Chuck Berry: O único e eterno Rei

Por: Tibita, do Rio de Janeiro

Charles Edward Anderson”Chuck” Berry nasceu em 18 de outubro de 1926, em Saint Louis, Missouri, no sul dos Estados Unidos. Noventa anos depois, neste último final de semana, ele faleceu, tendo se tornado um dos músicos mais importantes do século XX e da história da humanidade.

Com o estado do mundo e com uma enxurrada de mortes de personalidades conhecidas e amadas nos últimos anos, fica fácil não parar para pensar e tratar a morte de Chuck Berry como apenas mais uma. Mas ao se lembrar um pouco da história dele e de sua contribuição para a música popular, pode-se compreender por que ele merece ser homenageado com especial atenção.

Sua vida começa fazendo parte de uma família com mais 5 irmãos e irmãs, um pai trabalhador da construção civil e diácono de uma igreja batista, e uma mãe diretora de escola. A vida que levava sua família, melhor do que a média das famílias negras no Sul dos EUA, permitiu que ele se dedicasse à música desde muito cedo. Sua primeira apresentação foi no Colégio Secundário Summers, onde estudava. No entanto, as condições sociais da comunidade negra, o racismo sistêmico do Estado e a pobreza, também o fizeram ter muito cedo experiências com o lado mais sombrio da sociedade. Ainda na escola, Chuck foi preso por assalto a mão armada e condenado ao reformatório, onde ficou preso de 1944 a 1947. Ainda preso, Chuck formou seu primeiro grupo musical, um quarteto vocal que chegou a receber autorização para realizar apresentações fora do reformatório.

Livre, se casou e foi trabalhar. Ele teve vários empregos, inclusive como operário metalúrgico na indústria automotiva e zelador do prédio onde morava com a família. Mas pouco tempo depois, começou a tocar e cantar nos bares e clubes para levantar um dinheiro extra, com o qual conseguiu comprar uma casa, que hoje se encontra no registro de prédios históricos dos Estados Unidos. Dessa época, Chuck trouxe o aprimoramento de sua técnica na guitarra e seu estilo, fortemente influenciado pelo bluesman T. Bone Walker, um dos ídolos do jovem que iria revolucionar a música.

No início dos anos 50, Chuck tocava com o Johnnie Johnson’s Trio, e começou a misturar no seu repertório, além do Blues, versões de músicas Country da época, como forma de agradar as plateias brancas. Essa combinação do Blues e do Country com uma guitarra elétrica se destacaram. Essas versões e arranjos contribuíram também para o amadurecimento do estilo musical que viemos a conhecer.

Em 1955, em uma turnê, viria a chance para um grande salto. Após um show, Chuck Berry conheceu Muddy Waters, que muito bem impressionado pelo seu som o recomendou para gravar com a gravadora Chess Records. Ao conhecer Leonard Chess, Chuck pensava que seus blues seriam o alvo. Ele se surpreendeu ao ver que a música escolhida pela gravadora, na época preocupada com uma saturação do mercado de Rhythm and Blues, foi uma versão própria de Chuck para um clássico Country de rabeca: “Ida Red”. A canção passaria para história como seu primeiro sucesso “Maybellene”. Já nessa primeira gravação, Chuck atingiu a marca de mais de um milhão de cópias vendidas, e o primeiro lugar na parada da Billboard na categoria Rhythm and Blues.

Seguida pelo sucesso que gritava: “Sai da frente Beethoven, se liga nesse Rhytm and Blues!”, os sucessos se acumularam. “School Days”, “Rock and Roll Music”, “Sweet Little Sixteen”, e claro, “Johnny B. Goode” são alguns exemplos de sucessos dessa época. Foi uma época em que Chuck Berry conheceu a fama e ganhou muito dinheiro, chegando inclusive a se tornar dono de uma casa noturna, o Clube Bandstand. Mas esse período também trouxe alguns dos momentos mais difíceis que Chuck Berry teve de atravessar. Um deles foi o processo contra os Beach Boys, pelo plágio de “Sweet Little Sixteen” em “Surfin USA”. No fim, Chuck obteve os direitos sobre a música e foi reconhecido com o crédito. Outro momento difícil é o que certamente ainda figura como a maior mancha na sua história.

Em 23 de Dezembro de 1959, Chuck Berry foi preso por violação ao Ato Mann, uma Lei Federal estadunidense que visava combater o tráfico humano e a prostituição. Essa lei proibia o transporte de menores de idade através de fronteiras estaduais para “prostituição, atos libidinosos ou quaisquer propósitos imorais”. Ele havia sido acusado por Janice Escalanti, que, ao ser presa por prostituição, revelou ter, aos 14 anos, conhecido Chuck em um de seus shows e ter sido transportada e empregada como garçonete no clube dele. Apesar de Chuck Berry ter negado qualquer envolvimento com Janice e ter afirmado que a demitiu por que ela estava fazendo avanços inapropriados, Janice contava com o seu depoimento e de outras testemunhas, que confirmaram seu relato. Chuck foi condenado a 5 anos de prisão. Sem desconsiderar a gravidade das ações de Chuck Berry, é necessário considerar os elementos de racismo que envolveram seu processo e condenação. Tanto por se observar que as autoridades  norte-americanas se utilizaram desse expediente contra um número relevante de personalidades negras, como o pugilista Rubin Carter; quanto pelo fato de que posturas racistas do Juiz e sua influência sobre o Júri inteiramente branco foram reconhecidos pela Justiça, em uma apelação que manteve a condenação, mas reduziu a pena para 3 anos. Ao fim, Chuck Berry teve seu Clube fechado e ficou preso por um ano e meio.

