Gestão Dória: o marketing é a alma do negócio (ou gestão “Black Mirror”)

Por Camila Lisboa, de São Paulo

A população paulistana reprovou a última gestão da prefeitura de São Paulo, com Fernando Haddad do PT a frente. Além de ter fechado o mandato com apenas 17% de aprovação, a eleição surpreendente, em primeiro turno, de um candidato com forte discurso de oposição – João Dória, do PSDB – foi uma prova da reprovação à gestão do petista.

No entanto, é necessário reconhecer que o marketing do atual prefeito também foi motivo de seu êxito eleitoral. E agora segue sendo motivo de seu êxito nas pesquisas que avaliaram seus primeiros 30 dias de governo. Esse jogo engloba transmitir imagens simpáticas ao povo trabalhador, dialoga com a justa raiva que existe contra a classe política e usufrui das relações que o empresário e seu partido tem com a imprensa e uma parte importante do empresariado paulista.

Foi a segunda vez na história que o Datafolha fez uma pesquisa que avaliou a opinião dos paulistanos sobre as medidas de um governo com 30 dias de duração. A primeira vez foi com Paulo Maluf e os outros prefeitos só foram avaliados pelo Datafolha após os 100 primeiros dias de governo.

A realização dessa pesquisa faz parte desse amplo jogo de marketing que Dória e seus aliados fazem para constituir uma cidade inteiramente privatizada e voltada para os interesses dos bairros mais ricos. A consulta foi centrada em projetos fortemente propagandeados pelo prefeito. Ninguém foi questionado, por exemplo, sobre o aumento do valor da integração dos ônibus, medida do prefeito paralisada por ação judicial.

Combater a cara e o projeto da nova direita

Mesmo assim, nos cabe entender o fenômeno que faz com que 44% dos paulistanos definam a gestão de João Dória como Ótima/Boa. A imagem que João Dória tentou passar ao longo de toda sua campanha foi a imagem de um “não político” ágil, moderno, trabalhador e interessado em fazer os resultados aparecerem rápido. Associou essa capacidade à sua experiência como gestor de diversas empresas e promulgou a visão de que a iniciativa privada é quem é proprietária dessa agilidade.

A pesquisa do Datafolha revela que ele convenceu os paulistanos de que ele possui esse perfil. Para 71%, Doria é muito trabalhador, e 66% o consideram humilde. O prefeito também é visto como muito inteligente (92%), moderno (83%) e decidido (84%). Além disso, a pesquisa demonstra apoio majoritário a projetos como o “Cidade Linda”, “Corujão da Saúde” e o aumento da velocidade nas marginais.

O perfil de Dória e suas idéias, sintetizadas em projetos higienistas como o Cidade Linda, buscam dialogar com um sentimento progressivo da população, que tem raiva dos políticos tradicionais. Esse é um processo muito aprofundado com a experiência negativa com o PT. No entanto, possui uma base ideológica extremamente reacionária, que deve ser forte e pacientemente combatida. Quem difunde esta visão de mundo não hesita em orquestrar ataques profundos aos direitos do povo trabalhador. E é contra esses ataques que vai se desenvolver a resistência contra esta prefeitura que não contrata mais professores, que quer aumentar o preço da passagem de ônibus, que transforma “agilidade” em falta de transparência.

As consequências das privatizações, se promovidas como busca o prefeito, também poderão ser base da necessária resistência que precisamos desenvolver com o conjunto dos movimentos sociais em São Paulo.

O marketing tem limite

Há resultados, porém, que demonstram que o marketing não sustenta uma gestão de quatro anos. Entre aqueles cuja renda familiar é de até dois salários mínimos, a avaliação de ótimo/bom cai para 35%. Entre aqueles cuja renda familiar é de mais de 10 salários mínimos, a avaliação de ótimo/bom sobe para 66%. Além disso, 35% consideram que Dória dá mais atenção para os bairros mais ricos, sendo que 20% consideram que ele dá mais atenção para os bairros mais pobres.

Apesar de seu ritmo de trabalho intenso, com as reuniões de 7h da manhã às 22h, tudo devidamente registrado em sua rede social, Dória se fez presente em bairros da periferia apenas seis vezes. Muito pouco em relação ao nível de atenção que prometeu dar à maior parte da cidade. Em lugar de conhecer a dura realidade de quem viaja a cidade para trabalhar, Dória investiu em episódios midiáticos, como se vestir de gari. Ele não foi amplamente aplaudido: 36% consideram que isso beneficia mais ao prefeito do que a cidade e 30% consideram que faz bem para os dois. Ou seja, ações midiáticas tem limites.

Da mesma forma, a pesquisa revela que 73% da população entende que as doações de empresas aos programas são motivadas pelos interesses das empresas em ter negócios com a prefeitura, não apenas por cidadania, como supõe o prefeito. Em se tratando de gestão pública, a alma do negócio tem muitos limites.

Foto: Renato Gizzi

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