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9 Dezembro, 2016
  • Metalúrgicos do ABC ocupam Anchieta contra Reforma da Previdência

    Por: Coluna ‘Rádio Peão’ – denúncias e relatos do cotidiano do trabalhador

    Na manhã desta sexta-feira (9), cerca de seis mil metalúrgicos da VW, Ford, Panex e outras empresas paralisaram parcialmente a rodovia Anchieta em protesto contra a Reforma da Previdência anunciada na última terça-feira pelo governo Temer. Na entrada do segundo turno, os metalúrgicos também decidiram manter a paralisação e dar sequência ao dia de protestos contra a Reforma da Previdência.

    Logo após o anúncio da reforma, o clima entre os metalúrgicos foi de revolta generalizada. Todos comentavam e discutiam como seria possível um metalúrgico trabalhar por até 49 anos e chegar aos 65, considerando as péssimas condições de trabalho, o ritmo alucinante das linhas de produção que produzem um exército de lesionados em cinco ou dez anos. Imaginem se seria possível tantos anos neste trabalho.

    Por isso, os metalúrgicos, convocados pelo sindicato, aderiram ao protesto e ocuparam a Anchieta. O protesto só não foi maior por conta das desconfianças que muitos trabalhadores têm com o sindicato, já que não mobilizou durante os governos petistas e nem mesmo nos últimos dias de luta ocorridos após o governo Temer.

    O protesto teve participação destacada dos terceirizados da Alimentação na VW, que também lutam contra os ataques que vêm sofrendo após a mudança de empresa. Além do ataque sofrido por ser uma categoria terceirizada, sofrem os abusos da empresa Sapore, contratada para servir a alimentação da planta Anchieta.

    A empresa vem sistematicamente praticando o desrespeito, como não chamar a eleição da CIPA, o convênio médico contratado muitas vezes recusa o atendimento emergencial e consultas, não pagou adicional noturno e há manobras trabalhista para não pagar horas extras e banco de horas, inclusive nos feriados. Sem falar no atraso no pagamento do vale transporte. Trabalhadoras e trabalhadores que recebem líquido de R$ 1 mil já desembolsaram mais de R$ 300. O mais grave, a empresa pratica ameaça, alegando que tem pessoas para substituir os insatisfeitos. Desde a semana passada, o sindicato da alimentação já fez o aviso de greve e a mobilização continua até que essa situação vergonhosa continue no berço do movimento operário.

    É hora dos metalúrgicos do ABC e da CUT organizarem com as demais centrais uma grande paralisação nacional para barrar essa reforma, antes que seja tarde.

    Foto: Roberto Parizotti/ CUT

  • A Parada Gay de Nova York, 1973, e a resposta de Sylvia Rivera

    Por: Jéssica Milaré, Colunista do Esquerda Online

    Dois meses depois da expulsão de Beth Elliot da Conferência Lésbica Feminista, feministas radicais também reproduziram o mesmo discurso transfóbico na parada do Christopher Street Liberation Day (Dia de Libertação na Rua Christopher), no último dia da Gay Pride Week (Semana do Orgulho Gay). Essa era a rua onde se situa o bar Stonewall. A Parada Gay de 1973 foi financiada por alguns bares LGBTs da região e foi bem maior que nos anos anteriores.

    A feminista radical Jean O’Leary fez um discurso defendendo que as drag queens representavam o crescente machismo no movimento gay. Os argumentos por ela utilizados eram bem parecidos, de conteúdo, com os da Robin Morgan.

    Em resposta, Sylvia Rivera, uma importante ativista que participou da Revolta de Stonewal, mulher trans porto-riquenha, membro do grupo STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries, que pode ser traduzido como Revolucionárias de Ação Transgêneros de Rua) relatou ter que “batalhar para subir no trio. Completou: “fui literalmente agredida e recebi socos de pessoas que eu achava que eram minhas camaradas, para conseguir pegar o microfone”.

    Jean O’Leary, uma fundadora das Radicalesbians, decidiu que as drag queens insultavam as mulheres… Disseram pra mim que eu falaria naquele comício. E foi quando as coisas saíram do controle. Eu sou muito militante quando se trata de certas coisas, e eu não gostei do que estava acontecendo com a Jean O’Leary dizendo que nós estávamos insultando as mulheres… Ela disse para Vito Russo me agredir no palco… mas eu ainda assim subi e falei o meu discurso.” – Relato de Sylvia Rivera.

    O vídeo do discurso da Sylvia Rivera pode ser encontrado na internet.

    É melhor vocês todos ficarem quietos! Eu estou tentando subir aqui o dia inteiro pelos seus irmãos gays e suas irmãs gays na cadeia que escrevem pra mim toda maldita semana e pedem a ajuda de vocês. E vocês não fazem absolutamente nada por elas.

    Vocês já foram espancadas? Estupradas? Presas? Agora pensem. Elas foram agredidas e estupradas e tiveram que gastar muito dinheiro na cadeia para conseguir uma casa e tentar a mudança de sexo (sic). As mulheres tentaram lutar pela sua mudança de sexo, para se tornarem mulheres, da libertação das mulheres. E elas escrevem para a STAR, não para o grupo das mulheres. Elas não escrevem para as mulheres. Elas não escrevem para os homens. Elas escrevem para a STAR, porque nós estamos tentando fazer algo por elas.

