Somos todos melhores que isso: marginalidade e degeneração na esquerda socialista

Por Henrique Canary, Colunista do Esquerda Online

Os fóruns da esquerda não são toda a realidade. São uma parte dela. Mas uma parte importante, principalmente… para a própria esquerda. É lá que as pessoas de esquerda se encontram para organizar suas ideias, preparar suas lutas, testar suas convicções, trocar experiências com outros militantes, e também (por que não?) disputar sua política. Os espaços da esquerda não são irrelevantes para a luta das massas. Grandes combates surgiram de ideias propostas e debatidas aí.

Nesses fóruns, as pessoas deveriam encontrar um ambiente saudável e solidário. A disputa de ideias, legítima e necessária, deveria se dar no marco do respeito aos indivíduos e às suas trajetórias. Deveria ser ponto pacífico a ideia de que toda a esquerda é débil porque partimos todos de um patamar muito baixo de educação e tradição política. Alguns estudaram mais, outros menos. Alguns são mais capazes, outros menos. Mas nada disso é qualitativo. Pelo menos hoje. Porque a escola da luta de classes tem sido branda até agora, e não aplicou ainda seus exames finais, porque não passamos por nenhum processo revolucionário que tenha formado líderes ou organizações inquestionáveis e indiscutíveis.

Deveria ser assim. Mas a principal característica dos fóruns da esquerda hoje (incluo aí o facebook e outras redes sociais que são também espaços de debate) é que eles são (como poderei me expressar de maneira civilizada?) simplesmente insuportáveis. Reina um ambiente hostil, conflitivo, de deboche e sarcasmo, de disputa e acusações mútuas permanentes. Às vezes calúnias e ataques pessoais. Em situações-limite, a violência física ou a ameaça dela. Resultado: os militantes se desiludem com a esquerda radical e se afastam.

O sectarismo parece um fenômeno meramente político, mas não é. Organizações dos mais variados “espectros” dentro da esquerda (das mais intransigentes às mais oportunistas) parecem manifestar às vezes a mesma doença infanto-senil do sectarismo. O sectarismo está se transformando na educação própria da esquerda, em seu idioma quase universal.

Preocupa-me que, quanto pior a situação política do país, mais os traços sectários se manifestam em diversas organizações de esquerda. Neste caso, arrisco a hipótese de que o sectarismo é fruto, entre outros fatores, do isolamento, da marginalidade, do desespero. A direita brasileira e mundial já foi sectária. Hoje não é mais. Aprendeu a dialogar entre si e com o povo. Os resultados estão aí…

Em geral, a marginalidade exerce uma ampla pressão deletéria sobre as organizações de esquerda e isso se expressa em distintas formas de degeneração. A vocação de uma organização socialista é chegar até as massas. Quando isso não acontece por um longo período, quando uma organização não consegue se conectar com o povo em luta, entra em um período delicado de seu desenvolvimento, que pode acabar em degeneração.

A degeneração fruto da marginalidade não afeta apenas o programa e a política das organizações socialistas, mas também seu regime interno. Muitas vezes, estabelece-se nessas organizações um regime profundamente autoritário, de direção unipessoal, onde cada “grande dirigente” torna-se o “guia genial e infalível” de um minúsculo grupo, dentro do qual sua liderança jamais é questionada. E cada minúsculo grupo se dedica a uma luta fratricida contra o grupo “inimigo”, quase sempre tão minúsculo quanto ele próprio, com o objetivo de “destruí-lo”, “desmascará-lo perante as massas” ou de arrancar-lhe, pelo menos, alguns militantes. E como “vale tudo” contra os inimigos, resulta que os métodos stalinistas ou proto-stalinistas de luta política penetram com força na própria esquerda socialista, que é frequentemente inundada de campanhas de calúnias, de ataques pessoais, de mentiras e de falsificações. A burguesia, o imperialismo e o stalinismo deixam de ser os verdadeiros inimigos da classe trabalhadora para se tornarem apenas o pano de fundo de um luta interna à própria esquerda radical.

