popular.

    Foto: reprodução do Facebook

  • Eleições legislativas francesas: provável maioria para Macron. E daí?

    Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP

    Após uma eleição presidencial inédita que abalou o sistema político francês, Emmanuel Macron e seu movimento República Em Marcha (REM) tentarão garantir uma maioria política na Assembleia Nacional. Todas as pesquisas indicam que isso deve ocorrer, o que aprofundará a crise política dos partidos tradicionais. Em boa medida, para além dos motivos políticos, isso se deve ao próprio sistema eleitoral francês.

    As eleições legislativas francesas ocorrerão nos dois próximos finais de semana: 11 e 18 de junho. Ao todo serão eleitos 577 deputados. As eleições legislativas são por distritos, isto é, cada deputado representa um dos 577 distritos, sendo que o pleito é majoritário com a possibilidade de haver dois turnos para os dois primeiros colocados, caso nenhum dos candidatos obtenham 50%+1 ou caso a participação seja muito baixa.

    O grande problema desse tipo de eleição é que a representação legislativa fica desproporcional em relação à votação dos partidos. Por exemplo, na pesquisa da Opinion Way publicada em 1 de junho, o partido do presidente REM está com 29% de intenção de votos a nível nacional. Em segundo lugar está Les Republicains (LR – direita tradicional) em aliança com União Democrática Independente (UDI – centro direita) com 20% e, em terceiro, a Front National (FN – extrema direita) com 18%. A esquerda está encabeçada pela França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon com 13%, enquanto o PS amarga 9% das intenções de voto e o Partido Comunista Francês (PCF) tem 3%. A extrema-esquerda obtém apenas 1% das sondagens.

    Como a eleição é distrital e majoritária, a tendência, de acordo com as próprias pesquisas, é que REM fique com cerca de 55% dos deputados (entre 310 e 330) e que LR/UDI seja o principal bloco de oposição (entre 140-160 deputados). E os outros três blocos sejam compostos pela França Insubmissa, pelo PS e pela FN (que deve obter o menor bloco entre estes). Por si só, esse tipo de eleição demonstra como o próprio funcionamento que garantiu, por décadas, maiorias para o PS e a para a LR, agora será motivo de uma enorme crise nesses mesmos partidos, principalmente no PS, que tende a conseguir o pior resultado desde 1981.

    Por um lado, todos os analistas concordam que a tendência é a de haver uma renovação política na assembleia de deputados: dos 525 candidatos do REM, 251 nunca foram candidatos e, destes, 178 candidatos “nunca tiveram qualquer relação com a política”. É com essa ideia de “renovação”, de trazer a “sociedade civil” para o mundo da política que Macron tenta ganhar a maioria. Ao mesmo tempo, essa renovação passa por aliar antigos políticos ex-PS e ex-LR numa tentativa clara de aproveitar a crise política desses partidos para formar uma nova maioria política.

    O governo de Edouard Philippe e a renovação política neoliberal
    Na França, o Presidente tem a prerrogativa de escolher o Primeiro-Ministro que forma o poder executivo. Macron escolheu Edouard Philippe, um deputado LR, que já havia sido do PS. Sua escolha desestabilizou a direita provocando ainda mais crise.

    O governo de Philippe é uma composição bastante heterogênea retirada das principais forças políticas que compuseram a campanha de Macron: ex-setores do PS e da LR, junto com os partidos de centro e figuras da “sociedade civil”.

    Na formação do governo, Macron e Philippe tiveram o cuidado de mesclar duas coisas: a paridade entre homens e mulheres e também a paridade entre “políticos” e “sociedade civil”. Porém, essa renovação política não foi bem uma renovação da casta política. Como revela reportagem do Le Monde, somente 5 dos 11 ministros da sociedade civil nunca trabalharam com a política estatal.

    Porém a renovação da casta política do governo Macron/Philippe esconde uma continuidade essencial na política neoliberal de Macron. Nessa semana, o governo enviou a diversas organizações sociais, incluindo as centrais sindicais, uma carta com alguns pontos da nova contrarreforma trabalhista e a agenda de implementação da mesma. Entre as medidas que serão propostas está a prioridade aos acordos coletivos sobre a Lei trabalhista, a simplificação e a redução das normas trabalhistas, mudanças no seguro desemprego, entre outras medidas. Além disso, o governo projeta reformular a previdência até o fim de 2018. A ideia de Macron/Philippe é completar a contrarreforma realizada pelo antigo governo PS.

    Resistência dos trabalhadores aos planos de Macron
    A resistência à contrarreforma de Hollande foi gigante: paralisou o país por alguns meses, com greves em diversas empresas, grandes movimentações e ocupações de praças (Nuit Debout). Uma nova contrarreforma poderá encontrar uma resistência maior ainda, não na Assembleia de Deputados que deve eleger a maioria para Macron, mas na resistência social que hoje se materializa nos principais sindicatos do país.

