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7 Junho, 2017
  • Trump anuncia a retirada dos EUA do Acordo de Paris sobre o Clima

    Por: Davide Santo, do Movimento Alternativa Socialista (MAS), de Portugal, Lisboa

    Era um acordo de cavalheiros. Depois do fracasso do Protocolo de Quioto negociado em 1997, a Conferência do Clima de Paris de novembro 2015 era mais uma tentativa de minimizar os efeitos do aquecimento global.

    As metas são pouco ambiciosas e não vinculativas. Barack Obama sabia que se Paris fosse um tratado internacional e não um mero acordo, a maioria republicana no congresso não o ratificaria tal como aconteceu com Quioto.

    Os Estados-Unidos são, pois, uma das poucas nações onde a realidade do aquecimento global ainda é debatida, mercê do lobby das empresas petrolíferas e das empresas carboníferas ainda sobreviventes. Mesmo a própria administração Trump parece dividida sobre esta questão com Steve Bannon, um negacionista do aquecimento global, antropogênico, e Rex Tillerson e Ivanka, aparentemente favoráveis ao Acordo de Paris, o que espelha bem o caos e divisão que reina na Casa Branca.

    O Acordo de Paris pretendia limitar o aumento da temperatura global abaixo dos 2º centígrados, estabelecendo um mecanismo de revisão em que de cinco em cinco anos reavaliaria os compromissos de redução de gases de estufa, sempre voluntários, de cada país.

    Além disso, uma ajuda financeira na ordem dos 3 mil milhões seria fornecida, através de um “Green climate fund”, às nações pobres para ajudá-las a lidar com as mudanças climáticas. Este é, pois, não um acordo com medidas concretas, assertivas e urgentes, mas sim uma declaração de intenções. E de boas intenções está o inferno cheio, especialmente este em que estamos lentamente a arder: secas, tempestades, incêndios, cheias, subidas do nível do Mar, fomes e cerca de 100 milhões de pessoas no hemisfério Sul que poderão ser atiradas para a pobreza nos próximos quinze anos, segundo números do Banco Mundial.

    O discurso de Trump

    Mesmo esta tímida tentativa de minimizar os efeitos das emissões de gases de estufa é posta em causa pelo atual inquilino da Casa Branca. Numa conferência de imprensa, que seria uma obra prima da comédia, se fosse ficção, anunciou a retirada dos Estados-Unidos do Acordo de Paris, comprometendo seriamente o objectivo estabelecido. Os Estados Unidos tinham se comprometido em reduzir suas emissões de 26% a 28% abaixo dos níveis de 2005.

    Os Estados Unidos são atualmente responsáveis por mais de 22% das emissões de dióxido de carbono e o maior emissor per capita de todas as nações o que implicaria que sem o esforço americano de redução da poluição atmosférica 0,3 graus dos 2 acordados como limite ficariam já comprometidos.

    Populista como sempre, Trump retomou uma das suas promessas de campanha, de recriar postos de trabalho na extração de carvão, uma indústria que o gás natural já tinha tornado obsoleta muito antes da exploração em massa de energia solar e eólica. É um discurso que fala para suas famigeradas bases, as populações dos Estados economicamente deprimidas da chamada cintura de ferrugem, acenando com a possibilidade de um regresso de um tipo de indústrias que há muito tempo deixou aquele território.

    Neste momento, mais de 370 mil pessoas trabalham no sector da energia solar, o dobro dos que trabalham no carvão. Foi também um discurso profundamente paranoico que acusa o acordo de ser um embuste, um instrumento de guerra econômica contra os Estados-Unidos e de extorsão de fundos americanos, quando na verdade a burguesia americana se conta entre aqueles que mais exploram e contribuem para a degradação da ecosfera. Das sementes transgênicas da Monsanto à maré negra do Golfo do México, passando pelo lixo eletrônico largado em lixeiras a céu aberto em vários países africanos e asiáticos, entre outros crimes ambientais, a dívida ecológica americana é avassaladora.

    Retirada do acordo, protecionismo e ordem mundial
    Algumas questões também se levantam com este rasgar do acordo, no que a ordem política mundial diz respeito. Este isolamento auto-imposto dos Estados-Unidos em questões ambientais revela ser mais um sintoma da perda de poderio e protagonismo do imperialismo americano.

