Nova Rota da Seda: o anúncio de um século chinês?

Por: Waldo Mermelstein, de São Paulo, SP

A China patrocinou em 14 e 15 de maio um grande fórum internacional para promover a Iniciativa Cinturão e Rota (ICR)[1], com a presença de mais de 20 chefes de estado e representantes de cerca de 60 países, além das principais instituições internacionais, como o FMI, o Banco Mundial, etc.

A ICR, lançada em 2013, inclui uma ampla rede de investimentos em dezenas de países e possui dois blocos constituintes e conectados em alguns pontos.

O primeiro bloco, o Cinturão, pretende interconectar por terra a China com a Europa. Possui várias vias alternativas passando pela Ásia Central, Oriente Médio e/ou a Rússia até chegar a vários pontos do continente europeu. Outra via se abre para o Sudeste Asiático e um corredor terrestre ligará a província de Xinjiang na China com o Paquistão, onde está sendo construído o porto de Gwadar[2].

O segundo bloco, a Rota, fará essa conexão pelo mar, até a Europa. Conectará vários portos na Índia, em Bangladesh e em Myamar, chegando ao mencionado porto de Gwadar no Paquistão, ao Sri Lanka, à África, em Djibuti (onde a China possui uma base militar), e chegando também à Europa a partir do porto de Pireus, na Grécia, comprado pelos chineses há alguns anos.

Os números dos investimentos anunciados na reunião em Beijing chegam a 900 bilhões de dólares somente nos próximos cinco anos, levando em conta apenas os compromissos feitos pelos organismos estatais chineses.

O valor total dos investimentos está estimado em cerca de 5 trilhões de dólares, embora não haja uma lista detalhada dos projetos. Há projetos em vários estágios de desenvolvimento, desde os que são apenas ideias, aos que estão sendo construídos e os que estão parcial ou totalmente em funcionamento.
Ressalte-se ainda que no conjunto dos investimentos uma parte se refere às obras dentro da própria China, em particular, mas não somente, nas regiões menos desenvolvidas e mais pobres do Oeste, como Xijiang e o Tibete.

Origem e objetivos da ICR
A ideia da ICR como projeto formal foi influenciada com o anúncio pelo governo Obama em 2011 de um “giro para a Ásia”, que envolveu o deslocamento gradativo da maioria da frota naval americana para a Ásia e o estabelecimento de alianças agressivas contra a China na região.

A ICR reflete também a nova escala atingida pela China na economia mundial[3] e sua progressão no sistema de estados. O objetivo estratégico mais imediato do governo chinês é o de estabelecer rotas alternativas para o escoamento de suas exportações, em sua grande maioria manufaturados, e as importações, muito especialmente de energia, pois o comércio do país passa quase todo pelo Mar do Sul da China e pelos estreitos deste para o Oceano Índico.

Os EUA, mais além do patrulhamento agressivo do Mar do Sul da China, mantêm o controle dos estreitos de acesso a este, em particular o de Malaca, na Malásia. Os chineses, ao mesmo tempo em que estabeleceram uma política ativa no Mar do Sul da China, procuram ter rotas alternativas por terra.

Do ponto de vista econômico, a ICR procura conseguir mercados e incentivar a exportação de capitais excedentes no país, em várias áreas de maior densidade tecnológica em que a China possui know-how elevado (siderurgia, construção pesada, telecomunicações, trens de carga e de alta velocidade) e estabelecer padrões dominantes que significariam mercados cativos para as suas indústrias.

Além disso, pretende investir parte de suas reservas em dólares em ativos mais rentáveis do que os títulos do Tesouro dos EUA e dar uma projeção internacional ao yuan como moeda forte para transações comerciais e financeiras. Para sustentar a ICR em termos financeiros, estabeleceu várias instituições de crédito, a mais importante das quais é o AIIB (Banco de Desenvolvimento de Infraestrutura Asiático) com capital de 100 bilhões de dólares.

O avanço Chinês
Trata-se de um fato de grande importância no cenário econômico e geopolítico mundial. Desde o começo do processo de restauração do capitalismo em 1978, sob a direção de Deng Xiaoping, a palavra-chave era a de manter um “perfil baixo”, enquanto a China se transformava internamente. Isso se prolongou aproximadamente até 2012. A partir de então, a linha estratégica passou a ser de ação visando a consecução do “sonho chinês” de “rejuvenescimento nacional”.

O ponto de partida em termos geopolíticos, foi uma atitude proativa na região, armando uma linha de defesa ativa no Mar do Sul da China e construindo uma área de influência no seu entorno para consolidar o seu papel como potência regional, caminho necessário para a ascensão mundial. Xi Jinping expressou isso com muita clareza em discurso em 2014, em uma conferência de países da região, ao dizer que “corresponde aos asiáticos gerir os assuntos da Ásia, resolver os problemas da Ásia e defender a segurança da Ásia”.

