Presidenciais francesas: algumas tendências que incidem sobre uma eleição indefinida

Por Renato Fernandes, Campinas/SP

No próximo domingo, 23/4, ocorrerão as eleições francesas. De acordo com as pesquisas o cenário ainda continua indefinido. A última pesquisa publicada nesta sexta-feira, 21, confirmou que o ex-banqueiro Emmanuel Macron (24%) e a candidata da extrema direita, Marine Le Pen (22,5%), estão na frente e são os que têm maiores chances de chegarem ao segundo turno. Porém, eles estão sendo seguidos de perto pelo candidato da direita conservadora e neoliberal François Fillon (19,5%) e o nacionalista de esquerda Jean-Luc Mélenchon (18,4%). Este último teve um crescimento impressionante, já que tinha 9% das intenções de voto em 1º de fevereiro.

Ao mesmo tempo, o índice de indecisos é bastante alto: 26% dos eleitores declaram que podem mudar sua escolha até domingo. A abstenção também tende a ser alta: 27%, ou seja, maior do que a de 2012 (20,52%) e a de 2007 (16,33%). Porém, essa alta taxa de indecisos e de abstenção pode modificar o cenário e colocar, qualquer um dos quatro primeiros candidatos, no segundo turno. Para além dos dados, existem processos e tendências que embolam ainda mais esse cenário indefinido.

A crise da União Europeia e a decadência do imperialismo francês

Desde a crise de 2008, a União Europeia (UE) encontra-se em uma tendência de concentração de poder no imperialismo alemão e de decadência de potências mais fracas, como Grécia, Espanha e Portugal. As imposições draconianas da troika (Banco Central Europeu, União Europeia e FMI) nos planos de austeridade fortaleceram o topo da pirâmide. É nesse cenário que ocorreu o Brexit, com a saída do Reino Unido do bloco, o que o enfraqueceu de conjunto.

Nesse sistema, a França acabou entrando como um país importante na imposição às potências menores, mas como subordinado à política europeia alemã. A decadência da economia francesa, frente à alemã, é um processo objetivo que gera contradições que precisam ser resolvidas. Não é à toa que um dos pontos centrais da discussão foi a UE.
Marine Le Pen defende o “Frexit” como forma de fortalecer a economia francesa, expressando uma tendência ao nacionalismo autárquico e conservador que foi parte importante do discurso vitorioso de Trump nos EUA. Em entrevista, afirmou que após a saída da França da UE, o país poderá partir para “conquistar o mundo”. Por outro lado, temos a proposta de Mélenchon: desobedecer alguns tratados europeus e renegociar novos marcos para a UE, não descartando a possibilidade da ruptura e da criação de uma outra união entre os Estados Europeus.

Os atentados reforçam as políticas da direita

Na noite do dia 20/4, durante o programa de entrevista ao vivo com todos os 11 candidatos a presidente, ocorreu um atentado na Champs Élysées (tradicional avenida de Paris): um homem atirou contra policiais que estavam patrulhando o local. Um policial e o atirador morreram, outros dois ficaram feridos e uma turista machucou-se com os estilhaços. O Estado Islâmico assumiu a autoria dos ataques. Nesta mesma semana, dois suspeitos foram presos em Marselha, no sul da França, acusados de prepararem atentados para os dias das eleições.

Nos últimos cinco anos, em razão das intervenções militares francesas, principalmente contra o Estado Islâmico na Síria, a França foi alvo de diversos atentados, como o de Nice (julho de 2016) e o da boate Bataclan (novembro de 2015). Em determinado sentido, estes atentados fortaleceram o aparelho de Estado francês e o frágil governo de François Hollande do PS. Esse fortalecimento serviu para melhor reprimir os imigrantes e também os movimentos sociais.

Em determinado sentido, os atentados acabam fortalecendo aqueles candidatos que têm propostas mais à direita e conservadoras, como Marine Le Pen e François Fillon. Não à toa que foram os primeiros a levantarem medidas para barrar a imigração e reforçar o Estado policial, como se esses fossem os problemas que acabariam com os atentados.

A decadência do sistema político bipartidário

Em boa parte dos países europeus, após o final da segunda guerra mundial, se desenvolveu um sistema político bipartidarista de alternância de poder: por um lado, partidos socialdemocratas; por outro, partidos conservadores ou liberais de direita. Na França, houve um bipartidarismo com hegemonia clara da direita. Se considerarmos a Vª República, criada em 1958, dos 7 presidentes eleitos (em 10 mandatos), 5 foram dos partidos de direita (o mesmo partido que modificou de nome ao longo da história) e dois presidentes do Partido Socialista (François Mitterrand, que governou por 14 anos, e François Hollande).

