Atividade física enquanto resistência à lógica do capital

Por: Breno Nascimento da Silva, de Niterói, RJ

 O capitalismo reconhece apenas três ações necessárias aos indivíduos proletários: trabalhar, comer e descansar. A primeira atividade está diretamente ligada à produção de valores no processo produtivo, gerando lucro ao burguês por meio da extração de mais valia; as duas outras atividades dizem respeito à manutenção da força de trabalho dos proletários, sendo que quando estas duas dimensões ultrapassam a necessidade humana imediata tornam-se desinteressantes ao burguês, por constituírem também formas de lazer, algo que a burguesia hedonista deseja apenas para si. O direito dos trabalhadores ao lazer torna necessária a diminuição da jornada de trabalho. Neste sentido, foram travadas grandes lutas pela classe trabalhadora na segunda metade do século XIX, sendo os três oitos (8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de lazer) uma das principais bandeiras da Primeira Internacional, fundada por Marx.

Podemos facilmente substituir o trinômio trabalhar-comer-descansar da realidade dos assalariados pelo trinômio estudar-comer-trabalhar no caso dos mais jovens, sendo que na condição dos jovens das mais exploradas frações da classe trabalhadora, o trabalho divide espaço com o estudo,[1] reduzindo o descanso ao mínimo possível.

No Mini-manual do guerrilheiro urbano, Carlos Marighella sustenta a necessidade do preparo mental, técnico e físico (embora trate mais dos dois últimos aspectos por questões óbvias) dos aspirantes à guerrilha. “Outras formas úteis de preparação física são caminhadas, acampar, e treinar sobrevivência na selva, escalar montanhas, remar, nadar, mergulhar, pescar, caçar pássaros, e animais grandes e pequenos”.[2] Vemos que muitas dessas atividades, como pesca, caça e acampamento já são praticadas no dia a dia por populações do interior. Já a caminhada constitui um dos esportes mais praticados do mundo por sua baixa exigência de recursos, e a escalada de montanha não precisa ser feita em sua vertente mais radical, podendo ser praticada na subida de pontos turísticos e nos próprios morros das favelas.

Apesar da veia guerrilheira[3] não estar mais na ordem do dia, é necessário continuar incentivando a prática de atividades físicas entre os mais pobres[4]. Tais atividades podem ser praticadas de maneiras simples, como anteriormente demonstrado, e possuem um potencial tanto de melhoramento da saúde como expressão de lazer. Neste sentido, o bom e velho futebol se destaca no cenário brasileiro. No entanto, é preciso pontuar que atividades físicas precisam ser praticadas com regularidade para evitar que se force danosamente o corpo.

Episódios como a vitória olímpica no judô de Rafaela Silva, mulher negra favelada, levaram a algumas reações meritocráticas como: “Vejam como ela conseguiu vencer na vida apesar de tudo!” e reações de afirmação da suposta necessidade de mais projetos sociais caritativos como o Instituto Reação, frequentado por Rafaela. A estes dois tipos de reação é possível responder com uma perspectiva realmente libertadora do esporte, que seria o esporte enquanto direito social garantido pelo Estado como algo sistemático e não com característica de exceção como na caridade burguesa[5]. Sabemos que ainda estamos longe desse objetivo, sendo que para alcançá-lo é imprescindível a ação popular[6].

Voltemos aos trabalhadores e estudantes. A fadiga atinge sempre estes grupos, sinal de um descompasso entre corpo e mente. Para os trabalhadores, as atividades físicas oferecem a oportunidade relaxante de sair da rotina degradante e embrutecedora de movimentos repetitivos no trabalho. Já para os estudantes, pode representar a reconexão com mundo material em contraposição aos conteúdos acadêmicos tantas vezes apartados de sua realidade.

Um dos maiores males e calamidades que nos deixou como herança a antiga sociedade capitalista é o completo divórcio entre o livro e a vida prática, pois tínhamos livros nos quais tudo estava escrito numa forma perfeita e a maior parte das vezes esses livros nâo eram senão uma repugnante e hipócrita mentira, que nos pintava um quadro falso da sociedade capitalista. (Lênin, 1920, As tarefas revolucionárias da juventude)

Além disso, a prática de atividades físicas está em completa sintonia com a ideia de pleno desenvolvimento das potencialidades humanas, ou seja, o desenvolvimento humano em termos físicos, psíquicos e culturais. Esta ideia se choca frontalmente, portanto, com o interesse burguês de conformação de cidadãos produtivos, interesse esse que trata de tolher as potencialidades humanas e reduzi-las à dimensão do trabalho alienado.

Como o aumento das carências e dos seus meios engendra a falta de carências e a falta de meios, demonstra-o o economista nacional (e o capitalista, falamos em geral sempre dos homens de negócios empíricos quando nos dirigimos aos economistas nacionais – seu testemunho científico e existência) na medida em que ele reduz a carência do trabalhador à mais necessária e mais miserável subsistência da vida física e sua atividade ao movimento mecânico mais abstrato: ele diz, portanto: o homem não tem nenhuma outra carência, nem de atividade, nem de fruição; […][7]

Sabemos a dificuldade de fugir da cansativa rotina produtivista da sociedade capitalista, por isso mesmo não cessaremos de afirmar que a prática de atividades físicas nessas condições constitui também uma forma de resistência à lógica do capital, possuindo ainda a utilidade extra de preparar para a ação aqueles que pretendem lutar frontalmente contra a repressão do sistema.

 

[1] Importante ressaltar que para Marx o trabalho não se reduz à dimensão material do chão da fábrica, de modo que, atividades intelectuais e artísticas também são consideradas trabalho. Segundo Marx trabalho “é essencialmente dispêndio de cérebro, nervos, músculos e órgãos sensoriais humanos etc.” (O Capital, editora Boitempo p. 147) Portanto, estudar é uma forma de trabalho em sentido ontológico. O trabalho assalariado é trabalho alienado.

[2] Capítulo 3 da obra supracitada.

[3] Esta constatação não significa de modo algum a oposição ao horizonte revolucionário. Porém, a tática foquista se mostrou como uma má interpretação da ideia leninista de vanguarda, criando movimentos armados apartados da massa proletária, o que acarretou seu fracasso.

[4] Os indivíduos mais abastados já possuem acesso a toda sorte de atividades como academias e aulas de danças.

[5] A caridade burguesa existe para massagear o ego do burguês e promover sua imagem ou ainda para que possa deduzir o valor das doações do imposto de renda. Diferencia-se por isso da solidariedade de classe, um dos pilares do socialismo.

[6] O rapper Raillow em sua participação na música Favela Vive, diz: “Olimpíadas é pra quem, parceiro? Se as escolas não incentivam o esporte, o respeito do branco ao preto.”

[7] Marx, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. Editora Boitempo. p. 141.

 

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