O casamento maximalista: crônica de Graciliano Ramos

Por: Suely Corvacho, de São Paulo

Durante as comemorações dos 100 anos da Revolução Russa, é sempre oportuno verificar como os ecos do acontecimento ressoaram no Brasil. Uma forma é acompanhá-los por intermédio das crônicas da época. Nesta perspectiva, transcrevemos o texto de Graciliano Ramos, assinado com o pseudônimo de J. Calisto, publicado em abril de 1921 no jornal O Índio, de Palmeiras dos Índios, Alagoas.

A leitura da crônica, que já é saborosa, fica melhor se examinarmos as características do veículo que a publicou. De acordo com Dênis de Moraes, que escreveu a melhor biografia do escritor, padre Francisco Xavier de Macedo, responsável pelo jornal O Índio, criado em janeiro de 1921, pediu a colaboração de Graciliano às vésperas do lançamento do periódico. O pedido intrigou muito a população de Palmeiras dos Índios. Nas palavras de Moraes: “A amizade dos dois deixaria muita gente intrigada. O dono da loja Sincera não era ateu convicto? O dinamismo do vigário despertara a atenção de Graciliano, cuja honestidade de propósitos, por sua vez, seduzira padre Macedo. Ao longo da vida, conservariam a admiração mútua, cada qual com seu ponto de vista.” (MORAES, 1993, p. 42)

Embora fosse pequeno comerciante durante o dia e professor de francês no horário noturno, numa distante cidade, Graciliano Ramos seguia de perto todos os acontecimentos nacionais e internacionais. Prova disso é o depoimento de Adalberon Cavalcanti Lins, aluno do escritor em 1921, recolhido por Moraes: [referindo-se à capacidade de Graciliano discorrer sobre figuras históricas] “Ele falava de Lenin como se o conhecesse pessoalmente. Soltou uma palavra inteiramente desconhecida no meio ambiente: ‘maximalismo’”. Moraes contextualiza: “o termo maximalismo era empregado pela imprensa em lugar de bolchevismo, o que comprova o seu interesse pelo andamento da Revolução” (MORAES, 1993, p. 42)

O impacto da Revolução Russa foi tamanho que Graciliano Ramos assina vários jornais do Rio de Janeiro, capital do país, na época. E, apesar das informações mais desencontradas a respeito da situação, “ele simpatizaria de imediato com os bolcheviques, não se deixando contagiar pelos que se esmeravam em apresentá-los como enviados do demônio.” (MORAES, 1993, p. 42) A irônica crônica é resposta à reação e ao pavor ao comunismo no Brasil após a Revolução e suas iniciativas, como o Código da Família, promulgado pelos revolucionários em 1918, que reconhece o direito ao divórcio; a legalização do aborto, em 1920; entre outras.

 

XII

Um velho amigo, que tentou sem resultado mascarar-se com o extravagante pseudônimo de Lobisomem, enviou-me uma carta a pedir que lhe dissesse alguma coisa a respeito de certo casamento maximalista efetuado no Rio.

Declaro-me ao missivista, antes de começar, muito agradecido e muito espantado por haver uma criatura da estranha espécie a que ele diz pertencer tomado interesse pela insulsa prosa que nesta coluna se estampa.

Entre enleado e lisonjeado, aqui lhe mando a opinião que tenho – se não tivesse nenhuma, não haveria nada a perder – sobre o fato em questão.

Hesito um pouco em dar crédito à notícia.

O meu caro amigo Lobisomem deve estar lembrado de que, há coisa de dois para três anos, telegramas da Europa nos trouxeram esta assombrosa novidade – na Rússia, as mulheres eram consideradas bem público, podendo ser requisitadas por qualquer cidadão que delas necessitasse.

Era uma revelação que dava engulhos. Um carvoeiro sentia comichões de contrair matrimônio e, sem mais aquela, fazia requisição de urna duquesa. Infantilidadeevidente, absurdo fácil de descobrir a quem acompanhasse com cuidado os carapetões telegráficos que a Inglaterra nos impingiu durante a guerra.

Entretanto, s. exª. o senhor presidente da república, que naquele tempo não era ainda o grande fazedor de açudes e que em boa hora nos governa, aludiu ao fato como coisa verídica, em documento oficial, mensagem ao congresso, se me não falha a memória. De onde se conclui que as circunvoluções cerebrais de um chefe de estado não são feitas de substância diversa da que se encontra no crânio de qualquer sujeito que lê jornais e acredita ingenuamente no que lhe dizem.

Julgo prudente, pois, não ter uma confiança exagerada nas folhas.

É verdade que a capital federal e Petrogrado são coisas muito diferentes. A Laje sempre fica mais perto de nós que a fortaleza de Krasnayagorka. Mas tanto se pode mentir lá como aqui. Apenas a mentira vinda de longe tem mais probabilidade de ampliar-se, engrossar.

Consideremos, entretanto, o fato verdadeiro. Um partidário das teorias subversivas de Lenine e Trotsky, meetingueiro com certeza, colocador provável de bombas às portas das padarias, um desses homens vermelhos que tiram o sono do senhor Germiniano da Franca, procurou uma companheira que professasse como ele o credo rubro e jurou ligar-se a ela pelos “laços indissolúveis do amor.”

