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12 Janeiro, 2017
  • Mobilizações são vitoriosas e aumento da passagem em Brasília é cancelado

    Por: Ademar Lourenço, de Brasília

    A Câmara Legislativa do Distrito Federal (DF) ficou com medo do povo e cancelou hoje (12) o aumento das passagens de ônibus. Todos os 18 deputados presentes votaram pela volta da tarifa para R$ 4,00. Eles derrubaram decreto do governador Rodrigo Rollemberg, que aumentou o preço para R$ 5,00 no início do ano.

    Sabemos que em várias cidades também está tendo aumento das passagens e a vitória dos trabalhadores do DF ajuda o país inteiro. Em 2013, a maior onda de mobilização do país começou com atos contra o reajuste nas tarifas em São Paulo. Por isso, os poderosos estão com medo. Mesmo em uma época desfavorável como a atual, os trabalhadores mostram sua força.

    Os movimentos que fizeram as manifestações contra o aumento no DF ganharam a batalha, mas a guerra ainda é longa. Rollemberg vai entrar com ação na Justiça para anular a votação. Ele alega que aumentar a passagem é atribuição do governo. Na verdade, o objetivo é manter o lucro dos empresários. O povo deve ficar atento e preparado para mais mobilização.

    Foram várias manifestações na rodoviária da cidade e nas cidades-satélites. O Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista (MAIS) esteve presente. Hoje nossa militância estava na rodoviária de Planaltina fazendo panfletagem. Também participamos de outros atos.

    Aumento era um absurdo

    Só para se ter uma idéia, o salário mínimo agora será de R$ 937,00 reais. Na média, o trabalhar vai 22 dias por mês ao serviço. Com o preço de R$ 5,00 por passagem, o gasto de ida e volta ao trabalho seria de R$ 220,00, ou 23% do salário mínimo. Em 2014, o gasto era de 18% do salário mínimo.

    De acordo com o Movimento Passe Livre do Distrito Federal (MPL-DF), o governo não tem acesso às planilhas de gastos do transporte. Os dados sobre a quanto se gasta em cada uma das empresas do setor para sua operacionalização não são de domínio público. O número de passageiros que gira a catraca é operacionalizado por uma empresa de propriedade de empresários de transporte. O DFTrans, órgão que deveria fazer a fiscalização, é sucateado e não tem servidores suficientes. A auditoria do Tribunal de Contas e o relatório final da CPI realizada pela Câmara Legislativa confirmam definitivamente esta informação. O governo não consegue apresentar uma justificativa coerente e transparente para o aumento.

  • O menino que conquistou o mundo

    Por: Michel Silva, Blumenau, SC

    Depois de ter passado com um pequeno público pelos cinemas brasileiras, o filme O menino e o mundo ganhou alguma publicidade no país a partir de sua indicação à categoria de Melhor Animação no Oscar.

    Embora a imprensa brasileira tenha destacado principalmente essa indicação, a animação vinha de uma vitoriosa participação em prêmios e festivais em todo o mundo, como o respeitadíssimo Festival de Animação de Annecy (que, no ano anterior, havia sagrado campeão o também brasileiro Canção de amor e fúria).

    Em sua batalha no Oscar, O menino e o mundo tinha como maior desafio não o reconhecimento enquanto grande obra cinematográfica – o que havia conquistado em todo o mundo – mas uma ferrenha disputa contra o modelo predominante de cinema de animação, quase que completamente informatizado, que naquela premiação estava representado pelo filme Divertidamente.

    Com o passar dos anos, o gosto do público e da crítica parece ter incorporado certa racionalidade técnica que exige traços perfeitos a partir de um padrão estético assumido como padrão.

    Na disputa enfrentada por O menino e o mundo havia uma ironia metalinguística, afinal a técnica de animação havia passado por um processo análogo à modernização da sociedade representada no filme. O cinema de animação, a partir da década de 1990, passou a ser dominado por grandes produções que cada vez mais utilizam a computação gráfica.

    Essa forma de realizar os filmes contrasta com uma forma artesanal, como os desenhos feitos à mão ou mesmo o stop motion (que, de forma alguma, excluem o uso da informática para algumas ações básicas, como a montagem ou a sonorização, mas em doses muito menores do que a linguagem atualmente dominante).

    No público criou-se, comercialmente, a expectativa de que o cinema de animação deve conter certa perfeição, sejam nas linhas bem definidas dos cenários, nas personagens bem delineados e representados de forma realistas em alguns casos e na distribuição equilibrada de cores e objetos.

    Certamente não há problema no uso dessa técnica, afinal nas mãos de grandes artistas é possível alcançar belos resultados estéticos. O principal problema desse debate encontra-se no domínio comercial que a animação computadorizada alcançou, tornando-se em certa medida um padrão cultural forçosamente universalizado.

    E, com isso, formas de realização que fogem a esse padrão são consideras estranhas, não são assistidas ou até mesmo são consideradas ruins por não possuírem efeitos mirabolantes de computador. Esses filmes, que não exploram um grande aparato técnico, são considerados simples, infantis ou inclusive feios pelo gosto dominado pela racionalidade técnica.

    Ademais, não possuem o mesmo aparato publicitário que as grandes produções estadunidenses, fazendo com que parte do público potencial nem sequer saiba da existência daquele filme.

    Esse embate entre a racionalidade técnica e uma forma mais artesanal de produção, ao qual O menino e o mundo enfrentou ao adentrar o mundo comercial do Oscar, em grande medida é o tema do próprio filme.

    No filme, o protagonista sai de casa em busca do pai, que aparentemente saiu a procura de um melhor emprego. O menino deixa a vida numa comunidade rural e vai conhecendo o mundo. Encontra trabalhadores rurais em ambientes mecanizados, conhece cidades bastante urbanizadas e toma contato com variados equipamentos tecnológicos.

    Contraditoriamente, em paralelo, percebe a solidão e a tristeza vivida pelas pessoas, além de problemas sociais, como a violência e a pobreza. Ou seja, ao deixar sua pequena comunidade rural em que vivia, o menino toma contato com as várias facetas da modernização.

