Por que os seguranças agrediram as mulheres trans e travestis

Por: Jéssica Milaré, Colunista do Esquerda Online

Semana passada, circulou nas redes um vídeo chocante, em que os seguranças do Shopping Estação, em Curitiba, no Paraná, agridem três mulheres trans para expulsá-las do local, defendendo o agressor. No vídeo, é visível que o homem cis que agride as mulheres gratuitamente saiu impune. Mais do que entender esse como mais um caso de transfobia, é preciso entender por que os seguranças tornaram-se coagressores das mulheres trans em vez de cumprirem o papel de defender as vítimas e expulsar o agressor do local.

A agressão
O homem do vídeo era cliente de uma das três mulheres e deu um calote. Isso é extremamente comum nas periferias, onde há prostituição de mulheres trans e de travestis: um homem safado faz o programa e não paga. Podem ser encontrados vários casos com uma pesquisa rápida na Internet, e o mais engraçado: as notícias sempre mostram o caso como se as travestis estivessem mentindo. Entre dar crédito para um grupo de travestis e um homem cis, na maioria das vezes, a imprensa dá crédito ao homem cis.

As meninas foram ao shopping e encontraram o homem com sua esposa e foram confrontá-lo, para que ele pagasse. E, é lógico, ele negou ter feito qualquer programa. Afinal de contas, ele supostamente seria um “homem de família”, assim como inúmeros “homens de família” que dão um pulo na periferia para procurar um programa com uma travesti todos os dias.

No vídeo, em que é possível ver que o homem é quem agride, os seguranças decidiram expulsar as três meninas. Um dos seguranças chega ao ponto a dar uma chave de pescoço, conhecida como mata leão, numa delas e arrastá-la para fora do shopping. Em vez de defendê-las contra a agressão, os seguranças unem-se ao agressor.

A assessoria de imprensa do shopping afirmou, no maior cinismo, que “[o] Shopping preza em todos os momentos pelo bem-estar dos seus clientes, lojistas e funcionários, e esclarece que atuou para conter um tumulto, garantindo a segurança de todo o público presente no local”. A conclusão lógica é óbvia: para o shopping, as mulheres trans e as travestis não são clientes e não merecem ter seu bem-estar prezado. Pelo contrário, elas são uma ameaça à segurança do “público presente no local”.

Quem comete o crime e quem é criminalizada
Não é preciso fazer um grande esforço mental para perceber como, na visão do homem, dos seguranças, do rapaz que está filmando e da assessoria de imprensa do shopping, a realidade está distorcida e aparace como o seu exato contrário. As mulheres, que eram vítimas de agressão, apareceram como agressoras histéricas. O homem cis, o agressor e hipócrita que não queria pagar o programa, apareceu como uma vítima de uma injustiça. E os seguranças, que foram coagressores, como “heróis” que apareceram para garantir “a segurança de todo o público presente no local”.

Imaginemos se fosse uma situação diferente. Se fossem três vendedoras acusando o homem de ter furtado um produto de uma loja sem pagar. De que lado os seguranças ficariam? É certo que, no mínimo, pediriam que ele mostrasse a nota fiscal do produto. Mas, lógico, como são trans, elas automaticamente transformam-se em criminosas.

Não há nada de novo sob o sol. Mulheres trans e travestis, que são sempre tratadas pela polícia como criminosas barraqueiras e histéricas, foram assim tratadas mais uma vez. Agressores transfóbicos, mais uma vez, agem com o aval da própria força de ‘segurança’ e dos ‘homens da lei’. O público, mais uma vez, assiste o ‘barraco’ como se fosse algo engraçado, mais um show de comédia de travestis. A única coisa que mudou, nesse caso, foi o costumeiro silêncio, que transformou-se em indignação, pelo menos nas redes sociais. Ao menos uma parte das pessoas tiraram a venda dos olhos.

Assista ao vídeo da agressão

Comentários no Facebook

Post A Comment