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5 Dezembro, 2016
  • STF afasta Renan Calheiros da Presidência do Senado: é hora de intensificar luta contra PEC 55 e pelo Fora Temer

    Por: Euclides de Agrela, de Fortaleza, CE

    No último artigo da série Desvendando a Lava Jato, “A Odebrecht, a Delação do Fim do Mundo e futuro da Lava Jato”, informamos que no dia 1º de dezembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou réu o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), por peculato (desvio de dinheiro público). E fizemos o seguinte prognóstico:

    A declaração de Renan Calheiros como réu e a posição de Gilmar Mendes no Senado, que defendeu as modificações da Câmara no Pacote Anticorrupção, podem sinalizar que o STF esteja chamando para si a responsabilidade de investigação da delação premiada da Odebrecht, o que tiraria a Força Tarefa da Lava Jato do centro das atenções”.

    Há fortes indícios de que uma possível operação abafa está em curso no Senado e no STF. Se isso se confirmar, o PSDB e o DEM conseguirão sair sem um arranhão. O PMDB, além algumas fraturas graves, poderá ter que entregar a cabeça de Renan Calheiros para preservar o governo Temer”.

    Nem bem publicávamos dito artigo no Esquerda Online, as cenas dos próximos capítulos já eram antecipadas. No final da tarde desta segunda-feira, 05 de dezembro, o ministro do STF Marco Aurélio Mello decidiu atender pedido do partido Rede Sustentabilidade e afastou Renan Calheiros (PMDB) da presidência do Senado. A decisão, no entanto, mantém o mandato do senador e, na medida em que se deu por meio de liminar, ainda precisa ser apreciada pelo pleno do Supremo, composto por 11 ministros.

    Diz a liminar expedida pelo ministro do STF:

    “Defiro a liminar pleiteada. Faço-o para afastar não do exercício do mandato de senador, outorgado pelo povo alagoano, mas do cargo de presidente do Senado o senador Renan Calheiros. Com a urgência que o caso requer, deem cumprimento, por mandado, sob as penas da lei, a esta decisão”.

    A resposta do STF veio apenas um dia depois das manifestações da nova direita que, no domingo, 04 de dezembro, levantaram, ao lado da defesa da Operação Lava Jato e do Ministério Público Federal (MPF), o Fora Renan.

    Apesar do afastamento de Renan, nada indica que a Operação Lava Jato terá o mesmo protagonismo nos próximos meses. A própria iniciativa do STF, em afastar o presidente do Senado, sinaliza quem será o novo protagonista nas investigações da corrupção governamental daqui para frente.

    O mais irônico é que, com o afastamento de Renan, deve assumir a condução do Senado o 1º vice-presidente, Jorge Viana (PT-AC). Segundo o Blog do colunista Lauro Jardim, caso o plenário do STF confirme a decisão liminar, Jorge Viana está disposto a convocar imediatamente uma nova eleição para a presidência do Senado. Segundo o petista, diante da instabilidade política por que passa o país, o Senado não pode prescindir de um presidente com total legitimidade.

    Fica nítido que o PT não vai querer segurar essa batata quente, ainda mais às vésperas da votação no Senado do Pacote Anticorrupção e da PEC 55, que congela os gastos púbicos por 20 anos. O partido de Lula tampouco é a favor do Fora Temer e vai apostar suas fichas no desgaste da governabilidade com vistas às eleições de 2018.

    Tocará aos movimentos sociais aproveitarem a crise nas alturas e, particularmente, a queda de Renan Calheiros para intensificarem a luta contra o Ajuste Fiscal e a PEC do Fim do Mundo em votação no Senado. Renan caiu por uma manobra jurídica. Cabe agora aos trabalhadores derrubarem Temer nas ruas.

    Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

  • A Odebrecht, a delação do ‘Fim do Mundo’ e o futuro da Lava Jato

    Por: Euclides de Agrela, de Fortaleza, CE

    Na tarde de 1º de dezembro foi assinada a delação premiada de Marcelo Odebrecht e executivos do Grupo Odebrecht, num total de 77 pessoas, com o Ministério Público Federal (MPF), no âmbito da Operação Lava Jato.

