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22 Dezembro, 2016
  • O que o 5° Episódio da 3ª temporada de Black Mirror diz sobre os massacres no Oriente Médio

    Por: Diogo Xavier, de Recife, PE

    Aviso: Este texto contém spoilers, então, depois não está permitido xingar o autor do texto por conta disso.

    Vamos começar pelo final do episódio. O soldado Striper está numa cela quando o médico começa a explicar o motivo do porquê é utilizada a máscara: “Precisamos que os soldados vejam monstros e não seres humanos para que possam matar mais facilmente”.

    A máscara é, na verdade, um instrumento que desumaniza as pessoas e torna muito mais fácil para o soldado apertar o gatilho. Tanto a visão, quanto os outros sentidos são alterados, retirando inclusive o olfato para coisas simples como a grama.

    Estudos comprovam que existe algo intrínseco à espécie humana que faz com que exista uma resistência ao matar outras pessoas. Os dados citados pelo médico são bem precisos, pois a taxa de disparos e de mortes era bem menor.

    Os números aumentam muito no pós-guerra, quando os treinamentos passam a levar em consideração os aspectos psicológicos de matar alguém e a quebra da empatia para que mais soldados disparem. Esse treinamento vem aumentando o número de disparos. Na segunda guerra, a porcentagem de disparos era de 15% a 20%, já na guerra da Coreia, cerca de uma década depois, a taxa aumentou para 55% e na guerra do Vietnã ficou em torno de 90% a 95%.

    Dave Grossman no livro ‘Matar! Um estudo sobre o ato de matar’ estuda esses percentuais e analisa que quanto for maior a distância com o seu oponente, maior a chance de matá-lo. As barreiras do cérebro são menores se o adversário não tiver proximidade. E é nesse aspecto que o episódio deixa a reflexão sobre os massacres que vêm ocorrendo no Oriente Médio.

    Assim como na série, os soldados eram uma tropa estrangeira das superpotências mundiais que viajam para o conflito em uma região que não conhecem, para combater um inimigo desconhecido.

    A Síria hoje se tornou um palco de disputa entre dois blocos mundiais protagonizados por EUA e Rússia, que veem o país e sua população como uma peça no tabuleiro de xadrez e não como uma população que tem direito à autonomia perante as suas decisões.

    Essa forma de ver as regiões subdesenvolvidas gerou o colonialismo e o neocolonialismo que ainda deixa muitas marcas nos países africanos, por exemplo.

    Na outra ponta, está a ideologia burguesa passada através da mídia, com narrativas como a de que os árabes são terroristas. Na série, quando Striper está no buraco sendo atendido pela “Barata”, ele pergunta o porquê de os aldeões odiarem as baratas e ela responde: “Eles foram ensinados assim, aprenderam a nos odiar”.

    O papel que a mídia vem cumprindo é de generalizar um povo e também uma religião para os subjugar, com a justificativa de serem inimigos da democracia, ou ameaças à paz mundial. Essa movimentação contra os árabes é antiga, mas ganha um contorno mais forte após o ataque as torres gêmeas em 2001 pela Al- Qaeda, e com a criação do Estado Islâmico aumenta-se ainda mais.

    A ideia de que os árabes são todos terroristas tem possibilitado massacres e bombardeios constantes que, quando não são feitos diretamente pelas potências globais, são estimulados por elas, vide o que a Arábia Saudita tem feito no Iêmen desde 2015 com o consentimento e apoio dos EUA. A guerra tem continuado e destruído milhões no Oriente Médio. Os refugiados são a parte mais visível desse problema, pois é quando o fruto dessas guerras chega nos países centrais da Europa.

    Fica evidente que essa crise de refugiados se dá por conta dessas guerras e massacres. São pessoas fugindo de zonas de conflito para não morrerem e, ao chegarem em locais que deveriam ser seguros, são tratados como criminosos, ou terroristas.

    Os dois braços da ideologia atuam conjuntamente. Os ataques para matar um povo e a ideologia para fazer com que a população rejeite a vinda dessas pessoas. Este episódio da série se passa num futuro não muito distante, o que o torna mais próximo e factível em diversos locais do globo. Por isso, é necessário lutar contra essa ideologia que empurra os povos árabes como inimigos, jogando a classe trabalhadora contra ela mesma. Esse trabalho da burguesia nos afasta. Portanto, é necessário lutar contra as intervenções militares do Haiti, até a Síria.

    Reprodução: Black Mirror

  • Greve Natalina: petroleiros rejeitam quarta proposta da Petrobras e estão aprovando mobilizações

    Por: Pedro Augusto, do ABC paulista

    Após mais de três meses desde o início da campanha salarial de petroleiros, a direção da Petrobras continua apresentando uma proposta de acordo coletivo que retira direitos e busca atingir a meta de venda de ativos.
    Por outro lado, os petroleiros se mantêm irredutíveis, rejeitando a proposta da empresa por ampla maioria e aprovando paralisações a partir de amanhã (23). Tanto a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), como a Federação Única dos Petroleiros (FUP) indicaram rejeição da proposta e estão conseguindo aprovar os indicativos nas assembleias.

    As paralisações já estão sendo chamadas de “Greve Natalina”, e ocorrerão num momento de fragilidade do governo Temer, fiador político do presidente da Petrobras, Pedro Parente.

    Temer responde à impopularidade com mais ataques, como o projeto de lei da Reforma Trabalhista, que esvazia a CLT e a Reforma da Previdência. Toda essa conjuntura forma o combustível da greve petroleira que se anuncia.

