A Peleja da Navegança de Ayam Úbrais Barco

Por: Baiano, Metalúrgico, Contagem/ MG

Já está disponível no YouTube e em várias outras mídias o disco Na Peleja da Navegança, que é o segundo do músico Ayam Ubráis Barco. O disco foi lançado no dia 02 de dezembro de 2016 que é o dia do aniversário da sua cidade natal Ipiaú-BA. Esse álbum foi precedido pelo disco ¡Partir o Mar Em Banda!  (2013), o primeiro da sua caminhada musical.

Quem é esse tal Ayam Ubráis Barco?

Ubráis nasceu em Salvador, mas, ainda muito novo foi morar em Ipiaú, uma pequena cidade do sul da Bahia que ele costuma apelidar de “Terra de Insanos” pela criatividade do seu povo. Foi lá que ele iniciou sua peleja musical fazendo vários sons e participando de várias bandas.

Podemos dizer que Ubráis é um multiartista, pois além de músico é escritor e lançou recentemente o livro O Caos Agradecido. É também artista plástico com várias telas pintadas, além de uma infinidade de desenhos com uma técnica que ele mesmo criou e deu o nome de filisminogravura. Inclusive foi a partir da grana conseguida com a venda dos seus trabalhos artísticos que ele conseguiu pagar a gravação dos seus dois discos.

Ser artista independente não é fácil. Agora imagina um artista independente do interior da Bahia que toca rock? São muitas dificuldades: Falta lugares para tocar, investimentos e incentivos escassos, raros espaços de divulgação e por aí vai.

Os governos também não se preocupam com a cultura e com isso acabamos tendo muitos artistas talentosos perdidos e sem conhecimento das pessoas por essas dificuldades.

Mesmo na cena alternativa acaba reinando o individualismo e os grupinhos onde só se abre espaço para um grupo seleto, mal sabem eles que juntos nós podemos mais e que com a união dos artistas poderíamos produzir muito e lutar por mais investimentos e espaços culturais.

É através de muita luta individual, de ajuda de amigos, colaboradores, músicos e várias parcerias que Ubráis vem tentando driblar as dificuldades para levar em frente o seu trabalho e também divulgá-lo.

Na gravação dos discos foram parcerias com os estúdios musicais. Vários músicos e amigos participaram de diversas formas para garantir que eles pudessem sair. Nos clipes não foi diferente, teve campanha financeira pela internet e parcerias com estúdios audiovisuais e diversos artistas e amigos.

Seus clipes tiveram muita audiência nas redes, na qual chegou a ganhar concursos de consultas públicas.

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As letras

A definição do trabalho artístico é muito pessoal e difícil mesmo para mim que tenho uma convivência muito próxima com Ubráis e vi nascer algumas músicas. Dei palpites, sei das estórias, etc. Mas algo do seu som é nítido: Ele canta a vida.

É a arte mais pura no sentido que o seu propósito é a expressão da sua visão de mundo e do que ele acredita, não é simplesmente a arte pela arte, e tão pouco a arte para se ter benefícios pessoais e financeiros. É a arte para expressar, interpretar e mudar a realidade.

Por isso creio que o seu som expressa uma essência no que existe de mais puro e profundo que um trabalho artístico pode proporcionar.

As suas músicas tratam do cotidiano, de situações vividas, outras observadas, dos desafios, das angústias, das alegrias, do amor. O amor merece um destaque por ser tratado como inseparável da luta, porque ambos buscam a liberdade. Sem luta não tem como se ter liberdade e sem amor não tem sentido se lutar pela liberdade.

E tudo isso através de uma forma indireta, através de expressões e metáforas que nos conduz a uma viagem pela sua narrativa e pensamento artístico.

Sem dúvida o traço mais forte da maior parte das suas músicas são as críticas sociais, a visão de mundo de alguém que não se vendeu, que valoriza o pensamento coletivo e a luta pela transformação da sociedade.

As suas letras trazem a todo momento a necessidade da união daqueles que sofrem todos os dias para sobreviver enquanto poucos se nutrem do dinheiro do sangue alheio. Ao pregar a união dos debaixo não deixa de condenar os que se vendem por migalhas.

Não à toa a sua arte sempre esteve conectada as lutas sociais, seja retratada no seu trabalho, mas também com intervenções e exposições artística nos atos, manifestações e nas lutas do povo. É ao mesmo tempo um artista revolucionário e um revolucionário artista.

O som

A voz rouca e rasgada é ímpar. A pegada Rock’n Roll clássica com a guitarra distorcida é uma marca, ainda que algumas músicas expressem outras vertentes.

Uma das coisas interessantes dos discos são os sons, as expressões, as frases recitadas e os áudios que aparecem nos intervalos entre as músicas e também durante algumas canções.

Sem negar a qualidade dos discos é possível perceber uma diferença em o primeiro ¡Partir o Mar Em Banda! E segundo, e mais recente Na Peleja da Navegança, o primeiro é mais Rock’n Roll clássico com guitarra, baixo e bateria na maioria das músicas, mas não é só isso, utiliza também muitos arranjos e corais.

O Na Peleja mantém as características do Partir e acrescenta percussões e metais em várias músicas, tornando a sonoridade mais rica e abrangente. É perceptível também nas músicas a identidade dos músicos do Bando do Mar que é a banda que o acompanha e é composta, por Ismera Rock (guitarra), Edmilson dos Santos, O Sussa (baixo) e Mateus Albuquerque, Teku (bateria).

Essa melhoria do Na Peleja com certeza se deve à toda experiência adquirida no processo de gravação do primeiro e à tentativa de explorar sonoridades. Em uma conversa Ubráis comentou que já tem em mente alguns sons que pretende explorar no próximo disco, é isso mesmo, o terceiro disco já está idealizado inclusive com algumas músicas já compostas.

Para quem não sabe, os dois primeiros discos fazem parte de uma trilogia, onde na sua visão o primeiro representa os ameríndios (índios americanos) que prevendo a invasão europeia e as suas consequências se lança ao mar a caminho do continente africano. O segundo é o encontro dos ameríndios com os africanos na tentativa de fazer uma união para partir para Europa e impedir que o seu modelo de sociedade individualista, explorador, opressor e ganancioso se espalhe pelo mundo.

O encontro dos ameríndios e africanos com os europeus, dos despossuídos com os exploradores, será o tom do significado do terceiro disco.

Essa é a Peleja da Navegança de Ayam Ubráis Barco, um multiartista que se lança de peito aberto às ondas das vivências artísticas e merece ser encontrado por aqueles que buscam uma arte autêntica, profunda e transformadora. Se é esse tipo de arte que busca, conheça Ayam Ubráis Barco.

Fotos: Ayam Úbrais

 

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