    Marcelo Odebrecht já havia sido condenado a 19 anos e quatro meses de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa, devido ao pagamento de US$ 35 milhões de dólares e quase R$ 110 milhões de reais em propina a funcionários da Petrobras. Com o acordo, Marcelo cumprirá somente dez anos. Como já ficou um ano e meio em regime fechado, daqui a um ano ele passará para prisão domiciliar, que deve durar dois anos e meio. Depois, passa para regime semiaberto também por dois anos e meio e, finalmente, dois anos e meio no regime aberto.

    O Grupo também fechou um acordo financeiro, no valor de R$ 6,8 bilhões, que será pago em 23 anos, para poder seguir com contratos de obras públicas. Em valores corrigidos, o montante chegará a 8,5 bilhões. O dinheiro será dividido entre o Brasil, que ficará pelo menos com 70% dos recursos, Estados Unidos e Suíça.

    Para além desse acordo financeiro, 240 políticos de 22 partidos serão citados por Marcelo Odebrecht e por altos executivos da empresa. Alguns dos possíveis implicados do governo Temer seriam o próprio presidente da República, ministros como Eliseu Padilha (PMDB), da Casa Civil, José Serra (PSDB), das Relações Exteriores, e o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB).

    Também são mencionados o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB); os senadores Aécio Neves (PSDB), José Sarney (PMDB), Romero Jucá (PMDB) e Humberto Costa (PT); os ex-presidentes Lula e Dilma e até o ex-candidato a presidente Eduardo Campos (PSB), morto em 2014. Não é à toa que o acordo firmado entre a Odebrecht e o MPF vem sendo chamado de a Delação do Fim do Mundo.

    Qual o futuro da Lava Jato?
    A delação de Marcelo Odebrecht e dos executivos do Grupo foi um tema pouco destacado na grande imprensa, se comparada com o estardalhaço que se fez com a votação do Pacote Anticorrupção na Câmara dos Deputados e a emenda de crime de abuso de autoridade para altos funcionários do Poder Judiciário.

    Mas ela tem um efeito bombástico sobre o governo Temer, o Congresso Nacional e todos os grandes partidos, a começar pelo PMDB, passando pelo PSDB, DEM e não apenas sobre o PT. Se as investigações da delação da Odebrecht forem levadas a diante com seriedade poderão colocar em xeque o governo Temer e a maioria dos partidos e figurões da política nacional.

    A reação dos procuradores da República à votação do Pacote Anticorrupção na Câmara chamou a atenção, sobretudo, devido à ameaça da Força Tarefa do MPF renunciar ao comando da investigação da Operação Lava Jato. Isso ocorreu no dia 30 de novembro. No dia 1º de dezembro, O Juiz Sérgio Moro, em pessoa, vai ao Senado debater o Pacote Anticorrupção. Neste mesmo dia, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou réu o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), por desvio de dinheiro público. No dia 02, é anunciada a delação premiada da Odebrecht. Essa sequência de fatos não é mera coincidência.

    A expectativa dos advogados da Odebrecht e do MPF era a de que o acordo de delação premiada fosse assinado uma semana antes, mas houve atraso devido a divergências sobre o valor que será repassado aos Estados Unidos. As autoridades americanas exigiram o aumento de pelo menos US$ 50 milhões de dólares e mudanças nas condições de pagamento.

    Portanto, os procurados do MPF e os ministros do STF já sabiam da delação de Marcelo Odebrecht antes da votação do Pacote Anticorrupção e previam, obviamente, suas dimensões. Não foi à toa o bate-boca entre O juiz Sérgio Moro e o ministro Gilmar Mendes, do STF, no Senado, em 1º de dezembro.

    Moro criticou as emendas incluídas no Pacote Anticorrupção. Ele citou a inclusão do crime de responsabilidade para juízes e promotores, que não havia sido debatida durante as sessões da comissão especial da Casa. Já Gilmar avaliou que a Câmara “andou bem” ao retirar do projeto itens que tratam de habeas corpus e aceitação de provas ilícitas, por exemplo.

    A declaração de Renan Calheiros como réu e a posição de Gilmar Mendes no Senado, que defendeu as modificações da Câmara no Pacote Anticorrupção, podem sinalizar que o STF esteja chamando para si a responsabilidade de investigação da delação premiada da Odebrecht, o que tiraria a Força Tarefa da Lava Jato do centro das atenções. Tanto é assim que o próximo passo é a homologação do acordo pelo ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF, que receberá o contrato do acordo e as gravações dos depoimentos de Marcelo e demais executivos da Odebrecht.

