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7 Janeiro, 2017
  • A Peleja da Navegança de Ayam Úbrais Barco

    Por: Baiano, Metalúrgico, Contagem/ MG

    Já está disponível no YouTube e em várias outras mídias o disco Na Peleja da Navegança, que é o segundo do músico Ayam Ubráis Barco. O disco foi lançado no dia 02 de dezembro de 2016 que é o dia do aniversário da sua cidade natal Ipiaú-BA. Esse álbum foi precedido pelo disco ¡Partir o Mar Em Banda!  (2013), o primeiro da sua caminhada musical.

    Quem é esse tal Ayam Ubráis Barco?

    Ubráis nasceu em Salvador, mas, ainda muito novo foi morar em Ipiaú, uma pequena cidade do sul da Bahia que ele costuma apelidar de “Terra de Insanos” pela criatividade do seu povo. Foi lá que ele iniciou sua peleja musical fazendo vários sons e participando de várias bandas.

    Podemos dizer que Ubráis é um multiartista, pois além de músico é escritor e lançou recentemente o livro O Caos Agradecido. É também artista plástico com várias telas pintadas, além de uma infinidade de desenhos com uma técnica que ele mesmo criou e deu o nome de filisminogravura. Inclusive foi a partir da grana conseguida com a venda dos seus trabalhos artísticos que ele conseguiu pagar a gravação dos seus dois discos.

    Ser artista independente não é fácil. Agora imagina um artista independente do interior da Bahia que toca rock? São muitas dificuldades: Falta lugares para tocar, investimentos e incentivos escassos, raros espaços de divulgação e por aí vai.

    Os governos também não se preocupam com a cultura e com isso acabamos tendo muitos artistas talentosos perdidos e sem conhecimento das pessoas por essas dificuldades.

    Mesmo na cena alternativa acaba reinando o individualismo e os grupinhos onde só se abre espaço para um grupo seleto, mal sabem eles que juntos nós podemos mais e que com a união dos artistas poderíamos produzir muito e lutar por mais investimentos e espaços culturais.

    É através de muita luta individual, de ajuda de amigos, colaboradores, músicos e várias parcerias que Ubráis vem tentando driblar as dificuldades para levar em frente o seu trabalho e também divulgá-lo.

    Na gravação dos discos foram parcerias com os estúdios musicais. Vários músicos e amigos participaram de diversas formas para garantir que eles pudessem sair. Nos clipes não foi diferente, teve campanha financeira pela internet e parcerias com estúdios audiovisuais e diversos artistas e amigos.

    Seus clipes tiveram muita audiência nas redes, na qual chegou a ganhar concursos de consultas públicas.

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    As letras

    A definição do trabalho artístico é muito pessoal e difícil mesmo para mim que tenho uma convivência muito próxima com Ubráis e vi nascer algumas músicas. Dei palpites, sei das estórias, etc. Mas algo do seu som é nítido: Ele canta a vida.

    É a arte mais pura no sentido que o seu propósito é a expressão da sua visão de mundo e do que ele acredita, não é simplesmente a arte pela arte, e tão pouco a arte para se ter benefícios pessoais e financeiros. É a arte para expressar, interpretar e mudar a realidade.

    Por isso creio que o seu som expressa uma essência no que existe de mais puro e profundo que um trabalho artístico pode proporcionar.

    As suas músicas tratam do cotidiano, de situações vividas, outras observadas, dos desafios, das angústias, das alegrias, do amor. O amor merece um destaque por ser tratado como inseparável da luta, porque ambos buscam a liberdade. Sem luta não tem como se ter liberdade e sem amor não tem sentido se lutar pela liberdade.

    E tudo isso através de uma forma indireta, através de expressões e metáforas que nos conduz a uma viagem pela sua narrativa e pensamento artístico.

    Sem dúvida o traço mais forte da maior parte das suas músicas são as críticas sociais, a visão de mundo de alguém que não se vendeu, que valoriza o pensamento coletivo e a luta pela transformação da sociedade.

    As suas letras trazem a todo momento a necessidade da união daqueles que sofrem todos os dias para sobreviver enquanto poucos se nutrem do dinheiro do sangue alheio. Ao pregar a união dos debaixo não deixa de condenar os que se vendem por migalhas.

    Não à toa a sua arte sempre esteve conectada as lutas sociais, seja retratada no seu trabalho, mas também com intervenções e exposições artística nos atos, manifestações e nas lutas do povo. É ao mesmo tempo um artista revolucionário e um revolucionário artista.

