As reformas de Temer e o poliamor

Por: Rafael Machado, do Rio de Janeiro, RJ*

Existem muitos textos, por aí, falando sobre as reformas do Temer e como elas afetam o futuro da vida dos trabalhadores brasileiros. No entanto, ninguém ainda se pronunciou sobre como elas afetam especificamente os trabalhadores poliamoristas brasileiros. Aproveitando o momento em que a Pratique Poliamor RJ está abrindo debates internos sobre as reformas, esse é o objetivo deste texto.

Contextualizando
Há cerca de um ano, o Brasil sofreu um golpe parlamentar que tirou o governo do PT, que vinha nos atacando e ameaçando com essas reformas há muito tempo. O Objetivo do golpe, no entanto, ficou claro: aprovar reformas extremamente impopulares e que são, na verdade, a destruição dos direitos dos trabalhadores brasileiros. Sob a desculpa da crise, o governo golpista de Michel Temer inicia um plano que pode levar os trabalhadores brasileiros às condições do início do século XX – e os lucros dos grandes empresários à estratosfera.

Começou com o congelamento dos gastos sociais por 20 anos, começando a enterrar em vida os já precários serviços públicos. Depois, mais recentemente, foi aprovada, às pressas, a terceirização irrestrita, jogando, na prática, uma quantidade enorme da classe trabalhadora nas piores condições de trabalho e rasgando a CLT. A Reforma da Previdência quase foi aprovada também, mas a resistência dos trabalhadores e trabalhadoras (com 8M e 15M) fizeram os golpistas adiarem a votação. Agora, a corja de bandidos de terno se agita em aprovar a Reforma Trabalhista, o golpe final nos direitos trabalhistas.

As Reformas e a vida da classe trabalhadora
Se aprovadas, as reformas são uma queda brutal generalizada na qualidade de vida dos trabalhadores, fazendo-os perder toda segurança, estabilidade e garantias que conseguimos nos últimos 100 anos, incluindo férias, 13º, descanso semanal remunerado, qualquer tipo de reajuste, seguro desemprego e até mesmo a aposentadoria.

Se, do ponto de vista de todos os explorados, isso é terrível, do ponto de vista dos oprimidos e explorados, é ainda pior. O povo negro e as mulheres já sofrem terrivelmente com as piores localizações sociais (especialmente as mulheres negras), chegando a ganhar, em média, menos da metade de um trabalhador homem branco. A população LGBT também sofrerá seriamente pois estarão em condições tão frágeis no emprego quanto os outros, apesar de alguns ainda poderem se esconder no armário.

A situação dos poliamoristas é análoga à dos LGBTs, com o agravante de que nossas uniões não são reconhecidas, nem nossa existência.

Poliamoristas e as consequências das Reformas
Nós, poliamoristas trabalhadores, sofreremos um ataque bem específico com a Reforma da Previdência. Com ela, os monogâmicos passarão a não poder mais acumular mais de uma pensão por morte, nem uma aposentadoria com uma pensão por morte. Ou seja, ainda que consigamos, depois de muita luta, conquistar o casamento igualitário independente de número e gênero, ainda assim não poderemos acumular a pensão de mais de um cônjuge nosso que venha a falecer, mesmo que seja ao mesmo tempo; nem mesmo poderemos acumular nossa aposentadoria com a pensão de sequer um dos parceiros – o que vai significar uma queda tremenda de nossa qualidade de vida. Ou seja, nossa luta fica com mais uma barreira na própria Constituição Federal.

Além disso, toda a fragilidade que a vida da classe trabalhadora sofrerá será extremamente prejudicial para que possamos viver nossos relacionamentos e amores.

Primeiro que, com o aumento da instabilidade na vida, muitos de nós, que já têm relações de dependência ou semi-dependência frente à família, se tornarão ainda mais dependentes e, portanto, ainda mais submetidos às regras impostas por suas famílias, especialmente os mais jovens. E elas poderão se utilizar dessa dependência para impedir nossas relações – especialmente no caso de polis mulheres e LGBTs.

Além disso, sofreremos com mais falta de autonomia dentro de nossos relacionamentos, aumentando as pressões da monogamia, do amor romântico e do ciúme, que podem gerar desde acordos super-restritivos e desiguais (poligamia), até agressões, especialmente em relacionamentos de mulheres polis com homens monogâmicos.

Para piorar, sem tempo e sem dinheiro, nossa possibilidade de conhecer e aprofundar novos relacionamentos (que já é difícil pela dinâmica atual do capitalismo) se torna extremamente mais difícil se não viver um um relacionamento em grupo.

No âmbito do trabalho, seremos obrigados a nos esconder mais ainda, correndo o risco de sofrer chantagem de colegas monogâmicos, chefes e patrões, piorando nossas condições de trabalho e abrindo margem para uma maior superexploração e o aumento do assédio sexual que já sofremos graças à hiperssexualiação do poliamor pelo resto da sociedade.

Obviamente, os trabalhadores polis que sofrem com outras formas de opressão, especialmente mulheres, negros e LGBTs, estarão ainda mais fragilizados por tudo isso que os trabalhadores polis homens, brancos e heteros.

E a qual é a saída?
A partir de tudo isso, não é possível mais tratar destas questões separadamente. Os ataques à nossa classe, a classe trabalhadora, nos unifica a todos, inclusive com os monogâmicos, para evitar essa queda brutal na qualidade de vida e trabalho. Esse é o momento de começarmos a discutir entre nós, trabalhadores monogâmicos e não-monogâmicos, a necessidade de lutarmos juntos enquanto classe, contra nosso inimigo comum.

Por isso, é imprescindível que estejamos todos juntos no dia 28, a Greve Geral, e também em todas as iniciativas e ações unitárias posteriores. Nós polis devemos mostrar para nossos companheiros de classe monogâmicos que nós existimos, que sofremos com a polifobia e que estamos ao seu lado nessa luta, que vai determinar a nossa vida. Nós polis devemos atuar nos nossos locais de trabalho e estudo colocando pautas específicas, nos organizar entre nós e aparecermos como bloco, precisamos que o movimento social supere seu moralismo polifóbico e aceite nossa existência e nossas demandas. O melhor momento para isso é agora.

Mas não nos enganemos. Há uma discussão no movimento dos trabalhadores: A CUT, a CGT e outras centrais,querem que façamos alianças com setores do empresariado, o grande beneficiário das reformas, contra Temer, já com olhos nas eleições de 2018, especialmente com o nome de Lula à frente. Não podemos cair no canto da sereia. Essa luta é dos trabalhadores e é nas ruas. Devemos nos unir à CSP-Conlutas, que vem nos acolhendo aqui no Rio de Janeiro; devemos lutar nas ruas; devemos superar a perspectiva de apoio a governos de conciliação de classe junto da Frente de Esquerda Socialista, unindo a esquerda e lutando contra Temer.

*“ Esse artigo representa as posições do autor e não necessariamente a opinião do Portal Esquerda Online. Somos uma publicação aberta ao debate e polêmicas da esquerda socialista”.

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