Por que a Carne Fraca está derrubando o governo Temer?

Por: Euclides de Agrela, de Fortaleza, CE

O vazamento de áudios por um dos donos do grupo JBS, Joesley Batista, com as vozes do presidente Michel Temer (PMDB) e do senador Aécio Neves (PSDB) negociando propinas milionárias para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), que se encontra preso, e financiar a defesa de Aécio surge como uma hecatombe nas investigações da Lava Jato.

A delação bombástica de um investigado que sequer estava preso, portador das provas materiais até agora as mais consistentes, não contra Lula, Dilma e o PT, mas contra o atual presidente da República e um dos principais representantes da base de apoio ao seu governo, teve como motivações fundamentais a defesa e a preservação da maior empresa privada de carnes do mundo, o próprio grupo JBS.

JBS: a maior empresa de carnes do mundo é brasileira

O grupo JBS pertence aos irmãos os irmãos Wesley e Joesley Batista, oriundos do estado de Goiás. Portanto, engana-se quem pensa que o grupo JBS é filial de frigoríficos transnacionais estadunidenses. Tudo ao contrário.

Os centenários frigoríficos estadunidenses Swift foram adquiridos pelo JBS em 2007, por 1,4 bilhão de dólares. A aquisição da Swift transformou o JBS no segundo maior produtor de alimentos do mundo, com 163 bilhões de reais de faturamento, em 2015, atrás apenas da suíça Nestlé. Mas isso não é tudo.

Segundo a Isto É Dinheiro, o grupo JBS é dono de 56 fábricas de processamento de carnes nos Estados Unidos. Ao adquirir a empresa de frangos Pilgrim’s Pride (2009) e a Cargill Pork (2015), a companhia brasileira passou a liderar o mercado americano de frangos e tornou-se a segunda maior na produção de carne de porco, atrás da Smithfield Foods, e disputa a liderança em bovinos com a Cargill Beef e a Tyson Foods. Com tal porte, 47% das vendas globais da JBS já vêm dos EUA.

A revista Capital Aberto informa ainda que, além da Swift & Company dos EUA e da Austrália, da Pilgrim’s Pride e da Cargill Pork, em 2009 o grupo JBS incorporou a brasileira Bertin; em 2013 adquiriu ativos da XL Foods nos EUA e no Canadá e comprou a Seara no Brasil; em 2014 abocanhou a australiana Primo SmallGoods e as operações brasileira e mexicana da Tyson Foods; em 2015 comprou a Moy Park no Reino Unido; em 13 de março deste ano adquiriu a Plumrose USA. Essas incorporações agigantaram o grupo JBS e consolidaram seus negócios em diversos segmentos e países. Com tudo isso, O faturamento do grupo passou de 4,3 bilhões de reais em 2006 para 170 bilhões de reais em 2016, ou seja, um crescimento de 40 vezes num período de apenas 10 anos.

Esse crescimento meteórico do grupo JBS como uma empresa global foi financiado essencialmente por empréstimos e subsídios estatais. O impeachment da presidente Dilma e os desdobramentos da Operação Lava Jato puseram abaixo o sustento do crescimento exponencial dessa megacorporação pelo Estado brasileiro. Segundo a Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio, após a Operação Carne Fraca, deflagrada no último 17 de março, as exportações brasileiras de carne bovina caíram em valor (3,3%, para 486,52 milhões de dólares) e em volume (11,2%, para 121 mil toneladas). Em 23 de março, o grupo JBS anunciou a suspensão, por três dias, de sua produção em 33 das 36 unidades de abate que mantém no Brasil. Posteriormente as atividades foram retomadas, mas com capacidade 35% menor.

As operações da PF sobre o financiamento do grupo JBS

O grupo JBS, durante o governo Lula, foi escolhido para ser um dos campeões nacionais do agronegócio, recebendo gordo apoio financeiro para entrar no clube dos grandes conglomerados mundiais.

Lula, Dilma e o PT não inventaram a roda. Apenas seguiram o exemplo de países imperialistas, como os Estados Unidos, e os atuais Global Players, Rússia e China, no suporte e patrocínio de suas transnacionais no mercado mundial. O problema é que um Brasil Global Player e empresas tupiniquins como grandes players globais, numa época de concentração dos monopólios privados que dominam a economia mundial, se chorariam como se chocaram com os interesses imperialistas. Senão, vejamos.

A atual configuração do JBS é resultado de uma frenética corrida de compras financiada, sobretudo, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que realizou os maiores investimentos da sua história em uma única empresa privada. Presentemente a BNDESPar, braço de participações do BNDES, tem um assento no conselho de administração do JBS e 20,36% do capital da companhia, sendo a segunda maior acionista do grupo, atrás apenas de seus proprietários, os irmãos Wesley e Joesley Batista.