    Movimento pede: “Nem um direito a menos! Contra a privatização! Em defesa do emprego!”
    A quarta proposta apresentada pela Petrobras, ou como ela tem divulgado aos trabalhadores, “última e definitiva proposta”, em resposta às reprovações quase unânimes das propostas anteriores, recuou de alguns ataques aos direitos dos petroleiros, como redução do valor das horas extras pela metade. E isso era proposto justamente quando o número de horas extras tende a aumentar, devido ao programa de demissão voluntária e à não abertura de editais para concurso público para repor o efetivo de petroleiros próprios e a demissão em massa dos petroleiros terceirizados, que já ultrapassou os 170 mil trabalhadores, de acordo com dados de março deste ano.

    No entanto, a diretoria da Petrobras insiste na implementação de um regime de trabalho que visa diminuir salário, caso ocorra uma redução proporcional da jornada. Também ofereceu um aumento parcelado de 6% em dezembro e 2,8% em fevereiro de 2017, não retroativo à data-base de setembro de 2016. Isso não reporia sequer a inflação anual de 8,97% acumulada até agosto, segundo o IPCA e congela o auxílio almoço, forçando a migração para o Vale Alimentação/Refeição. Também não garante o cumprimento do acordo coletivo de 2015, que previa a implantação de Adicional de Tempo de Serviço para os trabalhadores da FAFEN Araucária.

    Enquanto o contingente de pessoal próprio caiu 8,7%, para 78,6 mil pessoas, entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2016, a Petrobras pretende reduzir ainda mais os postos de trabalho e o valor dos salários com um ritmo e intensidade de trabalho cada vez maiores.

    Os petroleiros já deixaram de receber a PLR nesse ano, além de terem ocorrido mudanças no plano de carreira da categoria sem consulta aos trabalhadores. A queda nos rendimentos anuais ocorrerá mesmo que a Petrobras melhore a proposta e reponha a inflação integralmente, retroativo a setembro de 2016. Além disso, a exposição a riscos de acidentes também aumenta e geram tensão entre os trabalhadores, devido à brusca diminuição de efetivo.

    Liminares suspendem vendas de ativos feitas sem licitação pela direção da Petrobras
    A venda de ativos continua em alta velocidade. As ações civis públicas ajuizadas pelo Sindipetro SE/ AL contra a venda da BR Distribuidora; dos campos de Baúna e Tartaruga Verde, localizados no pós-sal da Bacia de Santos e de Campos; e campos terrestres localizados em Sergipe (Sirizinho e Riachuelo), Ceará (Fazenda Belém), Rio Grande do Norte (Riacho da Forquilha e Macau), Bahia (Buracica e Miranga) e Espírito Santo, tiveram liminar concedida pela 3ª Vara Federal de Sergipe, suspendendo as vendas. “A venda dos ativos da Petrobras sem licitação se encontra maculado de inconstitucionalidade material, razão pela qual deverá ser declarado nulo de pleno direito”, argumenta a Assessora Jurídica do Sindipetro SE/ AL, Raquel Sousa, responsável pela ação.

    Paralisação dos petroleiros recoloca na rua o bloco da resistência ao governo Temer
    A aprovação da PEC 55 no Senado, em meio às centenas de bombas contra os manifestantes no último dia 13 de dezembro, soou para muitos como o encerramento melancólico da resistência aos planos de Temer ainda em 2016. Os petroleiros vêm nos lembrar porque a popularidade do presidente é tão baixa, e prometem pautar as festas de final de ano com o tema da defesa da Petrobras 100% Estatal e Pública e com a luta por “nem um direito a menos”, contra as medidas de Temer e Parente.

    Foto: FNP

  • Nova Lei das Telecomunicações: um presente de bilhões de reais aos empresários

    Por: William Mota, de Belém, PA

    No dia 6 de dezembro, a Comissão Especial do Desenvolvimento Nacional do Senado aprovou o Projeto de Lei Complementar (PLC) 79/2016, de autoria do deputado Daniel Vilela (PMDB-GO), conhecida como Lei Geral das Telecomunicações, ou ‘PL das Teles’. Esta lei, de grande impacto para os cofres públicos e para o acesso da população aos serviços de telefonia e internet, seguiu direto para a sanção presidencial, pois a Mesa Diretora do Senado negou, no dia 16 de dezembro, os recursos regimentais da oposição que determinava o debate e a aprovação do Projeto no plenário do Senado.

    Segundo os cálculos de entidades como o IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e a Associação Brasileira de PROCONS, este PL irá transferir, de mão beijada, um patrimônio da União (equipamentos e prédios) estimado em cerca de R$ 100 bilhões para algumas poucas operadoras privadas de telecomunicações, sendo a empresa “Oi”, que atualmente está em recuperação judicial, a principal beneficiada.

    Pelas regras atuais, em vigência desde o processo de privatização ocorrido em 1997, todos os ativos públicos das antigas empresas públicas de telefonia foram concedidos às operadoras privadas até o ano de 2025, quando deveriam ser devolvidos à União. No entanto, pela nova Lei, que aguarda sanção nos próximos dias do presidente ilegítimo Michel Temer, estes ativos passariam a ser incorporados ao patrimônio das operadoras.

    Além disso, uma das principais mudanças do PLC 79/2016 é a mudança do regime de outorga do serviço de telefonia fixa, que deixaria de ser “concessão” para transformar-se em “autorização”. Atualmente, pela modalidade de “concessão” a lei obriga que as empresas garantam a universalização dos serviços de telefonia e internet fixas e a instalação de orelhões em todos os municípios. Com a mudança, as empresas não terão mais essas obrigações. Isso deve elevar tarifas e deixar municípios sem serviço de telefonia e internet fixas.

    Outro absurdo previsto no projeto é a anistia de multas para as operadoras. Só a Oi acumula mais de R$ 20 bilhões em multas pelo péssimo serviço prestado e terá perdoada todas as suas dívidas.

    É o capitalismo sem riscos. As empresas de telecomunicações foram vendidas na década de 90 pelo governo FHC a preço de banana. Os empresários lucraram muito nesses quase 20 anos de privatização. E agora, quando estão passando por um aperto, ganham uma lei que lhes garante todo o patrimônio público (R$ 100 bilhões) de graça, regras mais frouxas para o segmento e o perdão das suas multas. Já imaginou um presente de Natal melhor do que esse?

