Eleições na Holanda: além da derrota da extrema direita nas urnas, nada a comemorar

Por: Victor Wolfgang Kemel Amal, de Florianópolis, SC

Nesta quarta-feira (15) ocorreram as eleições parlamentares na Holanda que elegeram 150 deputados e que contaram com a maior participação popular desde 1986 (83% de comparecimento  às urnas). A ameaça de o partido de extrema direita nacionalista e islamofóbico (PVV) se tornar a maior força política do país, felizmente, não se confirmou. Contudo, há pouco a se comemorar: o partido conservador e de direita de Mark Rutte (VVD) irá permanecer à frente da coalizão de governo, o que significa mais austeridade e menos direitos aos refugiados. Vamos aos números.

Em primeiro lugar, com 33 representantes parlamentares ficou o Partido Popular Liberal Democrata (VVD), do atual primeiro ministro Mark Rutte, que irá liderar a coalizão de governo pelo terceiro mandato seguido. Apesar da manutenção da liderança, o VVD perdeu 6 parlamentares em relação à eleição passada, o que demonstra a migração de parte de sua base para outros partidos, particularmente para a extrema direita.

O PVV, do islamofóbico Geert Wilders, ficou em segundo lugar. Coincidentemente o partido obteve 20 representações parlamentares, 5 a mais do que nas eleições passadas, 1 a menos que a quantidade de representações que o VVD perdeu em relação às eleições de 2012. Ao zoológico da extrema-direita se soma o Fórum pela Democracia, uma versão local da «alt-right» americana. Obteve 2 deputados e sua campanha foi contra a “diluição do sangue holandês pelos estrangeiros” e afirmava em seus materiais que “todas as mulheres, secretamente, tem vontade de ser violadas” (sic!). Em terceiro e quarto lugar ficaram os direitistas Democratas 66 (D66) e a Democracia Cristã (CDA), ambos com 19 parlamentares. Ou seja, os 4 principais partidos da casa se encontram no espectro da direita, oscilando em níveis de radicalização e moderação.

Em 2012 o Partido Trabalhista Social Democrata (PvdA), tradicional partido de conciliação de classes holandês, fez 24,8% dos votos e obteve 38 cadeiras no parlamento. Agora, em 2017, fez apenas 5,7% e obteve meras 9 mandatos. Foi castigado por ter sido parte ativa nas políticas neoliberais e de austeridade dos últimos 30 anos, tendo inclusive composto com o governo atual. Foi também partícipe do acordo sangrento entre Merkel e Erdogan que trancafiou 3 milhões de sírios na Turquia (sem permitir que eles vão para a Europa); como também da chantagem humilhante da União Europeia contra o povo grego no auge da sua crise econômica, em 2015.

Com o colapso da socialdemocracia, vários partidos de esquerda herdaram sua votação, com pautas específicas e não está claro quais conseguirão se firmar. O partido Esquerda Verde, de Jesse Klaver, quadruplicou sua votação e agora tem 14 representantes e fez uma campanha defendendo os imigrantes. Isso significou um giro à esquerda de suas posições das últimas décadas, já que chegou a defender a guerra do Afeganistão e o fim das bolsas de estudo para a Universidade. Já o partido Socialistas também elegeu 14 deputados e defendeu as pautas mais históricas da socialdemocracia, abandonadas pelo PvdA (como por exemplo contra a privatização da saúde), embora tenha se abstido no tema da imigração, o que é particularmente indigno no contexto holandês e europeu atuais. Sobrou espaço para um partido que defendeu pautas ambientais com 5 deputados (O “partido em defesa dos animais”) e o Denk, que obteve 3 cadeiras com uma campanha em defesa dos imigrantes. Como aspecto pouco claro estão suas ligações com o regime de Erdogan na Turquia.

Apesar de ser uma boa notícia o fato que o PVV, partido de Wilders, não tenha conseguido emplacar como principal força parlamentar, a direitização política na Holanda é assombrosa. A agenda política do país durante as eleições girou por completo em torno das pautas de extrema direita levantadas pelo PVV, como a deportação de muçulmanos (principalmente turcos e marroquinos), fechamento de mesquitas, entre outras medidas racistas e xenofóbicas. Este fato levou à radicalização da direita dita moderada e uma apropriação do discurso populista islamofóbico por estes partidos ditos “de centro”. O fenômeno de “direitização do centro” que ocorre na Holanda também se passa no resto da Europa, principalmente França, Alemanha e Inglaterra.

Alguns exemplos podem ilustrar como esse fenômeno se deu na Holanda. Quando ocorreu a agudização da crise dos refugiados em 2015, o primeiro ministro Rutte fez uma política na exata contra-mão do que seria uma solução para a crise: aumentou as restrições para a entrada e legalização dos refugiados; e diminuiu o tempo de asilo para os refugiados que chegaram na Holanda, mas não tiveram seu visto aprovado. Isto além de declarações como “se os muçulmanos quiserem permanecer na Europa, eles devem aprender nossos valores”, dando a entender que a religião muçulmana é antagônica à democracia. Islamofobia nua e crua.

Além disso, na semana passada, Rutte expulsou do país o chanceler turco Mevlut Cavusoglu e a Ministra de Alimentação e Saúde Fatma. Ambos estavam na Holanda para fazer um comício em favor do referendo promovido por Erdogan, cujo objetivo é cercear as liberdades democráticas dentro da Turquia em favor de si próprio. Por mais nefasto que seja o tal referendo, foi uma provocação aos imigrantes turcos e muçulmanos em geral e uma clara capitulação à extrema direita xenofóbica e anti-turca. Este “incidente diplomático” foi uma tática do primeiro ministro para ganhar um setor da base de Wilders, mostrando-se também um candidato “à direita”. Ou seja, por mais que o PVV não tenha se tornado a maior força política nacional, a sua mera ascensão serviu para influenciar fortemente a agenda do governo de “centro-direita”.

Agora, Rutte terá que formar uma nova coalizão de governo, em função da diminuição estrondosa dos votos da social-democracia. O mais provável é que o VVD forme a base de sua coalizão junto à Democracia Cristã e o Democratas 66. Contudo, ainda não seria suficiente para formar uma maioria. Alguns cogitam a possibilidade de Rutte convidar a Esquerda Verde para a coalizão, o que, caso aceitem, seria uma capitulação sem tamanho dos verdes, dadas as diferenças entre ambos no terreno da imigração e dos refugiados. O líder do partido é filho de marroquinos e fez oposição ao endurecimento das leis migratórias executada por Rutte durante seu mandato. Apesar disso, o histórico de capitulações bárbaras da centro esquerda europeia faz dessa possibilidade algo não impossível. Rutte também afirmou que está fora de cogitação integrar o PVV de extrema direita no governo. Ainda assim, o futuro holandês com um terceiro governo liberal-conservador é austeridade e xenofobia certa, o que torna ainda mais urgente a resistência unificada da esquerda contra essa agenda na Holanda e em toda a Europa.

[1] Algumas das informações deste artigo foram extraídas do site A l’encontre

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