Por que eu, uma pessoa que se orgulha em ser israelense, quer que o mundo nos boicote?

Artigo publicado no jornal israelense Haaretz, no dia 29/1/2017.
Tradução de Wilma Olmo Corrêa

Ilana Hammerman é uma judia israelense,jornalista e escritora que se notabilizou por realizar atos de transgressão como visitar os territórios ocupados por Israel, levar jovens palestinos à praia em território israelense, levar palestinos da Cisjordânia visitar parentes internados em hospitais em Israel. Coisas que seriam simples atos sociais viraram transgressões passíveis de acusações criminais em um regime racista e colonial.

ilana

Faz parte de organizações de defesa dos direitos humanos em Israel, como o B’Tselem, que se especializa em denúncias contra as perseguições aos palestinos nos territórios ocupados em 1967 e da Associação de Direitos Civis de Israel e fundou em 2010 um grupo de mulheres que prega a desobediência civil. Sua carta tem uma importância muito grande, pois dá um passo que poucos os judeus israelenses que não são antissionistas convictos e militantes dão: pedir o boicote de Israel. Ela explica que o faz por uma razão própria de autodefesa em relação ao tipo de vida que deseja para si, sem viver em um estado que oprima sistematicamente outro povo. No contexto em que a opressão que Israel realiza contra os palestinos cresce dia a dia, amparados mais ainda pelo sinal mais que positivo vindo da Casa Branca, se o exemplo for seguido poderia ser um poderoso fator auxiliar na luta dos palestinos pela sua libertação. Mais do que nunca as palavras de Engels ressoam como certeiras: “Não pode ser livre um povo que oprime outros povos!”.
Editoria Internacional do Esquerda Online

Com muita dificuldade, estou pedindo aos meus concidadãos que liderem o chamado a um boicote internacional, porque de outra forma nosso país estará perdido para sempre.

 

Boicotes por razões políticas são uma ferramenta legítima que se enquadra nos quesitos para a proteção da liberdade de expressão política”, um editorial do Haaretz declarou recentemente (“Entrada proibida aos críticos”, 17 de janeiro). Isto foi escrito após a aprovação na Comissão do Interior e do Meio Ambiente do Knesset para a segunda e terceira votações de um projeto de lei que proibiria a concessão de vistos de entrada ou autorização de residência a cidadãos estrangeiros que pedem um boicote a Israel ou aos assentamentos.

Por isso, invoco a confiável declaração do Haaretz para conclamar os cidadãos israelenses que reivindicam pertencerem ao campo da paz para que apelem à comunidade internacional para impor um boicote a Israel.

Eu não sou uma cidadã estrangeira, e eu não estou fazendo o apelo a estrangeiros. Não sei se estou quebrando alguma das leis antidemocráticas e ilegítimas que estão sendo aprovadas em Israel com o objetivo de negar a mim e àqueles que compartilham minhas opiniões – todos nós israelenses – nossa liberdade de expressão e nosso empenho humano e político em agir.

No entanto, uma coisa eu realmente sei: Eu estou conectada de corpo e alma a este país, onde nasci há 72 anos e para o qual eu dei meus melhores anos nas esferas profissional e pública     e eu ainda não estou disposta a romper com ele. Honestamente, eu não tenho nenhum outro país.

Como cidadã israelense e mulher engajada na vida pública, declaro que o Estado não respeita o meu direito básico de viver de acordo com a minha consciência. O Judaísmo que está sendo imposto a mim não é o meu Judaísmo. Além disso, o fanatismo nacionalista e racista do governo (liderado pelos seus ministros do Interior, da Cultura e da Educação) está se tornando cada vez mais extremo e contrário aos valores que me são mais caros. Essas iniquidades são uma preocupação interna da sociedade israelense e eu tenho o direito – e por enquanto, pelo menos, também a possibilidade – de lutar pela sua correção a partir do interior da sociedade.