    A entrega do que restou do patrimônio público das antigas empresas públicas de telecomunicações evidencia muito bem o caráter de classe do atual governo: trata-se de um governo dos ricos, que defende os interesses dos grandes empresários, e que é contra o patrimônio público e a defesa da soberania nacional. Este projeto se soma à entrega do Pré-Sal, à PEC 55 e às contrarreformas do Ensino Médio, da Previdência e Trabalhista.

    Os trabalhadores e a juventude precisam voltar para as ruas para impedir o saque e a pilhagem do patrimônio público e dos direitos sociais de todo o povo. Fora Temer!

  • 60 dias que deixaram marcas inapagáveis na UFMG

    Por: Izabella Lourença, Belo Horizonte, MG

    No dia 17 de outubro, eu escrevi para o Esquerda Online a experiência da ocupação cultural na faculdade de educação da UFMG. Naquele dia, nem eu nem ninguém imaginava que uma onda de ocupações iria se alastrar pela universidade e marcar para sempre a história do espaço e dos sujeitos que nela convivem.

    Dia 19 de outubro, acontecia a primeira ocupação permanente que paralisou as aulas do CAD 1, da saúde e ciências biológicas. No dia 21, foi a vez da Faculdade de Educação ocupar permanentemente e no dia 24, dia de paralisação nacional, o CAD 2, a EAD e IGC entraram em cena. Daí por diante o movimento estudantil ocupou 19 prédios na UFMG, além da ocupação sonora na rádio e atividades políticas no Centro Pedagógico.

    No início, ninguém sabia se suportaria até o dia 13 de dezembro. Mas suportamos. Suportamos as bombas, o gás de pimenta, as balas de borracha. Vencemos o egoísmo e passamos a viver em comunidade.

    Nos apoiando uns nos outros, decidimos que é hora de reocupar outros espaços para a luta não morrer. A PEC 55 foi aprovada e o governo Temer já se prepara para aprovar diversas outras maldades. A próxima é a reforma da previdência, mais uma medida que retira nosso direito ao futuro.

    Seguiremos firmes no combate contra esse governo golpista. Sabemos que a nossa resistência ainda é minoritária na sociedade e que devemos concentrar nossos esforços em ganhar a população para lutar pelos direitos ameaçados e perdidos.

    A herança das ocupações para a UFMG

    A resistência na universidade também não pode parar. Muitas árvores foram plantadas durante as ocupações; paredes foram pintadas; câmeras, catracas e pontos eletrônicos dos Técnicos Administrativos retirados; isso além da retirada dos tablados que separavam professores e estudantes em sala de aula.

    A luta não acabou porque superamos um dos seus métodos, a ocupação. Nós lutamos contra os grandes do congresso, mas também contra a opressão e repressão que vivemos cotidianamente dentro da universidade. Nenhum processo administrativo contra estudantes será tolerado, assim como nenhuma forma de retaliação ao movimento estudantil.

    Agora é hora de nos organizarmos, em nossos CAs, DAs, Coletivos e/ou organizações políticas. É hora de debatemos ideias e colocar em prática a nossa luta. 2017 vem quente, mas nós estamos fervendo. O nosso lema segue sendo: nunca mais vamos dormir, até concebermos uma sociedade justa e igualitária.

     

    Foto: Izabella Lourença

  • Trabalhadores da EMTU podem passar as festas sem salário

    Por: Everton Bertucchi, do ABC paulista

    Trabalhadores da EMTU (Empresa Metropolitana de Transporte Urbano), de Mauá, no estado de São Paulo, protestam pelo não pagamento de salário de novembro, dezembro e do 13° salário.

    O protesto, que acontece em frente ao Poupatempo, reivindica que o governo do estado tome providências, pois a EMTU provocou os trabalhadores ao não permitir que passem um fim de ano tranquilos.

    Cobradores e motoristas da Suzantur, empresa de transporte coletivo municipal de Mauá prestam solidariedade ao protesto, junto com a população.

  • Quase cinco anos após desocupação, famílias do Pinheirinho recebem novas casas

    Por: Manuela Moraes, de São José dos Campos, SP

    O choro hoje é de alegria. Quase cinco anos após a violenta desocupação do Pinheirinho, mais de 1.400 famílias receberam, nesta quinta-feira, dia 22, as chaves de suas novas casas, construídas no Pinheirinho dos Palmares, em São José dos Campos (SP).

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    Tãnia Maria foi uma das beneficiadas

    “Esta casa vai pra minha filha, Sophia, que nasceu logo após a desocupação e não pôde ficar comigo, pois eu não tinha mais onde morar”, afirma Tânia Maria Silva Souza, ex-moradora do Pinheirinho. Vinda do Maranhão para São José dos Campos em busca de uma vida melhor, ela conta que sua filha nasceu prematuramente dias após a violência vivida na desocupação.

    Sem ter onde morar, Tânia teve de levar o bebê para viver com os avós no Maranhão. “Finalmente poderei buscar minha filha e teremos uma vida digna”, completa emocionada.

    Cláudia Cristina escreve cartaz "Chegou o dia da vitória"

    Cláudia Cristina escreve cartaz “Chegou o dia da vitória”

    A vitória é resultado de muita luta. Foram oito anos de ocupação, até a madrugada do dia 22 de janeiro de 2012, quando mais de dois mil policiais e um aparato de guerra – incluindo helicópteros, cavalaria e tropa de choque – cercaram a área do Pinheirinho e expulsaram 1.800 famílias de suas casas.