    O som

    A voz rouca e rasgada é ímpar. A pegada Rock’n Roll clássica com a guitarra distorcida é uma marca, ainda que algumas músicas expressem outras vertentes.

    Uma das coisas interessantes dos discos são os sons, as expressões, as frases recitadas e os áudios que aparecem nos intervalos entre as músicas e também durante algumas canções.

    Sem negar a qualidade dos discos é possível perceber uma diferença em o primeiro ¡Partir o Mar Em Banda! E segundo, e mais recente Na Peleja da Navegança, o primeiro é mais Rock’n Roll clássico com guitarra, baixo e bateria na maioria das músicas, mas não é só isso, utiliza também muitos arranjos e corais.

    O Na Peleja mantém as características do Partir e acrescenta percussões e metais em várias músicas, tornando a sonoridade mais rica e abrangente. É perceptível também nas músicas a identidade dos músicos do Bando do Mar que é a banda que o acompanha e é composta, por Ismera Rock (guitarra), Edmilson dos Santos, O Sussa (baixo) e Mateus Albuquerque, Teku (bateria).

    Essa melhoria do Na Peleja com certeza se deve à toda experiência adquirida no processo de gravação do primeiro e à tentativa de explorar sonoridades. Em uma conversa Ubráis comentou que já tem em mente alguns sons que pretende explorar no próximo disco, é isso mesmo, o terceiro disco já está idealizado inclusive com algumas músicas já compostas.

    Para quem não sabe, os dois primeiros discos fazem parte de uma trilogia, onde na sua visão o primeiro representa os ameríndios (índios americanos) que prevendo a invasão europeia e as suas consequências se lança ao mar a caminho do continente africano. O segundo é o encontro dos ameríndios com os africanos na tentativa de fazer uma união para partir para Europa e impedir que o seu modelo de sociedade individualista, explorador, opressor e ganancioso se espalhe pelo mundo.

    O encontro dos ameríndios e africanos com os europeus, dos despossuídos com os exploradores, será o tom do significado do terceiro disco.

    Essa é a Peleja da Navegança de Ayam Ubráis Barco, um multiartista que se lança de peito aberto às ondas das vivências artísticas e merece ser encontrado por aqueles que buscam uma arte autêntica, profunda e transformadora. Se é esse tipo de arte que busca, conheça Ayam Ubráis Barco.

    Fotos: Ayam Úbrais

     

  • ELE NÃO ME BATEU, MAS…

    Por: Anônima

    No dia 26 de novembro de 2015, há mais de um ano atrás percebi que estava num relacionamento abusivo. Passados todos esses dias, ninguém além de mim percebeu.

    Foram inúmeras às vezes que tive que anotar o que acontecia. Repassar cada fala para entender o que estava acontecendo. Milhares de anotações e ainda é muito difícil explicar em poucas palavras. Talvez seja por isso que ainda é tão difícil discutir violências que não são aparentes. Ainda parecem ser muitos pontos soltos, dos furos que não deixaram marcas externas, mas que doem até hoje. Segue o meu relato:

    Se já é difícil falar de um relacionamento abusivo, imagina quando o cara não admitiu que fosse um relacionamento. Sabe como é: Você dorme todos os dias na casa dele, passam horas juntos, mas quando chegam à festa dos amigos é como se nunca tivessem nem ficado.

    Tudo começou quando ainda éramos amigos, como todo relacionamento assim. Falamos diversas vezes que não ficaríamos mais. Essa era uma decisão conjunta, apesar de nunca concretizada. A partir do momento em que me apaixonei tudo mudou. Já não eram as nossas decisões. Era sempre as dele. Sempre em favor da sua estabilidade afetiva, emocional e financeira.

    As minhas nunca interessaram. Recordo-me um dia em que ele insistiu para que eu ficasse em sua casa. Visto no dia seguinte, eu lhe pedi para ficar, a resposta não foi outra senão “Eu o incomodaria”.

    Aparentemente esta era uma questão de interesse, ele havia se envolvido um pouco menos. Mas tive de ir mais a fundo para descobrir que não se tratava disso. Ele tinha o controle da relação e deixava isso bem claro. Quando por exemplo, dizia ter se relacionado com outra pessoa em sua cama, naquele dia.

