Um desabafo sobre a apropriação cultural e a esquerda socialista

Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

Um polêmica que surgiu há poucos dias sobre uma garota com câncer que supostamente teria sido abordada por mulheres negras no metrô pedindo que ela tirasse o lenço que cobria o seu cabelo, deu luz a um debate antigo nas redes sociais: a questão da apropriação cultural. Questão que vem perpassando pelo movimento negro há décadas. Materiais teóricos e debates intensos nos meios virtuais e espaços coletivos foram criados e ainda não se tem um total consenso sobre a apropriação.

Aliás, o consenso no movimento negro mais preciso e que deve ser respeitado pela esquerda socialista é de que a apropriação cultural existe.

No entanto, alguns militantes que se consideram marxistas se levantaram contra o tema de maneira rasa, sem se propor ao debate e, em alguns momentos, de maneira infantil e leviana. Mostrando um caráter de racismo oportunista à situação, menosprezando o acumulo teórico criado pelo movimento negro e até mesmo por militantes negros marxistas, descendo o nível da pauta a utilizações comuns trazidas de outros locais (o rock, a calça jeans, etc).

É importante que tenhamos maturidade e que, minimamente, nos proponhamos a ler para lidar com temas tão delicados e que cercam as questões culturais no que diz respeito ao tema das opressões. No Brasil, essa modalidade de apagamento da nossa cultura, religião, culinária e adereços utilizados como forma de resistência e enfrentamento nos séculos de escravidão, se dá através da indústria da moda e da mídia, que banaliza aspectos culturais afrocentrados, desfazendo as ideias do que esses adereços trazem, banalizando esses aspectos e os diminuindo à mera utilização de moda.

Isso apaga debates culturais importantes na história do Brasil, debates que colaboram para o enriquecimento cultural e impulsionam uma soberania eurocêntrica, trazendo, ao senso comum, a ideia equivocada de que a nossa cultura não tem nenhuma relevância histórica colaborada pelo povo negro e indígena.

É a indústria de moda quem gera uma falsa demanda de utilização de adereços culturais, influencia o impulso da banalização de uma cultura. Mas, como poderíamos culpar pessoas nessa apropriação? É necessário entender que uma pessoa branca por si só não tem potencial de apropriar-se de toda uma extensão cultural, apenas por utilizar turbante, é impossível que uma única pessoa gere apagamento de toda uma cultura continental, ou de um povo através da utilização de um adereço.

Muito se debate que uma pessoa colabora para o impulso da comercialização destes produtos como meramente adereços de moda, mas vejamos o quanto isso se torna improvável. É impossível que uma única pessoa influencie toda uma indústria a continuar produzindo produtos culturais como adereços sem importância, porque é justamente o contrário que acontece. Nós somos todos influenciados a consumir, somos máquina de produção e consumo do capitalismo, somos 99% da população mundial que produz dinheiro e consome para que os outros 1% enriqueçam em cima da nossa produção e consumo.

É importante não nos esquecermos do peso racista que traz a apropriação, porque quando uma pessoa negra se utiliza de seus elementos culturais, ela é vista depreciativamente, ao passo que quando uma pessoa branca utiliza, há sempre uma perspectiva positiva com relação à atitude da mesma, fazendo com que haja higienização na utilização de adereços culturais, trazendo benefício apenas a pessoas brancas e fazendo com que pessoas negras sejam sempre preteridas por se utilizarem de sua própria cultura.

A priori, devemos culpar socialmente o racismo que a apropriação traz como um viés de opressão contra o povo que é “dono” daqueles aspectos culturais. Mas, a ponto de partida mais amplo, devemos nos ater o quanto nós podemos andar em círculos na questão da apropriação cultural, culpar uma única pessoa pela utilização de um adereço. Pode ser uma forma ineficiente de combater o apagamento cultural gerado única e exclusivamente pela cultura dominante.

Foto: Dete Lima trabalha com turbantes há mais de 40 anos em Salvador e pertence ao Candomblé. (Foto: André Frutuoso/ Divulgação Ilê Ayiê)

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