    Este mecanismo proporciona ao mesmo tanto o desenvolvimento da técnica e da urbanização, como a ampliação de diferentes formas de desigualdade e a dificuldade de acesso ou a marginalização de algumas pessoas.

    Esse mundo modernizado passa a ser uma realidade que deve ser aceita como natural pelas pessoas, afinal é considerada melhor do que formas anteriores, tidas como “antigas” ou “primitivas”.

    No discurso hegemônico, o mundo moderno é apresentado como sendo melhor, afinal garante acesso a uma infinidade de bens de consumo para as pessoas, distribuídos de acordo com o trabalho realizado por cada um. O moderno é sempre apresentado como melhor, assim como o cinema de efeitos de computador é considerado superior àquela feito utilizando técnicas “antigas”.

    Nesse sentido, ao abordar as contradições do processo de modernização vistos pelo olhar do protagonista, O menino e o mundo também reflete acerca de sua própria condição de um produto cultural em meio à sociedade do espetáculo.

    Sua situação no Oscar, disputando o prêmio com animações de elevado valor de produção e distribuição, apenas ilustra o contexto mais amplo vivenciado pelas tentativas contra hegemônicas de fazer cinema de animação, que vão ao longo dos anos se enfraquecendo (veja-se, por exemplo, a interrupção na produção dos filmes do Studio Giblin).

    Em vez de equilibrar as possibilidades de uso da técnica moderna com a subjetividade criativa de uma estética artesanal, acredita-se que o novo produzido racional e metodicamente é um modelo que deve substituir qualquer forma “primitiva”.

    Esse é em grande medida o discurso capitalista, ilustrado em O menino e o mundo, que desde o começo de sua constituição, como modo de produção dominante, procurou destruir as formas antigas de produção da vida e das subjetividades.

    Ainda que o menino do filme tenha conquistado o mundo, sua linguagem é estranha àquela naturalizada pela sociedade capitalista, como aquele balbuciar dos personagens dessa brilhante animação brasileira.

    Foto: Extraída da internet

  • Camilo Santana (PT) dividirá o governo com o PSDB

    Por: Nericilda Rocha, Fortaleza, CE

    Após dois anos de gestão, o governador cearense Camilo Santana (PT), decidiu assumir de vez o modelo econômico dos golpistas do PSDB e PMDB, e não satisfeito, decidiu incorporar o tucanato no seu governo.

    Camilo já havia sinalizado nessa direção, quando em dezembro, impôs no estado a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) n° 03/2016, que congela os gastos públicos por 10 anos, incentiva as privatizações e aumenta e eleva a contribuição previdenciária dos servidores de 11% para 14%.

    Mas agora ele se superou. Camilo criou uma “supersecretaria” de Planejamento e nomeou ontem, 11 de janeiro, Maia Júnior para comanda-la.

    Maia Júnior é um dos maiores quadros do PSDB, filiado há mais de 20 anos à sigla, ex-vice-governador na gestão do tucano Lucio Alcântara e homem de confiança de Tasso Jereissati.

    Mas o que explica um quadro do PSDB coordenar as políticas de um governo do PT?

    O argumento apresentado pelo próprio Camilo Santana foi a necessidade de “melhores técnicos” para maior agilidade de sua gestão. Entretanto, em época de cortes e concessões de órgãos públicos com maior voracidade para atender ainda mais os interesses do capital internacional e seus sócios nacionais, Camilo necessita de um tucano para ajudá-lo a aplicar a PEC 55 do governo federal.

    Afinal, a PEC estadual 03/2016 só se diferencia da federal no que diz respeito ao tempo. A primeira tem duração de 20 anos e a do Camilo, 10 anos. Maia é o homem escolhido para acelerar a PEC estadual, ou seja, avançar nas privatizações do que ainda resta no estado e principalmente nas Parcerias Público e Privado – PPP’s e nos ataques aos trabalhadores e à juventude.

    Uma curiosidade que o governo petista, agora atucanado, suscita, é qual será a reação da militância petista? Ainda a pouco, estes estavam lutando contra os golpistas do PSDB, PMDB, DEM e Cia, estiveram nas ocupações contra a PEC do fim do mundo e agora veem Camilo dividir o governo com o PSDB.

    Esta não é a única ocasião em que o PT abandona o “combate” aos golpistas

    Nas eleições municipais o Partido dos Trabalhadores se aliou com PMDB e outros em vários municípios. Agora na eleição do Senado apoiando o também golpista cearense Eunicio Oliveira que foi o relator da PEC.

    Fatos que parecem demonstrar que não há interesse realmente em derrotar o maldito ajuste fiscal e os golpistas que o aplicam. Coloca-se então o desafio de como lutar consequentemente para derrotá-los.

    Outra curiosidade é o silêncio de Ciro Gomes e seu clã. Tão assíduo nas redes sociais e geralmente com opinião sobre tudo, e corretamente, sempre criticando os golpistas, Ciro até o momento é puro silêncio.

    Seu irmão Lúcio Gomes que estava ameaçado de ser demitido do governo segundo informações divulgadas pela imprensa, terminou sendo transferido da Secretaria das Cidades para a de Infraestrutura. O fato é que o PT e o PDT de Ciro, agora dividem o governo com o PSDB.

    Para a esquerda socialista do Ceará, seus militantes e apoiadores, fica cada vez mais nítido a necessidade da unidade na luta para derrotar os ataques que serão acelerados a partir de agora com o governo petista atucanado.

    Mas é preciso mais, necessitamos ir construindo uma alternativa ao PSDB do Tasso, ao PMDB do Eunício e ao PT que flerta com os dois. Precisamos uma frente de esquerda com a FPSM, com a militância do PT que se disponha a construir uma alternativa, com o PSOL, MAIS, PSTU, PCB, enfim, uma frente socialista que possa ser uma referência aos trabalhadores e à juventude.