    Eu já fui presa! Eu já fui estuprada! E espancada. Muitas vezes! Por homens! Homens heterossexuais que não pertencem ao guarda-chuva gay. Mas vocês fazem alguma coisa por elas? Não! Vocês todos me dizem pra ir embora e esconder meu rabo entre as pernas. Eu não vou mais tolerar essa merda. Eu já fui espancada, tive meu nariz quebrado, eu fui jogada na prisão, perdi meu emprego, perdi meu apartamento, pela liberação gay. E vocês todos me tratam assim? Mas que merda tem de errado com vocês todos? Pensem nisso!

    Eu não acredito numa revolução, mas vocês todos acreditam. Eu acredito no poder gay. Eu acredito em nós conseguindo nossos direitos ou então eu não estaria por aí lutando pelos nossos direitos. Isso é tudo que eu queria dizer pra vocês todos.

    Se vocês querem saber sobre as pessoas que estão na cadeia, e não se esqueçam da Bambi L’Amour, Andora Marks, Kenny Messner, e outras pessoas gays na cadeia, venham ver as pessoas na casa STAR [endereço]. As pessoas que estão tentando fazer alguma coisa, por todas nós, e não homens e mulheres que pertencem a um clube branco da classe média branca! E é a ele que vocês todos pertencem!

    Revolução Já!!!!

    Me dê um G! [plateia: G!]
    Me dê um A! [plateia: A!]
    Me dê um Y! [plateia: Y!]
    Me dê um P! [plateia: P!]
    Me dê um O! [plateia: O!]
    Me dê um W! [plateia: W!]
    Me dê um E! [plateia: E!]
    Me dê um R! [plateia: R!]
    Gay… Gay Power (Poder Gay). Gay Power!!!”

    Apesar de seu belo discurso, este evento fez com que Sylvia Rivera entrasse em depressão e tentasse cometer suicídio. Exausta, ela permaneceu afastada do movimento trans por 20 anos. Aliás, justiça seja feita: Jean O’Leary arrependeu-se pelas visões transfóbicas que tinha em 1973.

    Com o objetivo de não serem confundidas com as feministas radicais que defendem a exclusão de pessoas trans, outras feministas radicais cisgêneras deram a elas o nome de feministas radicais trans-excludentes (trans-exclusionary radical feminists), ou, abreviadamente, TERFs.

    Foto: Sylvia Rivera discursando na Parada Gay de 1973
  • Enviemos cartas por Carolina Garzón!

    Publicado originalmente no site da Liga Internacional dos Trabalhadores (QI)

    Estamos há mais de quatro anos desde o desaparecimento da jovem estudante colombiana e militante do Partido Socialista dos Trabalhadores e da LIT-QI, Carolina Garzón, na cidade de Quito, no Equador. Além do desleixo com o qual tanto o estado colombiano quanto o equatoriano vêm atuando no caso, agora em aberta cumplicidade com os responsáveis pela desaparição, a Procuradoria [fiscalía] colombiana sumiu com uma das provas fundamentais do processo. Sua família, seu partido e sua Internacional não descansaremos até que se elucide o ocorrido.

    Convidamos você a nos apoiar em uma campanha massiva de envio de cartas aos governos e suas instituições, para protestar e para lembrar-lhes que Carolina segue viva entre nós, que exigimos respostas e não deixaremos que seja apenas mais um caso em absoluta impunidade.

    O mecanismo é muito simples. Copie os endereços eletrônicos do Equador e envie a carta às suas autoridades. A seguir, copie os endereços eletrônicos da Colômbia e envie a carta às respectivas autoridades. Coloque seu nome e o nome de sua organização, sua cidade e a data.

     Assunto: EXIGIMOS RESPOSTAS AO CASO CAROLINA GARZÓN 

    Endereços da Colômbia:

    Carolinacartas1990@gmail.com

    derechosdepeticion@fiscalia.gov.co

    prefisnic@fiscalia.gov.co

    dir.gestioninternacional@fiscalia.gov.co

    direccion.asuntosinternacionales@fiscalia.gov.co

    germanvargas@pesidencia.gov.co

    contactopresidencia@gov.co

    andreaospina@presidencia.gov.co

    beatrizcardona@presidencia.gov.co

    rafaelblanco@presidencia.gov.co

    nataliasalamanca@presidencia.gov.co

    fondelibertad@antisecuestro.gov.co

    correspondenciaSIGOB@presidencia.gov.co

    asuntosdefensor@defensoria.gov.co

    atencionciudadano@defensoria.gov.co

    asuntosinternacionales@defensoria.gov.co

    llozada@defensoria.gov.co

    procurador@procuraduria.gov.co

    correo@procuraduria.gov.co

    quejas@procuraduria.gov.co

    auxdisciplinarios@procuraduria.gov.co

    disciplinariaddhh@procuraduria.gov.co

    onica.martinez@cancilleria.gov.co

    claudia.perdomo@cancilleria.gov.co

    onica.fonseca@cancilleria.gov.co

    cancilleria@cancilleria.gov.co

    Anyol.molina@cancilleria.gov.co

    servicioalciudadano@mininterior.gov.co

    irmacelemin@fiscalia.gov.co

     :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 

    Carta ao governo colombiano e suas instituições

    [Cidade, data]

    Senhor

    Juan Manuel Santos
    Presidente de la República de Colômbia

    Senhor

    Germán Vargas Lleras

    Vicepresidente de la República de Colombia

    Senhor

    Carlos Negret

    Defensor del Pueblo

    Senhora

    Gloria Bejarano

    Defensora para asuntos Internacionales

    Senhora

    Martha Isabel Castañeda

    Procuradora (e)

    Senhor

    Juan Fernando Cristo

    Ministro del Interior

    Senhora

    María Ángela Holguín C.
    Ministra de Relaciones Exteriores de Colombia

    Senhor

    Néstor Humberto Martínez N.
    Fiscal General de la República de Colombia

    Senhora

    Ana Fabiola Castro Rivera

    Asuntos internacionales fiscalía

    Senhora

    Andrea Ospina Quintero

    Asesora Despacho consejería presidencial DH

    Senhora

    Natalia Salamanca

    Asesora Desaparición Forzada consejería presidencial DH

    Com profunda preocupação e no limite da indignação, escrevo a vós para questionar a situação atravessada pelos esforços de busca e investigação do desaparecimento da jovem estudante colombiana Stephanny Carolina Garzón Ardila, desaparecida em Quito, Equador, há quase cinco anos.