     

    O horror vivido naquele dia contrasta com a felicidade de agora. “Não tenho palavras para descrever a felicidade de hoje. Não durmo há dias esperando a entrega das chaves”, afirma Cláudia Cristina, que participou da ocupação desde o início. Desempregada e com quatro filhos pequenos, ela vive em uma humilde casa de aluguel paga a duras penas com a ajuda do aluguel social de R$ 500 que recebe da Prefeitura.

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    Maria Helena mostra a chave da casa conquistada com muita luta

    “Finalmente, meus filhos vão ter um lar e poderemos recuperar tudo que perdemos com a desocupação. Mas a nossa luta vai continuar até que o governo finalize toda a obra e garanta infraestrutura no bairro”, afirma emocionada a metalúrgica Maria Helena da Silva, ex-moradora do Pinheirinho.

     

     


    As casas

     Crédito: Cláudio Vieira.

    Crédito: Cláudio Vieira.


    O Pinheirinho dos Palmares conta com 1.461 casas de 46,5 metros quadrados, com dois quartos, sala, cozinha, banheiro e área de serviço. O bairro fica a 15 quilômetros do Centro de São José dos Campos. O investimento total na obra foi de R$ 140,2 milhões, sendo R$ 29,2 milhões pagos pelo Estado e R$ 111 pela União.

    A entrega das casas foi adiada cinco vezes por conta de atrasos nas obras e problemas burocráticos, o que piorou ainda mais o drama das famílias.

    “O Pinheirinho é um exemplo de luta por moradia. Derrubamos todas as barreiras impostas pelo governo. O próximo passo é a luta por creche, escolas, UBS e toda infraestrutura que garanta qualidade de vida no bairro”, afirma José Nivaldo de Melo, o Pelé, uma das lideranças do Pinheirinho.

    “Esta vitória só foi possível graças à organização das famílias do Pinheirinho, que não deixaram de lutar nem mesmo após a violenta desocupação protagonizada pelos governos do PSDB, de Geraldo Alckmin e Eduardo Cury. Agora, a pressão irá continuar sob o novo prefeito, Felício Hamith, também do PSDB, para garantir a infraestrutura necessária no bairro”, afirma Renato Bento Luiz, o Renatão, militante do MAIS.

  • Entenda a Reforma Trabalhista de Temer

    EDITORIAL 22 DE DEZEMBRO |

    “Um belíssimo presente de Natal”, afirmou o presidente Michel Temer (PMDB), em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (22), no Palácio do Planalto, ao anunciar, às vésperas do fim do ano, a proposta de Reforma Trabalhista que o governo encaminhará ao Congresso Nacional para aprovação. A medida apresentada através de projeto de lei retrocede direitos consolidados na Constituição Federal de 1988, com medidas como a tentativa de regulamentação de jornada de 12 horas por dia. Caso aprovada, negociações feitas pelas empresas também poderão prevalecer sobre o que diz a legislação em vários pontos.

    Temer já afirmou que lamenta a baixa popularidade, mas que “pretende ser lembrado”. Deixa claro que, para ele, não importa o quão ilegítimo é o seu governo e a baixa reivindicação dessas medidas por parte da maioria dos brasileiros. Com confiança na ação conjunta dos três poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário, Temer não hesita para tentar passar confiança e cumprir com a real motivação de ser o “representante” do impeachment. O presente de Feliz Natal e a boa lembrança são destinados a satisfazer uma ínfima minoria.

    O que muda no projeto de Reforma Trabalhista
    Toda a lógica da Reforma Trabalhista visa consolidar ainda mais a relação do trabalhador em função das necessidades das empresas, que ditam se preferem trabalhos temporários, exercício exaustivo de 12 horas de jornada, banco de horas, jornadas menores submetidas a menores salários. A lógica passa longe de assegurar o trabalhador, que fica sujeito à flexibilização, falta de segurança, entre outras consequências.

    Com a reforma, ao contrário, primam medidas que podem aprofundar ainda mais a terceirização; a precarização do trabalho, com jornada de 12 horas formalizada e a ampliação do contrato de trabalho temporário; perda de bases legais para os acordos com as categorias, prevalecendo os acordos com os sindicatos e entidades dos trabalhadores em detrimento do previsto em lei e o estabelecimento do modelo de contrato de trabalho baseado na produtividade, em detrimento da jornada de trabalho.

    Uma das principais mudanças dizem respeito à jornada de trabalho. Com a proposta, o trabalho de 12 horas seguidas passa a ser regulamentado. São oito horas de trabalho, mais quatro horas extras. Na semana, o limite do número de horas também aumenta, para 48 horas, sendo 44 mais quatro extras.

    O trabalho temporário, antes regulamentado em 90 dias, passa a ser de 120 dias, podendo ser prorrogado. Com isso, pode aumentar o número de trabalhos precários e alguns, que não eram considerados temporários, passam a ser, flexibilizando as relações.

    Já em relação aos acordos com os empregadores, agora, o negociado passa a valer mais do que o legislado. Todo funcionário sabe o quão difícil são as campanhas salariais, o quanto é forte o assédio nas empresas, a tentativa de flexibilizar direitos e de não cumprir o mínimo assegurado em lei. Com a medida, esses aspectos aparentes nas negociações passam a ser prevalentes. Perde força o mínimo de base para uma perspectiva mais coletiva dos direitos e os acordos fechados com as categorias passam a ter peso legal.

    E não são poucos os pontos que passam a estar submetidos ao crivo das empresas. Entre eles, está o parcelamento das férias em até três vezes; acordo de direito, ou não, à participação nos lucros e resultados; acordo cobre 220 horas de jornada por mês; regulamentação do banco de horas, que pode ser convertido em acréscimo tendo como mínimo 50%, também sob discussão com o empregador; o tempo de intervalo durante a jornada, tendo como base o mínimo de 30 minutos; o tempo gasto de percurso até o trabalho e do trabalho para o local de residência; plano de cargos e salários; registro da jornada de trabalho; ingresso no seguro-desemprego e a remuneração do trabalho remoto por produtividade.