  • O PT e a Síndrome de Estocolmo

    Editorial de 12 de janeiro,

    O estado psicológico de uma pessoa que, submetida a um tempo prolongado de coação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade pelo seu agressor é comumente nomeado pela psicanálise como Síndrome de Estocolmo.

    Quando observamos de perto o conjunto de sinais e sintomas emitidos ao longo de tempo pelo PT, os quais denotam uma condição patológica grave, somos forçados a admitir que o partido de Lula talvez passe por um estágio avançado da Síndrome.

    As evidências são incontornáveis. Nas eleições municipais de 2016, o PT já havia selado alianças com partidos da base de apoio a Temer em mais de 1.800 municípios. Agora, com o consentimento do ex-presidente Lula, as principais lideranças do PT defendem o apoio aos candidatos do governo para a presidência da Câmara, Rodrigo Maia (DEM) ou Jovair Arantes (PTB), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB).

    O líder petista na Câmara, Carlos Zarattini (SP), participou na última terça (10) do lançamento da candidatura de Jovair Arantes. Em troca da composição com os governistas, o partido espera garantir espaços nas Mesas Diretoras do Congresso e inúmeros cargos remunerados.

    A rendição vergonhosa está gerando tensões internas. O senador Lindbergh Farias (RJ), por exemplo, denunciou a manobra oportunista: “É fazer aliança com golpista, que foi relator da PEC 55 [teto de gastos], que vai comandar o processo de desmonte da Constituição e de ataque ao direito dos trabalhadores”, afirmou. Contudo, a posição contrária do senador carioca e de outros dirigentes petistas é minoritária e dificilmente reverterá a linha adotada pela direção majoritária do partido.

    Uma trajetória coerente

    Os fatos são teimosos. E em matéria de capitulação à direita poucas organizações de esquerda são tão obsessivas quanto o PT.

    Seguindo as ordens dos banqueiros, o PT, ainda no governo, abandonou as promessas eleitorais de 2014 e iniciou a aplicação do ajuste neoliberal com a retirada de direitos, a política econômica recessiva e os agressivos cortes de gastos sociais. Era tempo de Joaquim Levy. Assim, Dilma perdeu o apoiou popular e abriu o caminho ao impeachment.

    Depois, quando o golpe parlamentar foi deflagrado, o partido não foi além de bravatas e discursos vazios. Nenhum plano sério de mobilização popular, nenhuma ação concreta para evitar o avanço da direita golpista. Lula apostou na negociação com a elite até o último suspiro.

    A atual linha de apoio aos candidatos governistas no Congresso é coerente com a trajetória, o programa e a estratégia da direção do PT.  Permanente colaboração com a direita, adaptação completa ao apodrecido sistema político e submissão covarde aos interesses da burguesia: o curso de degeneração do PT é irreversível.

    Para enfrentar a direita, seriamente, é preciso romper com o petismo, no programa, na política e na prática. Não há futuro com quem escolheu o pântano e a rendição.

  • Vamos falar de tapete vermelho?

    Por: Elena Yoshie, do Rio de Janeiro

    Em mais um evento de tapete vermelho que precedeu o Globo de Ouro, no último domingo (8), assisti a meia hora de mulheres em vestidos longos, visivelmente desconfortáveis, andando praticamente aos pulinhos em saltos astronomicamente altos. Por que temos que falar sobre isso?

    Admito, gosto muito de ver os vestidos do tapete vermelho simplesmente porque gosto de moda. Pouco me importa se os vestidos estão em manequins de cera ou pessoas de verdade. Ontem, porém, percebi que preferia tê-los vistos em seres inanimados do que na quantidade de mulheres que se submeteram a, no mínimo, algumas horas de puro desconforto. Além do grande assédio dos fotógrafos, é de assustar a quantidade de mulheres que precisam se encaixar nos padrões para desfilar em eventos como o de ontem. Qual é esse padrão? Não é difícil perceber que a maioria esmagadora das mulheres, além de padrões estéticos de beleza (caucasianas, altas, magras, jovens), apresentam também padrões no código de vestimenta: usam vestidos de grandes estilistas

    (em sua maioria homens),longos, brilhantes, com calda, muitas vezes transparentes, beirando o “tomara que caia” (dessa vez sem referência específica a esse tipo de vestido) e precisam manter uma postura para usá-los, juntamente com sapatos finos e instáveis. O cabelo e a maquiagem também não fogem da regra: é perceptível como muitas mulheres fazem movimentos suaves com receio de desfazerem um penteado ou um cabelo altamente produzido e meticulosamente calculado para que não saiam daquela posição. No mínimo, uma pequena tortura para poses, flashes e alguns prêmios a serem disputados.

    Não bastando toda essa produção e sacrifício, ainda há uma mídia de gosto duvidoso que junta esforços para avaliar e criticar, muitas vezes de forma que considero dura demais, os vestidos das atrizes que passam pelo tapete vermelho. Embora a maior parte dos vestidos sejam cedidos às atrizes para que façam propaganda do estilista em questão, elas ainda são os maiores alvos das críticas. E mesmo assim, ainda acho que dedicar um programa exclusivo para opinar sobre vestidos de famosas é uma baita perda de tempo e um julgamento gratuito. Nenhuma dessas mulheres pediu a opinião de ninguém.

    Uma oportunidade de mercado

    Por trás de toda essa festa de ostentação, é interessante perceber como atrizes famosas e outras mulheres de grande porte que passam pelo tapete vermelho viram reféns de um mercado monstruoso, insensível e lucrativo. Todas elas têm a pergunta pertinente e clássica “Quem você veste?”, feita pela primeira vez por Joan Rivers no Globo de Ouro de 1994 e que, desde então, tem sido feita nas entrevistas antes das premiações. Essa pergunta traz não só fortes marcas de machismo como também uma indústria de moda pesada que lucra toda vez que suas peças são fotografas em corpos – sim, corpos, não mais que isso – de mulheres cujo trabalho e objetivo nas premiações de cinema e TV nada tem a ver com estilistas famosos. Afinal de contas, elas serão premiadas por serem atrizes, diretoras, roteiristas, cineastas, etc. O que isso tem a ver com a peça de roupa que usam?