    Nessa mesma noite eu me neguei a transar com ele, mas o mesmo insistiu. Disse que gostava muito de mim, que queria um relacionamento, no outro dia me negou um beijo. Depois disse que eu havia entendido errado, porque além de controlar ele adorava dizer que eu entendia tudo errado, era a louca da relação. Mas a verdade é que ele fazia por me confundir.

    Também dizia que eu o atrapalhava a se relacionar com outras mulheres, que não por acaso eram minhas amigas. E quando eu tentava ir embora de sua casa o mesmo era categórico na chantagem: “Vai sair essa hora, sabe quantos estupros acontecem a meninas que entram em táxi de madrugada?”. Ele sabia o quanto isso era doloroso de ouvir. E quanto medo eu sentiria em ir embora.

    Foram várias vezes em que me senti aprisionada naquela casa. Sabendo ele que me faria ficar nervosa, com falta de ar e depois diria que eu só estava daquele jeito por que queria chamar atenção. “Porque queria transar com ele”.

    Eu não percebi muito fácil, eu era sincera e esperava o mesmo da parte dele. Mas parece que ele adorava mostrar o quanto ele poderia decidir. Hora me queria, hora eu estava dispensada. Como uma boneca, que se brinca a hora que quer. E depois você joga num canto qualquer.

    Assim, um dia em que me disse “não ficaremos mais”, passados cinco minutos ele estava passando a mão na minha coxa, se esfregando em mim e insistindo para que transássemos.  Não importava meus sentimentos. O furacão que passava na minha cabeça toda vez que ele fingia ir embora e depois voltava.

    Ele também mentia, disse uma vez que nossos amigos haviam discutido que não devíamos ficar mais. Tudo isso além de jogar minha autoestima no buraco. Todas as vezes sabia me humilhar, seja falando de todos os seus interesses em meninas tão lindas, tão diferentes de mim. Eram muitos elogios às outras, na frente de todos que sabiam que eu gostava dele.

    Enquanto eu tentava ajudar ele com todas as barras, foram inúmeras as suas grosserias. Sabe aquele dia em que você toma a pílula do dia seguinte e o cara não está nem aí que você está passando mal. Pois é ele conseguiu piorar esse dia. Falando que eu já podia sair da sua casa. Já que a outra havia lhe dado o bolo. E o quanto estava mal por ela não ter ido.

    Mas foram poucas as perguntas que me fez sobre como eu estava lidando com o fato de transarmos sem camisinha. Até o dia que ele perdeu o emprego. E me perguntou. “Por favor, me diga que não está grávida”.

    Tudo o que acontecia com ele era uma grande tragédia, ou uma grande festa. Já comigo era diferente. Meus parentes poderiam ficar doentes, eu poderia estar triste, mas ele não seria solidário. Algumas violências nem a gente percebe. Acreditem uma vez ele me impediu de desligar um filme e eu precisava dormir. Ele dormiu. Mas não me deixou desligar o filme porque eu havia escolhido. E agora que arcasse com a consequência.

    Eu me senti um lixo. Uma pessoa que não conseguia ter nem dignidade num relacionamento. Me afastei de quem eu era. Três situações foram categóricas.

    • Telefone

    Eu realmente pensei que estava ficando louca. Afinal de contas parece que era isso que ele queria mostrar. Eu estava cansada de tudo aquilo. Diferente dos outros dias resolvi que iria pegar um táxi. Parece coisa de outro mundo, mas acreditem o telefone do táxi chamou na casa dele. Por algum motivo seu número estava na lista de táxi. Porque havia um táxi embaixo da sua casa. Ele me chamou de louca como sempre, que estava querendo chamar atenção. Eu chorei a noite toda. Parecia um carma, não sei… Tudo me prendia àquela situação. Passados alguns dias eu novamente procurei na lista de telefones de táxi e encontrei seu número realmente lá. Pedi então que ele conferisse, queria mostrar que eu não estava louca. Mas ele se recusou. Não quis nem saber. Eu desisti de mostrá-lo. Mas a história foi parar no ouvido de todos os nossos amigos. Eu fiquei conhecida como “A Louca”.

    • Abraço

    Bom afeto era outra coisa que eu só podia demonstrar quando ele queria. Certo dia ficamos bêbados na festa de uma amigo nosso. Eu iria dormir no quarto de um dos nossos amigos. Mas ele veio novamente com as suas chantagens. Falou que se eu fosse dormir com esse amigo iria ver só. Me fez ficar, passou a mão em mim o quanto quis. E eu o abracei. Logo de manhã veio a reclamação. “Porque você estava me abraçando? Você é louca não quero nada com você. Vai cuidar da sua vida.”