Além do BNDES, o grupo JBS conseguiu financiamento bilionário junto aos fundos de pensão das empresas estatais brasileiras e à Caixa Econômica Federal. É exatamente a captação desses recursos o alvo das operações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) sobre o JBS.

A Operação Carne Fraca, executada em março deste ano, acusou os maiores frigoríficos brasileiros – dentre eles a JBS, dona das marcas Seara, Swift, Friboi e Vigor, e a BRF, dona da Sadia e Perdigão – de adulterar a carne vendida no mercado interno e externo. Mas a Carne Fraca foi apenas a ponta do iceberg. Além da Carne Fraca, o grupo JBS é investigado em outras operações.

A Operação Bullish está focada em irregularidades envolvendo empréstimos do BNDES a J&F Investimentos, vinculada ao grupo JBS. Esta operação tem como objetivos buscar provas que corroborem conexões entre a JBS, o BNDES e o ex-ministro Antônio Palocci. A PF suspeita que o ex-ministro tenha sido um dos mentores e organizador, por meio de sua empresa de consultoria, da transformação da JBS na maior empresa de carnes do mundo. Deflagrada no dia 12 de maio, a Operação Bullish investiga investimentos totais de 8,1 bilhões de reais. Há suspeitas de prejuízo causado aos cofres públicos na ordem de 1,2 bilhão de reais.

Cabe destacar também a Operação Greenfield, que desde setembro do ano passado apura irregularidades da J&F Investimentos, que podem ter causado prejuízos de 8 bilhões de reais aos fundos de pensão de funcionários de Caixa Econômica Federal (Funcef), Banco do Brasil (Previ), Correios (Postalis) e Petrobras (Petros). A PF acusa essas fundações de comprarem cotas de Fundos de Investimento em Participação (FIPs) com base, supostamente, em avaliações econômico-financeiras irreais e tecnicamente irregulares, que superestimavam artificialmente o valor dos ativos. Como resultado da primeira fase da Greenfield, os irmãos Wesley e Joesley Batista, donos do JBS, firmaram um acordo com o MPF no qual aceitaram apresentar uma garantia financeira de 1,5 bilhão de reais.

Além de Carne Fraca, Bullish e Greenfield outras duas operações envolvem as transações financeiras do grupo com empréstimos estatais: a Sepsis e a Cui Bono. Iniciada em julho passado, a Sepsis revelou que a Eldorado, empresa do grupo JBS, pode ter sido favorecida por um aporte de 940 milhões de reais do Fundo de investimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FI-FGTS), liberado mediante o pagamento de propina pela empresa, entre outras pessoas, ao ex-executivo da Caixa, Fábio Cleto.

Já a Cui Bono, um desdobramento da Lava Jato, apura a suspeita de que J&F e JBS fazem parte de um grupo de empresas beneficiadas por um esquema de fraudes na liberação de créditos pela Caixa, de 2011 a 2013. Na época em que Geddel Vieira Lima, investigado pela Lava Jato, foi vice-presidente de pessoa jurídica da Caixa, o frigorífico recebeu um financiamento de 1,8 bilhão de reais. E a J&F da família Batista foi agraciada com 500 milhões de reais vindos de uma emissão de títulos financeiros (debêntures) totalmente adquirida pela Caixa.

JBS Foods International: Ações na Bolsa de Nova York, sede na Europa

Essa sequência de escândalos jogou um balde de água fria, pelo menos por enquanto, no plano do frigorífico de lançar uma oferta pública de ações da JBS Foods International (JBSFI), o braço internacional do grupo JBS, na bolsa de Nova York.

Nesse processo, o grupo JBS transferiria ativos responsáveis por 80% do faturamento à JBS Foods International, que teria sede na Irlanda e ações na bolsa estadunidense. No Brasil, a JBS seguiria listada na Bovespa, mas após uma redução de capital, a JBS Foods International passaria a ter, pelo menos, 75% da JBS Brasil. Ao fim e ao cabo, portanto, a empresa irlandesa controlaria a JBS.

Além de lançar suas ações na bolsa de Nova York, a JBS pretendia que a JBS Foods International se tornasse, na prática, a controladora da JBS no Brasil. O que foi vetado pelo BNDES. Em 26 de outubro de 2016, o BNDES justificou o veto à proposta de reorganização societária alegando que a companhia, que é a maior empresa privada não financeira do país, seria desnacionalizada, ou seja, deixaria de ser uma empresa brasileira, passando a ser uma empresa submetida à legislação e jurisdição estrangeira, com sede na Irlanda e suas principais ações negociadas na Bolsa de Nova York.

Devido ao veto, a JBS no Brasil passaria a ser a controladora da JBS Foods International. Em vez da Irlanda, a sede da JBS Foods International será agora, supostamente, na Holanda.