    Há quem diga que o grupo de atrizes do tipo “A-list”, que seriam nomes atuais e de peso na indústria do cinema, têm privilégios nas escolhas dos vestidos e que, inclusive, podem fechar contratos de milhares de dólares. Ainda assim, isso não deixa de ser uma forma de tratar os corpos das mulheres como meros objetos a servirem de cabide – e é isso que o fazem. Quando, em entrevistas no tapete vermelho, a pergunta que mais é feita pelos jornalistas se reduz ao que elas estão vestindo, isso não só mostra que a indústria da moda tem mais importância do que o trabalho daquelas pessoas, como também escancara que o trabalho de atrizes não é digno de ser prestigiado, mesmo que esse evento seja sobre exatamente isso: prêmio de melhores atrizes atores. Aos olhos da indústria de entretenimento e moda, temos o melhor dos dois mundos: a maior parte das atrizes ou conseguem vestidos de graça de estilistas ou são pagas por eles para divulgar a marca, ao mesmo tempo em que estão entre as melhores atrizes do último ano, fazendo propaganda desses estilistas simplesmente comparecendo ao evento e possivelmente desfilando com uma estatueta para mais fotos. Todo mundo ganha.

    O evento também trata de uma manutenção do status quo e a renovação dos nomes mais quentes tanto na indústria da moda quanto no cinema. De modo geral, esses eventos também fazem parte de uma das diversas formas de divulgação de filmes, música, artistas, e tudo que podemos ligar ao entretenimento. Isso é de grande valia para aqueles filmes (ou músicas, ou séries, dependendo do evento) que tiveram grandes investimentos para serem produzidos e para que tenham retorno. Inclusive, não só é relevante que os atores dos filmes sejam premiados. No caso de mulheres, o fato de terem acertado na escolha do vestido traz ibope para o próprio filme que divulgam, pois isso repercute de forma positiva na mídia e, consequentemente, as atrizes aparecem mais vezes. Ou seja, existe uma pressão forte para que tudo ocorra bem nas premiações e para que o público tenha mais vontade de consumir aquilo que esteja sendo prestigiado.

    Síndrome de princesa

    A aparição de atrizes super produzidas com belos vestidos faz crescer no imaginário de cada garota que assiste ao evento o desejo de estar ali, no lugar delas. Naquele momento, são mulheres comuns, mas com uma equipe pesada por trás que as transforma em verdadeiras bonecas para que brilhem num momento em que todos estão com os olhos nelas, se perguntando quem usará o melhor vestido. Ou seja, “um dia de princesa” para o público.

    Por que isso também é incentivado? Há ligação direta com o grande esforço de vários seguimentos da indústria para que o público tenha desejos por aquilo. Ora, o que é, afinal, ser uma atriz famosa, além de atriz e famosa? Não é tão óbvio. É uma construção de que se é rica, de que se pode consumir as grifes mais caras e na moda, de que se pode fazer procedimentos estéticos para que sejam eliminadas “imperfeições”, de que se é branca, magra, alta e linda e, assim, se pode estar dentro do padrão. Não é à toa que as mulheres no tapete vermelho são muito parecidas. Não encontramos uma variedade de etnias, nacionalidades, pesos, alturas, cores, sexualidade etc.

    Quem se beneficia com a insegurança das mulheres são as grandes marcas de cosméticos, de roupas, de cirurgias estéticas e mesmo a indústria farmacêutica. Para esses segmentos, manter o status quo é manter o consumo do que produzem. Inclusive, quando fazem campanhas de seus produtos enaltecendo mulheres, em que muitas aplaudem por considerar aquilo um avanço de pautas feministas, na verdade apenas observamos uma mudança na tática de marketing da empresa, que depende exatamente do consumo daquelas mesmas mulheres. As marcas que não acompanham o avanço de consciência, neste caso, estão fadadas a perder para seus concorrentes. Não é à toa que muitas empresas tem aprovação em massa quando lançam campanhas que trata das opressões, como a da Dove, Avon e Boticário, só para citar algumas.

    As peixinhas fora d’água

    Eis que, fugindo desse padrão, Evan Rachel Wood apareceu vestindo um terno no Globo de Ouro de domingo. Só com isso já chamaria a atenção, mas sua declaração de por que usá-lo também traz à tona a discussão sobre padrões impostos às mulheres e sua justificativa tem ótimas intenções.

    “Essa é minha terceira indicação, eu estive no [Golden] Globles seis vezes e usei um vestido todas as vezes. E eu amo vestidos, eu não estou tentando protestar contra vestidos. Mas eu queria ter certeza que garotas e mulheres saibam que eles não são obrigatórios. Você não precisa usar se você não quiser – só seja você mesma, porque o seu valor é maior que isso”.

    Ter um discurso como esse divulgado num megaevento transmitido internacionalmente tem um impacto gigante perante os padrões femininos de estética. Evan Rachel Wood, apesar de fazer um gesto simples, pode mudar o “imaginário coletivo” de muitas garotas, dizendo que não é preciso se encaixar perfeitamente nos padrões para que você esteja no tapete vermelho. Obviamente, é um passo pequeno, ainda considerando que a atriz segue absolutamente todos os outros padrões de beleza de Hollywood. Mas talvez isso seja o suficiente para que muitas mulheres e garotas deixem de se sentirem peixes fora d’água.

    Numa outra perspectiva, temos o caso da atriz Bryce Dallas Houward, que  no ano passado comprou seu vestido para o Globo de Ouro numa loja de departamento. Sua justificativa também era mais que plausível e incide sobre o quão magras devem ser as atrizes hollywoodianas.

    “Eu gosto de ter várias opções para o tamanho 6 (equivalente no Brasil ao tamanho 38), em vez de ter talvez apenas uma opção, então eu sempre vou à lojas de departamento para esse tipo de coisa.”

