Os desafios de ser jovem

Rayane Silva Guedes, de Belo Horizonte

A melhor fase da vida, a juventude, é o momento das conquistas, a época das grandes viagens, a realização de sonhos. Ou pelo menos é isso que sempre ouvimos falar. Entretanto a realidade da maioria dos jovens é bem distante deste conto de fadas mal explicado.

Sob a angustiante tentativa de entender qual será o nosso futuro seguimos sem acertar a leitura da bola de cristal. É óbvio que os erros farão parte do caminho. Mas ainda nos cobramos muito sobre os resultados. Não obstante acordamos todos os dias nos perguntando sobre profissão, estudos e emprego. Sonhamos em ganhar o mundo, mas não sabemos o que o mundo quer de nós. Ou pior, não sabemos satisfazer o mundo, e isso está nos matando.

Não é só nas festas de família

– E o namorado?

– Quando você forma?

– E o emprego?

Parece existir uma corrida contra o tempo. Você sempre vai se  sentir velho demais para as coisas que conquistou. Sempre vai parecer muito pouco. Talvez por isso tenho visto tantos jovens adoecendo, tendo crises de ansiedade, do pânico, cometendo suicídios.

Outros jovens, porém, sabem seu destino certo. Não terão acesso à universidade. Trabalham como seus pais em um emprego precário, de baixo salário, com jornadas duplas ou triplas pra dar conta de por comida na mesa. Quantos ainda muito novos tiveram de sair de casa, dar conta sozinhos de uma vida que não escolheram? Há também aqueles que quando criança já sabiam direito se virar, por que desde os 10 começaram a trabalhar. Essas certezas não são menos doloridas que as dúvidas. Afinal de contas, quem não quer poder sonhar?

É claro que existem muitas diferenças entre as gerações. A dos meus pais sonhou em dar aos filhos tudo o que eles não puderam conquistar. Lutaram e trabalharam duro para que chegássemos até aqui. A questão é: viramos adultos e nossa realidade está muito longe de estar bem melhor do que a dos nossos pais. É óbvio que as condições de vida melhoraram um pouco no país até agora, através de muita luta. E apesar dos ataques que estamos vendo aos nossos direitos conquistados, ainda existe uma ponta de esperança. Como as ocupações de escolas que tanto encheram os meus olhos de alegria em ver uma juventude que não desistiu.

Mas a questão é que o sistema nos apresenta um modelo, cobra de nós. Mas não somos todos que temos condições de nos moldar. Não somos todos nós que queremos nos moldar. Temos planos, mas querem nos ver virar máquinas. Para um mercado de trabalho que abre e fecha suas portas conforme sua própria vontade.

A juventude é muito diversa. Somos em maioria mulheres, negros, LGBT´s. Enfrentamos o cotidiano das incertezas, e sabemos que é mais pesaroso para nós. Iremos nos aposentar um dia? Amanhã teremos emprego? Adiantará se formar em algo? Qual a profissão devo escolher? São muitas perguntas e o peso sobre os ombros de ter de dar certo. Quantos medos nos aprisionam frente à realidade do país. Mas também frente aos nossos desafios.

Há três anos moro fora da casa dos meus pais e todo mundo me pergunta, o que é mais difícil? Eu sempre respondo que é ter de se cobrar da maneira como seus pais faziam. Pois as contas chegam, a fome vem e você tem de dar conta sim ou com certeza. Mas pensando mais a fundo esse não é um peso só sobre os ombros de quem mora sozinho, essa é a dor do parto de uma passagem sofrida para a vida adulta. Que às vezes vem mais tardia, mas para a maioria começa cedo.

E a gente segue na expectativa de na luta ter menos incertezas, onde os sonhos possam se concretizar. Na tentativa de ter nosso direito a juventude, arrancar alegria ao futuro.

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