Violência entre LGBTQ: precisamos politizar nossas relações

Por: Alexandre Nogueira Martins e João Filipe Araujo Cruz

A ideia de escrever este texto surgiu a partir de reflexões decorrentes da realização de três rodas de conversa entre homens gays e bissexuais, sendo as duas primeiras sobre “consentimento e abuso sexual” e a última sobre “relacionamentos abusivos”1. Em todas as ocasiões os participantes relataram que a roda era o primeiro momento no qual discutiam tais assuntos.

O fato de serem temas que raramente são discutidos, ficou evidente diante à dificuldade de realizar o debate: para tentar pensar nossas questões foi necessário recorrer a discussões feministas, voltadas predominantemente para relações heterossexuais, devido à falta de discussões específicas.

Diante deste cenário e após uma série de leituras sobre o tema, percebemos que a pertinência deste debate extrapolava as relações entre homens, apontando para a necessidade de discutirmos em movimentos LGBT questões relativas à vida íntima de todas as “letrinhas” de nossos movimentos, o que é muito importante para pensarmos formas de violência que ocorrem entre nós.

Desde sua origem, o movimento LGBT tem dado grande importância ao enfrentamento à violência, preocupando-se principalmente com agressões físicas e assassinatos. Ao colocar o foco na violência exercida por pessoas não-LGBTQ contra pessoas LGBT ou queer, principalmente no espaço público, acreditamos que acabamos por ofuscar outras violências sofridas por nós na esfera privada: violência doméstica (dentro das nossas famílias) e violência conjugal (nos nossos relacionamentos afetivo-sexuais) acabaram invisibilizadas. As formas de violência que ocorrem entre nós ainda são pouco estudadas academicamente, embora os primeiros estudos voltados para relações violentas entre gays e entre lésbicas sejam da década de 90.

Uma pesquisa realizada nos EUA por Island e Letellir, por exemplo, aponta a violência doméstica homossexual, depois de HIV e do abuso de álcool e drogas como um dos três maiores riscos à saúde de homossexuais, o que indica a relevância deste assunto.

Além da importância de realizar pesquisas sobre a violência nas relações LGBTQ, precisamos discutir o assunto também em movimentos LGBT ou queer, pois pensar criticamente o modo como interagimos e nos relacionamos nos permitirá estar atentos para relações nas quais ocorram situações violentas, sejam de abuso emocional, econômico, sexual, psicológico e/ou físico.

Falar sobre relações violentas entre pessoas LGBT ou queer não é simples, pois, para que uma situação possa ser entendida como violenta, os atos que a envolvem precisam ser reconhecidos socialmente como abusos. Por isso, é preciso decifrar as “dinâmicas conflituosas” dessas relações – que, menos que resultado de comportamentos individuais (ou seja, o problema central não é a existência de indivíduos problemáticos), supõem que as interações entre os indivíduos são atravessadas por posições de poder desiguais, derivadas de inúmeros fatores que interagem de maneiras complexas: gênero, sexualidade, raça, classe, idade, escolaridade e convivência.

A cada relação que estabelecemos, ocupamos diferentes posições e, por isso, não podemos essencializar as posições de vítima ou agressor para uma mesma pessoa em todas as relações que venha a ter ao longo de sua trajetória de vida, embora aspectos estruturais aumentem a probabilidade de ocuparmos esta ou aquela posição.

A experiência de organizar rodas de conversa nos mostrou que debater abertamente relações violentas entre LGBTs ou queer contribui para a construção coletiva de significados sobre essas relações. Isto é importante pois experiências de violência envolvem ao menos dois momentos (que muitas vezes não coincidem): o momento em que acontecem e quando damos sentido ao que aconteceu.

Dar significado ao sofrimento relacionado a certas experiências e entendê-las como violentas depende da possibilidade de encontrar meios que permitam expressar socialmente a dor; ou seja, não basta sofrer, para que seja possível perceber a dor como resultado de violência, precisam haver significados sociais capazes de lhe conferir sentidos socialmente compartilhados.

Consideramos que foi e ainda é muito importante o esforço que movimentos sociais relacionados à diversidade sexual e de gênero vêm empregando no combate à violência LGBTfóbica, mas não nos parece que debater e repensar nossas formas de interagir e nos relacionar seja perda de “tempo” ou de “foco”. Buscando entender a violência que pode estar presente nas nossas relações fraternas, afetivas e sexuais, é muito importante não só debatermos dentro de movimentos LGBT e queer as violências nas nossas relações com objetivo de transformar nossas práticas, mas também buscar constantemente enquanto gays, lésbicas, bissexuais, travestis, pessoas trans ou queer estarmos atentos a tais questões.

Precisamos politizar nossas relações pessoais para fortalecer tanto nossas relações quanto a nós mesmos e, assim, podermos viver, amar e sobretudo lutar contra variadas formas de violência. Não debater tais questões tem como consequência, certamente, que inúmeras pessoas não se sentirão à vontade para frequentar certos espaços LGBT ou queer, de militância ou lazer, o que em última instância pode acabar inclusive fragilizando nossos movimentos políticos. Nos parece que estamos num momento em que é necessário uma nova politização do pessoal: se, outrora, para o movimento homossexual isso significou buscar legitimar nossas formas de nos relacionar como positivas, agora cabe nos voltarmos a elas de maneira crítica, a fim de que possamos buscar a construção de modos não violentos de nos relacionar.

1 A primeira roda foi organizada por Alex Salto e João Filipe Cruz, em 23/10/16, em um apartamento no centro da cidade de São Paulo; a segunda por João Filipe Cruz, em 31/10/16, durante o XIV Encontro Nacional em Universidades sobre Diversidade Sexual e de Gênero (ENUDSG), realizado na FURGS em Rio Grande/RS; e a terceira por Alexandre Martins, Guiga Lemos e João Filipe Cruz, em 17/11/16, na Universidade de São Paulo (USP).

Foto: Leo Pinheiro / Fotos Públicas

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