    Tudo ainda está muito nebuloso. Mas, como demonstramos, há fortes indícios de que uma possível operação abafa está em curso no Senado e no STF. Se isso se confirmar, o PSDB e o DEM conseguirão sair sem um arranhão. O PMDB, além algumas fraturas graves, poderá ter que entregar a cabeça de Renan Calheiros para preservar o governo Temer. E o PT, que foi massacrado, poderia até barganhar o arquivamento do processo contra Lula em troca da sua não candidatura em 2018. No entanto, há muitos imponderáveis no meio do caminho. Vejamos as cenas dos próximos capítulos.

    Foto: jornalggn

  • O calor da classe operária

    Coluna Rádio Peão

    Estamos a recém em dezembro e a temperatura já está nas alturas. De acordo com os especialistas, o calor ainda vai aumentar.

    Como tudo na vida, o calor tem um impacto para os ricos, e outro para os pobres. Os patrões não sofrem, como os trabalhadores, as consequências do calor. Os graúdos da sociedade não pegam ônibus e trem lotado sem ar condicionado. Não precisam esperar em filas, às vezes no sol. Não enfrentam os apagões de energia elétrica e de água, comuns no verão. Para a classe operária, até quando vem chuva, que é um alívio, depois vêm os problemas dos temporais de verão, que são outro pesadelo: enchentes, casas destelhadas, móveis e eletrodomésticos perdidos.

    Mas, o pior é o trabalho. A classe trabalhadora, que passa quase 12 horas do seu dia trabalhando pra sobreviver e ganhar o pão de cada dia, precisa enfrentar o inferno todos os dias. O que acontece nas fábricas é o maior exemplo disso, com sensação térmica chegando até 60ºC na linha de produção. Quem sofre é a peãozada, pois a chefia trabalha no ar condicionado.

    Os mais prejudicados com o calor são as mulheres e os operários que trabalham em condições especiais
    Entre nós há também os superprejudicados: aqueles que trabalham no tratamento térmico, forjaria, fundição, por exemplo. Trabalhando à beira de fornos e caldeiras de cerca de 1.000°C, o parâmetro de calor é outro. Nos contou um cipeiro que essa semana mesmo um colega brincou: “Se a fábrica é o inferno de quente, o tratamento térmico é a cozinha do capeta”.

    Toda a classe trabalhadora sofre muito com o calor. A classe operária, em particular forneiros e pedreiros, sofrem muito mais. As mulheres operárias sofrem ainda mais. Vítimas do calor terrível do chão de fábrica, são ainda vítimas de dezenas de preconceitos e machismo praticado por colegas e chefes. Ao menor sinal de levantarem a blusa ou arregaçarem as mangas, são taxadas de “vagabundas”, por estarem “se mostrando”, e ficam expostas aos olhos da peãozada bárbara e bruta e, também, da chefia. Muito mais comum que no inverno, no verão, em que as roupas são mais curtas, as mulheres operárias precisam enfrentar mais esse terrível obstáculo.

    Péssimas condições de trabalho
    O fato é que a classe operária é submetida a condições de trabalho desumanas. Trabalha porque não tem alternativa. Muitos preferem se submeter ao terror das cozinhas do capeta porque algumas empresas pagam um pouco mais de insalubridade.

    O membro da CIPA da Taurus, empresa fabricante de armas no Rio Grande do Sul, Lucas Fogaça, apresentou recentemente um projeto de impacto de altas temperaturas na saúde do trabalhador na reunião da CIPA. A ideia de apresentar o projeto é para propor melhorias em relação às altas temperaturas a que os trabalhadores estão expostos. Segundo Fogaça, o calor pode causar câncer, impotência sexual, desidratação, entre vários outros problemas. “É preciso atentar também para as grávidas que precisam de cuidados especiais”, concluiu.

