Manifesto contra realização do concurso da rainha do Trem Elétrico no Sindicato dos Metroviários de SP

Da Redação

Metroviárias e metroviários de São Paulo lançam manifesto contra a realização, pelo sindicato da categoria, do concurso da rainha do Trem Elétrico. O documento lembra a luta das mulheres no mundo e reflexos do machismo, como a exigência a padrões de beleza e a objetificação da mulher. O Esquerda Online divulga o documento, na íntegra, abaixo.

*Manifesto contra a realização do concurso da rainha do Trem Elétrico no Sindicato dos Metroviários*

As mulheres estão nas ruas no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, contra Trump e seu discurso machista e preconceituoso; na Argentina, a manifestação Ni una menos contra o feminicídio e a violência de gênero; no Brasil, as mulheres marcharam contra Eduardo Cunha e os retrocessos em seus direitos. Essas mobilizações pressionam a sociedade para uma nova postura em relação às mulheres e sua luta por direitos. Até a rede Globo reconheceu e incorporou isso: nas propagandas globais do carnaval de 2017 não há mais a imagem da mulher negra hiperssexualizada, dessa vez a emissora investiu em uma Globeleza vestida que apresenta a riqueza cultural brasileira, com amostras do frevo e o do maracatu.

*O que está por trás dos concursos de beleza*

O uso do corpo da mulher em propagandas mostra o quanto a mídia contribui para a construção de uma imagem de mulher objeto.  No carnaval, normalmente, o marketing da festa é a imagem de mulheres negras, as famosas “mulatas brasileiras”. A figura da mulata como objeto de exportação transforma os corpos negros em meras mercadorias para a satisfação masculina. Trata-se de uma herança da cultura da escravidão. No carnaval fica ainda mais explícito como o machismo aliado ao racismo é nefasto às mulheres negras, inclusive o quadro é tão grave que vitima até crianças: são centenas de casos de abuso e prostituição infantil na “rota carnavalesca”.

*Nosso Sindicato deve se conectar com a onda de lutas das mulheres*

Existe na categoria metroviária um bloco de carnaval construído por trabalhadores, a Banda do Trem Elétrico. Como em muitos blocos, existe uma tradição que remonta um dos mais clássicos casos machistas desta festa: a escolha da Rainha e das Princesas. São mulheres jovens, a maioria negra, que desfilam e sambam perante um júri. São avaliadas e classificadas utilizando critérios de beleza e simpatia. A banda não faz parte do nosso sindicato – apesar de alguns diretores da entidade atuarem em sua organização -, mas utiliza o espaço deste para muitas de suas atividades, incluindo este concurso. Há um homem que agencia as mulheres e a vencedora recebe uma premiação em dinheiro.

Há alguns anos muitas mulheres da categoria questionam a realização desta competição, ainda mais dentro de um sindicato de esquerda, comprometido com as lutas feministas. A exigência de padrões de beleza inalcançáveis para a maioria das mulheres trabalhadoras gera baixa autoestima em muitas mulheres, além de disseminar a competição. A objetificação das mulheres negras no carnaval reforça uma imagem de servidão, legitimando seu lugar na base da pirâmide social, lugar este de origem escravocrata. Por tudo isso, para nós é contraditório um sindicato de esquerda, com uma secretaria de mulheres e de assuntos raciais, compactuar e participar da escolha da rainha e da princesa da banda.

Nós, homens e mulheres, que assinamos esse manifesto nos colocamos contra esse concurso e achamos que esta discussão deve ser feita de maneira mais séria nos próximos anos. A organização que representa os trabalhadores também deve ser um espaço que acolha homens e mulheres, criando uma relação de igualdade, onde ninguém seja desrespeitado. A cultura popular, infelizmente, não está imune às influências de uma cultura patriarcal, porém, é nosso papel lutar contra essa apropriação que reforça as opressões e divide ainda mais os trabalhadores.

Foto: CTB SP

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