A frase é reles, clichê perfeito, chavão repetido mil vezes em versinhos alambicados de poetas de meia-tigela.

Foi um casamento perfeitamente burguês, como muito bem compreendeu o meu velho amigo Lobisomem. A mesma solenidade, a complicação de um cerimonial em que aparecem as inevitáveis testemunhas, em suma o que já possuímos, com ligeiras modificações, talvez. Houve promessa escrita de ligação ilimitada, como consta da ata que se lavrou. Fica excluída, portanto, a liberdade que qualquer das partes deveria ter para acabar com aquilo quando achasse conveniente.

Julgo que, se o matrimônio bolchevista é semelhante ao que no Brasil se fez, não há na Rússia dos sovietes o amor livre.

Lobisomem sabe muito bem que essas revoluções violentas, que ameaçam virar a sociedade pelo avesso, arrasando tudo, conservam, não raro, muitas coisas tal qual estavam, mudando-lhes apenas o rótulo, para enganar a gente incauta. Imagine a desilusão que um daqueles exaltados patriotas da revolução francesa sentiria hoje se lhe fosse possível ver o que é a república atual, com uma chusma de preconceitos e privilégios de antanho, as mesmas desigualdades de classes dentro da famosa igualdade hipócrita, a nobreza orgulhosa substituída pela insolência da plutocracia.

Há instituições que têm fôlego de sete gatos. O casamento, como entre nós existe, é uma delas, que subsistirá, talvez, malgrado a sanha demolidora dos homens dos conselhos.

Ora o compromisso de ligação sem termo é interessante em um desses barbudos carbonários que tem o muito louvável propósito de transformar a desgraçada ordem social em vigência com estouros de dinamite. O amor é tão indissolúvel como o açúcar dos engenhos de bangüê e a nacionalíssima rapadura. Comprometer-se um indivíduo a conservá-lo em permanente estado de indissolubilidade é idiota, porque enfim quem o sente não pode prever quanto tempo ele levará para derreter-se. E sendo assim, por que há de um pobre diabo ficar preso a um trambolho a amargurar-lhe o resto da vida?

Meu bom amigo Lobisomem conhece bem os argumentos dos adeptos do amor livre. Não se promete uma união que acabe com a morte, mas entremostra-se a hipótese de a tornar mais firme e duradoura que os casamentos comuns, pois cada um dos cônjuges, sabendo que a cadeia que os une é coisa frágil, tratará de consolidá-la, prendendo o outro por todos os meios possíveis. Desaparecerão, ou pelo menos diminuirão, as arrelias conjugais, o que é magnífico. Se, contra toda a expectativa, não puderem andar de acordo, desmancha-se aquilo muito naturalmente, não só em proveito dos dois, mas em benefício da espécie, pois não havendo afinidade entre os pais, é muito provável que sejam gerados filhos imperfeitos. Há, pois a possibilidade de começar-se a praticar a eugenia, que o doutor Belisário Pena anda a pregar na imprensa. Resta ainda a vantagem de se não poder atirar a outro, como injúria, o epíteto de filho de mulher ruim, o que será uma consolação para muita gente.

De resto os casamentos legais desfazem-se com uma freqüência dos diabos, apesar das formalidades, e não creio que os que se não desfazem permaneçam intactos em virtude do palavreado do juiz ou do padre. Ignoro se há alguma lei que obrigue o homem a transformar-se em ostra em relação à esposa ou meta entre as grades a mulher que dá com os burros n’água e manda o marido às favas.

Contam que um sujeito esteve vinte anos atolado numa união pecaminosa, civil e religiosamente falando. Um dia encasquetou-se-lhe a idéia de casar com a amante. Ao

voltar da igreja, observou que ela era vesga – e deixou-a.

Aí tem o meu caro senhor Lobisomem as rápidas considerações que me sugeriu sua carta a propósito do primeiro casamento maximalista que em brasílicas terras se realizou.

Pergunta-me se o não acho parecido aos que se efetuam nas circunvizinhanças do Largo do Rocio.

Não: é muito diferente. Os das Ruas de S. Jorge, Vasco da Gama, Luís de Camões, Tobias Barreto e outras em que se aloja o rebotalho da prostituição são muito mais sumários e extremamente baratos.

Julgo-o, pelo contrário, semelhante aos que nos passam todos os dias diante dos olhos, de uma banalidade lamentável.

E é o que espanta.

Um homem que tem o intuito de rachar a burguesia d’alto a baixo copiar servilmente a mais burguesa das instituições!…

Ora aí está por que hesito em dar crédito à notícia e, por precaução, ponho o caso de molho até que ele seja confirmado.

 

  1. Calisto.

In “O Indío” – Palmeira dos Indíos, AL, abril de 1921.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MORAES, Dênis. O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

RAMOS, Graciliano. Linhas tortas: obra póstuma. 5. ed. Rio de Janeiro: Record; São Paulo: Martins, [1977]. p. 83-86.

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