Como todo aspirante a potência mundial, a influência da China nos países vizinhos (o país tem fronteira com 14 nações) já é uma realidade: é o principal parceiro comercial da Ásia Central e do Sudeste Asiático e alguns países são extremamente dependentes de Beijing. Por exemplo, o PIB do Camboja em 2013 equivalia a 14 bilhões de dólares, ao passo que os investimentos chineses chegavam a 17 bilhões e os empréstimos chineses a 9 bilhões. Mesmo países mais desenvolvidos economicamente, como a Coreia do Sul, sentem o peso chinês, o que se pode ver no alcance das represálias chinesas contra a instalação do sistema de mísseis THAAD no país.

Mas não se limitam a esses países fronteiriços ou próximos: a China é também líder em exportações e importações na África e vem realizando imensos investimentos, em particular em setores de energia e transporte. Para se ter uma ideia das dimensões de sua expansão, acaba de ser inaugurada uma ferrovia no Quênia, ligando a capital, Nairóbi, ao porto de Mombasa, que custou 3,2 bilhões de dólares emprestados ao governo do país pelos chineses. Mombasa é um dos seis portos africanos incluídos no braço marítimo da ICR, faz parte da ofensiva chinesa na África. O total dos investimentos chineses na África entre 2005 e 2014 chegou a 300 bilhões de dólares.

Depois de ter sido o grande foco mundial de investimentos por duas décadas, a China começou a fazer o mesmo. Hoje ocupa o segundo lugar como maior investidor direto internacional, tendo chegado a 245 bilhões de dólares em 2016 e um total acumulado entre 2005 e 2016 que se calcula em 1,5 trilhão de dólares. A China já é uma exportadora líquida de capitais, ou seja, os investimentos chineses anuais no exterior já ultrapassaram os investimentos externos no próprio país.

Mesmo não estando oficialmente na ICR, a América do Sul tem sido um destino de investimentos chineses, em particular na geração de energia, transporte e mineração. O total, pela mesma estatística, foi de cerca de 140 bilhões de dólares, dos quais 51 bilhões no Brasil.

Como o projeto da nova burguesia que governa a China é o de procurar aceder aos níveis mais altos da cadeia produtiva, esses investimentos diretos estão indo em boa medida para os países desenvolvidos em empresas de alta tecnologia. Entre 2005 e 2016, os investimentos chineses nos EUA e na Europa chegaram a 380 bilhões de dólares, o que inclusive levou que EUA e Alemanha vetassem algumas aquisições.

Os limites chineses
A fulminante trajetória chinesa poderia levar a que se imaginasse uma ascensão irresistível a se constituir na primeira potência mundial. Mas para isso encontrará vários obstáculos.

Em primeiro lugar, em seu novo lugar no mundo, a China se defronta com as potências estabelecidas, em particular os EUA. Além disso, seu novo lugar em termos de investimentos fará com que se preocupe em protegê-los. Não por acaso, em 2015, o governo modificou sua lei antiterrorismo, autorizando que seus serviços de segurança atuem no exterior.

A relação com a Rússia é mais ambivalente. Apesar dos acordos econômicos realizados – como a compra de gás pela China no valor de 400 bilhões de dólares por 25 anos -, a China disputa uma zona de influência tradicional da Rússia, a Ásia Central.

O Japão é o mais sério e duro competidor. Além de aliado tradicional americano, tem tido uma política militar cada vez mais agressiva frente à expansão chinesa na Ásia. Japão e China são concorrentes diretos pela busca dos mercados. Por exemplo, a China ganhou no ano passado ano uma concorrência importante contra os japoneses para a construção de uma ferrovia para trens de alta velocidade na Indonésia, entre as duas principais cidades do país de 250 milhões de habitantes, o que lhe pode abrir o mercado do Sudeste Asiático. Por outro lado, o Japão domina 90% do mercado de carros no Sudeste Asiático e as empresas chinesas começaram a investir também nessa região.

Mas o mais importante são os limites internos chineses. Do ponto de vista econômico, há uma persistente superprodução em vários setores, como por exemplo o aço, em que a China é sozinha responsável pela metade da produção mundial. Além disso, chama a atenção a fuga de capitais que já diminuiu suas reservas externas em 1 trilhão de dólares – de 4 para 3 trilhões -, no espaço de dois anos, obrigando o governo a estabelecer um forte controle de capitais. Isso impacta diretamente sobre os investimentos externos privados, ainda mais dada a incerteza de rentabilidade em vários projetos da ICR. A fuga dos capitais para a especulação mostra persistência muito forte, como o recente aumento do peso dos chamados “bancos sombra” – que operam fora do sistema bancário formal e que se calcula que movimentem 6 trilhões de dólares ou 15% do sistema bancário.