    Apesar de enfraquecida eleitoralmente, com a única exceção sendo a França Insubmissa de Mélenchon, a esquerda radical poderá ter um peso decisivo nessas mobilizações, principalmente pela Front Social (Frente Social): frente de sindicalistas e sindicatos de base, composta pelas mais variadas forças políticas de esquerda, que está tentando se colocar a frente das lutas contra Macron.

    No dia 8 de maio passado, já no primeiro dia após a eleição de Macron, foi organizado em Paris um protesto contra o novo presidente que contou com aproximadamente 5 mil pessoas. Uma próxima manifestação já está marcada e será no dia 19 de junho em frente à Assembleia Nacional que promete ser a primeira demonstração de força contra os ataques de Macron/Philippe aos direitos trabalhistas.

    Portanto, ainda que o mais provável seja que Macron consiga obter maioria na Assembleia Nacional, tudo indica que seu governo enfrentará uma forte resistência dos trabalhadores.

     

  • Grécia – Governo Syriza: submisso com os credores e duro com os refugiados

    Imagem: Cartaz na “City Plaza dos Refugiados: Lutando juntos pela liberdade de movimento e pelo direito de permanecer vivendo juntos em dignidade, igualdade e solidariedade. Gregos e refugiados reconquistando nossos direitos a uma vida em comum sem cercas nem fronteiras na Europa e em nossas cidades” 

    Por: Tiago Castelhano, do Movimento por uma Alternativa Socialista (MAS), Portugal, Lisboa

    No passado dia 2 de junho assistiu-se na Grécia a mais um ataque aos refugiados. Desta feita o ataque não veio pela mão da extrema direita (Aurora Dourada), mas pela mão do Governo Syriza/Anel.

    Em 2015, alguns refugiados fizeram do antigo aeroporto de Atenas (Elliniko) um abrigo improvisado. Agora, o Governo Syriza iniciou a sua evacuação para outros abrigos e campos de detenção fora da capital grega. Alguns foram levados para identificação de residência. O líder (Masoud Qahar) do campo Ellinko foi um desses refugiados e agora tem que fazer a “verificação de identidade”.

    Vários relatos de ONG´s e voluntários no local já diziam que este era um abrigo sem quaisquer condições, mas o Governo do Siryza/Anel não demonstrou qualquer intenção de resolver este problema humanitário.

    A decisão de transferir os refugiados para fora de Atenas de maneira a desimpedir os terrenos do aeroporto é uma antiga promessa do governo Syriza aos credores (U.E e FMI), que está acordada no memorando. O objetivo é alugar os terrenos a investidores privados.

    A maioria dos refugiados neste campo era afegã que tinham sido impedidos de irem para o Norte da Europa. Desde que foi assinado o acordo entre a U.E e a Turquia que estabeleceu o fechamento da fronteira da Grécia com os restantes países europeus, existe a proibição dos refugiados saírem da Grécia em direção a outros países da Europa. Estima-se que existam entre 55.000 a 65.000 refugiados “presos” na Grécia.

     Abandono: um papel lamentável
    Os refugiados na Grécia têm sido largados ao abandono só podendo contar consigo próprios ou com a ajuda de coletivos anti-racistas, organizações de esquerda, anarquistas e população grega em alguns bairros como Exárxhia, no centro de Atenas. Neste bairro é onde a comunidade local presta mais ajuda. Em Atenas, há ainda o caso do City Plaza Hotel[1], que depois de ter ido à falência com a crise em 2010, foi ocupado e agora funciona como centro de abrigo aos refugiados.

    O papel do Governo Syriza em conluio com a U.E tem sido lamentável. A resposta parece ser criar campos de detenção sem quaisquer condições e bem longe das cidades. O caso da transferência dos refugiados que estavam no campo Ellinko é paradigmático. Os coletivos anti-racistas tem vindo a reivindicar que os refugiados sejam acolhidos em estruturas decentes dentro da cidade, para que possam mais facilmente resolver as suas necessidades de emprego, saúde e educação.

    O Governo Siryza/Anel, por sua vez, responde com a evacuação arbitrária dos refugiados, sem os consultar, sem indicar para onde os vai deslocar e sem informar as equipas de voluntários que prestavam ajuda humanitária no antigo campo. Na verdade, o governo grego está a criar guetos fora das grandes cidades ou em ilhas onde não existe qualquer garantia de melhoria da vida dos refugiados. O intuito é claro: os refugiados não são bem-vindos na Europa.

    Mas importa lembrar que os refugiados fogem dos seus países porque são vitimas da pobreza e das guerras imperialistas da NATO (OTAN) e U.E. A forma como o Governo Syriza/Anel tem estado a tratar os refugiados apenas vem reforçar e servir a política racista e imperialista da U.E. Presta ainda um favor à extrema direita grega e europeia que vê os seus discursos serem, em parte, postos em prática e a ganharem peso de massas.

    [1] https://wagingnonviolence.org/feature/city-plaza-hotel-greece-welcome-refugees/