    Embora os fatos não tenham ocorrido no território colombiano, existem claras e precisas disposições constitucionais e legais que exigem uma atuação diligente do Estado Colombiano, e vossa como seus representantes, em defesa dos compatriotas diante de fatos que ocorram fora do território nacional.

    A Colômbia nunca deveria ter aceitado uma denúncia sobre o desaparecimento de Carolina, dado que os fatos não ocorreram em seu território. Contudo, ao tê-la recebido, a investigação deveria ser concluída e arquivada rapidamente, no momento em que se confirmou que o desaparecimento não ocorreu no país. No entanto, quase cinco anos após a desaparição de Carolina, o arquivo segue aberto na Procuradoria como um caso comum e em andamento, mas acumulando pó, já que a Colômbia não teve nenhuma iniciativa processual em todos esses anos.

    Adicionalmente, como na Colômbia existe um processo aberto, quando o Equador pediu uma Assistência Penal Internacional à Colômbia, esta enviou a solicitação ao Despacho do Promotor que, naquele momento, estava encarregado do caso, argumentando que este era o procedimento, já que ali existia uma investigação. Desse modo, o que ocorreu foi um atraso de todo o processo, porque esse Promotor tem outros casos aos quais dá prioridade em relação ao caso Carolina. Assim, o governo colombiano, por culpa da Procuradoria, demorou dois anos para responder a uma solicitação de Assistência Penal Internacional, que, supostamente, é um mecanismo de cooperação expeditivo, emergente e urgente.

    O pior é que levaram dois anos para responder à Assistência Penal e, quando respondem, mandam informes incompletos, isto é, que não respondem às questões geradas por essas provas. E uma dessas provas – uma câmera fotográfica de propriedade de Carolina Gárzon – desapareceu dos depósitos da Polícia Judicial sem que ao menos a Colômbia tenha emitido uma nota esclarecedora ou de desculpas ao Equador ou à família por este fato. A insólita e gravíssima desaparição desta prova somente foi conhecida porque, no informe enviado pela Colômbia em resposta à Assistência Penal Internacional, um policial colocou uma nota na qual informou este fato.

    Esta situação causou um dano gravíssimo para o processo. Quando Equador mandou a solicitação de Assistência Penal à Colômbia, o fez confiando que este país poderia ser muito mais efetivo no manejo da prova, já que Equador não poderia fazê-lo, e o estudo e análise desta prova poderia ser muito mais rigoroso. Mas, além disso, causou dano porque dois anos se passaram para mandar uma evidência, dois anos em que o caso esteve congelado no Equador, dois anos nos quais perdemos outras evidências e outras pistas. E agora, o resultado e análise enviados pela Colômbia, pouco ou nada servem porque a prova material desapareceu; e o responsável pelo seu desaparecimento é o Estado colombiano.

    Assinalada a situação anterior, que motiva minha enorme preocupação e o envio desta carta, vos solicito expressamente realizar todas as ações que cabem à sua responsabilidade constitucional e legal para que, rapidamente, ocorra uma mudança substancial nas iniciativas de busca de Carolina e na descoberta das razões e possíveis autores de seu desaparecimento. Saibam que, apesar do tempo, do comportamento de seu governo e vosso, muitos cidadãos honestos de muitos países seguimos atentos.

    Mais do que uma resposta imediata, espero ações e resultados imediatos.

    Atenciosamente,

    [Nome, cargo ou posto representativo]

    [Identificação]

    ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

    Endereços do Equador:

    Carolinacartas1990@gmail.com

    rafael.correa@presidencia.gob.ec

    pamela.martinez@presidencia.gob.ec

    chiribogag@fiscalia.gob.ec

    jaramillof@fiscalia.gob.ec

    pereztb@fiscalia.gob.ec

    Cesar.navas@seguridad.gob.ec

    tomas.guayasamin@seguridad.gob.ec

    ledy.zuniga@ministeriodelinterior.gob.ec

    ledyazr@gmail.com

    jaramilloda@minjusticia.gob.ec

    presidencia@inredh.org

    administracion@inredh.org

    tiradom@fiscalia.gob.ec

    terana@fiscalia.gob.ec

    gina.benavides@uasb.edu.ec

    cedhu@cedhu.org

    elsie@cedhu.org

    rivadeneira@dpe.gob.ec

     ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

     Carta ao governo equatoriano e suas instituições 

    [Cidade, data]

    Senhor Economista

    Rafael Correa

    Presidente Constitucional del Ecuador 

    Doutor

    Galo Chiriboga Zambrano
    Fiscal General del Ecuador

    Senhor

    Jorge Flores Moreno

    Fiscal Titular

    Engenheiro Cesar Navas

    Ministro Coordinador de Seguridad

     

    Doutora Ledy Zuñiga

    Ministra de Justicia

    Com profunda preocupação e no limite da indignação, escrevo a vós para questionar a situação atravessada pelos esforços de busca e investigação do desaparecimento da jovem estudante colombiana Stephanny Carolina Garzón Ardila, desaparecida em Quito, Equador, há quase cinco anos.