    A atriz fez menção ao fato de a maioria dos estilistas produzirem peças nos tamanhos 0 e 2, que equivalem, no Brasil, ao 32 e 34, respectivamente. Por conta disso, a  atriz apareceu outras vezes em eventos com vestidos de lojas comuns de departamentos, com um orçamento bem mais em conta. Sua atitude foi muito bem aceita pelo público, já que é perceptível a falta de diversidade por parte dos estilistas, que se restringem a manequins minúsculos.

    Outro exemplo mais emblemático é o da atriz Melissa McCarthy, que, para o Oscar de 2012, não conseguiu que nenhum estilista fizesse uma roupa para ela, apesar de ela concorrer ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Naquele ano, vestiu uma criação da marca Marina Rinaldi, que é especializada em roupas plus-size. Isso a fez criar uma marca de roupas para mulheres do seu tamanho.

    Ainda sem muitas mudanças, eventos como Globo de Ouro, Oscar e outras premiações seguem nos mesmos padrões estéticos femininos inalcançáveis. Isso não significa que não haja uma mudança qualitativa na perspectiva das mulheres que assistem e participam desses eventos, o que traz uma luz no fim do túnel, mas ainda muito ofuscada pela indústria.

    Foto: Bruno Dulcetti

     

  • Teresina e o caos no transporte público – 2012 novamente?

    Por: Mário Sérgio A. Dias, Teresina, PI

    Na primeira semana de janeiro de 2017, os teresinenses foram surpreendidos com o aumento da passagem de ônibus de R$2,75 para R$3,30, um aumento de 20%. O atual Prefeito, Firmino Filho (PSDB – PI), alega que o aumento se faz necessário graças aos “projetos de melhorias e modernização da frota e sistema de transporte público”. Isto é uma mentira, já que Teresina conta hoje com um dos piores sistemas de transporte público do Brasil.

    Atualmente, Teresina conta com uma frota de 450 veículos e 130 linhas. Menos de 10% desta frota é climatizada (Teresina está entre as cidades mais quentes do Brasil) e mais de 90%  é composta por ônibus velhos, sujos e sucateados, que não atendem a população de forma decente. Outro fato que mostra a total falta de comprometimento da prefeitura com o transporte público é que diariamente o cidadão que precisa do serviço espera por mais de uma hora num ponto de ônibus para poder voltar para casa. Além disso, os ônibus geralmente chegam lotados, tornando a volta para casa uma péssima experiência para o cidadão.

    Nos finais de semana e em período de férias, a prefeitura reduz em até 30% o numero de ônibus rodando na cidade. Fica praticamente impossível contar com o transporte público. Diversas linhas param de rodar muito cedo aos domingos, obrigando o cidadão a ficar em casa ou se utilizar de transportes alternativos, como táxi e moto táxi.

    Teresina foi uma das primeiras capitais a levantar a voz contra os abusos do poder municipal no transporte público e o aumento no preço de passagens, em 2012. Isso gerou uma mobilização que se estendeu por todo o Brasil.

    A falta de investimentos em transporte público e o aumento absurdo no preço da passagem  mostram que a Prefeitura  de Teresina  faz valer apenas os interesses de empresários. Há mais de 10 anos eles aumentos seus lucros, enquanto a população sofre com o descaso e a péssima qualidade dos serviços prestados. Transporte público é essencial, pois garante o exercício da cidadania. Como uma forma de tentar ludibriar os estudantes, o Prefeito Firmino Filho (PSDB – PI) congelou a meia passagem, mantendo eo preço de R$1,05. Mesmo assim, o movimento estudantil se mobilizou e protestou. Os estudantes, em sua maioria, se solidarizam com os trabalhadores e pretendem manter a mobilização até que o Prefeito recue.

    O protesto ocorrido nesta Segunda-Feira (09) foi duramente reprimido pela policia, que usou balas de borracha e violência para perseguir os manifestantes. Um ônibus foi incendiado.

    A mobilização mostra que a união entre diversos segmentos da sociedade e a mobilização são essenciais para que a voz do povo seja ouvida e as suas demandas sejam atendidas. Uma unidade da esquerda, compreendendo todos os setores da sociedade, em um espaço onde as decisões e as demandas sejam definidas de forma coletiva e social, é o primeiro passo para garantir a derrubada de um estado opressor que dia após dia tenta calar o oprimido para fazer valer os interesses dos ricos.

  • A “Doutrina Soares”

    Por Raquel Varela, Colunista do Esquerda Online

    Mário Soares morreu com honras, merecidas, de funeral de Estado. Era o seu Estado, o seu regime democrático-representativo. De que ele foi não o pai – isso seria uma oligarquia –, mas um dos dirigentes fundamentais. A sua importância como dirigente político foi marcada não pelo que fez como resistente antifascista, preso 12 vezes, ou pela liberalização das leis laborais dos anos 80 ou pela resistência à troika neoliberal pós 2008. Nenhum destes acontecimentos exigia homens excepcionais, recordo.

    Onde ele foi extraordinário, o que o levou ao pódio da história mundial, foi em 1974-75. Não por acaso no dia da sua morte – de uma vida de 92 anos – as duas grandes polêmicas que envolveram a sua figura e dominaram as redes sociais foram «Soares, o culpado da contra-revolução», «Soares, o culpado da descolonização». Penso que em relação às duas afirmações há muito de memória e pouco de história.

    Em 1974 aconteceu em Portugal algo raro. Muito raro. Um golpe de estado abriu as portas a uma revolução social. E o que é uma revolução? É esse momento da história em que o poder de Estado é questionado pelas massas – ao início são só isso, massas. Depois, paulatinamente, organizam-se conscientemente em comissões de trabalhadores, moradores, comissões de gestão democrática e são disputadas pelos partidos políticos.

