Para ser grande, sê inteiro!

Por Henrique Canary, Colunista do Esquerda Online

O século 20 conheceu um afluxo ininterrupto de cérebros e talentos em direção às ideias do socialismo. Uma parte significativa da intelectualidade, dos melhores expoentes do proletariado e dos filhos mais capazes das classes médias encontrou sua realização pessoal na luta organizada pela libertação da humanidade. O futuro socialista parecia ao alcance das mãos. O século 20 foi cheio de esquinas perigosas, e a revolução socialista se espreitou em muitas delas. Os partidos comunistas e socialistas foram as grandes organizações daqueles que queriam mudar o mundo. A luta pelo socialismo encheu de entusiasmo o coração de várias gerações. Por isso, o século 20 foi o século do heroísmo e da entrega.

Com o fim da URSS( União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), a ideia de que é possível uma sociedade alternativa ao capitalismo sofreu um poderoso revés. As organizações de esquerda, mesmo as antistalinistas (ou talvez principalmente elas), entraram em uma profunda crise de projeto e de identidade. Para piorar, em distintos países e contextos políticos, os sonhos dos militantes socialistas foram traídos ou vendidos: por gabinetes parlamentares, postos sindicais, pastas ministeriais e até por algumas chefias de Estado. O socialismo parece ter se tornado mais uma bandeira entre tantas. A dedicação de corpo e alma às grandes causas coletivas entrou em desuso, e o militante revolucionário se tornou quase uma curiosidade antropológica. Muito mais fácil, mais produtivo e mais seguro são as saídas individuais: um bom emprego, uma carreira.

É verdade. Há um mundo lá fora. Pelo menos hoje, a vida ainda tem algo a oferecer, e muitos homens e mulheres encontram sua realização pessoal em projetos individuais. Mas isso é assim hoje. Sob o capitalismo, não há nenhuma garantia de um amanhã promissor ou estável. Aliás, não há nenhuma garantia de que haverá um amanhã.

A luta pelo socialismo se tornou mais difícil depois de 1989-1991. Mas não menos necessária. Exatamente por isso, ela exige daqueles que a abraçam a mesma dedicação que exigiu de todas as gerações anteriores. É possível simpatizar com o socialismo e ajudar a propagar as suas ideias no tempo livre de cada um, sem que isso atrapalhe em nada a vida pessoal ou profissional de quem o faz. Mas isso não é militância revolucionária. Todos os amigos do socialismo podem e devem ser úteis à causa. Mas eles não substituem os militantes. Não é possível lutar coerentemente pelo socialismo nas tardes livres de sábado. E muito menos é possível construir um partido socialista em base a uma atividade episódica, caótica ou desorganizada. A negação da atividade militante, democrática e consciente, mas também disciplinada e organizada, nada mais é do que a transformação da luta pelo socialismo em uma batalha puramente ideal. É compreensível, nos marcos da derrota sofrida pelo marxismo no final do século 20 e de toda a desmoralização que essa derrota acarretou, mas é errado. A luta pelo socialismo não é uma luta puramente ideal. É uma luta política, contra um inimigo poderoso. Exige dedicação, compromisso e empenho. E às vezes, sacrifício. O marxismo é, também, ativismo.

A dedicação militante e a entrega à causa não precisam ser sinônimos de alienação, sofrimento ou ascetismo. A militância socialista tem que voltar a ser enriquecedora, não pode ser incompatível com o crescimento cultural, o trabalho, os estudos, os projetos e os sonhos pessoais dos indivíduos de carne e osso que a realizam. A militância revolucionária pode e deve ser gratificante, porque é uma atividade a serviço de algo muito maior que nós mesmos, é uma luta pelo futuro. Mas ela jamais será um hobby. É uma causa que merece e precisa ser vivida plenamente. Só assim ela poderá triunfar. Só assim ela enriquece aqueles que a realizam.

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

 Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

 Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis, in “Odes”

(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Imagem: Wassily Kandinsky | Amarelo-Vermelho-Azul

Comentários no Facebook

One Comment

  • Safira

    Texto bonito e motivacional, mas excludente. Fortalece a ideia de que os revolucionários são os intelectuais solitários.
    A mulher (com sua jornada tripla de trabalho), o pobre (que acorda às 5h pra trabalhar e só chega em casa depois da meia-noite, por causa da distância casa-trabalho-faculdade-casa), o trabalhador que vive sua comunidade e família…pra esses, pra nós, resta a coadjuvante participação como soldados da inteligência burguesa ou como solidários e simpatizantes.
    Revolucionário é viver plenamente todos os aspectos da vida humana, com todas as suas contradições. É participar da longa jornada de trabalho, é viver a tripla jornada, é amar e se dedicar aos seu filhos, companheira/o, familiares, amigos, comunidade. É aceitar seus limites, seus desejos e desbravar as possibilidades. Ser revolucionário é, antes de tudo, ser humano.

Post A Comment