Uma década de lutas desde a Ocupação da USP: memórias

Por: Bruno Terribas, de Belém do Pará

Há exatamente 10 anos estive entre as centenas de estudantes que, numa decisão audaz para o cotidiano do movimento estudantil de então, ocuparam o prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) – a tomada anterior a esta datava de 1982.

A maior parte deles se envolvia pela primeira vez numa atividade política de relevância nacional. Ainda que naquele momento poucos pudessem imaginar que seria essa a proporção que aquele movimento viria a tomar. Da cobrança por um posicionamento da reitora Suely Vilela em relação a decretos do governo do Estado de São Paulo que feriam a autonomia universitária, passamos a uma disputa política direta com José Serra (PSDB), então à frente do Palácio dos Bandeirantes. Tudo isso sob forte ataque da mídia corporativa, que como regra criminaliza e tenta desmoralizar as mais diversas lutas.

Entre minhas primeiras recordações particulares, lembro de ter ligado em casa para avisar que não dormiria lá aquela noite, para preocupação da minha mãe, e do banco duro de madeira em que tentei descansar algumas horas. Que foram poucas, após a adrenalina da assembleia da noite, que seria a primeira de dezenas, muitas intermináveis, na qual discutíamos de questões mais imediatas a resoluções sobre a conjuntura nacional, internacional e talvez intergaláticas.

Durante aqueles 51 dias participamos de uma intensiva formação política e humana. Na USP estão representadas praticamente todas as organizações partidárias (eleitorais ou não) e libertárias da esquerda no país. Diariamente fazíamos avaliações e votávamos resoluções a partir das propostas das dezenas de legendas, coletivos, correntes, etc. As assembleias gerais em frente à reitoria reuniam milhares de estudantes. O Diretório Central dos Estudantes, dirigido então pelo PT e PC do B, foi logo varrido do movimento ao tentar negociar em nome da ocupa sem autorização.

A integração entre a ocupa da USP e os movimentos aliados nas outras duas universidades estaduais paulistas (Unicamp e as dezenas de campus da Unesp) era intensa e fortalecia reciprocamente as ações. Foram realizados diversos atos conjuntos de rua, que chegaram a reunir dez mil estudantes. A palavra de ordem mais me marcou quando gritávamos a plenos pulmões ao som de percussão de maracatu era: “trabalhador, desempregado, estudante/ contra o governo, decreto e reitoria: adiante, adiante, adiante!”.

Por todo o estado pipocavam atos e ocupações de campus universitários. Assembleias de cursos e das demais categorias da comunidade acadêmica (professores e funcionários) votavam massivamente a greve “até a derrubada dos decretos”. Professores que apoiavam o movimento como Luizito (ECA), Carneiro, Coggiolla, Mussi (FFLCH), Ortellado (USP Leste) – entre outros que cometo o pecado de não mencionar neste momento, davam aulas públicas de suas disciplinas dentro da reitoria ocupada. Os sindicalistas do Sintusp Brandão, Neli, Magno e Aníbal, para citar alguns, contribuíam com a sagacidade organizativa de sua longa experiência de lutas.

Naquele universo particular que havia se tornado o “bloco K” (o prédio da reitoria havia sido planejado inicialmente para servir de moradia no Conjunto Residencial da USP – Crusp), nos organizávamos em comissões executivas das tarefas necessárias. Comunicação – a mais disputada pelas organizações políticas, Alimentação, Limpeza, Segurança e Cultura eram algumas delas.

Eu, que chegava na USP após o trabalho, me incorporei à de segurança. Que na prática fazia o controle de acesso à ocupação e o serviço de “olheiros” no topo do edifício. O frio nessa época na capital paulista já era intenso, e contávamos com nossos cobertores e o abastecimento constante de café para cumprirmos nosso “turno”. O temor de uma invasão policial repentina estava sempre presente, mas fortalecia a relação de confiança com aqueles desconhecidos com quem dividíamos os postos em duplas. Verdadeiras amizades nasceram a partir destas jornadas de observação.

As atividades da greve e da ocupação se multiplicavam. Sopão do pessoal da Nutrição, pocket show do Tom Zé, oficinas dos mais diversos tipos, além dos atos simbólicos como a troca das bandeiras da universidade por “reitoria ocupada” no teto do prédio e o dia que foi estendida da enorme faixa com os dizeres “Universidade Livre” na Torre do Relógio. Aquele nosso maio de 1968 permitia realizar tudo que nosso impulso criativo-militante-juvenil permitia projetar. Em frente à entrada principal, uma fogueira foi mantida acesa de maneira ininterrupta por semanas, aquecendo conversas e encontros com pessoas dos mais variados perfis e militâncias (ou não). A barricada permanente de pneus, enfeitada com faixas e cartazes, mais do que proteger, simbolizava a disposição de resistir a qualquer investida.

A guilhotina da repressão ameaçou descer sobre nossas cabeças três semanas depois do início do movimento, quando passamos uma madrugada bastante tensa. O governo do Estado havia marcado para 24 de maio a “desocupação pacífica” (sic) da reitoria com uso da PM. As organizações e militantes passaram a madrugada toda discutindo como seria a resistência. Venceu a tática não-violenta, o que incluiu tomarmos (eu e um amigo) uma advertência por armarmos uma linha de mangueiras de incêndio para serem acionadas caso a polícia entrasse no prédio. Felizmente, o governo não sentiu condições políticas de fazer a reintegração. Logo no início da manhã se reuniram centenas de apoiadores da ocupação, entre eles professores, parlamentares, artistas e ativistas de diversos setores que deram um bonito e emocionante abraço ao nosso Palácio de Inverno estudantil.

Uma semana depois, enfraquecido pela repercussão nacional negativa e pelo apoio da opinião pública ao movimento dos estudantes, o então governador Serra publicaria um “decreto declaratório”, que na prática revogava suas medidas iniciais. A maior parte do movimento ainda não viu o recuo como vitória definitiva, o que manteve o impasse e levou a ocupação três semanas mais adiante. Um setor da ocupação inclusive propunha a tomada do prédio de forma permanente, para que ele retornasse à condição de moradia estudantil como originalmente planejado.

A assembleia do 50º dia decidiu o encerramento da ocupação, após a negociação de alguns avanços de pautas locais junto à reitoria da USP. Foi um momento bastante emocionante para aqueles que conviveram por tanto tempo juntos naquelas condições especiais. Como não poderia deixar de ser num movimento dessa característica, fizemos uma bela festa de “despedida” e no dia seguinte saímos do prédio para ocupar novos terrenos políticos.

Ainda hoje sinto um grande laço de solidariedade política com muitos dos que dividimos aqueles dias de luta e esperança. Hoje em dia vejo e encontro muitos atuando em várias frentes dos movimentos sociais. Nas jornadas de junho de 2013 e noutras diversas greves, protestos e atos voltei a ver aqueles rostos conhecidos. Lembrando-nos ou não do nome uns dos outros ao encontrarmo-nos, sentimos a satisfação de sabemos que seguimos mesmo lado, o da mudança.

 

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