    aciaria

    Aciaria

    Conversarmos também com Clodoaldo Duarte, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Leopoldo e região e ex-candidato a prefeito em Sapucaia do Sul, pelo PSOL. Ele é trabalhador da Siderúrgica Gerdau. “Na aciaria da Gerdau onde eu trabalho temos alguns pontos muito quentes. Temos os fornos elétricos de aciarias que chegam a 1650 graus dentro do forno. Então, no entorno do forno temos temperaturas altíssimas e respingo de aço que pode queimar, além do próprio risco de explosão do forno. Também, o processo de lingotamento contínuo é muito prejudicial à saúde, já que além de ser muito quente e fica aço líquido acima da cabeça dos trabalhadores, contém césio que traz o risco de câncer. E ainda tem o setor da panela que além de muito quente tem os gases que são queimados para aquecer a panela”, explicou. Para Duarte, o problema se agrava no verão. “Tudo isso piora muito no verão quando dentro do prédio a temperatura pode chegar a 50 graus”, concluiu.

    Assista, nos vídeos, as péssimas condições de trabalho e as altas temperaturas a que estão expostos os trabalhadores

    Desrespeito à legislação e o lucro acima de tudo
    O que dói é saber que poderia ser diferente. Há tecnologia suficiente para automatizar boa parte das forjarias, fundições, diminuindo a exposição às mais altas temperaturas. E isso não é tudo: existe muita tecnologia para atenuar os efeitos do calor em ambientes como esse, tal como revestimento duplo e isolante térmico especial para as caldeiras e roupas autoclimatizantes. Mas, na cabeça do patrão só existe o lucro acima de tudo, não é?

    Além dessas medidas, há outras muito simples que já melhorariam, ao menos um pouco, a vida do peão. Trocar as telhas de zinco e Brasilit* por telhas de barro, aumentar o pé direito dos pavilhões, permitindo uma maior circulação de ar, instalar sistemas de climatização ou, ao menos, ventilação e umidificação. Muitas vezes, é uma briga para conseguir coisas mínimas, como água gelada no bebedouro, ou um ventilador. Para os operários que trabalham em situações especiais é preciso também algumas medidas imediatas especiais, como isotônico gelado liberado e o cumprimento dos intervalos remunerados dispostos na NR-15.

    É preciso se unir com os trabalhadores, se organizar e lutar

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    Garis também sofrem com o calor

    No sistema em que vivemos, de um lado estão os patrões, do outro os peões. Temos interesses opostos que nunca se combinarão. Assim, para termos melhores condições de trabalho, precisamos impor isso aos patrões. Eles não nos darão de mão beijada. Eles, por outro lado, se puderem, vão nos impor um ritmo cada vez maior nas piores condições e com os menores salários.

    Nós devemos exigir dos patrões medidas para atenuar o calor. Todas as medidas possíveis, desde a água gelada até um sistema de climatização nas fábricas. Devemos ter consciência de que eles só pensam no lucro. Para eles, o peão bom é o peão que produz. Nada mais importa. A lógica deles é o lucro e a ganância. Tudo que conseguirmos será obra de nossa luta contra eles.

    Mas, a nossa guerra contra os patrões é muito maior do que a batalha para atenuar o calor. Mesmo que consigamos impor aos empresários que comprem alguns míseros ventiladores para a linha de produção, eles darão um jeito de tirar na outra ponta, como no plano de saúde, na alimentação, na PLR (participação nos lucros e resultados), ou seja, lá no que for.

    Assim, não há saída senão lutar até o fim para derrotar os patrões e deles tomarmos as fábricas e toda sociedade que não existiriam sem nós: mesmo sendo nós que, com nossas mãos e corpos, produzimos tudo o que existe na sociedade, do alfinete ao avião, eles exploram a gente e ficam com praticamente tudo que produzimos, e nós vivemos uma vida miserável.

    Então, é preciso lutar. Convencer os colegas. Unir o pessoal. Se organizar e lutar! Somos a maioria. Podemos vencer!

  • A relação entre a PEC e o aborto

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    Dois fatos paralelos acenderam as discussões entre militantes e os que reivindicam a esquerda, o aborto e aPEC 55. Ambos se tratam de questões públicas e coletivas e interferem diretamente no direito de um nicho de indivíduos.