    Desde o momento do desaparecimento de Carolina, a Procuradoria equatoriana não manteve nenhum rigor no processo de investigação, na coleta de evidências e testemunhos. Isso levou a que, no momento, não exista sequer uma hipótese sólida sobre o que ocorreu com Carolina Gárzon e a busca e investigação estejam completamente paralisadas. Desta forma, a família de Carolina não teve acesso aos direitos de verdade e justiça, e o dano causado com a desaparição foi agravado pela incerteza, perpetuada por todos esses anos.

    Não temos dúvidas ao afirmar que a dor causada tanto pelo desaparecimento como pela ineficiência das autoridades em dar respostas acertadas sobre o fato foram fatores de suma importância na morte da avó paterna de Carolina, a Sra. Luz Garzón, falecida em maio de 2014, bem como no recente falecimento do próprio Walter Garzón, pai de Carolina, ocorrido no dia 12 de setembro de 2016. Walter foi profundamente abalado pela dor de não encontrar sua filha, apesar de seus heroicos esforços de busca e da tentativa, por iniciativa própria, junto a amigos e familiares, de realizar a investigação.

    Neste momento, uma prova evidente do que assinalamos está no fato de, após um processo de muita exigência da família, a Procuradoria equatoriana decidir contar com a cooperação técnica da Colômbia para analisar algumas provas materiais – um computador, um casaco, uma câmara fotográfica –, que não poderiam ser devidamente analisados no Equador, por não contar com os técnicos ou porque as primeiras perícias foram mal realizadas.

    Após dois anos do envio dessas perícias e de muita insistência, a Colômbia finalmente enviou, há poucas semanas, as provas materiais e os informes. Uma dessas provas, uma câmera fotográfica de Carolina Gárzon, desapareceu na Colômbia e, naquele momento, o governo equatoriano sequer mandou uma nota de repúdio ou de consulta ao governo colombiano, consentindo, deste modo, com a perda da evidência, mesmo quando o próprio Estado equatoriano, o promotor geral, a Procuradoria geral e o promotor do caso estejam afirmando, há dois anos, que, enquanto estas evidências e estes não chegassem, a investigação estaria afetada. Agora que chegam, e incompletas, ficam em silêncio diante do gravíssimo fato de que uma das evidências desapareceu misteriosamente na Colômbia.

    Além disso, vendo o processo de forma geral, pelo conhecimento que tenho e a importância que lhe dou, posso afirmar que a investigação ocorrida no Equador não teve nenhuma correspondência com a gravidade do fato. Em grande medida, os pequenos avanços ocorreram graças ao aporte da família e da parte processual. A Procuradoria não toma as iniciativas que é obrigada, não gerou investigação ou provas de forma independente e, quando a família apresenta solicitações expressas, assume uma atitude hostil a aceita-las.

    Como exemplos de prova desta afirmação, podemos mencionar como, quando foi solicitado um neurolinguista que pudesse fazer um trabalho das versões que não foram consideradas pela Procuradoria, não houve resposta. Esta foi uma solicitação apresentada há três anos e que, até hoje, não foi aprovada. Ou como o caso da reconstituição dos fatos, que era um momento fundamental da investigação, já que era a possibilidade de voltar a reunir os jovens que conviveram com Carolina no momento de sua desaparição, e na qual não foram respeitados nem o rigor técnico nem a necessária participação dos especialistas, para que esta diligência pudesse contribuir com todo o necessário para esclarecer os fatos.

    Assinalada a situação anterior, que motiva minha enorme preocupação e o envio desta carta, vos solicito expressamente realizar todas as ações que cabem à sua responsabilidade constitucional e legal para que, rapidamente, ocorra uma mudança substancial nas iniciativas de busca de Carolina e na descoberta das razões e possíveis autores de seu desaparecimento. Saibam que, apesar do tempo, do comportamento de seu governo e vosso, muitos cidadãos honestos de muitos países seguimos atentos.

    Mais do que uma resposta imediata, espero ações e resultados imediatos.

    Atenciosamente,

    [Nome, cargo ou posto representativo]

    [Identificação]

  • De tédio não morreremos mesmo!

    Divulgamos, na íntegra, artigo do colunista do Esquerda Online Carlos Zacarias, publicado nesta sexta-feira (9) no jornal A Tarde, de Salvador. O doutor em História e professor da UFBA escreve para o jornal a cada 15 dias, intercalados com a coluna deste portal, também quinzenal. 

    Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior*

    Nesta semana lancei o meu livro De tédio não morreremos: escritos pela esquerda (Quarteto, 2016), uma coleção de 72 artigos publicados em A Tarde nos últimos dez anos, além de nove textos inéditos. Os escritos cobrem uma conjuntura conturbada, cuja atmosfera hiper-politizada, que culminou no impeachment de Dilma Rousseff, ofereceu a matéria-prima para a maioria dos escritos. Surgidos à guisa de promover uma reflexão de um historiador do político, os artigos são um exercício de história imediata, cobrindo os anos de ascensão e queda do lulismo em um período em que se poderia morrer de tudo, menos de tédio.