É preciso admitir que a marginalidade é um mal comum à toda a esquerda socialista. Mas isso não quer dizer que toda a esquerda sofra os mesmos efeitos ou reaja da mesma forma a esse mal. Há também um fator subjetivo que deve entrar na conta: a atitude perante a própria marginalidade. Isso muitas vezes pode ser decisivo.

Referindo-se à IV Internacional do pós-guerra, o dirigente trotskista argentino Nahuel Moreno, que lutou durante décadas contra a marginalidade do movimento revolucionário, dizia que há trotskistas que são simplesmente marginais, “e há trotskistas tão marginais que nem mesmo sabem que são marginais”. [1]

Algo parecido disse Martin Hernandez em 2007, em uma edição especial da revista Marxismo Vivo, que lembrava o legado de Nahuel Moreno aos 20 anos de sua morte. Referindo-se às distintas atitudes das organizações trotskistas frente ao problema de sua própria marginalidade, Harnandez afirmou:

“Muitas organizações trotskistas se adaptaram à marginalidade a tal ponto que, durante várias décadas, foram construídos centenas de pequenos grupos que tiveram, e têm, como prática central procurar destruir outro grupo trotskista, na maioria das vezes tão pequeno como os primeiros, para ganhar para seu “partido” um ou dois militantes da outra organização. Para cumprir esse objetivo, normalmente se valem de qualquer expediente, desde manobrar até caluniar. Esse setor do “trotskismo”, vítima da marginalidade, renunciou na prática à eterna batalha de Trotski: encontrar, com um programa revolucionário, o caminho das massas.

Como dizíamos anteriormente, Nahuel Moreno se recusou a se adaptar à marginalidade. A obsessão de toda sua vida foi encontrar o caminho para as massas e, em especial, em direção à classe operária.

Moreno era obcecado por encontrar as palavras de ordem e as táticas que pudessem estabelecer uma ponte entre os trotskistas e as massas. Mas seríamos injustos com o movimento trotskista se disséssemos que Moreno foi o único que buscou esse caminho. Isso não é verdade. Houve muitas organizações e dirigentes trotskistas que também buscaram. Mas, o que sim é verdade, é que Moreno foi um dos poucos que lutou para encontrar o caminho em direção às massas no marco do programa trotskista”. [2]

Creio que este é o equilíbrio que a esquerda socialista deve encontrar: lutar contra a marginalidade com todas táticas necessárias, possíveis e imagináveis, mas nos marcos de um programa revolucionário; dialogar com os sentimentos mais atrasados da classe trabalhadora; acreditar que as nossas ideias devem servir, em primeiro lugar, para mobilizar as massas, que não há mérito algum na destruição mútua daqueles que lutam (às vezes com programas diferentes) pela superação do capitalismo.

Acredito que a autofagia não é o fim inexorável da esquerda socialista. Eu disse acima que a esquerda é débil. E reafirmo. Mas já fizemos tanto! Entre nós estão pessoas extremamente capazes e dedicadas, que dariam realmente a vida por uma vitória parcial da classe trabalhadora. E muito mais farão pela revolução socialista. Abro o meu facebook, vou a um debate, escuto ou leio coisas horríveis ditas por gente de esquerda. Fico um pouco irritado, mas não desanimo. Sei que vai passar, quando passar também o isolamento do qual todos somos vítimas. Entendo que na esquerda impera o medo e a incerteza diante da difícil situação política do país. Então, me encho de esperança. Porque tenho certeza: somos todos melhores que isso.

Notas:

[1] MORENO, Nahuel. Conversando com Moreno (entrevista). Editora Sundermann: São Paulo, 2005, p. 60.
[2] HERNANDEZ, Martin. “Vinte anos depois de sua morte, algumas reflexões sobre o ‘morenismo’”. In: Revista Marxismo Vivo. Edição especial. Editora Sundermann, 2007, pp. 9-10.

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