    O Partido Socialista(PS) não existia e passou de um pequeno grupo marginal com poucas dezenas de militantes para um partido de massas com 80 mil pessoas no Verão de 1975; o Partido Comunista Português( PCP) passou de um partido de vanguarda de 2 a 3 mil militantes em Abril de 1974 para um partido com 100 mil um ano depois. Percebem a força social? A história muda num dia o que não muda em décadas. Isto acontece porque milhões de pessoas, «de baixo», passam a ter uma palavra directa sobre a sua vida. A política deixa de ser uma actividade de especialistas e profissionais. É o espectro da autodeterminação.

    Esta revolução não esperou sequer pelas eleições para a Constituinte em Abril de 1975: em poucos dias ou semanas, a seguir ao 25 de Abril, foi quase totalmente desmantelado o regime político da ditadura e substituído por um regime democrático. A democracia nasceu aí. Quando Soares e Cunhal chegaram do exílio a Portugal, este já era um país democrático, onde se podia organizar, falar, publicar. Votar, e muito, nos locais de trabalho.

    Foi a última revolução europeia a colocar em causa a propriedade privada dos meios de produção. Isso resultou na transferência, segundo dados oficiais, de 18% do rendimento do capital para o trabalho, o que permitiu o direito ao trabalho, salários acima da reprodução biológica (acima do “trabalhar para sobreviver”), acesso igualitário e universal à educação, à saúde e à segurança social. Ou seja, o Estado Social.

    Dar uma direcção a este rio avassalador é tarefa de homens e mulheres que jogam um papel individual insubstituível na história. A luta entre as classes e fracções de classes selecciona os mais capazes – pacientes, emocionalmente firmes, destemidos, determinados. Acreditam num programa político maior, para além de si próprios – não são homens de carreira individual, mas de direcção colectiva. São raros. São os dirigentes.

    Em 1976 Kissinger agradece pessoalmente a Olof Palme o apoio dado a Soares contra a Revolução dos Cravos. Soares estava muito mais próximo ideologicamente de Allende, morto por um golpe de estado co-dirigido por Kissinger, do que do secretário de Estado norte-americano. Nesta altura o SPD alemão tinha transferido para Portugal a maior soma de dinheiro alguma vez transferida para um partido fora da Alemanha, para construir o PS – recrutar quadros, abrir sedes, ir gerir sindicatos, câmaras municipais e instituições. O mesmo fez o PCP, com a apoio da URSS, via em grande medida a Alemanha de Leste. Disputavam, PS e PCP, a organização daquele mar de gente.

    Soares convenceu os seus pares nacionais e internacionais de uma estratégia absolutamente nova no quadro das revoluções pós 1945. A derrota da revolução não seria feita com recurso a um golpe militar sangrento e repressão generalizada, como era hábito, mas com um misto de golpe militar controlado (25 de Novembro) e instauração de um regime civil, de democracia representativa. Tudo ao contrário do Chile. Começa assim, a partir de Novembro de 1975, com a imposição da “disciplina”, isto é, da hierarquia, nos quartéis. E consolida-se através de um processo de “contra-revolução democrática”.

    Portugal é o primeiro exemplo de sucesso de uma revolução derrotada com a instauração de um regime de democracia representativa. Modelo que vai ser usado na Espanha franquista e mesmo no Chile, Brasil e Argentina dos anos 80, a «doutrina» Carter. Podia e deveria ser chamada a doutrina Soares.

    Mas para esta contra-revolução, ou normalização democrática como lhe chamam os media hoje (curioso que mesmo os historiadores mais conservadores nos anos 80 não fugiam ao termo contra-revolução), digo, para esta contra-revolução se impor teve de pôr fim à democracia de base, nomeadamente nos quartéis, nas fábricas, nas empresas, nas escolas e nos bairros. E isso era o lado mais impopular de Soares. É aí que nasce o mito fundador do regime, o de que o fim da democracia de base, que Soares dizia apoiar, era o mal menor face à ameaça de uma ditadura soviética. Tanto que Soares diz fazer o 25 de Novembro contra a «social-democracia capitalista e socialismo ditatorial soviético».

    O PCP nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal. E tinha tanto medo das fábricas controladas pelos trabalhadores como o PS. Isso não significa que o PCP não tenha querido ocupar lugares no aparelho de Estado. Quis e muito. E o PS também. Até Setembro de 1975 ocupou muitos lugares no aparelho de Estado e partir daí há um volte-face e é o PS que passa a ocupar esses lugares, de tal maneira que Cunhal tem um texto onde diz que “o nosso apoio ao VI Governo diminui consoante os lugares que nos dão no Governo e consoante nos abrem ou fecham a torneira do Estado”.

    O discurso do PCP é um discurso em que defende a revolução socialista mas que vai às portas das fábricas distribuir folhetos para acabarem com as greves, porque as greves são contra os Governos Provisórios onde o PCP está em…aliança com o PS e o PPD. Carlos Carvalhas em 1975 no Governo aprova dois documentos contra o controlo operário que existia de facto nas fábricas dizendo que o controlo operário não podia pôr em causa a economia nacional e a economia nacional tinha 92% da mão-de-obra trabalhando na economia privada, cuja propriedade não é questionada pelo PCP. É um discurso em defesa da revolução socialista que põe fim ao V Governo porque diz que o V Governo não pode avançar, tem de haver uma coligação com o PS, com o sector do Grupo dos Nove, tem de haver uma reconstituição do MFA.

    O importante não é o que o PCP diz, mas sim o que faz. Quem põe fim ao V Governo é o PCP. Quem impede a Intersindical de sair é o PCP, quem impede os fuzileiros de sair no 25 de Novembro é o PCP. A história política do PCP não se pode fazer sem as fontes. A estratégia do PCP não tem como objectivo a revolução socialista. Tem como estratégia que Portugal fosse uma democracia no quadro da divisão do Mundo pactuada em Ialta e Potsdam, no final da II Guerra Mundial. Portugal estaria na esfera da Aliança Atlântica. Por isso, o PCP não defende nem apoia em 1975 a saída de Portugal da NATO.