JBS manda Temer e Aécio para os esgotos da República

Os irmãos Batista agiram rápido em defesa de sua megacorporação, escolhendo o caminho oposto ao da família Odebrecht, que viu seus negócios sangrarem enquanto vacilavam em colaborar com a Lava Jato. Só que as bombas lançadas por Joesley Batista não miraram Lula, Dilma e o PT, mas o governo de Michel Temer e, o até então principal presidenciável do PSDB, Aécio Neves.

Desde março as gravações haviam sido transformadas em peças do processo e, somente agora, foram divulgadas por iniciativa de Joesley Batista que vazou os áudios para a grande imprensa.

O grupo JBS pode até sobreviver à Lava Jato, mas o governo Michel Temer e a carreira, sem trocadilhos, do Senador Aécio Neves provavelmente irão por água abaixo, para os esgotos da República.

A motivação de uma manobra tão arriscada é óbvia: o grupo JBS passou, em menos de um ano, de menina dos olhos do agronegócio do Brasil no mercado mundial, catapultada por substanciosos recursos estatais, a uma empresa acusada de adulterar seus produtos, investigada por meia dúzia de operações da Polícia Federal, tendo seus donos ameaçados de prisão e sendo obrigados a devolver aos cofres públicos bilhões de reais dos empréstimos concedidos pelos governos de Lula e Dilma.

Não foi à toa que o movimento dos irmãos Batista, anterior à delação de Temer e Aécio, foi preparar o grupo JBS para, depois das vultuosas aquisições de empresas e frigoríficos nos Estados Unidos e em vários outros países, deixar a territorialidade brasileira, na medida em que quase metade dos seus negócios já se concentram nos Estados Unidos, onde são donos de 56 empresas. Apesar disso, não está até agora em discussão a transferência da sede da empresa para os Estados Unidos, na medida em que o imperialismo norte-americano, se o autorizasse, compraria uma briga com as megacorporações do seu próprio agronegócio.

Para uma megacorporação do porte do grupo JBS, depois de engordar com gigantescos subsídios estatais, não haveria nenhum problema em abandonar seu centro de operações no país, se o governo de turno não estivesse mais disposto a bancar seu jogo no mercado mundial. Com orçamento maior que muitos países, poderia migrar tranquilamente para Irlanda ou Holanda e transformar a JBS Brasil apenas na filial da JBS Foods International.

O caso do grupo JBS é mais uma demonstração do quanto os setores da burguesia brasileira mais rentistas e vinculados ao imperialismo estão dispostos a liquidar com o projeto Brasil Global Player do PT e submeter mais ainda o país, na condição de sócio menor, aos bancos e transnacionais imperialistas com sede nos Estados Unidos.

Por outro lado, depois de turbinado pelo BNDES, fundos de pensão e pela Caixa, o grupo JBS não hesitou em deixar seu centro de operações no Brasil, tentando desnacionalizar a empresa, o que demonstra o caráter utópico e reacionário do projeto Brasil Global Player do PT.

Na época do monopólio privado das megacorporações transnacionais sobre a economia mundial, não há outra saída para os países periféricos que a ruptura definitiva e profunda com o imperialismo, bem como a nacionalização e estatização dessas mesmas megacorporações nacionais e estrangeiras sob controle dos trabalhadores e do povo.

Referências

1. A revolução americana da JBS. Isto É Dinheiro. Fonte.

2. A sangria da JBS. Capital Aberto, 07 de maio de 2017. Fonte.

3. CAF aprova reestruturação da JBS. Capital Aberto, 12 de maio de 2016. Fonte.

4. JBS faz proposta para criar nova empresa com sede na Irlanda, 11 de maio de 2016. Fonte.

5. JBS é investigada em cinco operações da polícia federal, 18 de maio de 2017. Fonte.

6. JBS Foods International fará oferta pública inicial de ações nos Estados Unidos, 05 de dezembro de 2016. Fonte.

7. JBS Foods International fará oferta de ações nos Estados Unidos, 06 de dezembro de 2016. Fonte.

8. Joesley “rifou” Brasil para garantir migração da JBS aos EUA. Valor, 18 de maio de 2017. Fonte.

9. Operação Bullish é deflagrada quase dois meses após decisão de juiz, 12 de maio de 2017. Fonte.

10. PF faz conexão entre Palocci, BNDES e JBS. Época Negócios, 13 de maio de 2017. Fonte.

Foto: 18/5/2017- Brasília- DF, Brasil- O presidente da República do Brasil, Michel Temer, faz pronunciamento à Nação dizendo que não renunciará. Temer foi citado pelos empresários Joesley e Wesley Batista (donos do frigorífico JBS) durante delação à Procuradoria Geral da República de ter dado aval para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (preso em Curitiba). Foto: Lula Marques / AGPT

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