Temer não cairá sozinho

Por: Yuri Lueska, do ABC paulista

Ontem, dia 18, foi um dia longo, onde, além de ter-se movido, inúmeras peças do tabuleiro político, é possível identificarmos dois equívocos que permeiam a esquerda brasileira. No decorrer das horas, todas e todos compartilhavam opiniões, avaliações e especulações políticas. Não havia quem não esperava o pronunciamento do presidente Temer. Este pronunciamento, marcado inicialmente para a manhã, atrasou, remoendo ainda mais a ansiedade coletiva. Muitas e muitos estavam certos: Temer já não era mais presidente. Infelizmente, a realidade e a política não costumam ser impressionadas por si mesmas.

Foi às 16h que o presidente frustrou a expectativa nacional. Dois enfáticos “eu não renuncio” espantaram os mais céticos. O defunto foi em rede nacional comunicar que estava vivo. Após o anúncio presidencial, se conformaram manifestações Brasil a fora, onde destaca-se as ocorridas no Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belém. O dia terminou com repressão na capital fluminense e em outras cidades.

Hoje, sexta-feira, passado os turbilhões do “dia D”, podemos perceber claramente um reposicionamento das peças. Tanto o Grupo Folha, quanto o Estadão, em seus editoriais e posições oficiais, já abandonaram o campo a favor da queda de Temer. Literalmente, privilegiam a aplicação das reformas à moral da República. Já a Rede Globo, entusiasta ontem da queda de Temer, mas avessa a cavalos de pau, hoje rifa o bandido do Aécio, mas está mais amena em relação ao presidente. O campo governista encontra-se muito frágil, mas não morto. Articula-se para uma guerra de vida e morte.

Uma coisa podemos afirmar. Temer encontra-se numa das crises mais graves enfrentadas por um presidente brasileiro, e, perdeu a capacidade moral de permanecer no cargo e aplicar as reformas. Mas, não podemos afirmar que cairá sozinho, como uma fruta madura. E aqui entram dois erros que a esquerda brasileira têm, e que deve refletir.

Em primeiro lugar, consolidou-se em todos nós um fervoroso impressionismo. Vivemos na era da notícia em tempo real. Furos jornalísticos sucedem furos anteriores, acompanhados de comentários em tempo real. Quem consegue manter um aparato compatível com tais furos é a grande imprensa, cuja natureza é inquestionavelmente impressionista. Ou seja, destacam um elemento da realidade e isolam este – com objetivo midiático – desfigurando a realidade.

Que a grande mídia é assim é uma constatação. O problema é que, muitas vezes, alimentados por tal característica, nós acabamos por incorporar de tal atributo, correndo de um lado para o outro, conforme o impressionismo do momento pede. Temos que nos lembrar que a paciência é a principal qualidade dos que têm pressa. Não existe atalhos na luta de classes. Os momentos políticos exigem tarefas e firmeza. Precisão e calma são atributos indispensáveis para vencer cada leão imposto.

Em segundo lugar, o fortalecimento do poder judiciário, e sua politização, tornou hábito no nosso país de este interferir no poder político. Mais que isso, acostumou-se entre os populares esperar que este o substitua nas suas tarefas. Que a população pense assim, serve para atentarmos para a necessidade da disputa ideológica. Temos que explicar pacientemente que o poder judiciário não é aliado do povo brasileiro, mas sim seu inimigo. Terceirizar a tarefa para este é entregar a arma a um inimigo fantasiado de cordeiro. O problema mais grave não está aí. Mas sim, no fato de que – em alguns casos inconsciente, em outros conscientes – a vanguarda da classe trabalhadora, suas correntes e principais ativistas acreditam que as ações do judiciário são suficientes. Esquecemos que o país vive uma disputa inter-burguesa. Conformamos que basta nos diferenciarmos. Esquecemos do bom e velho trabalho de base.

Temer está na corda bamba. Está frágil e machucado, mas não está morto. Acreditar que o presidente ilegítimo está prestes a morrer, que é uma questão de tempo, é dar o direito de este recuperar-se. Temer não cairá sozinho. Precisa ser derrubado. Não nos cabe agora festejar, nos cabe militar. E muito.

Foto: Julia Gabriela

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