    • Sumiço 

    Eu tive uma infecção alimentar. Fui parar no hospital. Liguei para ele avisando que já estava sendo medicada. Ele não se importou com o que eu estava sentindo. Tratou de me preocupar. Estava decidido a ir embora e eu nunca mais o veria. Já havia juntado as malas. Disse que sua família também não o veria. Pronto. Eu passei mal a noite toda. Mesmo assim dei um jeito de ligar para vários amigos, com medo que o pior acontecesse. Liguei para ele um dia inteiro. Até descobrir que ele estava ótimo. E estava passando alguns dias em uma cidade próxima, mas já voltaria. Sabe o quanto eu me senti louca por me importar tanto. Por ele me fazer tão mal e nunca se preocupar. E depois ainda dizer pra cuidar da minha vida, porque eu é que o atrapalhava.

    Pra finalizar preciso falar da violência financeira. Nunca imaginei que passaria por isso. Mas é, ele de uma forma ou de outra decidia sobre o meu dinheiro. Para os amigos nunca faltou grana. Ele comprava vinhos, fazia comidas diferentes. Quando eu chegava não havia dinheiro para o cigarro, para a bebida.

    Uma vez ele me pediu muito o último dinheiro que eu tinha. Achei que estava com o cartão de passagem na bolsa. Resultado. Tive que pedir dois reais a uma estranha para pagar o metrô desesperada porque tinha que trabalhar e ele não atendeu nenhum telefonema meu.

    Humilhação mesmo foi quando eu falei: Posso dormir na sua casa? E respondeu que sim, mas só se o levasse dois maços de cigarro. Ainda assim, a única vez em que foi em minha casa por que eu o pedi, falou por diversos dias e para vários amigos o quanto havia gastado com táxi. Mas nunca se preocupou com o tanto de passagem que eu pagava e as horas no ônibus que eu gastava para estar com ele, além dos meus últimos centavos que ele me fazia gastar.

    Bom, eu resolvi falar um pouco ainda que de maneira confusa sobre esse relacionamento porque acredito que precisamos avançar no debate sobre relacionamentos abusivos. E também para que mais mulheres possam sentir força para sair desse tipo de situação que nos despedaça tanto.

    O mais difícil para mim, por dar um basta, é porque chega um ponto de tal idealização do relacionamento que você não sabe mais o que está acontecendo. Foram meses para que eu pudesse entender. E depois mais alguns para não sentir mais falta de uma pessoa que não existia. Porque aquele cara só me fazia mal. E os poucos momentos tranquilos que passávamos não podiam servir para eu me sujeitar a tanto destrato.

    Espero que o movimento feminista, a esquerda de conjunto consiga elaborar mais sobre, porque a violência contra a mulher ainda têm destruído muitas vidas. E na minha ficaram muitas marcas. Mas não podemos nos calar. E este texto é uma vontade minha de que possamos parar de deixar entre quatro paredes.

    Para que possamos lutar para sermos ouvidas. Para que um dia ainda os homens possam estar ao nosso lado, nos respeitando também como companheiras. Precisamos dar um basta nos relacionamentos abusivos.

    Fotos: Extraída da internet

  • Em Belo horizonte é uma facada atrás da outra

    Por: Rayane Silva Guedes, Belo Horizonte, MG

    Em Belo horizonte é uma facada atrás da outra:  Aumentos do IPTU e da passagem de ônibus aterrorizam a população.

    Todo ano têm. Já entendemos que a prefeitura sempre cede às grandes empresas, em especial as do transporte. E esse ano batendo recordes chegou a R$ 4,05 o valor do ônibus municipal. Nas linhas intermunicipais predominantes passou para 4,85. São três aumentos dentro do último ano. Assim somados os fatores de:

    • Passagem muito cara.
    • Ônibus lotados.
    • Redução no quadro de horário de várias linhas.
    • Superfaturamento com obras como a do MOVE – Sistema de Transporte Rápido por Ônibus de BH –  Cristiano Machado e Antônio Carlos.
    • Motoristas realizando a dupla-função de motorista e cobrador.