    A decisão de Trump é coerente com a ideologia protecionista que ele vem anunciando desde a sua campanha eleitoral e satisfará uma parte da burguesia americana, como os Irmãos Koch[i], que vê qualquer tipo de regulamentação ambiental como um entrave ao lucro. Por outro lado, multinacionais do sector das tecnologias da informação e das energias renováveis como a Microsoft, a Google, a Tesla, a Shell e a Disney criticaram veementemente esta decisão que cria assim profundas divisões na própria burguesia americana.

    No fim, a China poderá ser um dos grandes beneficiários da decisão de Trump. Depois do Acordo de Paris, já anunciara o cancelamento da construção de uma centena de centrais de carvão e decidiu investir 361 mil milhões de dólares em energias renováveis até 2020. A China é já hoje o maior produtor mundial de painéis solares, um título que já pertenceu em tempos aos Estados-Unidos.

    Uma improvável aliança parece ter-se formado, nesta questão, entre as maiores economias da Zona Euro, – a Alemanha, a Itália e a França – e a China. Temos Macron na televisão a convidar cientistas e engenheiros americanos a vir trabalhar para a França, e onde estes irão, obviamente, o investimento em tecnologia também seguirão. Temos ainda a possibilidade de uma “taxa de carbono” sobre as exportações americanas a ser sugerida pelo governo mexicano. Será que estamos perante o princípio de uma guerra comercial, aquela mesma que Trump ameaçava começar? Se a primeira declaração de guerra é, pela boca de Trump, a retirada dos Estados-Unidos do Acordo de Paris, o primeiro tiro poderá não ser o seu, já que neste momento ele encontra-se completamente isolado.

    Os negócios se sobrepõem a qualquer regulamentação: é preciso se opor
    Durante anos, alguns sectores da burguesia americana lançaram a desinformação, a suspeita sobre a realidade do aquecimento global para proteger os seus negócios. O resultado está à vista: uma grande parte da população elegeu um magnata da construção civil com um discurso anti-intelectual, com promessas vãs de recuperar empregos graças ao desmantelamento de regulamentação ambiental. E agora mesmo o muito insuficiente Acordo de Paris é posto em causa pela maior potência industrial do mundo.

    Até que ponto os objetivos deste acordo podem estar comprometidos, tanto em graus Celsius como no empenho dos signatários, está ainda por determinar. Mas uma coisa é certa: enquanto formos dominados por uma classe privilegiada, para a qual os negócios se devem sobrepor ao clima, este problema tenderá a agravar-se. É isto que o capitalismo tem para nos oferecer: destruição climática, muros, exploração, opressão e miséria.

     

    [i] Nota da publicação: Segundo artigo da revista Carta Capital: “Os irmãos Charles e David Koch são sócios e possuem, segundo a Forbes, 42,9 bilhões de dólares cada um e estão em sexto e sétimo lugar em sua última lista de bilionários. Há ainda Bill Koch, o caçula, brigado com os irmãos e com um império independente de “apenas” 2,8 bilhões (o número 603 da Forbes), mas também financiador ativo de políticos conservadores e o primogênito Frederick Koch, mais interessado em coleções de arte, teatro e cinema do que nos negócios da família. São todos filhos de Fred Chase Koch (1900-1967), empresário do petróleo, admirador de Benito Mussolini e um dos fundadores em 1958 da ultradireitista John Birch Society, cuja sede foi estabelecida ao lado do túmulo do paranoico senador anticomunista Joseph McCarthy e foi notória pelo combate à lei dos direitos civis promovida pelo presidente Lyndon Johnson nos anos 1960.

    Suas fortunas, somadas, superam folgadamente as de Bill Gates, Carlos Slim ou Warren Buffet, os primeiros colocados. Seu grupo Koch Industries é a segunda maior empresa de capital fechado dos EUA, depois de Cargill. Possui refinarias em vários estados, seis mil quilômetros de oleodutos, madeireiras, indústrias de papel e celulose e a Invista, ex-divisão de fibras têxteis da DuPont dona de marcas como Lycra e Cordura.

    É cada vez mais notório o apoio de irmãos Koch a campanhas e institutos conservadores e libertarians por meio de várias organizações por eles financiadas, incluindo Americans for Prosperity e o Cato Institute. Documentos obtidos pelo Greenpeace através do Freedom of Information Act revelaram que a Charles G. Koch Charitable Foundation, organização para financiar programas de ensino e pesquisa, fez doações para Wei-Hock Soon do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, um dos raros cientistas a insistir em que a mudança climática é um fenômeno natural, não causada por atividades humanas. Outro tema caro aos Koch é o do armamentismo. Doam milhões à National Rifle Association (NRA) e outros lobbies que combatem restrições à posse e porte de armas nos EUA, que retribuem fazendo campanha a políticos conservadores do agrado dos irmãos.

