50 tons de reacionarismo

Por: Janaína Oliveira, colunista do Esquerda Online

Desde que me entendo por gente, muito antes de vir morar em São Paulo, seja nas poesias, nas críticas, ou na música, nunca vi ninguém reivindicar as paredes cinzentas da cidade onde não existe amor.

Essa não é apenas uma polêmica cromática, mesmo que seja cômico e trágico que o atual prefeito esteja sendo chamado de Dória Gray, com apenas um tom de cinza.

A realidade sufocante da cidade justifica todas as espécies de intervenções, do lambe ao grafite, do pixo aos adesivos. Tudo é um pedido de socorro de anônimos que resistem à mecanização da rotina e à obviedade cotidiana, de quem mata no spray as angústias antes que a cidade os matem em apenas uma escala tonal.

Uma morte negra, uma mancha vermelha e uma parede branca. Nas cores da bandeira paulistana.

Violência é sobrenome. E se eles portam balas de borracha (ou de verdade) e cassetetes, se eles portam gravata e terno, se eles portam helicóptero e moram em mansões, se da janela dos Jardins eles só conseguem nos encarar enquanto vândalos, eis então o vandalismo.

O pior é que nem é por tanto que nos indignamos. Chegamos ao ponto em que a arte virou crime e sabe qual é a pior bosta? É que aqui na colônia os senhores e sinhás são tão, TÃO IGNORANTES, que enquanto socialista e ateia tenho vontade de orar para que na crise esteja submetida a uma burguesia menos imbecil.

Após as críticas, a decisão: O prefeito anunciou que irá criar o Museu de Arte de Rua (MAR). Este será itinerante e funcionará de maneira rotativa a cada três meses em pontos diferentes da cidade, previamente definidos por uma comissão dirigida pela prefeitura. [Piada]

Mas, a questão não é apenas essa. As cenas da limpeza urbana passando ‘mangueirada’ por cima dos painéis também pintou de cinza os nossos corações, apagou um último fôlego de humanidade, declarou guerra a aqueles que não têm outra disposição, se não, de botar esse governo na lona, nocaute.

Não tem perdão, nem desculpa.

Diante do desgaste não é admissível, ao menos por hora, qualquer negociação no sentido de ignorar a atitude da Prefeitura, que ainda segue apagando os painéis da 23 de maio, deixando apenas algumas poucas obras, que pelo julgamento do além, lhes parecem mais agradáveis.

A Prefeitura de São Paulo deve reconhecer que fez merda, reparar os artistas e, ou convocar novos artistas para recompor os painéis da 23, a partir de remuneração e destinação de materiais.

E mais! Por medidas concretas para reversão do diálogo entre artistas de rua e Prefeitura que estuda estipular multa de R$5 mil para quem pichar. Não dá para aceitar a criminalização, mesmo que da pichação, que se trata de linguagem e expressão, e merece tanto respeito quanto o grafite. Essa é mais uma falsa polarização.

Entretanto, é preciso reconhecer, mesmo sendo por trabalho duro, que alguns grafiteiros possuem localização diferenciada neste debate, seja por reconhecimento, ou privilégio.

Não dá para que essas figuras se abstenham da denúncia e da luta pela não criminalização da arte de rua porque têm as suas obras espalhadas pelo mundo. Ao contrário, por sua audiência, possuem ainda mais responsabilidades nesse momento.

O que ocorreu nesse final de semana ilustra bem qual será a política do Dória Gray: a detenção de Mauro Neri da Silva, que tanto nos faz pensar sobre VERACIDADE, VER A CIDADE, VE RA CI DA DE da brutal selva de pedra paulistana. Demosntra que o diálogo daqui para frente vai ser com base na criminalização e disseminação de um pensamento reacionário que coloca cidadãos contra artistas, como se os artistas não fossem cidadãos.

É preferível paredes cinzentas, ou para dar um ar mais “clean”, plantar nove mil mudas de trepadeiras e “unha de gato” para transformar a 23 de maio em paredões verdes e assim dividir a opinião pública. Aliás, como declarou o Dória, a vegetação intitulada “unha de gato” é a coisa mais linda do mundo.

É preciso resgatar os princípios e mostrar que arte de rua não é para playboy.

Quanto mais regras, mais pixos.

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