Capitão Fantástico: a arte como possibilidade

Por: Karina Lourenço, do ABC, SP

O filme Capitão Fantástico, do diretor Matt Ross, de 2016, relata a história nada convencional de uma família americana rompida em quase todos os aspectos com a formatada sociedade de consumo e seus valores de mercado.

Pai e seis filhos compartilham uma vida comunitária em uma cabana quase que totalmente auto sustentável, no alto de uma montanha, no estado de Washington. Caçam, plantam, praticam rituais nada ortodoxos de iniciação tribal, praticam exercícios, recebem formação educacional com viés holístico e humanista, falam seis línguas , inclusive esperanto, linguagem universal. Seus tutores são os pais, livros e o cotidiano compartilhado.

O roteiro aponta para uma progressiva condensação da trama, quando Ben (Viggo Montensen), a mãe que se encontrava em tratamento psiquiátrico por transtorno bipolar, se suicida, levando Ben e os filhos a se aventurarem em uma viagem até o México para o funeral e a leitura do testamento. A empreitada toca, ao mesmo tempo que tenciona o desenrolar dos acontecimentos. Gradativamente leva a reflexões sobre o posicionamento radicalizado da experiência de rompimento com os valores capitalistas de forma individual, escancarando aos nossos olhos os contrastes.

A escolha de Ben angustia, revolta, encanta e faz sentir, antes mesmo de fazer pensar. Levando a um progressivo movimento espiralado de defesa, hora de Ben, hora dos avós de Claire (Erin Moriarty), desarmando-nos, por fim, em defesa de ninguém. O filme deixa uma nostalgia filosófica de possibilidades utópicas. É uma obra, um ensaio de contemplação e angústia, um soco no estômago.

Quando, ao final, Ben, após uma sequência de embates com os personagens fora do seu mundo ideal, ex-sogros, irmã, sobrinhos e filhos, resolve deixar a tutela da criação dos mesmos para os avós maternos, faz a barba, vai embora, ensaia rendição. Leva a crer na possível derrota de seu projeto emancipatório humano.

No entanto, somos surpreendidos pela volta da sua família comunal. Desenterram a mãe, viajam com o caixão até o topo de uma colina e realizam um funeral de cremação ao som de “Sweet Child O’ Mine” , jogando as cinzas em uma privada pública, como era sua vontade.

Marx, quando falou do comunismo, mais que uma transformação das forças produtivas da sociedade, retratou que as mesmas deverão estar a serviço da libertação do ser humano, para viver plenamente toda a potencialidade de suas capacidades, prazeres e realizações, sem a culpa castradora.

Capitão Fantástico é um filme de ensaio e reflexão sobre esses valores, sem ser panfletário. Antes de tudo, é um filme humano em seus vários tons.

Comentários no Facebook

Post A Comment