    Os Koch organizam reuniões periódicas com líderes republicanos e comunicadores ligados ao Tea Party, como Glenn Beck e o senador republicano Mitch McConnell.”

     

     

  • ENTREVISTA | Ocupação William Rosa na mira de Pimentel, em Minas Gerais

    Da Redação MG

    William Rosa é o nome da ocupação que nasceu em outubro de 2013, ocupando um terreno abandonado em Contagem (MG), que havia sido cedido pelo Governo Federal à Ceasa – Centrais de Abastecimentos de Minas Gerais. Desde a sua instalação, os moradores convivem cotidianamente com ameaças de despejo.

    Na última semana, as famílias mais uma vez foram assombradas com a notícia que o governador do estado, Fernando Pimentel (PT), autorizou o cumprimento do mandado de reintegração posse, pela Polícia Militar, até o dia 17 de junho.

    O Esquerda Online entrevistou Lacerda dos Santos, liderança da Ocupação, que contou sobre as estratégias que o movimento tem adotado para resistir.

    E.O.: A Ocupação William Rosa já está consolidada há muito tempo; famílias moram lá há anos e ocorreram muitas negociações entre a comunidade, os governos e a CEASA. Por que essa ameaça de reintegração de posse agora?

    Lacerda: Em primeiro lugar, obrigado pela oportunidade de informar sobre o drama das famílias da ocupação William Rosa. É uma ocupação que existe há três anos e oito meses. Hoje ela conta com 400 famílias que moram na ocupação. Isso dá em torno de 1500 pessoas. Entre homens, mulheres, crianças, jovens e adolescentes. São famílias de baixa renda. A grande maioria trabalha de maneira precária, quando consegue serviço formal, e uma parte está na informalidade. Então, é uma situação social muito crítica.

    Nesse período todo em que as famílias estão lá, elas sempre buscaram negociações com as esferas do governo. Algumas são autoras da ação de reintegração de posse, outras são corresponsáveis pela situação social que vive o país. A gente cobra do governo federal e do Ceasa o fim da ação de reintegração de posse, ou que pelo menos dê uma garantia digna para as famílias de acesso a moradia permanente. Do governo estadual, a gente cobra que se avance em um programa de habitação que, de fato, atenda aos trabalhadores. Cobramos também que não autorize a polícia, que está sob seu comando, a fazer a ação de reintegração de posse, isso pode significar um massacre. E do município, a gente também cobra solução para as famílias, já que as famílias são de Contagem. Então, estamos fazendo essa pressão sobre o poder público.

    A situação hoje é tensa porque, no último dia 25, novamente a Ceasa Minas voltou a pressionar pela reintegração de posse. A informação que temos é que a juíza autorizou. E nós tivemos a informação, junto ao governo do Estado (por meio do representante da mesa de diálogo), que a polícia tem até o dia 17 de junho para cumprir esse despejo. Ou seja, a qualquer momento podemos ser surpreendidos com essa situação. O fato é que eles não ofereceram nenhuma alternativa digna e nenhuma negociação até agora. O que temos é o despejo pelo despejo.

    E.O.: Quais os próximos passos do movimento para evitar o despejo?

    Lacerda: Nós vamos fazer um ato de rua; estamos fazendo assembleias; estamos buscando apoio entre os sindicatos e tentando fazer uma reunião com a comissão jurídica para tentar reverter.

    E.O.: Nessa conjuntura de crise social e política, quando grandes empresas, principalmente construtoras, tem sido flagradas dando propina aos políticos, é uma grande contradição querer despejar o povo que não tem onde morar. Como você vê essa situação? Quais interesses têm por trás dessas tentativas de despejos?

    Lacerda: Nós vivemos em uma sociedade extremamente contraditória e desigual. A falta de moradias não está condicionada a falta de casas. Existem mais propriedades ociosas ou subutilizadas do que o próprio déficit habitacional brasileiro. A gente percebe que a falta de serviços sociais dignos não é pela falta de dinheiro. Nós somos a nona economia mais forte do mundo e em termos de desigualdade, os números são alarmantes. Esse cenário de corrupção, onde as grandes empresas e políticos se beneficiam em detrimento do povo trabalhador, só faz aumentar a nossa indignação e resistência.

