ELE NÃO ME BATEU, MAS…

Por: Anônima

No dia 26 de novembro de 2015, há mais de um ano atrás percebi que estava num relacionamento abusivo. Passados todos esses dias, ninguém além de mim percebeu.

Foram inúmeras às vezes que tive que anotar o que acontecia. Repassar cada fala para entender o que estava acontecendo. Milhares de anotações e ainda é muito difícil explicar em poucas palavras. Talvez seja por isso que ainda é tão difícil discutir violências que não são aparentes. Ainda parecem ser muitos pontos soltos, dos furos que não deixaram marcas externas, mas que doem até hoje. Segue o meu relato:

Se já é difícil falar de um relacionamento abusivo, imagina quando o cara não admitiu que fosse um relacionamento. Sabe como é: Você dorme todos os dias na casa dele, passam horas juntos, mas quando chegam à festa dos amigos é como se nunca tivessem nem ficado.

Tudo começou quando ainda éramos amigos, como todo relacionamento assim. Falamos diversas vezes que não ficaríamos mais. Essa era uma decisão conjunta, apesar de nunca concretizada. A partir do momento em que me apaixonei tudo mudou. Já não eram as nossas decisões. Era sempre as dele. Sempre em favor da sua estabilidade afetiva, emocional e financeira.

As minhas nunca interessaram. Recordo-me um dia em que ele insistiu para que eu ficasse em sua casa. Visto no dia seguinte, eu lhe pedi para ficar, a resposta não foi outra senão “Eu o incomodaria”.

Aparentemente esta era uma questão de interesse, ele havia se envolvido um pouco menos. Mas tive de ir mais a fundo para descobrir que não se tratava disso. Ele tinha o controle da relação e deixava isso bem claro. Quando por exemplo, dizia ter se relacionado com outra pessoa em sua cama, naquele dia.

Nessa mesma noite eu me neguei a transar com ele, mas o mesmo insistiu. Disse que gostava muito de mim, que queria um relacionamento, no outro dia me negou um beijo. Depois disse que eu havia entendido errado, porque além de controlar ele adorava dizer que eu entendia tudo errado, era a louca da relação. Mas a verdade é que ele fazia por me confundir.

Também dizia que eu o atrapalhava a se relacionar com outras mulheres, que não por acaso eram minhas amigas. E quando eu tentava ir embora de sua casa o mesmo era categórico na chantagem: “Vai sair essa hora, sabe quantos estupros acontecem a meninas que entram em táxi de madrugada?”. Ele sabia o quanto isso era doloroso de ouvir. E quanto medo eu sentiria em ir embora.

Foram várias vezes em que me senti aprisionada naquela casa. Sabendo ele que me faria ficar nervosa, com falta de ar e depois diria que eu só estava daquele jeito por que queria chamar atenção. “Porque queria transar com ele”.

Eu não percebi muito fácil, eu era sincera e esperava o mesmo da parte dele. Mas parece que ele adorava mostrar o quanto ele poderia decidir. Hora me queria, hora eu estava dispensada. Como uma boneca, que se brinca a hora que quer. E depois você joga num canto qualquer.

Assim, um dia em que me disse “não ficaremos mais”, passados cinco minutos ele estava passando a mão na minha coxa, se esfregando em mim e insistindo para que transássemos.  Não importava meus sentimentos. O furacão que passava na minha cabeça toda vez que ele fingia ir embora e depois voltava.

Ele também mentia, disse uma vez que nossos amigos haviam discutido que não devíamos ficar mais. Tudo isso além de jogar minha autoestima no buraco. Todas as vezes sabia me humilhar, seja falando de todos os seus interesses em meninas tão lindas, tão diferentes de mim. Eram muitos elogios às outras, na frente de todos que sabiam que eu gostava dele.

Enquanto eu tentava ajudar ele com todas as barras, foram inúmeras as suas grosserias. Sabe aquele dia em que você toma a pílula do dia seguinte e o cara não está nem aí que você está passando mal. Pois é ele conseguiu piorar esse dia. Falando que eu já podia sair da sua casa. Já que a outra havia lhe dado o bolo. E o quanto estava mal por ela não ter ido.

Mas foram poucas as perguntas que me fez sobre como eu estava lidando com o fato de transarmos sem camisinha. Até o dia que ele perdeu o emprego. E me perguntou. “Por favor, me diga que não está grávida”.

Tudo o que acontecia com ele era uma grande tragédia, ou uma grande festa. Já comigo era diferente. Meus parentes poderiam ficar doentes, eu poderia estar triste, mas ele não seria solidário. Algumas violências nem a gente percebe. Acreditem uma vez ele me impediu de desligar um filme e eu precisava dormir. Ele dormiu. Mas não me deixou desligar o filme porque eu havia escolhido. E agora que arcasse com a consequência.