    A PEC 55 congela os gastos públicos nos próximos 20 anos, prejudicando categoricamente serviços como SUS e educação pública. A burguesia tenta discursar com a ideia de sacrifício, de que as crises requerem apertar os cintos, mas estes cintos são apertados no pescoço das trabalhadoras e trabalhadores.

    Já a questão do aborto que é altamente progressista, volta ao debate sob uma perspectiva positiva da sua autorização livre nas 12 primeiras semanas, onde se acredita que o feto não possui atividade cerebral e, portanto, não pode sentir dor e o que se entende como “vida” ainda não foi iniciado.

    Onde ambos se encontram?
    A PEC, como já sabemos, congela os gastos públicos. Isso significa que não será possível gerar novos investimentos em qualquer setor estatal. Também sabemos que a maioria da população depende do SUS como principal objetivo no que diz respeito à saúde.

    Nesse sentido, a principal reivindicação do aborto para o movimento feminista, é que não basta que ele seja legal, mas também é necessário que ele seja gratuito e acessível, pois as milhares de mulheres mortas vítimas de abortos clandestinos e caseiros são majoritariamente negras e, ou pobres, como foi o caso de Jandira Magdalena, de 27 anos, que confiou o fim de sua gestação a uma clínica no Rio de Janeiro, e após morrer diante das péssimas condições do procedimento, foi carbonizada e encontrada dentro de um carro num local ermo.

    Estima-se que um aborto custe em média R$ 7 mil, procedimento que só é possível ser custeado quando a mulher possui um nível de vida considerável mesmo dentro da ilegalidade e ainda assim, corre-se um enorme risco de, assim como Jandira, tornar-se mais um número na estatística de mulheres que infelizmente não possuem direito de prosseguirem com suas vidas como quiserem, que não possuem o direito sobre os seus próprios corpos.

    O caminho mais longo para a liberdade
    A PEC é uma grande pedra no sapato para os investimentos mais básicos que já estão em falta para a população mais pobre. Uma rápida visita a hospitais, é possível ver pessoas em leitos espalhados pelo corredor, falta de profissionais, filas enormes para espera de atendimento, exames e afins. O transplante de órgãos é cada vez mais deficiente, chega-se a espetar anos para receber um pâncreas, por exemplo.

    O aborto como um direito fundamental e primário à nossa liberdade civil reacende o debate do retrocesso que a PEC 55 representa para a saúde pública da população mais pobre.

    É preciso derrubar essa PEC para impedir que nossos direitos e o nosso futuro e o futuro de nossa prole se congelem. Para avançarmos é preciso impedir que o governo ilegítimo e burguês ataque nossas necessidades básicas de saúde e educação. Para ter o direito de abortar com segurança e gratuitamente, é preciso reivindicar o SUS como nosso. Não iremos pagar a conta dessa crise.

    Foto: UFRB

  • Europa: Derrota da extrema-direita na Áustria

    Por Vicente Marconi, de Frankfurt, Alemanha

    A Áustria viveu uma nova edição de suas eleições presidenciais neste domingo (04\12). A  votação original foi em maio deste ano, mas foi anulada pela Justiça austríaca devido a denúncias de irregularidades no processo. Naquela ocasião, Alexander Van de Bellen, candidato independente (ligado aos Verdes) em uma coalizão de centro-esquerda venceu Norbert Hofer, do ultra-direitista Partido da Liberdade (FPO) por menos de 1% dos votos.

    O FPO é um partido fascista, fundado por um ex-oficial da SS. É conhecido por seu discurso ultra racista e xenófobo, principalmente contra povos de origem muçulmana. Ultimamente, centra sua campanha política em ataques a imigrantes e refugiados. Este tema vem ganhando espaço na agenda política austríaca, uma vez que o governo já vinha endurecendo sua linha para imigração e asilo a refugiados. Organizações humanitárias já vinham denunciado essa dinâmica, desde o primeiro semestre desse ano. A perspectiva era que, no caso de uma vitória do FPO, esta situação se agravaria consideravelmente.

    Hofer era tido como favorito para as eleições de ontem. Embalado pelo “efeito Trump”, além da vitória do Brexit e o crescimento da extrema-direita na França, o candidato do FPO já discursava como seria seu mandato. Seria o primeiro chefe de estado da União Européia diretamente ligado à ultra-direita.