    O PCP é parte da construção da democracia e não uma ameaça à democracia. É parte do regime e dentro do regime disputa os trabalhadores organizados e melhores condições para os trabalhadores e fê-lo em 1974 e 1975, não questionando o regime, não questionando o sistema político. Quem não compreende isto não percebe o que é Portugal, os sindicatos e o pacto social nascido em 1976.

    As tentativas de controlo do aparelho de Estado por parte do PCP (IV Governo) e por parte do PS (VI Governo), que existiram efectivamente, não têm nenhuma ligação com a democracia que vigorava nas empresas e nas fábricas e que foi cada vez maior ao longo de 1975, colocando sucessivamente em causa medidas de Governos que jamais foram eleitos. Estado e revolução não andaram de mãos dadas. O PS e o PCP estavam no Estado, a revolução fora deles.

    Soares não foi o culpado da descolonização. Não havia nem nunca houve descolonização boa. A colonização é que foi culpada do seu trágico fim. Porque era um modelo de economia assente no trabalho forçado, deslocação de populações e polícia política – a PIDE nas colónias era uma pequena Gestapo, que actuava de facto em ligação directa com o exército colonial, recorrendo, por exemplo, ao assassinato directo de elementos «subversivos».

    Foi dado a escolher aos portugueses pobres nos anos 50 do século XX se iam para França trabalhar como robôs nas fábricas da Renault ou ser pequenos patrões, comerciantes e funcionários nas colónias. Alguns escolheram a segunda via – e perderam tudo em 1975. Não porque Soares lho tirou mas porque eles ergueram as suas casas em cima da destruição das casas dos outros.

    A PIDE nas colónias não escondia os seus informadores porque quando os pides entravam num lugar público os colonos levantavam-se e faziam uma vénia. Na vida tudo são escolhas e todas têm consequências. 60% do salário dos mineiros moçambicanos forçados pelo exército português a trabalhar nas minas da África do Sul era entregue em ouro ao Estado português, que depois lhes pagava uma parte em moeda local desvalorizada. O restante vinha para os cofres de Lisboa e era transferido para os 5 grupos económicos que dominavam o país. E que antes disso não eram grupos económicos mas mercenários. A Soares e dezenas de outros políticos ficou a responsabilidade de fechar a porta de um dique que se tinha aberto irreversivelmente depois de em Janeiro de 1961 os trabalhadores forçados da Cotonang terem feito greve por tempo indeterminado e terem sido regados com napalm pelo exército português. Com alta inflação aqui, desemprego galopante e milhares de pessoas em bairros de lata em 1975 os retornados foram colocados em hotéis na linha do Estoril – por Soares também. Vieram mal, perderam, tudo; muitos ficaram chocados com o país que encontravam, de mulheres de lenço preto na cabeça. África, para eles, era uma terra de liberdade. Mas foi o país que os acolheu, centenas de milhares, da noite para o dia, tentando acomodá-los o melhor possível.

    Descobriram, em 1975, que ninguém é livre na prisão dos outros.

    Nunca tanta gente decidiu tanto na história de Portugal como em 1974 e 1975. Hoje esse passado revolucionário — quando os mais pobres, mais frágeis, quantas vezes analfabetos, ousaram agarrar a vida nas mãos — é uma espécie de pesadelo histórico das actuais classes dirigentes portuguesas.

    Portugal foi, ao lado do Vietname, o país mais acompanhado pela imprensa internacional de então, porque as imagens das pessoas dos bairros de barracas sorrindo de braços abertos ao lado de jovens militares barbudos e alegres encheu de esperança os povos de Espanha, Grécia, Brasil… E de júbilo a maioria dos que aqui viviam.

    Hoje a tendência em Portugal e na Europa é de alta concentração da riqueza. Em 1945, a diferença entre um rico e um pobre, ou um trabalhador manual qualificado na Europa, era de 1 para 12. Em 1980, subiu de 1 para 82. E hoje é de 1 para 530. A União Europeia é uma corporação de acumulação de capitais. E a acumulação é incompatível com a manutenção de serviços públicos de qualidade, por causa da queda tendencial da taxa de lucro. A consequência é a destruição do Estado de Bem-Estar Social, um país atrasado, de baixos salários, declínio da qualidade do trabalho, emigração.

    O que vemos em Portugal em particular e em outros países é na verdade a ascensão da assistência social, com a educação e a saúde públicas focadas cada vez mais nos pobres e desempregados e não em toda a sociedade. O modelo que fundamenta a social-democracia esvaiu-se. E Soares assistiu, ainda em vida, ao fim do seu projecto político.

  • Assim como o Brexit e Trump, o veredito no caso Azaria expõe um momento de transição em Israel

    O Esquerda Online tem o prazer de publicar o artigo de Jonathan Cook, o único jornalista estrangeiro com base em Nazaré, onde reside desde 2001. Nazaré é a principal cidade palestina nas fronteiras de Israel. O artigo versa sobre um acontecimento símbolo do auge do crescimento da extrema-direita mais radical dentro do estado sionista com a eleição de Trump. Trata-se do julgamento de um soldado que assassinou a sangue frio um palestino ferido já controlado na Cisjordânia. Um evento banal que as tropas de ocupação praticam correntemente, que em geral não é nem julgado, mas que deu origem a uma disputa que mostrou a real força dos colonos dentro do estado sionista. Jonathan Cook é autor de inúmeros artigos que podem ser lidos em seu blog e de importantes livros como Disappearing Palestine (Palestina em desaparecimento) , Israel and the clash of civilizations (Israel e o choque de civilizações) e Blood and Religion – the unmasking of the Jewish and democratic state (Sangue e Religião – o desmascaramento do estado judeu e democrático), infelizmente ainda não traduzidos ao português. Agradecemos especialmente ao autor pela permissão para publicar seu artigo.

     

    Publicado em 10 de Janeiro de 2017 no jornal The National, de Abu-Dhabi

     

    O Reino Unido tem o Brexit. Os Estados Unidos, um próximo presidente, Trump. E Israel agora tem Elor Azaria. Pode não ter o mesmo alcance, mas, ao final das contas, o ponto de inflexão poderá demonstrar-se decisivo.