    Passados alguns meses desde que enviei os originais para o editor, a temperatura política do país só fez aumentar. Na semana em que os grupos da nova direita saíram às ruas para pedir as cabeças dos presidentes da Câmara e do Senado, e ao mesmo tempo dar vivas a Sérgio Moro e a Lava-Jato, uma decisão do STF, proferida pelo ministro Marco Aurélio Mello, que determinava o afastamento de Renan Calheiros da presidência do Senado, foi solenemente descumprida por deliberação unânime da mesa diretora da casa, cujo vice-presidente é o petista Jorge Viana.

    Na suma divulgada pela mesa do Senado, alegava-se o caráter “monocrático” da atitude do ministro do Supremo, ao que os eminentes senadores resolveram “Aguardar a deliberação final do Pleno do Supremo Tribunal Federal”, além de “Conceder prazo regimental ao Presidente do Senado Federal para apresentação de defesa”. Renan e os membros da mesa optaram não apenas desafiar o STF, mas também os manifestantes de direita que até pouco tempo deram sustentação ao golpe e agora gritam “Fora Renan”.

    O Brasil não é para principiantes! Os grupos da nova direita, como MBL, Vem pra Rua e consortes, que nada disseram contra Temer e nem muito menos contra a PEC-55 e a anunciada reforma da previdência, talvez acreditem que todo o problema do Brasil se concentra no Congresso. Os líderes direitistas, contudo, não são bobos. Como lídimos representantes das classes dominantes, forjaram uma ideia de país para arregimentar os milhares de incautos que lhes acompanham nas ruas, alguns dos quais vão sofrer as consequências do golpe na forma de ataque aos direitos. Ou seja, se o problema para fazer o ajuste e preservar os lucros são os trâmites da combalida democracia, então às favas com os “escrúpulos de consciência”, e se instaure de uma vez a tirania. Não à toa, os manifestantes do último domingo desfraldaram bandeiras pela volta Monarquia, pela intervenção Militar ou por uma ditadura salvacionista do judiciário, de preferência com Moro. Nesse raciocínio, dispensando-se o Congresso, o Brasil avança para o futuro, não importando se o regime é a expressão de um passado que pensamos ter deixado para trás.

    * Doutor em História. Professor da UFBA.

    Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

  • The Mask You Live In e a máscara do macho moderno

    Por: Gleice Barros*, do ABC, SP

    Nós, mulheres, sabemos o quanto o machismo nos afeta todos os dias, como estamos sujeitas à violência de todos os tipos e até risco de vida. E os homens? Eles são beneficiados diretamente pela cultura machista ao colocar as mulheres como seres de segunda categoria, certo? Sim. Mas, dividir a sociedade e uma espécie em categorias deve ter algum malefício para os homens também. Será? Responder a esta pergunta é o que o novo documentário da Netflix tenta fazer ao abrir um diálogo muito importante sobre como a cultura machista afeta diretamente as mulheres e, em grau menor, os homens.

    The Mask You Live In (2015) retrata, em cerca de 90 minutos, como os homens são criados para se distanciarem de suas emoções e não falarem a respeito destas em sua vida. Como desde muito pequenos são ensinados que homem não chora, que tem que aguentar qualquer tipo de dor, tem que se comportar como “homem”, vão se isolando em seu próprio ser, sem conseguir praticar a natureza mais humana: socialização emocional.

    Muitas vezes já ouvimos como a sociedade é divida entre coisas de meninos e coisas de meninas, azul versus rosa, bola versus boneca, masculinidade versus feminilidade. A reflexão que o documentário traz mergulha mais fundo na construção histórica e cultural do que é ser homem no nosso tempo. E, honestamente, é assustador!

    Os garotos são ensinados a não demonstrarem emoção, afeto, a não se comunicarem, a não demonstrarem amor. Se distanciam tanto de seus próprios pensamentos e sentimentos que se tornam seres humanos distanciados de sua própria essência. E são colocados desde muito cedo em contradição com a outra parte da humanidade: as mulheres. Qualquer coisa que remeta ligeiramente a qualquer traço do que é considerado feminino é repudiado e odiado.

    “Parece uma mulherzinha!”, “Quem é mais mulherzinha do time?” são frases que destroem a imagem que os meninos têm das meninas e o resultado mais concreto disso é o tratamento de objeto dado às mulheres, ou seres de segunda categoria.

    A construção de um ambiente para os meninos e garotos em desenvolvimento completamente hostil, violento e solitário resulta em bullying durante toda a vida escolar, violência durante a vida adulta e a dificuldade de falar de si mesmo e suas angústias para qualquer pessoa. Não à toa, o índice de suicídio entre homens dispara em comparação às mulheres.

    O documentário encabeçado pela diretora californiana Jennifer Siebel Newsom faz parte do projeto The Representation Project, que levanta diversos questionamentos a respeito da construção dos gêneros na sociedade americana. Em outro documentário, Miss Representation (2011), Newsom coloca em debate a invisibilidade e o tratamento dado às mulheres na mídia americana.

    A grande sacada colocada em The Mask You Live In é demonstrar como o machismo é profundo na sociedade moderna. Como a construção do homem enquanto ser social e cultural avança, da infância para a maturidade, na construção de uma máscara de macho racional, insensível, ser de primeira categoria.

    Para aqueles homens que querem combater o machismo este documentário mostra que não basta somente mudar seu tratamento frente às mulheres, é preciso também reconstruir a si mesmo e as relações que estão ao seu redor.

    *com colaboração de Bruna Sartori.

    Foto: Divulgação

  • Um diálogo necessário com a esquerda socialista

    O MAIS propõe um diálogo ao conjunto da esquerda socialista brasileira

    Por: André Freire, Colunista do Esquerda Online

    Nos dias 3 e 4 de dezembro, o MAIS – Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista – realizou sua terceira reunião de coordenação nacional, desde sua fundação como organização política independente.