    Quem lucra é o grande empresário. Para aprofundar a situação, o atual prefeito Kalil, que em campanha afirmou que não deixaria com que o aumento passasse, e ainda afirmou que abriria a “caixa preta” dos transportes, além de uma auditoria na BHTrans para tirar a gente da “lata de sardinha”, não fez nada até agora.

    Parece que nesses tempos é preciso dizer o óbvio. Transporte e moradia são um direito. E deveriam ser garantidos com qualidade a todos. Entretanto o que vemos é uma prefeitura covarde que não serve aos trabalhadores e a quem mais precisa destes serviços, porque se comprometeu em campanha, por detrás dos bastidores, com os que não estão do nosso lado.

    Para piorar, esse ano o aumento no IPTU chegou a até 2000%. Já sabemos quem mais vai sofrer com este absurdo. Em algumas situações, imóveis que estavam isentos chegarão a pagar valores superiores a R$2,7 mil, outro exemplo é de quem pagava R$430,00 passou a pagar R$9 mil.

    A prefeitura realizou uma atualização nos cadastros dos imóveis. Entretanto isso significa que aquele trabalhador que suou sangue para conseguir construir sua casinha, ainda vai ter um longo ano de sacrifício para juntar o dinheiro do imposto.

    A garantia de moradia à população está garantida em nossa Constituição. Mas na prática além do caro aluguel que pagamos, ou dos valores dos lotes por conta da especulação imobiliária, teremos que arcar ainda mais com este custo.

    Nesse cenário de filme de terror sabemos que quem está pagando a conta da crise somos nós. O que ainda precisamos compreender é que sem mobilização, organização coletiva de enfrentamento a estes ataques continuaremos a mercê.

    São os nossos direitos sendo retirados um a um e a cidade de Belo Horizonte se fechando para o acesso à cultura, arte e lazer, bem como de quem estuda, trabalha ou está desempregado que tem o seu “direito de ir e vir” retirado.

    Fiquemos atentos, Kalil já está mostrando a que veio. E é preciso que firmemos unidade nas lutas e na construção e elaboração de um plano para mobilizar BH. Algumas manifestações ocorreram nesta semana, é na luta e com a disposição que poderemos frear este grande ataque.

    Foto: Rayane Silva

  • Carrie Fisher (1956-2016)

    Por: Eileen Jones * (traduzido por Gleice Barros)

    Originalmente publicado em 28/12/2016 no site Jacobin Magazine

    Para muita gente, a morte de Carrie Fisher significa a morte da princesa Leia. Ela sabia disso e escreveu “Eu digo a meus jovens amigos que um dia eles estarão em um bar jogando sinuca, olharão para a televisão que terá uma foto da Princesa Leia com duas datas no rodapé e dirão ‘Oh! Ela disse que isso aconteceria’. Depois voltarão a jogar sinuca”.

    Vou deixar que outra pessoa escreva este tributo a Princesa Leia, outra pessoa pode fazer esse devido favor. Mas esta não é a Carrie Fisher que me interessa.

    O que eu gostava sobre Carrie Fisher foi que ela parecia sempre inclinada a dizer a verdade, e quase ninguém faz isso, certamente não as estrelas hollywoodianas.  Mais certamente ainda entre as estrelas de Hollywood que são o que Fisher chamou de “produtos de Hollywood”, referindo-se a seu status de filha de Debbie Reynolds e Eddie Fisher, a estrela infantil de pais famosos.

    Manter o estrelato em geral pode resultar em muitos segredos, você pode pensar que uma dinastia de estrelas apenas intensificaria esta tendência através das gerações.

    Mas Fisher parecia alérgica a segredos. “Você é tão doente quanto seus segredos” ela escreveu ao dizer tudo ou, pelo menos, sagazmente parecer que dizia tudo.

    Pessoas que são ricas e famosas na América, e, portanto, tem muito mais chance de escolher o que fazer com suas vidas do que qualquer pessoa. São inclinadas a aparições públicas em que disfarçam suas reais experiências. O que parece ser as regras de membros de uma sociedade a parte as quais você nunca diz o que realmente acontece atrás dos portões das mansões.

    Definitivamente não se fala sobre o consumo de drogas. Mas Carrie Fisher nunca parou de nos contar sobre tomar todas estas drogas. “Eram minhas amigas”, ela disse carinhosamente, embora os amigos fossem contra.