    No Regime parcial, o prazo de 25 horas semanais passa a ser de 26 horas, com 6 horas extras ou 30 por semana sem horas extras. O pagamento das horas extras, caso não compensadas, será de 50% sobre o salário equivalente à hora.

    Também entre as medidas está o anúncio de uma Medida Provisória que será encaminhada ao Congresso Nacional para a implementação do chamado Programa Seguro-Emprego (PSE), que, assim como Programa de Proteção ao Emprego (PPE) iniciado no governo de Dilma (PT), em 2015, flexibiliza direitos com a redução da jornada com redução de salários. O projeto é uma tentativa de salvar as empresas da crise e deixar o trabalhador a mercê de empreiteiras que, durante o período de crescimento econômico, garantiram lucros milionários no país.

    Mudanças estruturais
    A pressa do governo de Michel Temer em encaminhar com pedido de urgência a proposta de Reforma Trabalhista faz parte da tentativa de realizar, na imposição, mudanças estruturais nas condições de vida dos trabalhadores.
    O pacote de maldades é extenso, desde a limitação de gastos em áreas fundamentais por 20 anos, como saúde e educação, através da PEC 55, ou mesmo com o PLP 257, com as medidas de austeridade em nível estadual, além das reformas da Previdência, Política e agora, a Trabalhista. Não são apenas mudanças pontuais, mesmo que sejam apresentadas em formas de fatias. A proposta da burguesia para o Brasil é consolidar a posição de dependência e, para isso, precisa jogar a conta da crise nas costas dos trabalhadores. Um dos primeiros passos desse plano macabro é aprofundar a precarização das relações de trabalho.

  • Terrorismo, o nome e a coisa

    Por: Raquel Varela*, colunista do Esquerda Online

    Há uns anos Bush anunciou a guerra ao terror – vinha acompanhada de um discurso “ou estão connosco ou com eles”. Quando fazemos ciência levamos – às vezes muito tempo – a tentar explicitar conceitos, é um instrumento fundamental de análise. Mas por vezes estamos tão habituados ao conceito que o damos a realidades distintas, de tal forma que não conseguimos mais explicar a realidade.

    Esta semana um hediondo atentado num mercado de Natal mata vítimas não armadas, população civil, famílias a passear. É terrorismo – dizem os media. É mesmo, digo eu. Provoca-me asco, nojo, desta gente que pode fazer isto.

    Do outro lado do Bósforo, um agente de segurança organizado mata um alto quadro de um Estado em guerra, a Rússia, num país ditatorial, também ele em guerra, a Turquia. É terrorismo – dizem os media. Não, não é. É um acto de guerra entre lados em guerra. Aliás, apesar dos media lhe chamarem terrorismo a reacção da população europeia não foi nesse sentido – todos se chocaram com o ataque em Berlim mas ninguém mostrou especiais condolências com o ex-embaixador da Rússia na Coreia do Norte. Não tendo eu simpatia alguma por estes métodos – o assassinato individual de adversários -, isto não é terrorismo, é um acidente de trabalho, quanto muito.

    Ninguém se torna embaixador da Rússia, uma ditadura liberal, e faz carreira em países como a Coreia do Norte e a Turquia e está à espera de viver em paz e segurança. Repito, não sou a favor do assassinato como forma de fazer política, mas em primeiro lugar isto não é política, é guerra, em segundo lugar misturar isto com um atentado a inocentes é ofensivo. Finalmente, alguém mata pessoas numa mesquita na Suiça – em lado nenhum vi isto ser tratado como terrorismo. Que o é. Mas a islamofobia faz com que deixe de ser!?! Na verdade esta confusão de conceitos é o que sobra daquele mundo que Bush deixou «ou estão com eles ou connosco».

    Não estou. Nunca estive. Infelizmente a guerra na Síria hoje é um lugar onde sobraram só dois lados – monstruosos. O que havia de forças laicas progressivas foi dizimado. O que há a fazer agora é humanitário, proteger civis, a ONU mostrou-se inútil, como sempre, incapaz de salvar civis, dezenas de milhar de vítimas.

    De um lado está o complexo militar industrial norte-americano e a avidez de matérias primas do Médio Oriente; do outro ditadores capitalistas liberais, e anti-comunistas ferozes (é isso que são Putin e Assad) que por qualquer razão inexplicável são vistos como «anti-imperialistas» pelos Partidos Comunistas ocidentais e por muitos europeus que, desde 1919, sonham com uma qualquer potência semi-asiática que ponha fim por eles à hegemonia bélica norte-americana. Aliás, quantos europeus não adoravam Estaline porque o regime de ditadura industrial baseada no massivo trabalho forçado assustava os capitalistas europeus e garantia aqui o Estado Social?

    Estilo «enquanto havia o muro pelo menos tínhamos direitos!» – quantas vezes na vida ouvi esta frase brutal. Os outros que se lixem, pois claro. Ditaduras para os outros, quantas mais melhor, desde que nos assegurem a estabilidade da guerra fria que nos dava pleno emprego!

    Esta guerra não é nossa, de lado algum – as suas vítimas são, nossas. Da humanidade.

    *Preservamos no artigo a língua originária da autora, português de Portugal.

    Foto: Reprodução Globo

  • Todos os dias nos bancos há uma tragédia anunciada

    Por: Juary Chagas, de Natal, RN

    Faltando poucos dias para as comemorações de fim de ano, uma notícia que vem da Bahia choca o país. Um empregado da Caixa Econômica Federal entra seu local de trabalho do banco, atira contra colegas e depois se mata.

    Uma interpretação corriqueira se apressaria em dedicar exclusivamente ao indivíduo uma análise do macabro ocorrido. É mais simples diagnosticar uma psicopatia por meio de opinião pública. É a versão mais comum. No noticiário do dia, falam os especialistas da mente humana e os jornalistas narradores da história de vida do “assassino”, sempre repleta de situações passadas que supostamente demonstram seu desequilíbrio.