Eu me senti um lixo. Uma pessoa que não conseguia ter nem dignidade num relacionamento. Me afastei de quem eu era. Três situações foram categóricas.

  • Telefone

Eu realmente pensei que estava ficando louca. Afinal de contas parece que era isso que ele queria mostrar. Eu estava cansada de tudo aquilo. Diferente dos outros dias resolvi que iria pegar um táxi. Parece coisa de outro mundo, mas acreditem o telefone do táxi chamou na casa dele. Por algum motivo seu número estava na lista de táxi. Porque havia um táxi embaixo da sua casa. Ele me chamou de louca como sempre, que estava querendo chamar atenção. Eu chorei a noite toda. Parecia um carma, não sei… Tudo me prendia àquela situação. Passados alguns dias eu novamente procurei na lista de telefones de táxi e encontrei seu número realmente lá. Pedi então que ele conferisse, queria mostrar que eu não estava louca. Mas ele se recusou. Não quis nem saber. Eu desisti de mostrá-lo. Mas a história foi parar no ouvido de todos os nossos amigos. Eu fiquei conhecida como “A Louca”.

  • Abraço

Bom afeto era outra coisa que eu só podia demonstrar quando ele queria. Certo dia ficamos bêbados na festa de uma amigo nosso. Eu iria dormir no quarto de um dos nossos amigos. Mas ele veio novamente com as suas chantagens. Falou que se eu fosse dormir com esse amigo iria ver só. Me fez ficar, passou a mão em mim o quanto quis. E eu o abracei. Logo de manhã veio a reclamação. “Porque você estava me abraçando? Você é louca não quero nada com você. Vai cuidar da sua vida.”

  • Sumiço 

Eu tive uma infecção alimentar. Fui parar no hospital. Liguei para ele avisando que já estava sendo medicada. Ele não se importou com o que eu estava sentindo. Tratou de me preocupar. Estava decidido a ir embora e eu nunca mais o veria. Já havia juntado as malas. Disse que sua família também não o veria. Pronto. Eu passei mal a noite toda. Mesmo assim dei um jeito de ligar para vários amigos, com medo que o pior acontecesse. Liguei para ele um dia inteiro. Até descobrir que ele estava ótimo. E estava passando alguns dias em uma cidade próxima, mas já voltaria. Sabe o quanto eu me senti louca por me importar tanto. Por ele me fazer tão mal e nunca se preocupar. E depois ainda dizer pra cuidar da minha vida, porque eu é que o atrapalhava.

Pra finalizar preciso falar da violência financeira. Nunca imaginei que passaria por isso. Mas é, ele de uma forma ou de outra decidia sobre o meu dinheiro. Para os amigos nunca faltou grana. Ele comprava vinhos, fazia comidas diferentes. Quando eu chegava não havia dinheiro para o cigarro, para a bebida.

Uma vez ele me pediu muito o último dinheiro que eu tinha. Achei que estava com o cartão de passagem na bolsa. Resultado. Tive que pedir dois reais a uma estranha para pagar o metrô desesperada porque tinha que trabalhar e ele não atendeu nenhum telefonema meu.

Humilhação mesmo foi quando eu falei: Posso dormir na sua casa? E respondeu que sim, mas só se o levasse dois maços de cigarro. Ainda assim, a única vez em que foi em minha casa por que eu o pedi, falou por diversos dias e para vários amigos o quanto havia gastado com táxi. Mas nunca se preocupou com o tanto de passagem que eu pagava e as horas no ônibus que eu gastava para estar com ele, além dos meus últimos centavos que ele me fazia gastar.

Bom, eu resolvi falar um pouco ainda que de maneira confusa sobre esse relacionamento porque acredito que precisamos avançar no debate sobre relacionamentos abusivos. E também para que mais mulheres possam sentir força para sair desse tipo de situação que nos despedaça tanto.

O mais difícil para mim, por dar um basta, é porque chega um ponto de tal idealização do relacionamento que você não sabe mais o que está acontecendo. Foram meses para que eu pudesse entender. E depois mais alguns para não sentir mais falta de uma pessoa que não existia. Porque aquele cara só me fazia mal. E os poucos momentos tranquilos que passávamos não podiam servir para eu me sujeitar a tanto destrato.

Espero que o movimento feminista, a esquerda de conjunto consiga elaborar mais sobre, porque a violência contra a mulher ainda têm destruído muitas vidas. E na minha ficaram muitas marcas. Mas não podemos nos calar. E este texto é uma vontade minha de que possamos parar de deixar entre quatro paredes.

Para que possamos lutar para sermos ouvidas. Para que um dia ainda os homens possam estar ao nosso lado, nos respeitando também como companheiras. Precisamos dar um basta nos relacionamentos abusivos.

Fotos: Extraída da internet

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