A invisibilidade tem nos adoecido

Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

Diante do contexto dos movimentos negro e feminista, vemos uma semelhança que permeiam ambos: a homogeneização de indivíduos participantes dos movimentos. Logicamente que existe, em teoria, algumas vertentes feministas e do próprio movimento negro que pautam questões específicas das mulheres negras, entretanto, na prática, ouvir estas mulheres, dar espaços políticos de destaque, dar voz política a estas mulheres dentro dos movimentos, é cada vez mais difícil, ora pela prática de reprodução de racismo das mulheres brancas feministas, ora pela reprodução de machismo por parte dos homens negros militantes.

As mulheres negras em sua massiva maioria são residentes das periferias, estão em situação de desemprego e muitas ainda sonham em sustentar sua carreira acadêmica, mesmo com um contexto socioeconômico que lhes desfavorece. Paralelo a isso, ainda manter uma vida política ativa, oferecendo sua propriedade intelectual, que é muitas vezes menosprezada ou delegada a falar unicamente de coisas que foquem no seu campo representativo.

Espaços de militância mistos ignoram que mulheres negras possam falar sobre economia, conjuntura política do século XX, direito, ciências sociais e quaisquer outros assuntos pertinentes à sociedade que não cabelo, racismo, empoderamento estético e apropriação cultural. A mulher negra não tem autonomia política para se expressar livremente, caso ela tenha conhecimentos teóricos para além do racismo, mesmo que ela mostre uma clara gama de instrução sobre outras linhas de conhecimento.

Enquanto mulheres, e em grande parte das vezes residentes da periferia, as mulheres negras possuem uma tripla militância didática todo santo dia para ser exercida. Ser mulher é ser violentada física ou sexualmente a cada 12 segundos no Brasil. Ser negro é ter 78% de chances de sofrer violência policial, sem precedentes.

Ser mulher e negra é sofrer com a estigmatização da nossa cultura, da nossa aparência, é ter de construir todos os dias a nossa autoestima enquanto mulher, pois a nossa representação nos principais meios midiáticos é reduzida a cargos braçais pertinentes ainda ao peso do contexto escravocrata, como se a nós ainda fosse cabível apenas ocuparmos estes locais.

E o impacto gerado por essa estigmatização atinge as mulheres negras em vários níveis, tangíveis e intangíveis. E dentro deste contexto, estão em diversas relações sociais e de trabalho que temos que enfrentar ao longo de nossas vidas.

O nosso adoecimento emocional se dá pela falta de espaços seguros, espaços onde a nossa livre expressão intelectual seja respeitada, onde a nossa representação à frente dos movimentos de esquerda ao menos exista.

Depois de séculos de silenciamento, chegou a hora de falarmos mais, expressar as nossas demandas e mostrar a quem se deve a revolução em um país em que a maioria é composta por pessoas negras. É hora da militância tomar para si a responsabilidade da sua educação antirracista e parar de jogar nas costas da população negra o papel de educar, coisa que sempre fomos obrigados a fazer.

É hora de respeitar nossos limites enquanto seres humano. A militância precisa parar de animalizar pessoas negras.

Foto: Marcello Casal Jr./ABr

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