Surto de Chikungunya em Fortaleza: mais uma triste face da crise urbana

Daniela Franklin (estudante de enfermagem) e George Bezerra (professor de Geografia), ambos do Quintino Cunha Social*
*Grupo de moradores do bairro Quintino Cunha, bairro da zona oeste de Fortaleza.

O Ceará está em alerta pela possibilidade de uma epidemia de chikungunya. No mês de Abril desse ano, a Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (SESA) confirmou 6.217 casos no estado. Se formos comparar com o ano passado, no mês de Abril de 2016 foram notificados somente 216 casos, ou seja, houve um aumento de mais de 2.000% no número de casos de lá para cá.

Porém, é bem provável que dados oficiais estejam subestimados. Isso porque é comum o paciente, que apresenta o quadro da doença, ser atendido na emergência médica e voltar para casa sem passar pelo teste do PCR – exame que identifica a presença do material genético do vírus no sangue do paciente. Possivelmente, vários bairros de Fortaleza estão vivendo uma crise epidemiológica. É o caso do Quintino Cunha, Antônio Bezerra e Autran Nunes. A frequência escolar de colégios localizados nesses bairros está abaixo da média devido o número de estudantes que contraem a enfermidade.

A chikungunya é uma doença causada por um arbovírus -um vírus transmitido por artrópodes- e é transmitida pela fêmea do mosquito do gênero Aedes. Apresenta como sintomas febre elevada, dor de cabeça, inchaço e dores fortes nas articulações. A pessoa acometida pela doença fica sem condições de trabalho. O tratamento é baseado no repouso, ingestão de líquido, alimentação adequada e o uso de anti-inflamatórios, analgésicos e antitérmicos. Mesmo após a liberação médica para o trabalho, a inflamação e as dores nas articulações podem persistir, ainda que com menor intensidade, por meses. Um período adequado de descanso é fundamental para o desaparecimento dos sintomas.

Na falta de vacinas para a zica, dengue e chikungunya, muito tem-se falado em formas de combater o mosquito. Entretanto, atualmente, todos os esforços têm sido concentrados em responsabilizar a população, desviando o foco do real problema: a falta de saneamento básico e de uma coleta eficaz para todos os tipos de resíduos sólidos.

A falta de saneamento básico desencadeia uma série de desastres e penaliza a população que mora em periferias, já que são as pessoas que mais sofrem com a falta dele. Uma parte da população sem água em casa e que precisa guardar água em potes, baldes, entre outros recipientes, acaba contribuindo, mesmo que sem querer, para a proliferação do mosquito, pois a água parada é um local propício para isso. Muita gente não sabe, mas o mosquito também consegue se reproduzir no esgoto.

A falta de coleta de lixo adequada, concomitantemente aos períodos de chuva, é mais uma oportunidade para a reprodução do mosquito, porque a água tende a se acumular em pneus, garrafas, entre outros objetos. Vale ressaltar que, nos bairros da periferia de Fortaleza, o aparecimento e a proliferação dos lixões a céu aberto voltaram a crescer. Os cortes de verbas no setor, o sucateamento da EMLURB (Empresa Pública de Limpeza Urbana) e a privatização do serviço de coleta de lixo são dados que nos ajudam a entender essa realidade.

A questão de fundo é que tornou-se impossível falarmos do combate ao mosquito transmissor da doença se somente focarmos no discurso do combate domiciliar do mesmo. É importante falarmos sobre isso? Sim, sem dúvida.  Mas não deveria ser tratado como se fosse a solução do problema. Pouco adianta virar as garrafas para baixo, esvaziar as prateleiras dos supermercados comprando repelentes, encher os pratos de vasos de plantas com areia, se o principal não for feito. Enquanto o Estado continuar buscando soluções isoladas, não dará certo. Precisamos de saneamento básico e coleta de lixo de qualidade. Sem enfrentarmos os aspectos socioambientais da crise urbana, não conseguiremos evitar novos surtos da doença nos próximos anos.

De imediato, é preciso de um plano emergencial de controle epidemiológico. O governo do estado (Camilo Santana-PT) e a prefeitura de Fortaleza (Roberto Cláudio-PDT) insistem na adoção de uma irresponsável postura de aparente normalidade diante do aumento assustador dos casos de chinkungunya. Um fortalecimento substancial e imediato das equipes de agentes sanitaristas, saúde e endemias faz-se necessário. São estes profissionais que entram nos bairros, identificam e eliminam focos, além de cumprirem o papel de educadores ambientais dentro das comunidades. É fundamental também o aumento da frota dos caminhões-caçamba para eliminar os lixões. Ao mesmo tempo, é preciso adotar uma fiscalização rígida dos imóveis fechados e terrenos particulares, o que não deixa de ser uma forma de combate à especulação imobiliária.

É claro que estamos falando de ações emergenciais para uma situação emergencial. Como dissemos antes, é fundamental adotar uma nova lógica urbana que promova desenvolvimento humano e ambiental. Sem isso, o combate ao aedes aegypti não passará de campanhas cheias de boas intenções. Isso significa mudar, pelo avesso, as prioridades dos orçamentos municipais e enfrentar os interesses dos grandes grupos privados do capital que, cada vez mais, querem reduzir o direito à cidade àqueles que podem pagar por ela.

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