    Duas narrativas falaciosas saudaram a condenação do médico do exército por homicídio involuntário na semana passada, depois que foi filmado disparando  uma bala na cabeça de um palestino ferido indefeso, Abdel Fattah Al Sharif, de 21 anos.

    Os primeiros dizem que o caso Azaria é uma maçã podre no meio de frutas frescas, um soldado que perdeu suas reservas morais em março passado sob a pressão de servir em Hebron. Os segundos – populares entre os liberais em Israel – sustentam que a condenação prova a força do estado de direito em Israel. Mesmo um soldado transgressor será responsabilizado pelo “exército com a mais elevada moral do mundo”.

    Na realidade, no entanto, a reação popular à decisão da corte foi bem mais reveladora do que a decisão em si mesma.

    Somente massivos contingentes da polícia de choque salvaram os três juízes do linchamento pela multidão do lado de fora do tribunal. Os comandantes do exército receberam a proteção de guarda-costas. Exigências para anular a decisão e perdoar Azaria são ensurdecedoras – e estão sendo lideradas pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

    Azaria não é um soldado descontrolado. Ele é como “o filho que todos desejam”, de acordo com boa parte da opinião pública. A natureza não excepcional de seu ato é confirmada pela completa indiferença dos seus colegas quando Azaria puxou o gatilho. As pesquisas de opinião mostram um apoio esmagador – 84 por cento – para Azaria entre as pessoas de 18 a 24 anos, a idade de conscrição no exército de ­Israel.

    Por outro lado, o julgamento refletiu não a inviolabilidade da lei – há 12 anos o último soldado, um Beduíno, foi condenado por homicídio involuntário. Ele somente revelou as crescentes pressões sobre Israel. As câmeras nos celulares estão tornando mais difícil encobrir os crimes dos soldados.  Ao processar Azaria em um caso em que as evidências filmadas são inequívocas, Israel tem a esperança de evitar as investigações por crimes de guerra pela Corte Criminal Internacional.

    Como observou o colunista israelense Nahum Barnea, a equipe de defesa de Azaria também errou. Ao surfarem em uma onda de indignação populista, eles acusaram os superiores de Azaria de mentiras e assédio. Os promotores já tinham reduzido a acusação de assassinato para a de homicídio involuntário. A corte provavelmente teria acordado em condenar o arrependido Azaria pelo mau uso de uma arma de fogo. Mas, dada a formulação do caso feita pela defesa, os juízes tinham que decidir: ficar do lado do soldado ou do exército.

    Assim como o Brexit e Trump, o julgamento de Azaria expôs não somente uma profunda fratura social, mas também um momento de transição. Aqueles que veem um sistema virtuoso punindo uma maçã podre são agora minoria frente aos que veem um sistema podre vitimizando um herói.

    As pesquisas mostram que a fé da opinião pública israelense está despencando em relação à maioria das instituições, desde os tribunais até a imprensa, que são vistos, mesmo que equivocadamente, como sendo dominadas pela “extrema esquerda”. Somente o exército ainda é amplamente reverenciado.

    Isso é em parte porque tantos genitores israelenses devem confiar seus filhos e filhas a ele. Duvidar do exército seria questionar a lógica fundacional da “Fortaleza Israel”: que o exército é a única coisa que impede os “bárbaros palestinos” como Sharif de tomar de assalto o país.

    Mas também, ao contrário daquelas instituições crescentemente repudiadas, o exército rapidamente se adaptou e se conformou às mudanças mais amplas na sociedade israelense.

    Mais do que de colonos, devemos falar de “colonialismo”. Há muito mais colonos do que os 600 mil que vivem nos assentamentos. Naftali Bennett, líder do partido dos colonos Casa Judaica e ministro da educação, vive em Ranana, uma cidade em Israel, não uma colônia.

    O colonialismo é uma ideologia, que acredita que os judeus são um “povo escolhido”, cujos direitos bíblicos à Terra Prometida se sobrepõem aos dos não-judeus como os palestinos. As pesquisas mostram que 70 por cento dos judeus israelenses pensam que eles são escolhidos por Deus.

    Os colonos tomaram conta do exército, tanto demográfica quanto ideologicamente. Eles agora dominam seu corpo de oficiais e dirigem sua política no terreno de ação.

    O testemunho de Azaria mostrou quão profundo é hoje este vínculo. Sua companhia, incluindo seus comandantes, frequentemente passam seu tempo livre na casa de Baruch Marzel, um líder do Kach, um grupo banido nos anos 1990 por sua plataforma genocida anti-árabe. Azaria descreveu Marzel e os colonos de Hebron como uma “família” para os soldados.

    Por sua própria natureza, exércitos de ocupação são brutalmente repressivos. Por décadas, o comando do exército deu via livre a seus soldados contra os palestinos. Mas como o número de colonos cresceu, a imagem do exército de si próprio também mudou.

    Ele se transformo de um exército de cidadãos defendendo os assentamentos em uma milícia de colonos. Os oficiais médios ditam hoje o etos do exército, não o alto comando, como o destituído ministro da Defesa Moshe Yaalon descobriu quando tentou colocar-se contra à maré montante.

    Este novo exército não é mais minimamente contido por preocupações sobre a sua imagem “moral” ou por ameaças de investigações de crimes de guerra internacionais. Ele pouco se importa com o que o mundo pensa, da mesma forma como a nova safra de políticos que deu seu apoio a Azaria.

    O julgamento do soldado, longe de ser uma prova do estado de direito, foi o último suspiro de uma ordem que está morrendo. Sua sentença, que deverá ser proferida nos próximos dias, será provavelmente leniente para apaziguar a opinião pública. Se a condenação for anulada por um perdão, a vitória dos colonos será completa.

    – Ver mais em http://www.jonathan-cook.net/2017-01-10/elor-azaria-verdict-moment-transition-israel/#sthash.X4pserMm.dpuf