Após ser libertado, ele pôde retomar sua carreira e contou com a inesperada ajuda de bandas que faziam muito sucesso em meados dos anos 60, incluídas aí os Beatles e os Rolling Stones. Eles iniciaram a ‘invasão britânica’ nos Estados Unidos e prestavam homenagens regravando suas músicas. Chuck voltou aos palcos, ao rádio e às paradas, só que agora na Mercury Records.  “No Particular Place to Go”, e “You Never Can Tell”, duplamente imortalizada com sua utilização por Tarantino em “Pulp Fiction”, pertencem a esse período. Ao final da década de 60, no entanto, Chuck Berry retornou à Chess. Seus sucessos começavam a se tornar mais raros, e nesse período Chuck teve seu último hit nas paradas com a canção “Reelin’ and Rockin”, parte do disco London Sessions, que registrou a turnê de Chuck e outros astros da gravadora Chess pelo Reino Unido.

Chuck Berry continuou tocando ao vivo regularmente através dos anos 70, 80 e 90, tendo contado com futuros astros como Bruce Springsteen em sua banda e com uma coleção de sucessos suficientes para sustentar sua carreira. Isso garantiu seu lugar não apenas no Hall da Fama do Rock n’Roll, mas também um lugar de honra no seu Concerto de inauguração. “Johnny B. Goode” foi incluída no disco da Voyager contendo informações sobre a Terra, e serve de testemunho e exemplo da beleza que nossa espécie é capaz de produzir. Chuck Berry será um de nossos representantes mais proeminentes caso a Voyager seja encontrada por civilizações alienígenas.

Esse é um resumo de sua história, mas sua influência sobre a história da cultura nos EUA e no mundo precisaria de muito mais para ser exposta. O Rock n’Roll tem sua origem no Blues e no Jazz e  foi fruto de um processo social. Muitos podem ser apontados como passos fundamentais para a chegada ao gênero musical mais importante do século XX. Artistas negros como a Irmã Rosetta Tharpe ou Muddy Waters certamente trouxeram o Jazz e o Blues mais próximo do que viria a ser o Rock. Mas a primeira vez que o Rock n’Roll apareceu pronto, como produto acabado para o mundo, foi na guitarra cheia de riffs liderando o conjunto, e tocada com estilo, com as dancinhas e toda a sensualidade de Chuck Berry.

Durante um período de tensão racial aberta da história dos Estados Unidos, que justificava a regravação domesticada da música dos negros nas vozes de Elvis ou Pat Boone, Chuck fez parte do primeiro time de artistas negros que ‘atravessaram’ a barreira para o mercado branco. Suas músicas foram regravadas por artistas como os Beatles, Rolling Stones, David Bowie, Eric Clapton, The Doors, Elton John, Jimmi Hendrix, Ramones e muitos, muitos mais. A partir de Chuck e de outros artistas, como Little Richard, o Rock influenciou a geração seguinte de artistas se tornou um fenômeno cultural sem precedentes que dominou a música no mundo todo. E essa presença cultural do Rock se faz sentir não apenas na música, mas na política, como se pode notar pela presença de artistas e músicas associados às lutas pelos direitos civis para os negros e negras, ou na luta contra a guerra do Vietnã. E também na economia, provado pela quantidade de capital que movimenta a indústria fonográfica e a explosão que aproveitou com o fenômeno.

Com Chuck, a rebeldia, o estilo, a sexualidade aberta, os desejos de consumo, e a irreverência necessárias para tornar o Rock n’Roll tudo o que se tornou, apareceram misturados com um som que vinha evoluindo através de inúmeros estilos particulares, de muitos artistas. Desde o Jazz, do Blues, pegando emprestado do Country, acelerando pelo Rhythm and Blues para formar mais esse estilo único, próprio. O primeiro exemplo de Rock n’Roll. Essa combinação passou a ser a nova base sobre a qual continua esse processo de evolução da música nas mãos dos artistas. Um marco que repercutiu na cultura do mundo. E por isso, hoje, a maioria das músicas mais conhecidas internacionalmente, as favoritas, as mais lembradas, pertencem aos últimos 70 anos, a essa nova era da música popular, uma era que começou com os acordes da guitarra de Chuck Berry.

Foto: H. Michael Karshis

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