    E.O.: Muito obrigado pela entrevista, Lacerda. Esperamos que a luta da Ocupação William Rosa seja vitoriosa.

  • Campanha arrecada para chá de bebê coletivo das mães do MTST

    Da Redação

    A Frente de Saúde Popular do MTST  está organizando uma campanha para realização de um chá de bebê coletivo para as mães do MTST. O encontro será no Morro do Preventório, em Niterói, no dia 9 de julho. Ao todo, 17 gestantes serão beneficiadas. Para apoiar, basta entrar no site de financiamento coletivo.

    A atividade é também o encerramento do quarto grupo de Mães do MTST. De acordo com as organizadoras, cada um dura, em média, seis meses, com encontros quinzenais. Discutem questões sobre saúde, transformação social, gênero e raça, além de saúde da mulher em suas várias fases da vida.

    “Toda mãe precisa de fraldas e itens de enxoval. Assim como as mães do MTST. São elas, em sua maioria, mulheres sem-teto, da favela, negras e solteiras, e sem condições financeira de garantir um enxoval completo. Por isso, precisamos da sua ajuda para o Chá de Bebê coletivo que faremos no dia 9 de julho”, explicaram as organizadoras.

    Assista ao vídeo da campanha

    Foto: Reprodução Facebook

  • OPINIÃO | Já não deu certo

    Por: Evila Almeida, da comunicação do Instituto Marx e Engels

    Sempre tive exemplos próximos do que é garra diante de dificuldades diversas, sorriso no rosto e muita sabedoria. Mesmo em um trabalho que não valorize suas forças, minha mãe é uma pessoa muito forte, trabalhou e trabalha diversas vezes como empregada domiciliar. Não uso o termo doméstica porque me remete a limitação e obediência, submissão mesmo. E tantas outras pessoas tenho como exemplos próximos. Tias, avós, amigos da construção civil, e outros. E se tem uma coisa que esse povo me ensina é a respeitar todas as profissões e saber que ter o alimento e as contas pagas é se sentir digno. A mesmo com muita dificuldade, conseguir tomar aquela cerveja no final de semana e seguir, mesmo com um governo e patrões que não respeitam setores profissionais.

    Maio de 2017. O Colégio Marista Champagnat e o Instituto Evangélico de Novo Hamburgo (IENH) ficaram conhecidos por terem promovido a atividade recreativa “Se nada der certo” entre suas turmas do 3° ano. A atividade, que aconteceu no mesmo mês deste ano, no IENH e em 2015 no Marista, é como uma festa à fantasia dos horrores e falta de respeito. Os alunos se vestem com fardamentos de dito subempregos, aqueles que não exigem diploma, dizendo que se a vida acadêmica não der certo eles podem recorrer a esses trabalhos para se manterem, passando a ideia de que quem não conseguiu estudar e fazer uma faculdade não deu certo na vida.

    A escola que deveria ser lugar de ensinar que o diferente é bem vindo e que respeitar a todos é a lei número um, está se tornando um espaço de segregação e julgamentos errados, opressão e reforço ao comportamento elitista branco, reforçando o racismo. Os pais têm uma responsabilidade muito importante com essa juventude, mas ao invés disso, andam de mãos dadas com essas escolas e enaltecem todos esses preconceitos de classe, gênero e raça.

    As bases de tudo que há em pé nesse país são construídas pelas mãos de todos esses trabalhadores e trabalhadoras, são essas pessoas que fecham, abrem, limpam, compram, vendem, trocam, estocam, transportam, plantam e tudo o mais que os nossos olhos alcançarem e a nossa mente imaginar. Imaginem ó o caos que seria se todas essas pessoas simplesmente resolvessem se permitir fazer alguma outra coisa que não seja trabalhar.

    Essa segunda escola que promoveu esse momento de desrespeito ao trabalhador tem orientação evangélica. Esquece que, segundo o evangelho, Jesus era carpinteiro e essa profissão não exige diploma. Segundo o evangelho, ele não deu certo?

    Por fim, deixo aqui a minha alegria particular, porque sei que tem uma outra parcela (e grande) de juventude, que milita e se indigna, que luta para que essas diferenças sejam sanadas, ou no mínimo diminuídas, que celebra o respeito acima de tudo, ao amor ao trabalho e à força do povo brasileiro que mais sofre. Que continuemos assim, tendo a possibilidade de lutar a favor de quem não pode gritar. Sermos a voz.