O endividamento público elevado – 250% do PIB -, aliado à queda na taxa de lucros no país[4], aumenta a instabilidade da economia. Mas é equivocado traçar um esquema linear: o aumento dos problemas econômicos, em particular a superprodução em vários setores, pode fazer o governo aumentar a aposta nos investimentos no exterior e nas áreas do Oeste do país, onde os salários são bem mais baixos.

Do ponto de vista interno, o único fator que pode frear essa expansão é o poderoso exército de centenas de milhões de trabalhadores que vêm fazendo sua experiência de lutas nas últimas décadas. Mesmo que partam de um nível de organização e consciência extremamente baixos e ainda não haja organismos independentes de trabalhadores e de camponeses, o número das mobilizações não deixa de crescer. Não é por outra razão que o outro diferencial do atual governo chinês é uma repressão ainda mais dura sobre qualquer tentativa de organização que escape dos sindicatos oficiais e do controle das instituições do estado.

Aproveitando a crise dos EUA
O Projeto Trump, nacional-imperialista autárquico, abre oportunidades para a China disputar a globalização neoliberal. Por exemplo: ao suspender o TPP, a China se colocou como alternativa e agora com a retirada dos EUA do Acordo de Paris sobre o Clima, a China se colocou como alternativa para manter o projeto

A implementação desse projeto abriu uma crise na frente externa e interna. Embora o giro pelo Oriente Médio e Europa parece indicar certo enquadramento da política externa da administração Trump ao establishment Republicano, os Democratas já falam em impeachment.

Enquanto isso a China avança. O fórum internacional para promover a Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) é um exemplo disso. É movimento chave no tabuleiro da geopolítica mundial.

[1] A “Rota da Seda” consistiu num conjunto de rotas comerciais, principalmente terrestres, que uniram a China com a Europa, sendo algumas delas construídas antes mesmo da era cristã. Elas só vieram a ser superadas pelas rotas abertas pelas potencias europeias durante a expansão do comércio mundial durante o século XV e XVI, a exemplo do Cabo da Boa Esperança, que contornando a África deu acesso à China e à Índia. Até esse período a China ainda era uma potência comercial e marítima.

[2] Um dos corredores em que há mais investimentos liga a província de Xinjiang, no noroeste da China, com o porto de Gwadar, no Paquistão, cujos investimentos somarão US$ 62 bilhões. Consta de rodovias, ferrovias, gasodutos, centrais elétricas (inclusive de energia solar) e mineração de carvão. Com ele, o estado chinês conseguiria abreviar enormemente o tempo de transporte de matérias primas, particularmente petróleo, em relação à rota marítima tradicional que passa pelo estreito de Malaca e pelo Mar do Sul da China. Como em outros projetos contidos na ICR, vários são os interrogantes. Primeiro os relacionados à viabilidade econômica, passando pelos conflitos sociais e geopolíticos, pois o porto fica em uma das regiões mais explosivas do país, com minorias étnicas que lutam por seus direitos e, além disso, a rota passa pela Cachemira paquistanesa, disputada pela Índia. Além disso, há indicações de que o porto também poderia abrigar uma base naval chinesa. Esses motivos levaram a Índia a ser o único grande país a boicotar o último fórum da ICR. Por outro lado, o Paquistão se comprometeu em colocar 10 mil soldados para proteger as instalações e o pessoal chinês que constrói o porto e as rodovias de acesso desde Xinjiang.

[3] Após um crescimento excepcional de seu PIB (de 180 bilhões em 1980 para 11 trilhões em 2015) que passou de 2,5% do mundo para 13,5% entre 1983 e 2014, da acumulação de reservas internacionais que chegaram a 4 trilhões de dólares em 2015 e de investimentos maciços em fontes externas de energia e matérias primas no mundo desde os anos 2000, a China a partir de 2010 já tinha a segunda economia do mundo e hoje, se for utilizado o critério de Paridade de Poder de Compra, já passou os EUA, ainda que em termos per capita, os EUA ainda estejam muito na frente: o PIB per capita da China é de 14 mil dólares e o americano, de 54 mil.

 

[4] Gaulard_fig4-e0d3d
Evolução da taxa de lucros na China, citada por Myléne Gaulard em http://www.cadtm.org/spip.php?page=imprimer&id_article=12915.

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