    A compulsão por tornar normal o anormal, ilustrado por revistas como US Weekly [revista de celebridades dos EUA – Nota da tradutora] sob o titulo “Eles são como nós!” em que mostram celebridades usando moletom enquanto compram café para viagem e andam com seus cachorros, não é o jeito de Carrie Fisher.

    Ela se expôs e disse que toda Hollywood era maluca e detalhou através de histórias. Por isso, abençoamo-la e lamentamos sua morte.

    Ela era capaz de reconhecer e divertidamente expor, em livros, entrevistas e monólogos, a relação com sua própria experiência com a suposta normalidade – ou pelo menos o que ela achava ser normalidade. O trecho a seguir é do livro Wishful Drinking:

    “Quer dizer, se eu entro em um lugar e digo ‘Sabe como é ver seu pai mais pela TV do que na vida real?’ não acho que muitos poderão responder ‘Meu Deus! Você também?’.  E da mesma forma, eu tenho que perguntar, com que frequência você diz “na vida real?“.

    Quando Debbie Reynolds precisou de alguém para aconselhar a filha adolescente sobre o uso de drogas, o ex-usuário de LSD Cary Grant foi chamado como conselheiro. Quando Fisher engasgou com uma couve-de-bruxelas, foi Dan Ackroyd que fez a manobra de Heimlich nela.

    Meryl Streep interpretou seu alter-ego Suzanne no filme adaptado do primeiro livro de Fisher, Postcards From The Edge. Mas era frequentemente questionada: Por que ela mesma não interpretou o papel? “Já interpretei Suzanne”, disse, referindo-se a sua vida como uma duradoura atuação.

    O fato de Fisher saber tudo isso era estranho, e a vontade de compartilhar toda sua esquisitice conosco, o público, fez dela alguém como nós, uma pessoa comum honorária.

    Ela tinha um anseio humano de ser parte do panteão dos vivos, vividos, atormentados escritores de verdades de Hollywood que admirava, lendários super-expostos como Judy Garland e Ava Gardner, que perto do final de suas épicas vidas adoraram desenterrar as sujeiras de Hollywood e o fizeram de forma hilária.

    Fisher fez listas de celebridades azaradas – bêbados, usuários de drogas, sobreviventes de doenças mentais que pensaram por muito tempo em suicídio – e orgulhosamente adicionava seu nome.  Ela se vangloriava, por exemplo, de sua amizade com praticantes de terapia de eletrochoques famosos, como Judy Garland, Cole Porter, Lou Reed, Yves St. Laurent, Ernest Hemingway e Vivien Leigh e coroava “Olha o que estes fodidos conseguiram realizar!”.

    Talvez fossem os excessos, do que ela chamou, de sua muito movimentada vida que prematuramente a envelheceu. Fisher pareceu ir rapidamente da picante estrela no icônico biquíni de metal para a cansada veterana de meia idade da guerra do showbiz, mostrando suas cicatrizes e resmungando piadas irônicas sobre suas realizações, como se ela tivesse pensado em ter o status de excelência desde berço.

    Esta impressão de acelerado envelhecimento criado parcialmente por sua diversificada carreira de atriz, resultou numa surpreendente limitada filmografia para alguém tão famoso.

    Ao invés de construir sua inicial carreira atuando em sucessivos papeis principais em filmes, ela desviou para escrita de livros e revisão de roteiros nos bastidores, nunca perseguindo o estrelato em grandes filmes em nada parecida com a duríssima e tradicional disciplina hollywoodiana de sua mãe.

    Finalmente, o estrelato de Fisher se restringiu a composição de sua autobiografia sobre crescer e ser destruída em Hollywood, e como ela se tornou a divertida, auto-depreciada e perversamente orgulhosa encarnação do Estrago Feito.

    Passei a apreciar esta imagem de Fisher, em grande parte, porque eu a tenho acompanhado.  Sei que não é usual entre especialistas contar sobre suas idas a Hollywood e de ver as estrelas nas festas da indústria cinematográfica e ter grande interesse nestas aparições. Encaramos com certa indiferença estas estrelas, porque eles são mercadorias fabricadas dentro do sistema capitalista e vendido ao público, ou algo do gênero.

    Mas penso que o estudioso em cinema Richard Dyer acertou quanto argumentou sobre a intensa importância dos famosos.  As imagens destes refletem e nos ajuda a identificar os valores da sociedade que os produziu – representam e vendem as contradições impossíveis desta sociedade.

