O que aprendi com Logan

Por Henrique Canary, Colunista do Esquerda Online

(Não contém spoilers)

A última aparição de Hugh Jackman como Wolverine nos cinemas era, sem dúvida, um dos eventos mais esperados do ano. E valeu a pena! Inspirado no arco de HQ’s “Velho Logan”, Logan, dirigido por James Mangold (Wolverine – Imortal, 2013) é, de longe, o melhor filme de toda a franquia X-Men, faz justiça ao talento de Jackman, ao seu incrível crescimento como ator nestes 16 anos em que interpretou o Wolverine, e à grandeza de sua personagem. O filme é simplesmente fantástico. Ótima fotografia, roteiro bem amarrado, ritmo certo. Logan é, também, o filme mais realista da franquia. Praticamente um drama. Para melhorar, é um “road movie” (algo absolutamente incomum – talvez único – para um filme de super-herói), embalado pela voz arrastada e o violão inconfundível de Johnny Cash.

O roteiro dialoga com a HQ, mas segue um caminho próprio. Em um não tão longínquo 2029, os mutantes foram praticamente extintos, e James “Logan” Howlett vive recluso em uma fábrica abandonada na fronteira do México com os Estados Unidos, trabalhando como motorista para um aplicativo, e cuidando de seu velho mestre e amigo, Charles Xavier, que a esta altura já passa dos 90 anos, e sofre de constantes e perturbadoras convulsões. Aquele que foi “o cérebro mais perigoso do mundo” agora delira quase todo o tempo, e depende de remédios para continuar funcionando. Mas também para Logan as coisas não estão boas. A pobreza escancarada, a humilhação pelos clientes, a solidão, as lembranças do passado. Logan agora manca, suas feridas não cicatrizam como antes, suas garras não funcionam tão bem, seu corpo se enche de cicatrizes das velhas batalhas e o poderoso herói degenera a olhos vistos a cada minuto do filme. Nestas condições, ele precisa levar uma pequena mutante conhecida nos quadrinhos como X-23, para um lugar seguro do outro lado do país. X-23, ou Laura, é uma mutante extremamente poderosa: tem garras de metal que lhe saem das mãos, é agressiva, quieta e, quando acuada, se comporta como um animal. “Ela não lhe lembra ninguém?”, pergunta Xavier a Logan…

Logan é um filme sobre doença, velhice e a fragilidade da vida. Mas é também uma ode às novas gerações, aos mais jovens, àqueles que hoje erram e agem por impulso, mas que certamente aprenderão a ser melhores do que nós, àqueles a quem o futuro pertence. Logan nos ensina que o tempo é implacável, que até os mais poderosos heróis envelhecem, se tornam carentes e doentes. Nessas condições, não há outra saída a não ser confiar nas novas gerações. A vida tem que seguir adiante, a despeito dos indivíduos. “A morte é uma impiedosa vitória da espécie sobre o indivíduo”, disse Marx nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos, de 1844. Que profundo e inspirador! Não é preciso ter o “fator de cura” para enganar a morte. Há outros meios. Entregar o bastão aos mais jovens e deixar a vida seguir seu curso é um deles.

“Não seja aquilo que eles fizeram de você”, diz Logan para X-23 a certa altura do filme. Para aqueles que sonham e lutam por um mundo melhor, este também é um bom conselho. Talvez o mais importante de todos! Ninguém colocou garras de adamantium em nós, nem nos submeteu a experimentos bizarros para nos transformar em máquinas assassinas. Mas a sociedade em que vivemos de alguma maneira “nos fez”. Ou tenta nos fazer. Quer que sejamos individualistas, que não sejamos solidários, que sejamos indiferentes, que nos preocupemos apenas com nós mesmos. É preciso resistir. Não ser aquilo que eles querem fazer de nós. Assim, ainda que não sejamos imortais, a causa a que servimos poderá viver para sempre. E nós viveremos nela.

Essas foram algumas lições que aprendi assistindo Logan.

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