Vamos falar de tapete vermelho?

Por: Elena Yoshie, do Rio de Janeiro

Em mais um evento de tapete vermelho que precedeu o Globo de Ouro, no último domingo (8), assisti a meia hora de mulheres em vestidos longos, visivelmente desconfortáveis, andando praticamente aos pulinhos em saltos astronomicamente altos. Por que temos que falar sobre isso?

Admito, gosto muito de ver os vestidos do tapete vermelho simplesmente porque gosto de moda. Pouco me importa se os vestidos estão em manequins de cera ou pessoas de verdade. Ontem, porém, percebi que preferia tê-los vistos em seres inanimados do que na quantidade de mulheres que se submeteram a, no mínimo, algumas horas de puro desconforto. Além do grande assédio dos fotógrafos, é de assustar a quantidade de mulheres que precisam se encaixar nos padrões para desfilar em eventos como o de ontem. Qual é esse padrão? Não é difícil perceber que a maioria esmagadora das mulheres, além de padrões estéticos de beleza (caucasianas, altas, magras, jovens), apresentam também padrões no código de vestimenta: usam vestidos de grandes estilistas

(em sua maioria homens),longos, brilhantes, com calda, muitas vezes transparentes, beirando o “tomara que caia” (dessa vez sem referência específica a esse tipo de vestido) e precisam manter uma postura para usá-los, juntamente com sapatos finos e instáveis. O cabelo e a maquiagem também não fogem da regra: é perceptível como muitas mulheres fazem movimentos suaves com receio de desfazerem um penteado ou um cabelo altamente produzido e meticulosamente calculado para que não saiam daquela posição. No mínimo, uma pequena tortura para poses, flashes e alguns prêmios a serem disputados.

Não bastando toda essa produção e sacrifício, ainda há uma mídia de gosto duvidoso que junta esforços para avaliar e criticar, muitas vezes de forma que considero dura demais, os vestidos das atrizes que passam pelo tapete vermelho. Embora a maior parte dos vestidos sejam cedidos às atrizes para que façam propaganda do estilista em questão, elas ainda são os maiores alvos das críticas. E mesmo assim, ainda acho que dedicar um programa exclusivo para opinar sobre vestidos de famosas é uma baita perda de tempo e um julgamento gratuito. Nenhuma dessas mulheres pediu a opinião de ninguém.

Uma oportunidade de mercado

Por trás de toda essa festa de ostentação, é interessante perceber como atrizes famosas e outras mulheres de grande porte que passam pelo tapete vermelho viram reféns de um mercado monstruoso, insensível e lucrativo. Todas elas têm a pergunta pertinente e clássica “Quem você veste?”, feita pela primeira vez por Joan Rivers no Globo de Ouro de 1994 e que, desde então, tem sido feita nas entrevistas antes das premiações. Essa pergunta traz não só fortes marcas de machismo como também uma indústria de moda pesada que lucra toda vez que suas peças são fotografas em corpos – sim, corpos, não mais que isso – de mulheres cujo trabalho e objetivo nas premiações de cinema e TV nada tem a ver com estilistas famosos. Afinal de contas, elas serão premiadas por serem atrizes, diretoras, roteiristas, cineastas, etc. O que isso tem a ver com a peça de roupa que usam?

Há quem diga que o grupo de atrizes do tipo “A-list”, que seriam nomes atuais e de peso na indústria do cinema, têm privilégios nas escolhas dos vestidos e que, inclusive, podem fechar contratos de milhares de dólares. Ainda assim, isso não deixa de ser uma forma de tratar os corpos das mulheres como meros objetos a servirem de cabide – e é isso que o fazem. Quando, em entrevistas no tapete vermelho, a pergunta que mais é feita pelos jornalistas se reduz ao que elas estão vestindo, isso não só mostra que a indústria da moda tem mais importância do que o trabalho daquelas pessoas, como também escancara que o trabalho de atrizes não é digno de ser prestigiado, mesmo que esse evento seja sobre exatamente isso: prêmio de melhores atrizes atores. Aos olhos da indústria de entretenimento e moda, temos o melhor dos dois mundos: a maior parte das atrizes ou conseguem vestidos de graça de estilistas ou são pagas por eles para divulgar a marca, ao mesmo tempo em que estão entre as melhores atrizes do último ano, fazendo propaganda desses estilistas simplesmente comparecendo ao evento e possivelmente desfilando com uma estatueta para mais fotos. Todo mundo ganha.

O evento também trata de uma manutenção do status quo e a renovação dos nomes mais quentes tanto na indústria da moda quanto no cinema. De modo geral, esses eventos também fazem parte de uma das diversas formas de divulgação de filmes, música, artistas, e tudo que podemos ligar ao entretenimento. Isso é de grande valia para aqueles filmes (ou músicas, ou séries, dependendo do evento) que tiveram grandes investimentos para serem produzidos e para que tenham retorno. Inclusive, não só é relevante que os atores dos filmes sejam premiados. No caso de mulheres, o fato de terem acertado na escolha do vestido traz ibope para o próprio filme que divulgam, pois isso repercute de forma positiva na mídia e, consequentemente, as atrizes aparecem mais vezes. Ou seja, existe uma pressão forte para que tudo ocorra bem nas premiações e para que o público tenha mais vontade de consumir aquilo que esteja sendo prestigiado.