    Esta reunião foi de grande importância para a nossa jovem organização, pois ela convocou nosso I Congresso Nacional para abril de 2017, definindo sua pauta e principais debates. E, estão entre estes importantes debates, a definição mais nítida de nossas bases programáticas e a nossa política para o que chamamos de “um processo de crise e reorganização no interior da esquerda socialista brasileira”. Sobre este segundo tema, dedico estas poucas linhas.

    Acreditamos que os contornos políticos e os desdobramentos do Impeachment do governo de conciliação de classes de Dilma e do PT, para nós, uma manobra reacionária do parlamento brasileiro, chefiada pelos principais partidos burgueses da velha direita, gerou muita perplexidade e confusão na classe trabalhadora, atingindo a esquerda de conjunto.

    É sabido que muitos ativistas e organizações já tinham entendimento sobre os limites dos governos petistas, que eles nunca romperiam com uma política econômica que garantisse a preservação dos lucros exorbitantes das grandes empresas e bancos, se limitando a pequenas doses de políticas sociais compensatórias.

    Mas, é um fato, hoje inconteste, que o processo de crise e decadência do PT não gerou, pelo menos até o momento, uma alternativa realmente da classe trabalhadora e socialista que tivesse condições de ser vista como uma saída pela maioria do povo trabalhador e pela juventude.

    Houve sim um fortalecimento relativo do PSOL nos últimos anos e, em especial, nas últimas duas eleições e como desaguadouro partidário da maioria das rupturas à esquerda com o petismo. Mas, ainda é precipitado afirmar que o PSOL já é essa alternativa posta.

    De fato, vale ainda a máxima que hoje nenhuma organização sozinha, por mais acertos políticos que tenha, pode se arvorar ser ela própria uma alternativa acabada para o processo de crise e degeneração do PT.

    Será neste contexto complexo que a esquerda socialista deverá atuar nos próximos anos. Em nossa humilde opinião, lutando para construir uma alternativa de independência de classe, que negue a velha direita e seu governo ilegítimo, mas que seja também uma superação do projeto de conciliação de classes do PT.

    Nas lutas contra Temer e seus brutais ataques, devemos insistir na necessidade de uma frente única para lutar, com o objetivo de defender os direitos da classe trabalhadora e da maioria do povo. Nessa frente única devem estar todos os movimentos, partidos de origem na classe trabalhadora e entidades que querem derrotar as reformas reacionárias e o ajuste fiscal, independente de suas direções.

    Mas, seria um erro grave insistir em construir uma alternativa política para o país junto com a direção petista. A política da direção do PT e do PCdoB é construir o que eles chamam de “frente ampla”, um nome novo para uma mesma política requentada de se aliar com setores da burguesia para aplicar um programa de continuidade econômica, e que já mostrou fracasso nos últimos anos.

    O fato de alguns governadores petistas estarem negociando nesse momento um pacto pelo ajuste com o presidente Temer e a postura do senador petista Jorge Viana defendendo o mandato de Renan na presidência do Senado são mais dois exemplos do grave erro que seria apostarmos em uma alternativa política em conjunto com a direção do PT.

    Nossa saída política deve ser outra. Desde já, queremos construir uma nova proposta de verdade, uma Frente de Esquerda e Socialista, uma alternativa de independência de classe, formada pelo PSOL, PSTU, PCB, organizações socialistas sem legalidade e movimentos sociais combativos.

    Um chamado particular à esquerda marxista revolucionária
    No calor dos acontecimentos da luta de classes, entendemos que seja uma tarefa importante no próximo período buscar permanentemente a superação da fragmentação da esquerda marxista revolucionária em nosso país. Desde o nosso lançamento, deixamos bem nítido que não entendíamos o MAIS como uma organização acabada em si, e muito menos que seríamos os únicos revolucionários brasileiros.

    Mas, mesmo tendo essa localização, avaliamos que não temos jogado todo o peso necessário nessa importante tarefa. Portanto, queremos intensificar essa política nos próximos meses e, especialmente, no ano que vem, onde se completa o centenário da Revolução Russa de 1917, uma grande referência para a esquerda socialista e revolucionária em todo o mundo.

    Nossa proposta é estabelecermos um diálogo permanente com todos os ativistas e organizações que estejam dispostos a lutar cotidianamente pelo programa da revolução socialista, pela independência política dos trabalhadores, pela democracia dos trabalhadores nos sindicatos e entidades dos movimentos sociais combativos, pelo internacionalismo proletário, pela luta contra todo tipo de exploração e opressão, pelo respeito e a solidariedade entre os militantes e organizações marxistas, entre outros pontos programáticos.

    Enxergamos um espaço amplo, que pode se ampliar no próximo período, mesmo com todas as dificuldades da realidade brasileira, para a construção de uma forte organização marxista e revolucionária em nosso país. Uma organização ainda de vanguarda, de alguns milhares de militantes, mas que tenha força para intervir decididamente em processos futuros de polarização da luta de classes.

    Essa organização deve buscar superar dois caminhos equivocados, infelizmente, muito presentes na esquerda brasileira hoje. Um deles é apostar novamente numa via que já foi testada pelo PT, de rebaixamento programático e de conciliação com setores da grande burguesia, que de progressivos não têm nada, vide o desfecho “golpista” do Impeachment de Dilma.