Intervenção necessária

No entanto, o fato de Israel violar consistentemente as convenções do Direito Internacional Humanitário também justifica a intervenção da comunidade internacional.

Estas convenções não surgiram para que cada país individualmente e seus cidadãos pudessem fazer com elas o que bem entendessem, ou o que achasse conveniente. Elas foram escritas na sequência das lições aprendidas na Segunda Guerra Mundial, durante a qual milhões de civis foram mortos, presos, expulsos e deslocados de suas casas. Elas têm a intenção de reduzir o dano, e proteger as populações civis que vivem em terras ocupadas.

Israel está ocupando os territórios da Cisjordânia e controlando o destino dos milhões de seus habitantes árabes através da ocupação e do governo militar. Ao fazer isso, está violando todos os princípios básicos dessas convenções. Está instalando seus próprios cidadãos nesses territórios; está destruindo a propriedade de indivíduos e comunidades de lá; está expropriando terras públicas e privadas para as suas próprias necessidades e as necessidades dos seus cidadãos; e está sistemática e consistentemente impondo medidas punitivas coletivas sobre os palestinos. Isto equivale a restringir suas liberdades de circulação e de atividade cívica e está encarcerando dezenas de milhares deles em prisões no seu território soberano: cerca de 1 milhão de palestinos foram presos pelas forças de segurança israelenses desde 1967, através de leis militares ou até mesmo sem nenhum julgamento.

Todas estas violações dos direitos humanos têm sido realizadas não em tempos de guerra e não apenas em um ano ou dois, mas durante 50 dos quase 69 anos da existência de Israel. Você não precisa ser um advogado ou um especialista militar para entender que essa política sistemática não tem justificativa legal ou de segurança: olhos abertos e o senso comum são suficientes para compreender que esta política está sendo impulsionada por razões ideológicas – sejam elas ocultas e enganadoras (como antes), ou explícitas e insensíveis como são agora.

Sendo assim, como uma cidadã israelense e uma mulher que está envolvida na vida pública, considero há muito tempo como meu direito e dever, o ato de abrir os olhos e olhar – e também documentar esses golpes ilegais contra a vida das pessoas, contra a propriedade, a dignidade e a liberdade que meu país e seus soldados, autoridades e funcionários governamentais estão desferindo a apenas alguns quilômetros de minha casa.

E nos últimos anos – diante da indiferença da maioria dos cidadãos israelenses – também vi como meu direito e dever fazer um chamado para violar as ordens e as leis envolvidas na aplicação desses golpes. Eu mesma também desobedeço a essas ordens e leis: Por exemplo, eu visito os palestinos nos territórios [ocupados], apesar dos sinais em vermelho proibindo-me de fazê-lo; e ocasionalmente eu contrabandeio um trabalhador palestino ao seu trabalho, eu levo uma mulher e seus filhos à praia, ou familiares a visitar um parente em um hospital israelense.

Contudo, enquanto faço essas coisas com todo o coração e de boa vontade – por razões políticas e morais, e o desejo de ajudar pessoas perseguidas que estão em perigo – é com uma profunda dificuldade emocional e dor que eu faço este chamado aos israelenses para que eles apelem à Comunidade Internacional a fim de impor um boicote. Além disso, estou fazendo isso apenas por razões político-pragmáticas.

Isso é porque Israel não é o país que mais merece ser atingido por um boicote. Nos séculos 20 e 21, houve e ainda há transgressores cem vezes piores que Israel. Algumas das maiores atrocidades da era moderna foram perpetradas por vários países europeus em atos de chacinas, massacres, opressão e ocupação em suas colônias na Ásia e na África. E dentro de suas fronteiras, a União Soviética exterminou milhões de pessoas por assassinato, fome e tortura. Outros horrores foram perpetrados pelos Estados Unidos, que lançaram a bomba atômica sobre o Japão e usaram armas químicas no Vietnã.