    Há, no entanto, neste caso, um componente muito particular. Havia um alvo e não eram as duas colegas que acabaram sendo atingidas (uma delas, infelizmente, faleceu). Os tiros estavam destinados a acertar o chefe do departamento onde o funcionário trabalhava, que só conseguiu escapar com vida porque conseguiu evitar os disparos ao correr em fuga.

    Para além da consternação frente a mais uma entre tantas tragédias que presenciamos, é preciso buscar entender as razões que levam um ser humano a tentar tirar a vida de seu superior hierárquico no trabalho e, depois, matar-se. Porque não é razoável que estas explicações se sustentem somente numa análise sobre o autor da tragédia. Uma investigação séria exige também entender que fatores objetivos, do meio em que se vive, são capazes de produzir um efeito psíquico devastador, que desencadeie ações extremas.

    Os bancos são fábricas de transtornos
    De acordo com dados divulgados pelo Tribunal Superior do Trabalho, o afastamento por transtornos mentais superior a 15 dias ocupa o terceiro lugar na lista de pagamento por benefícios da Previdência Social. Isto sem contar aqueles que não se ausentaram do trabalho, que seguem trabalhando mesmo acometidos por algum tipo de transtorno mental.

    Não poderia ser diferente. Os bancos, imersos numa concorrência desenfreada e numa lógica de busca constante por acumulação na forma financeira-especulativa, exigem ao mesmo tempo a mais alta automação dos processos e uma mobilização intensa da capacidade de trabalho dos bancários, orientada ao resultado. E para atingir esses resultados cada vez mais os trabalhadores são pressionados diariamente para atingir metas de operações de crédito, seguro, etc.
    Numa corrida sem fim para vencer a concorrência, os bancos investem na divisão os trabalhadores para intensificar os lucros. Isto expõe esses trabalhadores cotidianamente ao assédio moral (no caso principalmente das mulheres, também sexual), impondo a estes jornadas exaustivas, atividades estressantes, eventos traumáticos, discriminação, perseguição, metas abusivas, entre outras.

    Os resultados são devastadores. Podem ir desde a uma ansiedade ou mania de perfeição ou ir até a depressão, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), transtorno bipolar, a síndrome de burn out, etc. E as reações, imprevisíveis. Uma noite mal dormida de hoje pode se tornar a eliminação de vidas amanhã.

    O assédio moral: instrumento de um cotidiano doentio
    O trabalho assalariado no capitalismo, ao mesmo tempo em que foi um enorme avanço frente às formas-padrão de trabalho escravo-servil dos sistemas sócio-produtivos anteriores, foi responsável pela força mistificadora que sustenta a ideologia de que é possível vender a força de trabalho sem ser explorado.

    Ocorre que sua característica anárquica de concorrência, impõe uma tendência de queda dos lucros e, portanto, exige sempre mais produtividade. Como em termos gerais as relações de escravidão foram socialmente abolidas, produzem-se novas formas de intensificação do trabalho. Quando o convencimento pacífico não funciona, as ameaças que ao final e ao cabo sugerem perda de salários, direitos e o desemprego cumprem seu papel na intensificação da exploração. O assédio moral é, portanto, produto indissociável da lógica da produtividade.

    Mas, além de ferramenta de aumento da exploração, o assédio moral é também a forma através da qual se concretizam os enfrentamentos cotidianos no seio dos próprios trabalhadores. Os capitalistas destacam uma parte dos quadros profissionais oriundos da classe trabalhadora, aproveitando os mais habilidosos na mobilização das pessoas ou os mais sem pudores na arte de subjugar para cumprirem o papel de gestor, delegando-lhes por meio de uma remuneração especial a tarefa utilizar sua posição hierárquica para fazer os demais trabalhadores renderem para além dos seus limites. Esta realidade de assédio moral, muito comum dentro dos bancos, confronta os “peões” com os chefes, tornando o cotidiano do trabalho potencialmente opressivo e doentio.

    Ambientes doentis geram comportamentos extremos
    Todo ser humano tem um limite, nas mais variadas dimensões. Há limites que podem ser mais ou menos padronizados, como o limite físico. Ao se observar aspectos de um determinado corpo é possível, por exemplo, ter uma idéia da quantidade de peso que ele pode suportar. Mas com a mente humana, não é assim.

    Cada indivíduo é uma síntese de singularidade de sua própria formação, de suas próprias experiências, com o que é compartilhado pelo ambiente que vive e suas transformações ocorridas ao longo da história. É impossível, portanto, saber até quando um ser humano agüenta ser pressionado, exigido, humilhado, perseguido, ridicularizado, em nome de objetivos materiais que ele não reconhece como seu.

    Alguns podem passar a vida inteira se subjugando a esse tipo de prática. Outros, podem entrar num ciclo depreciativo que os leve a questionar se vale a pena viver. Já outros podem, no ápice do seu desespero e descontrole, tentar ceifar a vida de quem naquele momento é visto como seu capataz. Tomara que se multipliquem os que apostam na luta coletiva para superar essa realidade.

    Não há como dizer sem uma análise séria se o ex-funcionário da Caixa que foi protagonista dessa tragédia estava sendo vítima do seu então chefe, e por isso tentou matá-lo. Por outro lado não há como negar que o ambiente de pressão, exploração e horror que é cada unidade bancária da Caixa Econômica Federal (e todos os demais bancos) é fator determinante para episódios desse tipo.

    Porque ambientes doentis geram comportamentos extremos. E porque todo banco tem um pouco de manicômio. Todos os dias há uma tragédia anunciada.

