O carnaval da pipoca e o recuo das cordas

Por Jean Montezuma, de Salvador.

 

Já é carnaval cidade, acorda pra ver.

 

Nesses dias de fevereiro os versos da canção do cantor e compositor Gerônimo ganham um significado todo especial. As chaves da cidade já foram entregues ao Rei Momo e oficialmente já é carnaval em Salvador. Muito embora, na prática, o clima de carnaval já tenha tomado conta da cidade com as folias pré-carnavalescas como o Furdunço, que no último domingo dia 19 levou mais de 1 milhão de pessoas para Avenida Oceânica indo da Ondina até a Barra, trajeto inverso daquele que é feito nos dias oficiais da folia. O carnaval de Salvador, que só em 2016 atraiu uma multidão de 2,5 milhões de pessoas aos circuitos da festa, é considerado a maior festa de rua do mundo. É, sem dúvida, uma das mais belas manifestações da nossa cultura popular, palco de uma mistura de ritmos e tradições.

Essa imensa festa popular é também o palco onde o capital faz grandes negócios. Com a popularização da Axé Music e seus grandes artistas que alcançaram  notoriedade ao longo dos últimos 30 anos, vimos a ascensão de um modelo de carnaval dos grandes blocos e seus trios elétricos, com suas cordas que separam o folião associado (aquele que paga pelos caros abadás) do folião “pipoca”. Essa  imagem dos trios e suas cordas se tornou uma representação marcante das contradições que envolvem o carnaval de Salvador, um símbolo da segregação que deixa do lado de fora das cordas aqueles que são os grandes responsáveis pela festa, afinal a origem dos nossos ritmos não remontam outra fonte senão a cultura negra.

É bom que se diga que ao longo de todos esses anos, por maior que tenha sido o apetite voraz dos grandes blocos e suas cordas, eles jamais conseguiram reduzir o carnaval de Salvador a sua mera imagem e semelhança. O carnaval da capital baiana sempre foi mais plural que isso, em que pese o desprezo dado pela cobertura midiática concentrada sempre nos grandes circuitos, blocos e super estrelas como Ivete, Daniela e Chiclete com Banana. No entanto, na última década uma nova tendência vem ganhando força e agora se reafirma em 2017: o nítido recuo das cordas e um aumento expressivo do chamado “carnaval da pipoca” com grandes artistas puxando trios sem cordas e maior investimento em atrações gratuitas, incluindo o resgate do circuito Batatinha que fica no Pelourinho, centro histórico de Salvador.

Esse recuo das cordas é, por um lado, uma manifestação da crise dos grandes blocos, onde mesmo alguns dos maiores e mais tradicionais foram à falência e outros, dentre eles Cheiro de Amor, Nana Banana e Araketu, que optaram por não desfilar esse ano responsabilizando a crise econômica. Diney Azevedo, diretor do Nana Banana, bloco que era puxado pela Banda Chiclete com Banana e por isso tinha um dos abadás mais caros e disputados de outrora, declarou em recente entrevista que a crise e a falta de patrocínio atrapalharam os planos do grupo neste ano. “A gente fez uma pesquisa financeira e, diante da crise que assombra o país, preferimos segurar esse ano.Os patrocinadores foram os primeiros a recuar por conta da crise, e a gente sabe o quanto eles são importantes para a festa”, disse.

Contudo, o mesmo grupo que administra o Nana Banana nos serve de exemplo emblemático da mudança de foco daqueles que tratam o carnaval como negócio. Se o bloco Nana Banana não vai pra rua alegando crise, o mesmo não se pode dizer do camarote Nana Banana que está a plenos pulmões vendendo ingressos que variam de 700 a 900 reais por dia! Os camarotes do carnaval de Salvador reafirmam a lógica de privatização dos espaços públicos e de exclusão com a qual a grandes empresas e patrocinadores sempre operaram no carnaval. Se antes ofereciam a poucos o privilégio de estar dentro das cordas, agora oferecem a essa mesma parcela de privilegiados, de maioria branca, formada essencialmente pela classe média alta e por turistas, as vantagens de no luxo de seus camarotes, assistindo a festa de cima, em um ambiente “vip e selecionado” sem precisar se misturar com o povo.

Se ao longo dos últimos anos os empresários foram gradualmente mudando o foco dos seus investimentos para os camarotes, que se demonstram nesse momento mais rentáveis do que a venda de abadás, alguém precisava arcar com o ônus de financiar os custos dos desfiles dos trios e os altos cachês das grandes estrelas. É justamente aí que entrou a parceria com o poder público. A prefeitura de Salvador e o Governo do Estado se lançaram numa corrida para ver quem bota mais blocos na rua. Os números resultantes dessa corrida chegam a soma de mais 10 milhões de reais em cachês e financiamentos parciais ou integrais para blocos. Ao longo dos 7 dias oficiais da festa serão 110 atrações gratuitas em todos os circuitos. Nessa lista de atrações estão artistas como Ivete Sangalo, Gilberto Gil, Bell Marques, Maragareth Menezes, Claudia Leite, Daniela Mercury, Léo Santana, É oTchan, Anitta, Moraes Moreira, e muitos outros. Mais uma vez, o racismo se expressa na desigualdade da destinação dos recursos. Não precisa nem dizer que os recursos repassados aos blocos afros não passam nem perto do montante destinado as grandes estrelas que recebem destaque na cobertura da grande mídia.

O prefeito ACM Neto (DEM) e o governador Rui Costa (PT) se apropriam e distorcem a progressiva reivindicação histórica de um carnaval sem cordas. Estes senhores que passam o ano inteiro negando aumento a servidores, sucateando a educação e a saúde, sempre alegando que a crise esvaziou os caixas de suas administrações, mudam totalmente o discurso quando o assunto é carnaval. Tanto o prefeito democrata, quanto o governador petista,  justificam os grandes investimentos que fazem no carnaval como uma ação em beneficio do povo, como uma defesa do carnaval popular do folião pipoca. Pura hipocrisia, temperada com auto-promoção.

Se quisessem organizar um carnaval que tivesse como centro a promoção e a celebração da cultura popular, ACM Neto e Rui Costa  teriam que romper seu compromisso com a escalada de crescimento dos camarotes, com o domínio dos patrocinadores e seus contratos de exclusividade para suas marcas, com o toma lá da cá com toda a cadeia de empresários de vários ramos que todos os anos enchem os bolsos com a festa do nosso povo. Se tivessem compromisso com o povo que faz a festa na pipoca, governador e prefeito precisariam encarar o problema da violência policial e do racismo institucionalizado que ano após ano produz situações grotescas que começam no deslocamento do folião que sai da periferia até os circuitos da festa, continuam no circuito com os “baculejos” e tantas outras ações que caracterizam abuso de poder e uso excessivo de força policial, e continuam na volta pra casa com novos baculejos e longas esperas nos pontos por ônibus que retornam sempre cheios.

O discurso populista de ACM Neto e Rui Costa tem o objetivo de encobrir um fato incontornável: ambos, governo e prefeitura, tem como foco seguir fazendo do carnaval de Salvador, com cordas ou sem cordas, uma atraente oportunidade para os empresários fazerem negócio. Ainda com todas as contradições, o recuo das cordas e o aumento expressivo de oportunidades para o folião pipoca brincar o carnaval é progressivo, afinal o toque do atabaque e do agogô são nossos, as ruas também precisam voltar a ser. É preciso reafirmar que nós, o povo negro e trabalhador somos os verdadeiros protagonistas dessa festa, e que nossa cultura não esta em leilão.

 

 

Foto: Arisson Marinho Retirada do site carnavalsalvadorbahia.com.br

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