E hoje, se ao menos fosse possível impor sanções à China por suas violações cruéis dos direitos humanos, e à Rússia por seu envolvimento bárbaro na Síria – isso é o que deveria ter sido feito. Mas isso não é possível. Esses são poderes globais a cujas regras o mundo está subordinado, e não vice-versa.

Israel, no entanto, é um país cuja economia é dependente do mundo e sua conduta. Um boicote econômico – ou pelo menos sanções como as impostas ao Irã – certamente influenciaria sua política. Isso até mesmo influenciaria a opinião pública que, com o seu cotidiano interrompido faria com que as pessoas finalmente precisassem pensar a respeito da realidade em que vivem – se não sobre as injustiças reais, então pelo menos a respeito de como é viver sobre um barril de pólvora, como vive o vizinho ao lado, e para o qual se continua a enviar fagulhas.

E assim o caminho seria construído com o objetivo de se encontrar uma solução pacífica. Isto é assim porque não importa onde a exata justiça resida neste conflito – não há nenhuma dúvida que a maior força está no poder militar de Israel, não nos palestinos com seus ataques com facas ou ataques kamikazes usando veículos – Israel é a parte que está determinando a realidade prática e alterando-a irremediavelmente.

No entanto, é apropriado que o chamado ao boicote venha de Israel – daqueles inúmeros e conscientes cidadãos que vivem aqui e temem por seu destino e pelo destino de seu país. Sim, o destino de seu país, não o destino dos palestinos – tanto o seu destino físico quanto o seu destino moral, que está agora nas mãos de forças políticas que estão levando-o à sua condenação.

Sim, esses cidadãos são conscientes e são muitos – embora seja uma minoria e o regime esteja liderando seu país com o apoio da maioria de seus habitantes, que o elegeram em eleições democráticas.

No entanto, a minoria não é obrigada a respeitar esta democracia. Porque não apenas não há nenhum lugar do mundo onde a decisão da maioria estabeleça uma base verdadeira para um regime democrático – e certamente nunca em um lugar onde tal decisão determina o destino de milhões de pessoas que não são parceiras deste regime – mas, ainda pior, é susceptível de conduzi-lo a um desastre.

Na verdade, esses cidadãos podem ver claramente tal desastre já se aproximando sobre suas cabeças. Evidência disto pode ser encontrada, por exemplo, nos numerosos artigos que estão sendo escritos nas páginas do Haaretz: “Preparem-se para a ação”, eles instam seus leitores. Vão para as ruas, eles imploram – como se as ruas ainda pertencessem a nós.

Mas essas são palavras vazias. Parece que nós não nascemos para nos preparar para a ação quando confrontados com a violenta arena pública. Então, tenhamos a coragem cívica e façamos um chamado silencioso e sóbrio à comunidade internacional solicitando a imposição de um boicote sobre o Estado de Israel. Sim, sobre o Estado de Israel, não só sobre os assentamentos, porque faz muito tempo que não há duas economias: há uma única economia em ambos os lados da Linha Verde (as fronteiras pré-1967).

Vamos fazer isso com um único e simples desejo: assegurar a nossa existência neste lugar. Porque isso, basicamente, é o que estamos falando – nossa existência, nossas vidas. Caso contrário, não haverá vida para nós por muito mais tempo – para nós, os poucos milhões – em um ambiente de dezenas de milhões, onde nossos líderes determinaram que devemos viver para sempre com nossas espadas desembainhadas, com a expectativa de também morrer pela espada, ou seja, de forma violenta.

Se o clamor para salvar Israel vier de nossas bocas, alto, claro e bem fundamentado, haverá aqueles que o ouvirão, mesmo que sejamos uma minoria.

Ninguém minimamente prudente poderia nos acusar de antissemitismo e ódio a Israel. Afinal de contas, somos judeus e israelenses, e como judeus e israelenses queremos permanecer aqui – permanecer aqui para viver, não para morrer.

 

Ilana Hammerman

Colaboradora do Haaretz

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