Mexeu com uma, mexeu com todas

Por: Lara Lima*, do Rio de Janeiro, RJ
*Lara é artista

O caso de abuso sexual envolvendo o ator global José Mayer e a figurinista Susllen Tonani, denunciado na última sexta-feira por uma carta da mesma, na coluna “Agora é que são elas”, na Folha de São Paulo, tem tomado conta de diversos debates nos últimos dias.

A Folha de São Paulo retirou o conteúdo do ar, alegando que não é de praxe publicar artigos de denúncia sem ouvir as duas partes da história. E logo depois o ator escreveu atribuindo a culpa pelo assédio ao personagem que interpreta na novela. “Não confundam ficção com realidade.” disse o ator. Negando o abuso, em uma tentativa covarde de desmoralizar a vítima, usando seu prestígio para tentar silencia-la e acabar com sua credibilidade.

A repercussão não foi nada positiva. Mulheres que trabalham na emissora se organizaram e realizaram um protesto simbólico no PROJAC e nas redes sociais, onde foram trabalhar com uma camisa escrita “Mexeu com uma, mexeu com todas! #chegadeassédio”, dando maior repercussão ao caso, e posicionando-se claramente ao lado da figurinista.

Foto: Reprodução/Instagram

Foto: Reprodução/Instagram

Não é a primeira vez que mulheres do audiovisual se organizam para enfrentar o machismo no dia-a-dia de uma indústria misógina que perpetua, não apenas nas relações trabalhistas, uma lógica machista e violenta com as mulheres. Ano passado circulou nas redes, a carta de um grupo de mulheres do audiovisual denunciando casos de assédio nos set de filmagens. Em 2013, somente após a morte de Maria Schneider, Bertolluci assumiu que a cena da manteiga do filme “O último Tango em Paris” não foi previamente esclarecida para a atriz, na época com 19 anos. Ele e Marlon Brando planejaram tudo sem seu consentimento. Um abuso que deixou a atriz em depressão por 10 anos, e afetou sua vida para sempre.

Infelizmente esses não são os únicos casos, muito menos o único indício de como o machismo atua na indústria audiovisual mundialmente.

Segundo estudos realizados pelo Instituto Geena Davis em 2015, apenas 9% dos diretores de cinema são mulheres, e apenas 30% dos roteiristas são mulheres no Brasil. Este estudo analisa obras recentes de diversos países em relação a representatividade feminina no cinema. Das produções recentes analisadas pelo estudo, apenas 10% têm paridade de gênero no elenco e apenas 23% dos filmes tem mulheres como protagonistas.

A disparidade de gênero no setor audiovisual é fácil de enxergar quando adentramos um set de filmagens, e para quem está dentro do meio, é vivida na pele, quando todo um sistema meritocrático, precarizado com a terceirização, tende a privilegiar os profissionais do sexo masculino.

A naturalização dos assédio é a questão que mais chama atenção neste caso. Em nenhuma chamada da mídia, ou mesmo nas cartas divulgadas em resposta à Susllen, falou-se sobre o fato do José Mayer ter cometido um crime. Assim, apenas um pedido de desculpas e a promessa de melhorar parecem ser reparações satisfatórias para sociedade.

Assédio não é cantada e tem punição. Casos de assédio podem e devem ser denunciados pelo número 180, central de atendimento à mulher e a pena varia de três meses à  um ano de prisão, ou pagamento de multa.

Somente após a declaração da Rede Globo que o ator será afastado da próxima novela por tempo indeterminado, Mayer voltou atrás e escreveu uma carta assumindo o crime, prometendo melhorar seu comportamento, e agradecendo por poder aprender agora o que levou 60 anos para aprender. Seu pedido de desculpas toca na subjetividade de que ele faz parte de uma geração machista e misógina, como se assédio fosse aceitável há algum tempo atrás. Como se assédio fosse uma agressão menor, da qual o homem não tem responsabilidade.

Pedidos de desculpas não são reparo para violência. Em um país em que a cada 5 minutos uma mulher é agredida e a cada 4 minutos uma mulher é estuprada, a naturalização da violência vem no sentido de perpetuá-la.

Para uma mulher que teve coragem de denunciar seu agressor, quantas outras foram assediadas e abusadas e não tiveram coragem de enfrentar seu algoz? Quantas foram silenciadas por seus superiores e por medo de perder o emprego devido às frágeis relações trabalhistas, recuaram na decisão de denunciar seus abusos?

Não podemos deixar de falar sobre a própria Rede Globo e o papel que ela cumpre na perpetuação da cultura do estupro. Usando o próprio ator como exemplo. Zé Mayer construiu sua carreira com personagens abusivos. O galã que usa a capa de sedutor para encobrir comportamentos condenáveis de abuso com as mulheres. Mas o problema vai além do indivíduo.

Objetificação do corpo da mulher, representações misóginas e racistas, romantização de ciúmes e relacionamentos abusivos e possessivos, romantização de relações de homens mais velhos com adolescentes. O incentivo à rivalidade entre mulheres. O acobertamento de estupro ocorrido no maior reality show produzido pela casa. Esses são apenas alguns exemplos da maneira que a emissora representa a mulher. A nota da empresa diz que eles prezam pelo bom relacionamento e boas relações de trabalho, mas sabemos muito bem que isso não condiz com a realidade.

A coragem de Susllen em denunciar seu assediador e a pronta resposta de suas colegas de trabalho são o retrato de que o movimento feminista está mexendo com as estruturas da nossa sociedade, e que as mulheres não vão mais se calar. No último 8 de março, mulheres do mundo inteiro se mobilizaram para a chamada de uma greve de mulheres com o eixo “Se nossas vidas não importam, produzam sem nós!”. No Rio de Janeiro inundamos as ruas da cidade em um coro com mais de 15 mil pessoas. “Nem uma a menos”, “Chega de assédio”, “Não vão nos calar!” foram alguns dos eixos da mobilização histórica que ocorreu no centro da cidade.

Nossa pauta nunca esteve tão em alta, por isso acreditamos que devemos exigir mais da empresa onde o assédio ocorreu. A Rede Globo tem o dever de adotar uma política exemplar de erradicação do machismo dentro de suas estruturas, realizando cursos e palestras sobre machismo e assédio sexual com todos os seus funcionários (desde os mais precarizados e terceirizados até os altos escalões de sua diretoria). Esta política deve estar de mãos dadas com políticas para atingir a equidade de gênero e uma mudança radical na maneira como ela retrata a mulher e suas relações em sua teledramaturgia.

José Mayer tem que responder juridicamente pelo crime que cometeu. Prestamos toda nossa solidariedade à Susllen Tonani e todas as mulheres que sofrem abusos e assédios todo dia em nosso país e no mundo. Se esse caso tem um saldo positivo é que cada dia temos mais certeza de que juntas somos mais fortes. E que o machismo não vai nos calar.

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

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