    E vendem a individualidade, uma espetacular miragem americana de realização completa e empoderamento pessoal único, não só porque suas imagens são destinadas a serem distintas, como parte de uma “diferenciação produtiva”, mas porque ficamos fascinados pela evidencia esporádica da luta diária de seres de carne e osso em manter esta suposta imagem distinta.

    Esta evidência, em geral, surge na forma de escândalos, de aparições públicas e tragédias reais, de escorregões aparentemente acidentais de todo tipo. Este é o território arenoso que Carrie Fisher apostou as fichas de sua longa carreira, com habilidade quis nos mostrar o caos por trás da imagem e, ao fazê-la, paradoxalmente manteve o controle sobre ela.

    Não era somente o personagem da Princesa Leia, era também sua ânsia em ser A princesa diarista que definiu sua personalidade amigável. Quem mais no elenco de Star Wars ou na equipe teria divido conosco a patética edição “sem roupa intima no espaço” de George Lucas, ou brincou sobre o brinquedo da Princesa Leia, ou contou a historia de um jovem fã de Star Wars que confessou a ela ter passado anos pensando todos os dias nela – “na verdade, quatro vezes por dia”.

    Então, em sua homenagem, esta é a verdadeira historia de Hollywood sobre Carrie Fisher.

    Certa vez, Carrie Fisher ajudou a arruinar Hollywood para mim. Fui até lá procurando uma vitalidade enlouquecida do showbiz com todo o desespero de uma estudante de Humanidades que não pode mais suportar a rigidez da academia mais um segundo.

    Mas para meu desespero, Fisher foi o instrumento para me mostrar que por baixo da sua superficial sedução pornografia, a elite hollywoodiana abriu outros caminhos para o tédio e a mediocridade.  Não era de se admirar a amizade de Fisher pelas drogas, e quão difícil era se afastar delas.

    Fui convidada a duas festas de Hollywood feitas por Fisher – uma delas ela foi efetivamente co-anfitriã – e eram festas estragadas que destruíram todo meu idealismo juvenil.  Se você não consegue achar alegre libertinagem em festa da Carrie Fisher, onde você espera achar?

    Ela deve ter tido muito disso ao longo dos anos.  Se Carrie Fisher vem, pode uma orgia de cocaína estar muito atrás?

    Na primeira festa foi à festa de Fisher e Penny Marshall, que alternavam o local a cada ano. Neste ano foi na casa de Marshall, que providenciou todas as necessidades para um verdadeiro sopro de Hollywood em um terraço espaçoso com uma piscina artificialmente iluminada, e vista imponente vista da Los Angeles iluminada, e muitas celebridades.

    De qualquer forma, todo o evento foi conduzido em uma atmosfera empolada de carismatismo de doze passos, com grupos decorosamente sóbrios de pessoas famosas à beira da piscina, falando trabalho. Foi incrivelmente deprimente.

    A anfitriã Fisher, com aparência linda e jovem, observou a cena atentamente, e concluiu com a voz carregada: “Acho que estas coisas funcionam melhor na minha casa”.

    A segunda festa foi um pequeno churrasco à tarde o qual Fisher exalou miséria. Ela bateu o portão do jardim enquanto entrava, andava de forma abatida e pesada, com o cabelo picado grosseiramente curto como se ela tivesse se massacrado com as próprias mãos em um ataque de auto aversão.

    Sem diversão em seu rosto, ela estava quase irreconhecível.

    Ela elevou a depressão e o desgosto a outros níveis naquele dia. Era difícil culpá-la, já que a festa era realmente medonha. Os cães da anfitriã vagavam livremente entre os convidados defecando por toda parte e, como o empolgado evento continuou, mais e mais pessoas seguiram a bosta de Shih Tzu por todo o pátio no calor fétido.

    Se quisesse, Fisher poderia ter transformado aquela festa em um texto sobre algo divertido, outra maluquice de calamidade social de Hollywood. A salvação daquela visão aviltada da estrela era pensar na cômica imagem pública que ela criou ao testemunhar o fracasso dos ricos e famosos para viver bem.