    E, também, superar a via da autoproclamação e do sectarismo, de organizações e correntes que se consideram as únicas revolucionárias e esperam toda e qualquer oportunidade para atacar e tentar destruir um oponente, mesmo que ele ou ela defendam a revolução socialista como estratégia. É necessário superar estas duas perspectivas, que, com sinais trocados, levam ao mesmo desfecho, ou seja, mais desmoralização e derrotas para os trabalhadores e a juventude.

    Como dissemos, em nosso ato de lançamento – “Arrancar Alegria ao Futuro”, não temos uma proposta fechada para este processo, seria, inclusive, muita pretensão da nossa parte se tivéssemos. Mas, temos algumas sugestões iniciais para começarmos a trilhar juntos um caminho de superação da fragmentação dos revolucionários brasileiros.

    Pensamos que um primeiro passo importante é nos articularmos em espaços comuns de atuação e discussão programática. Como são as “Frentes e / ou Blocos de Esquerda e Socialista”, que já existem em vários estados. Alguns foram lançados ainda antes da criação do MAIS. Nossa proposta, a partir dos limites de nossas forças, é nacionalizar a construção e o fortalecimento desses espaços fundamentais.

    Nele devemos avançar na intervenção comum na luta de classes, se organizando para intervir conjuntamente nas lutas de resistência contra os ataques de Temer e de todos os governos e patrões. Discutir também a possibilidade de intervirmos conjuntamente nas entidades e movimentos sociais combativos, como a CSP-Conlutas e a Frente Povo sem Medo.

    Além de espaços para organizar a intervenção comum, pensamos que neles devemos encarar o desafio de realizarmos discussões políticas e programáticas conjuntas. Por exemplo, organizar grandes atividades de comemoração e debates sobre o significado para a atualidade do centenário da Revolução Russa, ou também impulsionar a polêmica contra a saída petista da “frente ampla”, defendendo a construção de uma autêntica Frente de Esquerda e Socialista.

    Para além da construção desses espaços comuns, temos o objetivo de, à medida que avancem os debates programáticos e nossa intervenção comum na luta de classes, estabelecer um diálogo mais profundo sobre a possibilidade da unificação dos marxistas revolucionários em uma mesma organização política.

    Sabemos que os obstáculos são muitos. Desde as diferentes relações internacionais dos distintos agrupamentos, ou mesmo a relação a ter com os partidos legais anteriormente constituídos. Não desconhecemos as nossas polêmicas políticas e programáticas, nem as desvalorizamos, nem muito menos queremos escondê-las. Mas, acreditamos que a política correta e o nosso programa devem justamente surgir deste embate de tradições e ideias distintas.

    Sabemos que são passos iniciais, ainda limitados, mas entendemos que essa jornada deve começar já, justamente com os seus primeiros passos. “O MAIS veio para somar”, acreditamos que essa expressão, esse trocadilho, meio brincalhão, deve virar política e iniciativas concretas.

    Apesar de nosso pouco tempo de existência e dos limites de nossas forças organizadas, nos propomos a nos jogar nessa tarefa com ainda mais afinco no próximo período. Queremos convidar todos e todas que acreditam nesta perspectiva a que somemos forças. Mãos à obra!

    Foto: I Seminário do Bloco de Esquerda Socialista em Fortaleza, composto pelo PCB, NOS, MAIS, Insurgência e LSR

  • Jorge Viana e o golpe

    Renan Calheiros estava radiante na cadeira da presidência do Senado nesta quinta. A alegria era incontida: vencera a batalha. No momento do discurso, Jorge Viana se aproxima. Renan segura sua mão carinhosamente, num gesto de gratidão. O senador petista, de cabeça baixa, como que constrangido, ouve o agradecimento: “O Jorge sempre agiu para além dos seus interesses. Sempre focou a defesa do interesse nacional”, argumentou Renan.

    Algumas palavras mais e Renan finaliza: “Foi este papel que Jorge, em nome do Senado, em nome da democracia, em nome da separação dos poderes e em nome do PT também, apesar dele ser mais amplo e maior que o PT, cumpriu. E isto ficará registrado na história do Brasil”.

    Palavras e gestos
    O STF curvou-se ao Senado de Calheiros em nome da estabilidade. O curto-circuito institucional chegara longe demais, ameaçando a aprovação da PEC do Teto (55) e o calendário das contrarreformas neoliberais. Prevaleceu o instinto de sobrevivência do ajuste burguês. Temer obteve, desse modo, uma vitória nada desprezível ao ter arbitrado o conflito, disciplinando ambos os lados à agenda do governo e logrado, por fim, uma solução mediada.

    Nesse arranjo sinistro, um ator entrou em cena para um papel desconcertante. O senador Jorge Viana (PT-AC), o substituto do alagoano na presidência, estendeu a mão a Calheiros e ao governo Temer, numa atitude incompreensível para um líder político que, em tese, deveria enfrentar os golpistas.

    Renan apoiou o impeachment em sua fase decisiva. É fiador entusiasta do ajuste neoliberal no Senado, conduz as votações da PEC 55 e prepara a tramitação da reforma da Previdência. Motivos não faltavam, portanto, para que Viana e o PT aproveitassem o momento político chave para paralisar, ou ao menos dificultar, o andamento das reformas no Congresso.

    Mas não, foi tudo ao contrário. O senador do Acre não satisfeito em prestar solidariedade explícita a Calheiros e evitar qualquer atrito com o governo Temer, articulou junto ao STF a manutenção de Renan na presidência.

    A postura de Viana não foi repreendida pela direção do PT. Pior, houve um silêncio perturbador, uma espécie de cumplicidade das lideranças petistas. Nenhuma declaração de Lula, nenhuma entrevista de Rui Falcão e nem mesmo nota do partido houve. Não há como disfarçar: Jorge Viana teve, como mínimo, cartas brancas do partido para fazer o que fez.