  • Discutindo a Fundação Ford (Parte 3 de 4)

    Por: Marcus Correia, de São Paulo, SP

    Leia aqui a parte 1 

    Leia aqui a parte 2

    É espantoso como entidades, ONGs, ativistas e pesquisadores no Brasil, identificados com a esquerda, em sentido amplo, ainda hoje permanecem recebendo recursos da Fundação Ford, mesmo diante de tantas informações e pesquisas disponíveis a propósito da estreita relação existente entre essa entidade, a política externa dos Estados Unidos e seus órgãos de inteligência.

    Pressupondo que a razão para esse aparente paradoxo político decorra apenas de um profundo desconhecimento de fatos básicos da história dessa instituição, este artigo procura reunir alguns desses fatos, a maior parte deles recolhidos de importantes trabalhos já publicados.

    O artigo apresenta-se dividido em quatro partes: a primeira aborda os primeiros anos da Fundação, do período que vai da sua criação no ano de 1936 até o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945; a segunda parte se debruça sobre o período entre o início da chamada Guerra Fria até os anos de 1960; a terceira traz fatos a respeito da atuação da Fundação Ford no Brasil, sobretudo, durante a ditadura militar; a quarta parte aborda as atividades da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais.

    Cabe observar que nesse delicado momento atual do país, é cada vez mais relevante que se avolumem discussões sobre o imperialismo, uma vez que, ao que consta, o Brasil não é o centro do capitalismo global e está mais sujeito às suas intempéries do que parece a muitos analistas da esquerda autóctone. E aqueles que não concordarem com essa breve história da Fundação Ford, que contem outra mais idílica.

    No Brasil

    Depois da Revolução Cubana, a política externa estadunidense voltou-se mais atentamente para a América Latina e, em particular, para o Brasil. A pretexto de conter a ameaça comunista internacional, o Departamento de Estado, a CIA, o Pentágono e grandes corporações patrocinaram uma série de regimes militares sanguinários por todo o continente. Foi nesse contexto que a Fundação Ford passou a atuar como organização “filantrópica” no Brasil, em 1961, abrindo um escritório no país ano seguinte, mesmo período em que também o fez no Chile e no México.

    Dois elementos que foram abordados nas partes anteriores do artigo merecem atenção aqui. O primeiro deles é o fato de, à época, a Fundação Ford deter a maior parte das ações da Ford Motor Company, diferente do que comumente se pensa (Cf. Parte 1). Em 1962, por exemplo, a Fundação Ford era proprietária de mais de 50% das ações das indústrias Ford e sua principal controladora [1]. O segundo elemento refere-se à relação desenvolvida no pós-Guerra entre a Fundação e os órgãos de inteligência dos Estados Unidos. Como já foi mencionado, depois da Segunda Guerra Mundial, a maior parte dos altos funcionários da entidade eram ou tinham sido agentes, tinham ligações com agentes ou trabalhavam em profunda conexão com os órgãos de inteligência, com o Departamento de Defesa, com o Departamento de Estado e com o complexo indutrial-militar privado dos Estados Unidos (Cf. Parte 2).

    No Brasil, desde 1962, alguns executivos da Ford Motor do Brasil estiveram vinculados à conspiração civil-militar que levou ao golpe de Estado de 1964. Estavam ligados principalmente ao financiamento do chamado “complexo IPES/IBAD”, cujos recursos advinham, entre outras pessoas jurídicas, da Atlantic Community Development Group for Latin America (ADELA), da qual a Ford Motor era participante, e da American Chamber of Commerce, onde participavam vários diretores da Ford Motor do Brasil (Mario Bardella, Robert F. Carlson, Luiz B. Carneiro da Cunha, Joseph Radleigh Dent, H. H. Eichstaedt, John C. Goulden) [2]. Inclusive, em 1963, o Congresso brasileiro instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as atividades do IBAD no financiamento da campanha eleitoral anterior. O predidente da CPI foi o deputado federal Rubens Paiva.

    Mas o principal nome vinculado à Ford Motor do Brasil com participação no golpe de 1964 foi Humberto Monteiro. Monteiro era membro-diretor da seção de São Paulo do IPES. Também integrava o Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Estado de São Paulo, da American Chamber of Commerce. [3] Monteiro foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Ademar de Barros e presidente da União Cultural Brasil-Estados Unidos. [4]

    Logo após o golpe, em setembro de 1964, chegou ao Brasil, Peter Dexter Bell, um dos mais importantes representantes da Fundação Ford para a área internacional e responsável pela distribuição dos recursos da entidade no país. Antes de ocupar tal posto, Peter Bell havia estagiado na área de Relações de Segurança Internacional do Pentágono. Meses depois da sua chegada ao Brasil, no início de 1965, ele fez sua primeira visita a uma instituição de ensino superior, a Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Lá, foi recebido com a explosão de uma bomba, detonada por estudantes a fim de que ele “mantivesse distância”. [5]

    É importante relembrar (Cf. Parte 2) que, em 1964, McGeorge Bundy, que assumiria a presidência da Fundação Ford dois anos depois, era Assessor de Segurança Nacional do presidente Lyndon Johnson e uma das suas prerrogativas era monitorar e assessorar as atividades da CIA ao redor do mundo. McGeorge Bundy compôs, também em 1964, um comitê especial da Casa Branca, junto com outros membros do governo e das agências de inteligência, a fim de determinarem ações clandestinas no Chile para auxiliar na eleição de Eduardo Frei.[6] É provável também que, ocupando o cargo, tenha sido um dos formuladores da parceria golpista para o Brasil.

    Na mesma época, o irmão de McGeorge, William Bundy, compunha o Comitê Nacional de Avaliação da CIA. Os irmãos Bundy são ainda apontados como os formuladores de falsos pretextos apresentados ao Congresso dos Estados Unidos para justificar a escalada militar do país na Guerra do Vietnã a partir de 1964. [7] McGeorge ficará na presidência da Fundação Ford entre 1966 e 1979, período de maior influência da entidade no Brasil. Portanto, Peter Bell foi o principal representante, no Brasil e na América Latina, da administração de McGeorge Bundy na Fundação Ford.

