O FORA TEMER que incendiou o palco maior do Carnaval de Salvador

Por Jean Montezuma, de Salvador.

Era uma noite de sexta-feira de carnaval na passarela principal do circuito Dodô (Campo Grande), local onde grandes canções foram eternizadas em momentos históricos ao longo dos carnavais. Foi nesse palco sagrado do carnaval que a banda Baiana System comandou um dos momentos mais marcantes da folia de Salvador esse ano. O vocalista Russo passapusso, de cima do trio elétrico, acendeu a faísca com o grito “Golpistas, machistas! Não passarão!”, imediatamente seguido do brado “FORA TEMER!” que incendiou a avenida. Esse momento marcante foi transmitido ao vivo pela rede de televisão estatal da Bahia e no dia seguinte viralizou nas redes sociais obtendo grande repercussão em todo país.

A originalidade do ato não está no chamado pelo  “Fora Temer” em si. É bom que se diga, embora a mídia não mostre, por todo o Brasil o coro pelo Fora Temer ecoa nas ruas durante esse carnaval. São marchinhas, faixas, fantasias, todo tipo de manifestações nos carnavais Brasil à fora que dão conta que os foliões não perderam a oportunidade de lembrar, mesmo na folia, que esse governo golpista, inimigo do povo trabalhador, merece todo nosso repúdio. O que é marcante na atitude protagonizada pela banda Baiana System é o significado que o ato, de mensagem forte e imensamente progressiva, adquiriu por se realizado num palco onde históricamente as manifestações políticas dos artistas vão sempre no sentido inverso.

Quem conhece o carnaval de Salvador, ou mesmo quem já o acompanhou pela TV, já deve ter presenciado inúmeras vezes os artistas dedicarem longos minutos para bajular prefeitos e governadores, tecer elogios mil, dizer que eles são os grandes responsáveis pela festa maravilhosa e que nos seus governos tá tudo indo muito bem, concluindo quase sempre com um pedido aos foliões que aplaudam o tal governante do momento. Foi assim nos tempos de ACM, o avô, continua sendo assim com  ACM, o neto, e tem sido assim também com os governos estaduais do PT. Foi  essa lógica adesista  que o “Fora Temer” puxado pela Baiana System e acompanhado entusiasticamente por milhares de foliões subverteu.

Na prefeitura, aliada do governo golpista de Temer, o Fora Temer que ecoou na avenida provocou um descompasso entre prefeito e sua equipe. Num primeiro momento, o presidente do Conselho Municipal de Carnaval (COMCAR), Pedro Costa, reagiu indignado chegando até a ameaçar deixar a banda fora dos editais da prefeitura para o Carnaval de 2018. A ameaça de censura, obviamente, repercutiu muito mal. Horas depois o prefeito ACM Neto, em uma entrevista para um portal de notícias local, tentou minimizar o ocorrido e abafar a repecussão ruim da declaração do presidente da COMCAR expressando que “não trabalha com censura”.

Ao fim e ao cabo, só o fato da ameaça de censura ser colocada na mesa já merece todo nosso repúdio. Pedro Costa disse que o Código de ética do carnaval proíbe manifestações políticas. Mas o que seriam os costumeiros elogios feitos pelos artistas e seus pedidos de aplausos a prefeitos e governadores senão uma manifestação política? A hipocrisia é tamanha que quando convém a manifestação política de determinado artista é vista como uma demonstração de “carinho”, um gesto esvaizado de conteúdo político. Já quando vai no sentido oposto, de oposição, a conversa muda e passa a se tratar como algo impróprio para a festa.

No entanto a prefeitura de Salvador e o seu Conselho de carnaval não se chocaram, nem invocaram o Código de ética do Carnaval quando o cantor e vereador Igor Kanário, da base aliada do prefeito, contratou para sua banda ex-membros da Banda New Hit, estupradores que impunemente desfilam no carnaval enquanto suas vítimas mudaram de estado e foram inseridas no programa de proteção a testemunha por causa das ameaças de morte que sofreram. Sobre esse tema, esse sim caro e relevante,  nenhuma palavra foi dita pelo prefeito e pelo presidente do Conselho de Carnaval.

O grito “Machistas, golpistas, não passarão!” puxado do alto do trio elétrico pela banda Baina System não deve valer somente para o carnaval, onde inúmeras campanhas políticas bucam  combater a violência machista que hora vem “fantasiada” de paquera, quando na verdade é assédio, hora vem das formas mais bárbaras com todo tipo de agressões físicas que colocam em risco a vida das mulheres. A ideologia machista e as violências, físicas e psicológicas, que ela provoca devem ser combatidas todos os dias, é parte instrinséca da luta por uma sociedade justa e igualitária.

Nesse sentido, o grito que foi repetido em coro pelos milhares de foliões, em especial pelas mulheres, e  que reverberou em toda avenida,  precisa exercer efeito real de mudança de postura também na própria banda Baiana System, a começar pelo seu vocalista, que diante de um caso de  estupro no qual um de seus parceiros musicais se envolveu, optou pelo silêncio. Não existe omissão frente ao machismo, o silêncio contribui com a violência, inocenta o agressor, e se abate como uma segunda violência contra a vítima. A luta contra o machismo não pode se limitar ao discurso, ela exige ação prática, transformadora, combate ao machismo não pode ser algo pra ser dito apenas nos dias de festa.

 

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