    A chave para tantas histórias inesquecíveis de Fisher é a fodida incongruência que destrói a imagem de boa vida de Hollywood. A vez que seu irmão Todd acidentalmente atirou na própria coxa, espalhando sangue no sagrado e imaculado quarto da estrela Debbie Reynolds; a vez que um amigo de Fisher, que veio a cidade para acompanhá-la na festa do Oscar, morreu em sua cama e então voltou para assombrá-la, literalmente; a vez que seu pai, Eddie Fisher, escreveu uma biografia alegando que sua ex-mulher, Debbie Reynold, era lésbica, e Carrie Fisher se sentiu compelida a declarar publicamente “Minha mãe não é lésbica. É apenas uma péssima, péssima heterossexual”.

    Ao apresentar o estrelato como uma engraçada e enlouquecida bagunça, Fisher permaneceu muito próxima ao publico em geral, cujas vidas também eram desordenadas, embora com menos interesse geral.

    E a astúcia desta apresentação pública que soou tão verdadeira colocou-a no panteão de seus amados famosos fodidos com todas as suas realizações. Descanse em paz Carrie Fisher.


    *Eileen Jones é critica de cinema para a Jacobin e autora do livro Filmsuck, USA. Ela é professora na Universidade da Califórnia em Berkeley.

  • “Eu, Daniel Blake” : Batalha contra um monstro

    Por Bruna Sartori e Gleice Barros do ABC, SP.

    Quando fomos ao cinema, não imaginávamos que o novo filme do diretor britânico, Ken Loach, iria ser tão impactante. O filme, que estreou nesta quinta (05) nos cinemas brasileiros, é uma pedrada na cabeça e no coração. Só de relembrar o filme dá vontade de chorar.

    “Eu, Daniel Blake” é um retrato do Reino Unido dos pobres e marginalizados. É um retrato dos pacotes de austeridade. É um retrato fiel e contraditório do que há de mais podre nas políticas imperialistas e o de mais humano que resta em nós.

    O filme conta a história de Daniel Blake que é afastado do trabalho após sofrer um ataque cardíaco. Todo o problema piora quando o Estado, diferente das recomendações dos médicos, afirma que Daniel tem plenas condições de retorno ao trabalho. A partir disso, o carpinteiro é obrigado a enfrentar uma batalha individual e cruel contra uma burocracia fria e cínica.

    O personagem passa o filme todo tentando conseguir benefício financeiro, mas esbarra na burocracia do governo: Ele precisa provar em cada detalhe que passou 35 horas/semanais procurando emprego, precisa fazer um workshop sobre como fazer o currículo, cadastrar-se no sistema online, etc.

    Acontece que Daniel é um senhor simples, que “só escreve com lápis” e não sabe sequer manusear um mouse. O problema então é que a burocracia estatal é assim por projeto, de propósito.

    O filme não fala apenas disso. Aprofunde o olhar e você sairá do cinema pensando “O que é a vida? ”. O carpinteiro representa milhões de pessoas que precisam viver com o mínimo (sem falar dos bilhões que sequer isso tem) e retrata como a burocracia e o tratamento dado a ele o humilham, desesperam, e fazem com que ele perca aos poucos a sua dignidade.

    Em entrevista ao El País, Loach, diretor do filme, explica:

    O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista. Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima. E o Estado contribui para a humilhação com toda essa burocracia estúpida.”

    Mas ao mesmo tempo em que é barrado pelo sistema aos seus direitos e os benefícios de seguro desemprego/doença, Daniel Blake emociona ao ser um indivíduo humano, acima de tudo, e apesar de tudo. Solidário com os vizinhos imigrantes, Katie e seus filhos, que conhece na agência de seguridade e passa a adotá-los como uma família.

    Aliás, a narrativa construída pelo roteiro e direção para contar também a história de Katie e seus filhos é outro ponto alto do filme.

    E essa é a genialidade de Loach. Ao humanizar os personagens e a vida difícil que Daniel e Katie vivem, Loach mostrou quão desumano é o sistema. Para o Estado, Daniel era só mais um número como tantos outros trabalhadores na fila de espera por ajuda do governo.

    O filme nos desperta diversas sensações: Raiva do sistema, da sua hipocrisia e como ele massacra e mata milhões de pessoas com seus procedimentos, falta de assistência, etc., amor por Daniel Blake e sua nova família, esperança por ainda ver a solidariedade entre os que precisam e uma garra enorme em superar os problemas e lutar contra o sistema, de alguma forma.

    A vida é única, bonita e rápida. Não é para ser vivida sem saber se teremos comida amanhã, sem ter acesso a um médico, a educação, a arte, lazer, trabalho digno. É disso que trata o filme, acima de tudo.

    Foto: Extraída da internet