Porém, estas eleições poderão marcar o fim da hegemonia bipartidária, já que dos quatro primeiros candidatos, três são de partidos que eram minoritários (ou inexistentes) nas outras eleições: Marine Le Pen da Front National, extrema direita; Macron do En Marche, movimento de centro, de conciliação entre a direita e a esquerda tradicionais; Mélenchon da France Insoumisse, composta por partidos à esquerda do PS.

A decadência do bipartidarismo parece uma tendência que afeta todo o continente, ainda que de maneira bastante desigual: na Grécia possibilitou a vitória do Syriza; em Portugal, por mais que o PS governe, necessita dos partidos mais à esquerda para governar. Na Alemanha também há um processo de recomposição nos extremos, ainda que os principais partidos mantenham a hegemonia.

As lutas sociais também se fazem presente na disputa

Nos últimos anos, a França foi palco de grandes lutas sociais. A primeira delas, em 2010, contra a reforma da previdência que, entre outras propostas, aumentou para 62 anos a idade mínima de aposentadoria, foi uma luta massiva com greve geral e manifestação de centenas de milhares. A mobilização foi derrotada, porém foi o processo fundamental que permitiu a derrota de Nicolas Sarkozy, presidente conservador de direita, para François Hollande em 2012.

A última grande mobilização foi contra a reforma trabalhista, em 2016. Novamente, uma grande mobilização, com centenas de milhares, greves gerais, ocupações de refinarias. Uma luta bastante grande que foi novamente derrotada: utilizando-se de um dispositivo autoritário da Constituição Francesa, Hollande aprovou a reforma trabalhista sem votação no parlamento. Porém, o desgaste com o governo do PS foi tão grande que o candidato de Hollande, Manuel Valls foi derrotado nas primárias do partido para um novato: Benoît Hamon. A vitória de Hamon dividiu o PS: boa parte dos deputados e líderes do partido estão apoiando Macron e não o candidato do PS. Essa ruptura massiva e a passagem de boa parte dos dirigentes do PS para o lado do social-liberalismo é o que explica a fraqueza da candidatura Hamon, que amarga o 5º lugar com 7% das intenções de voto.

Ao mesmo tempo este processo ajuda a entender a alta de Mélenchon. Ele é o candidato que afirmou que irá revogar a reforma trabalhista, reestabelecer a aposentadoria aos 60 anos e tem o apoio de diversos dirigentes sindicais que estiveram a frente das últimas mobilizações.

A esquerda anticapitalista presente, porém fraca

A esquerda anticapitalista, que defende um processo de transformação radical, tem dois candidatos: Philippe Poutou do Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA) e Nathalie Arthaud do Lutte Ouvrière (LO). Apesar de Poutou conseguir alguma projeção, depois do debate do último dia 4 de abril sua intenção de voto é de 1,5%. Isso significa pouca diferença em relação às eleições de 2012 (1,15%) e muito longe do que a LCR, partido predecessor do NPA, havia obtido nas eleições de 2007 (4,25%). O mesmo para Arthaud que tem 0,5% de intenção dos votos. Assim repete o resultado das eleições de 2012 (0,56%), porém muito longe dos 5,72% obtidos pela candidata Arlette Languiller da LO, em 2002.

A explicação da queda da influência eleitoral da esquerda anticapitalista se deve, desde o ponto de vista de uma revolução social e política, aos limites da radicalidade das lutas anti-capitalistas; e desde o ponto de vista tático, se deve, principalmente, ao crescimento de Mélenchon: em 2002 e 2007, o espaço à esquerda do PS foi ocupado pela esquerda anti-capitalista e também pelo Partido Comunista Francês (PCF). Com o surgimento de Mélenchon, ex-senador do PS, essa extrema esquerda perdeu bastante espaço e terá uma votação bastante reduzida.

Imprevisibilidade e voto útil

Essas seis questões acima apontadas são tendências que cruzam a atual disputa eleitoral que até às vésperas segue indefinida. Como as distintas candidaturas vão capitalizar cada uma dessas tendências nestes últimos minutos é impossível de se prever. Neste sentido, o voto útil que permitiria a vitória entre esquerda e direita sem dúvida poderá jogar um papel decisivo.

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