    Alguns senadores do PT e do PCdoB, liderados por Lindbergh Farias, pronunciaram-se contra Renan e sugeriram a retirada da PEC 55 do calendário de votações. Mas, mesmo estes não se opuseram publicamente à posição do colega de partido. Enquanto Viana tecia a proteção a Renan, senadores do PT faziam discursos inflamados contra o governo. Formava-se, com isso, uma imagem bizarra pela sua incoerência e contrassenso. Novamente, o PT falava uma coisa e fazia o oposto.

    O PT contra o golpe?
    O deprimente episódio protagonizado por Jorge Viana demonstra, mais uma vez, o grau de adaptação do PT a esse sistema político apodrecido, a sua incapacidade de levar adiante qualquer luta consequente contra Temer e, também, os laços de colaboração mantidos por seu núcleo dirigente com a ala do PMDB de Renan e Sarney.

    O partido de Lula já não havia lutado de verdade contra o impeachment, apostou até o último momento na conciliação de classes e foi esmagado sem dó, nem piedade. Pois bem, não seria agora que tomaria uma posição de enfrentamento sério com o governo Temer. Como dizia o Barão de Itararé: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

    Foto: Geraldo Magela / Agência Senado

  • Para ser grande, sê inteiro!

    Por Henrique Canary, Colunista do Esquerda Online

    O século 20 conheceu um afluxo ininterrupto de cérebros e talentos em direção às ideias do socialismo. Uma parte significativa da intelectualidade, dos melhores expoentes do proletariado e dos filhos mais capazes das classes médias encontrou sua realização pessoal na luta organizada pela libertação da humanidade. O futuro socialista parecia ao alcance das mãos. O século 20 foi cheio de esquinas perigosas, e a revolução socialista se espreitou em muitas delas. Os partidos comunistas e socialistas foram as grandes organizações daqueles que queriam mudar o mundo. A luta pelo socialismo encheu de entusiasmo o coração de várias gerações. Por isso, o século 20 foi o século do heroísmo e da entrega.

    Com o fim da URSS( União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), a ideia de que é possível uma sociedade alternativa ao capitalismo sofreu um poderoso revés. As organizações de esquerda, mesmo as antistalinistas (ou talvez principalmente elas), entraram em uma profunda crise de projeto e de identidade. Para piorar, em distintos países e contextos políticos, os sonhos dos militantes socialistas foram traídos ou vendidos: por gabinetes parlamentares, postos sindicais, pastas ministeriais e até por algumas chefias de Estado. O socialismo parece ter se tornado mais uma bandeira entre tantas. A dedicação de corpo e alma às grandes causas coletivas entrou em desuso, e o militante revolucionário se tornou quase uma curiosidade antropológica. Muito mais fácil, mais produtivo e mais seguro são as saídas individuais: um bom emprego, uma carreira.

    É verdade. Há um mundo lá fora. Pelo menos hoje, a vida ainda tem algo a oferecer, e muitos homens e mulheres encontram sua realização pessoal em projetos individuais. Mas isso é assim hoje. Sob o capitalismo, não há nenhuma garantia de um amanhã promissor ou estável. Aliás, não há nenhuma garantia de que haverá um amanhã.

    A luta pelo socialismo se tornou mais difícil depois de 1989-1991. Mas não menos necessária. Exatamente por isso, ela exige daqueles que a abraçam a mesma dedicação que exigiu de todas as gerações anteriores. É possível simpatizar com o socialismo e ajudar a propagar as suas ideias no tempo livre de cada um, sem que isso atrapalhe em nada a vida pessoal ou profissional de quem o faz. Mas isso não é militância revolucionária. Todos os amigos do socialismo podem e devem ser úteis à causa. Mas eles não substituem os militantes. Não é possível lutar coerentemente pelo socialismo nas tardes livres de sábado. E muito menos é possível construir um partido socialista em base a uma atividade episódica, caótica ou desorganizada. A negação da atividade militante, democrática e consciente, mas também disciplinada e organizada, nada mais é do que a transformação da luta pelo socialismo em uma batalha puramente ideal. É compreensível, nos marcos da derrota sofrida pelo marxismo no final do século 20 e de toda a desmoralização que essa derrota acarretou, mas é errado. A luta pelo socialismo não é uma luta puramente ideal. É uma luta política, contra um inimigo poderoso. Exige dedicação, compromisso e empenho. E às vezes, sacrifício. O marxismo é, também, ativismo.

    A dedicação militante e a entrega à causa não precisam ser sinônimos de alienação, sofrimento ou ascetismo. A militância socialista tem que voltar a ser enriquecedora, não pode ser incompatível com o crescimento cultural, o trabalho, os estudos, os projetos e os sonhos pessoais dos indivíduos de carne e osso que a realizam. A militância revolucionária pode e deve ser gratificante, porque é uma atividade a serviço de algo muito maior que nós mesmos, é uma luta pelo futuro. Mas ela jamais será um hobby. É uma causa que merece e precisa ser vivida plenamente. Só assim ela poderá triunfar. Só assim ela enriquece aqueles que a realizam.

    Para ser grande, sê inteiro: nada

    Teu exagera ou exclui.

     Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

    No mínimo que fazes.

     Assim em cada lago a lua toda

    Brilha, porque alta vive

    Ricardo Reis, in “Odes”

    (Heterónimo de Fernando Pessoa)

    Imagem: Wassily Kandinsky | Amarelo-Vermelho-Azul