Meus princípios nervosos são femininos

Por: Rayane Silva Guedes, de Belo Horizonte, MG

Não vou chamar de histeria. Porque essa palavra me dá enjoos. Mas precisamos começar a admitir, estamos nervosas porque somos mulheres. Sabe aquele tique que me dá de vez em quando, ou a voz trêmula junto com os braços que não se aquietam. E quando falo mais alto, respondo de forma grosseira.

Sabe a minha ansiedade? É porque sou mulher.

Na história sempre somos descritas como descontroladas, aflitas, histéricas, loucas. Sofremos de mal feminino. Nossas vitórias são entendidas por acasos, facilitadas por qualquer relação com um ser masculino. Nossos fracassos são sempre exaltados, e a memória destes é sempre a condenação de nossa fatídica fragilidade.

Mas eu estou por demonstrar que estamos fartas, nervosas, aflitas, receosas, desequilibradas porque somos mulheres. Afinal de contas fica um pouco óbvio que levando a vida a qual nos é imposta não seria improvável tal reação. Seja física, psicológica ou afetiva. Como cobrar equilíbrio de alguém que tem de enfrentar duplas jornadas. Ser enxergada como objeto sexual. Ter sua afetividade roubada pelas grosserias do companheiro. Ser cobrada pelo cuidado e seguridade de todos ao seu redor. Ser educada a se preocupar consigo por último e insistentemente ensinada a se odiar.

Me recorro a um simples exemplo de uma mulher. Seu inescrupuloso marido a qual todos já devem ter ouvido falar (Joseph Stálin) se casou com ela quando tinha 41 anos. Mas é dela que vamos falar hoje. Quero recontar sua história mesmo que por sorte esteja errada. Já que me falta acesso a sua verdade.

Ela tinha apenas 18 anos. E como qualquer jovem tinha sonhos. Não se preocupava muito se seria exatamente como sua amiga, revolucionária e destemida. Mas queria ir além, se formar e ter uma vida própria. Por força de seu pai se casou com um homem bem mais velho. Que não era exatamente como ela queria. Mas ainda assim estava decidida a formar muito mais que uma família.

Tentou conciliar, trabalho, emprego e os filhos que eram muitos. Além de viver sob os mandos de um marido que não sabia ouvir um não. Que queria tudo a seu jeito. Foram muitos episódios em que ele era violento e distante das responsabilidades familiares, que ficavam a cargo da jovem. Um dia após ser agredida por ele em público ela decidiu que não suportava mais e tirou sua própria vida. Ou pode ser que ele a tenha matado. Mas isso a história não se importou em tirar a prova.

Nádia Aliluieva, como nós outras, foi descrita pela história como louca. Em tempos de guerra, como este, aceitar que estamos nervosas pela TPM ou que discordamos de algo, ou ainda que nos exaltamos porque queremos chamar a atenção pode ser muito mais perigoso do que imaginamos. Por isso aceitemos, não por esses motivos, mas sabendo que não é fácil ser mulher. Adoecemos, a exemplo a fibromialgia, que se caracteriza por intensa dor crônica. Pode ser desencadeada por ansiedade, depressão ou problemas do sono e 90% dos casos atingem mulheres. Já entendemos o porquê.

Sendo assim, fica o desejo de que na luta nosso grito possa ser maior que a nossa dor. E que a história passe a registrar a nossa força e garra para reexistir. Reescrevamos nossa história.

“Nada causa mais horror à ordem do que mulheres que lutam e sonham” (José Martí)

Foto: São Paulo 25/11/2016 Cortejo de Palhaças no centro da cidade durante 2º Encontro Internacional de Mulheres Palhaças . Foto Paulo

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