    Seguindo as diretrizes de internacionalização da Fundação, formuladas por Horace Rowan Gaither Jr. depois da Segunda Guerra Mundial (Cf. Parte 2), a principal atividade de Peter Bell no Brasil era promover o financiamento de atividades nos campos social, acadêmico e cultural. No pós-guerra, uma série de colaborações diplomático-empresariais foram firmadas entre o Brasil e os Estados Unidos. Duas delas foram a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico, criada em 1951, e ligada ao Ponto IV do Plano Marshall [8] e, em 1961, a Aliança para o Progresso. Ambas as parcerias, no entanto, destinavam-se sobretudo ao campo econômico-industrial. Logo, na estratégia da política externa dos Estados Unidos, um dos papéis a ser cumprido pela Fundação Ford no Brasil seria o de atuar em áreas que as iniciativas anteriores não abrangiam e essa foi a atuação de Bell.

    Peter Bell ficou no Brasil entre 1964 e 1969 e ele próprio narra que encontrou-se com agentes da CIA por aqui, a pedido do embaixador dos Estados Unidos, a fim de conversarem sobre os financiamentos promovidos pela Fundação Ford. [9]

    Em março de 1968, o presidente Arthur da Costa e Silva solicitou ao Congresso uma autorização, em caráter especial, para que a Fundação Ford fosse considerada de “utilidade pública”, o que era uma prerrogativa apenas de entidades nacionais. Na exposição de motivos formulada pelo ministro da Justiça, Luis Antônio da Gama e Silva justifica-se para tal medida em “face aos relevantes serviços prestados pela entidade através da realização de intenso programa social objetivando o bem estar humano…” [10]. Em junho, o Senado aprovou a solicitação do general.

    Seis meses depois dessa aprovação, tanto Costa e Silva, como o professor e ex-reitor da USP, Gama e Silva, foram signatários do Ato Institucional n. 5 (AI-5), expressando a preocupação de ambos com o “bem estar humano” no país, promovendo expurgos, torturas, assassinatos, perseguições e toda a sorte de barbárie contra a população organizada contra o regime.

    Em 1 de julho de 1969, na esteira do AI-5, foi criada a Operação Bandeirantes e a Ford Motor Co., cuja maior acionista era a Fundação Ford, tornou-se uma das suas principais financiadoras [11]. O intuito central da operação era o extermínio dos militantes comunistas do país. A Ford Motor Co. dispendeu recursos também para a criação dos DOI-CODI, conforme, entre outras fontes, o depoimento à Comissão da Verdade do ex-agente da repressão Merival Chaves, do setor de inteligência do Exército [12]. É desnecessário mencionar aqui as atrocidades perpetradas pelo órgão contra os revolucionários brasileiros do período.

    Entre as muitas iniciativas “filantrópicas” da Fundação Ford no Brasil, a mais conhecida foram os recursos que, também em 1969, a entidade destinou à criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), cujo principal pesquisador veio posteriormente a ser presidente do país, o procônsul do império Fernando Henrique Cardoso. O centro foi fundado por professores que haviam sido demitidos da universidade em razão do AI-5 e, no primeiro momento, a embaixada dos Estados Unidos e a CIA no Brasil, talvez um pouco desinformados, viram com preocupação o auxílio da Fundação Ford. Porém, segundo o próprio Peter Bell, depois que ele se reuniu com um agente da CIA no país, a preocupação se desfez e a entidade destinou recursos à criação do centro de pesquisa. [13]

    Em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo em 2012, Peter Bell afirmou, com toda razão: “No contexto do período, entendo que alguns brasileiros possam ter desconfiado de mim.” [14]

    Conforme o processo de abertura política no país a partir de meados dos anos 1970, a Fundação Ford foi “camaleonicamente” adaptando-se ao novo ambiente e sua nova linha de atuação passou a ser os chamados “direitos humanos”. A quarta e última parte do artigo irá abordar alguns fatos relevantes da história da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais. É possível afirmar que também nesse período a promoção do “bem estar humano” e dos “direitos humanos” foi mais uma vez apenas uma cobertura na defesa dos interesses do imperialismo yankee.

    NOTAS

    [1] – O Estado de S. Paulo, 9 de março 1962

    [2] – DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classes. Rio de Janeiro: Vozes, 1981.

    [3] Idem.

    [4] – O Estado de S. Paulo,

    [5] – CANEDO, Leticia Bicalho. A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos. https://leticiabcanedo.wordpress.com/2016/04/25/a-fundacao-ford-e-as-ciencias-sociais-no-brasil-o-papel-dos-program-officers-e-dos-beneficiarios-brasileiros-para-a-construcao-de-novos-modelos-cientificos/ e Entrevista com Peter Bell. O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012. http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221

    [6] – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 259, 318, 772 ; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974.

    [7] – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op.cit. p. 259, 318, 772.

    [8] – CANEDO, Leticia Bicalho. Op. cit.

    [9] – Entrevista com Peter Bell, em O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012. http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221

    [10] – O Estado de S. Paulo, 23 mar. 1968

    [11] – BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório. Brasília: CNV, 2014. Vol. 1. e Vol. 2.

    [12] – Comissão Nacional da Verdade. Tomada pública de depoimento de agentes da repressão: Merival Chaves. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pKcnTDCcDuw (a partir dos 21 minutos)

    [13] – CANEDO, Leticia Bicalho. A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos. https://leticiabcanedo.wordpress.com/2016/04/25/a-fundacao-ford-e-as-ciencias-sociais-no-brasil-o-papel-dos-program-officers-e-dos-beneficiarios-brasileiros-para-a-construcao-de-novos-modelos-cientificos/ ; E Entrevista com Peter Bell, em O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012. http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221

    [14] – Entrevista com Peter Bell, em O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012. http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221