Síndrome de princesa

A aparição de atrizes super produzidas com belos vestidos faz crescer no imaginário de cada garota que assiste ao evento o desejo de estar ali, no lugar delas. Naquele momento, são mulheres comuns, mas com uma equipe pesada por trás que as transforma em verdadeiras bonecas para que brilhem num momento em que todos estão com os olhos nelas, se perguntando quem usará o melhor vestido. Ou seja, “um dia de princesa” para o público.

Por que isso também é incentivado? Há ligação direta com o grande esforço de vários seguimentos da indústria para que o público tenha desejos por aquilo. Ora, o que é, afinal, ser uma atriz famosa, além de atriz e famosa? Não é tão óbvio. É uma construção de que se é rica, de que se pode consumir as grifes mais caras e na moda, de que se pode fazer procedimentos estéticos para que sejam eliminadas “imperfeições”, de que se é branca, magra, alta e linda e, assim, se pode estar dentro do padrão. Não é à toa que as mulheres no tapete vermelho são muito parecidas. Não encontramos uma variedade de etnias, nacionalidades, pesos, alturas, cores, sexualidade etc.

Quem se beneficia com a insegurança das mulheres são as grandes marcas de cosméticos, de roupas, de cirurgias estéticas e mesmo a indústria farmacêutica. Para esses segmentos, manter o status quo é manter o consumo do que produzem. Inclusive, quando fazem campanhas de seus produtos enaltecendo mulheres, em que muitas aplaudem por considerar aquilo um avanço de pautas feministas, na verdade apenas observamos uma mudança na tática de marketing da empresa, que depende exatamente do consumo daquelas mesmas mulheres. As marcas que não acompanham o avanço de consciência, neste caso, estão fadadas a perder para seus concorrentes. Não é à toa que muitas empresas tem aprovação em massa quando lançam campanhas que trata das opressões, como a da Dove, Avon e Boticário, só para citar algumas.

As peixinhas fora d’água

Eis que, fugindo desse padrão, Evan Rachel Wood apareceu vestindo um terno no Globo de Ouro de domingo. Só com isso já chamaria a atenção, mas sua declaração de por que usá-lo também traz à tona a discussão sobre padrões impostos às mulheres e sua justificativa tem ótimas intenções.

“Essa é minha terceira indicação, eu estive no [Golden] Globles seis vezes e usei um vestido todas as vezes. E eu amo vestidos, eu não estou tentando protestar contra vestidos. Mas eu queria ter certeza que garotas e mulheres saibam que eles não são obrigatórios. Você não precisa usar se você não quiser – só seja você mesma, porque o seu valor é maior que isso”.

Ter um discurso como esse divulgado num megaevento transmitido internacionalmente tem um impacto gigante perante os padrões femininos de estética. Evan Rachel Wood, apesar de fazer um gesto simples, pode mudar o “imaginário coletivo” de muitas garotas, dizendo que não é preciso se encaixar perfeitamente nos padrões para que você esteja no tapete vermelho. Obviamente, é um passo pequeno, ainda considerando que a atriz segue absolutamente todos os outros padrões de beleza de Hollywood. Mas talvez isso seja o suficiente para que muitas mulheres e garotas deixem de se sentirem peixes fora d’água.

Numa outra perspectiva, temos o caso da atriz Bryce Dallas Houward, que  no ano passado comprou seu vestido para o Globo de Ouro numa loja de departamento. Sua justificativa também era mais que plausível e incide sobre o quão magras devem ser as atrizes hollywoodianas.

“Eu gosto de ter várias opções para o tamanho 6 (equivalente no Brasil ao tamanho 38), em vez de ter talvez apenas uma opção, então eu sempre vou à lojas de departamento para esse tipo de coisa.”

A atriz fez menção ao fato de a maioria dos estilistas produzirem peças nos tamanhos 0 e 2, que equivalem, no Brasil, ao 32 e 34, respectivamente. Por conta disso, a  atriz apareceu outras vezes em eventos com vestidos de lojas comuns de departamentos, com um orçamento bem mais em conta. Sua atitude foi muito bem aceita pelo público, já que é perceptível a falta de diversidade por parte dos estilistas, que se restringem a manequins minúsculos.

Outro exemplo mais emblemático é o da atriz Melissa McCarthy, que, para o Oscar de 2012, não conseguiu que nenhum estilista fizesse uma roupa para ela, apesar de ela concorrer ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Naquele ano, vestiu uma criação da marca Marina Rinaldi, que é especializada em roupas plus-size. Isso a fez criar uma marca de roupas para mulheres do seu tamanho.

Ainda sem muitas mudanças, eventos como Globo de Ouro, Oscar e outras premiações seguem nos mesmos padrões estéticos femininos inalcançáveis. Isso não significa que não haja uma mudança qualitativa na perspectiva das mulheres que assistem e participam desses eventos, o que traz uma luz no fim do túnel, mas ainda muito ofuscada pela indústria.

Foto: Bruno Dulcetti

 

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