    No sábado, véspera da votação, um ato anti-racista (chamado por alguns de “Fuck Hofer”) reuniu mais de 5 mil ativistas na capital Viena. Com uma margem maior que a da eleição de maio, ampliada ainda mais nas áreas urbanas, a FPO foi derrotada. O resultado foi celebrado em toda a Europa como uma importante vitória contra o crescimento da ultra-direita e do populismo reacionário.

    Porém, é necessário que se tirem as lições deste processo. A ultra-direita conseguiu capitalizar boa parte do discurso anti-establishment, e teve uma boa votação. O secretário-geral da FPO, Herbert Kickl, disse para a imprensa que “o establishment, que se opõe às mudanças necessárias no país, ganhou dessa vez”. Van de Bellen, o candidato vencedor, aposta em um discurso de conciliação de classes e submissão ao chefes da UE que não dará a resposta necessária para a classe trabalhadora austríaca sair da crise. Cabe à esquerda socialista construir um caminho de classe contra os ajustes fiscais, o racismo e em defesa das liberdades na Áustria. Caso contrário, só estará pavimentando o caminho para o fascismo voltar com carga total em um futuro não tão distante.

    Foto: Ato em Viena – 03\12. (Fonte: Neue Linkswende | Socialist Worker.org)

  • Os protestos da direita e a polêmica na esquerda

    Milhares de pessoas foram às ruas nesse domingo (04) em protesto contra o Congresso e em defesa da Lava Jato. Os atos foram muito menores do que os realizados quando do impeachment de Dilma (PT), mas mesmo assim tiveram ampla divulgação na grande mídia, em especial na programação da Globo.

    A Polícia Militar, sempre simpática a essas manifestações da direita, calculou que havia 15 mil participantes na Avenida Paulista (SP). Em outras capitais, como no Rio, Curitiba e Porto Alegre, os atos não chegaram a 10 mil pessoas. Ainda que não tenham sido desprezíveis, os protestos liderados pelo MBL, Vem Pra Rua e grupos pró Ditadura Militar, não empolgaram as camadas médias que meses atrás bateram panela pelo impeachment.

    De todo modo, o movimento de massas da direita organizada, que entrou em cena em março de 2015, teve continuidade nesse domingo. Com bandeiras, camisas e faixas em efusivo apoio ao juiz Sérgio Moro, os protestos tomaram o lado do Judiciário no confronto com o Congresso de ladrões chefiado por Renan Calheiros e Rodrigo Maia. O governo Temer (PMDB), por sua vez, foi preservado, o que demonstra o interesse de manter, ao menos por enquanto, a sustentação do presidente golpista.

    Protestos reacionários e a esquerda socialista

    Alguns setores da Esquerda flertam perigosamente com o apoio a essas manifestações. Sugerem que apesar do caráter reacionário de suas direções, os atos cumpririam um papel progressivo.

    Consideramos essa postura um grave erro. Os atos organizados pela direita, com seu programa neoliberal e racista, sua direção burguesa, ideologia anticomunista e composição social baseada na classe média abastada, são fortemente reacionários.

    O MBL e o Vem pra Rua utilizam-se da bandeira de combate à corrupção – demanda democrática de forte apelo nas camadas médias – para pavimentar caminho para saídas regressivas.

    A esquerda socialista deve, sim, apresentar um programa concreto contra a corrupção, desde uma perspectiva anticapitalista. Não podemos deixar nas mãos da direita essa pauta: concordamos que é preciso disputar setores da classe média enojadas com a podridão da política. Sabemos também do trágico papel da direção do PT que, ao ter mergulhado na lama da corrupção capitalista, sujou o nome da esquerda no imaginário popular, dando espaço, assim, para o crescimento de uma nova direita.

    Porém, consideramos que a esquerda que confunde-se com a direita e a extrema-direita para disputar esse processo, se valendo de seus slogans e linguagem, e conferindo sinal positivo a suas ações, está fadada ao fracasso.

    É preciso reconhecer que existe um movimento de massas da direita, que é dirigido pela burguesia e composto pela classe média que girou à direita. Foi justamente esse bloco político-social que sustentou o golpe parlamentar. Nesse momento, coloca-se contra Renan e a favor de Moro; futuramente poderá, a depender da evolução do quadro político, pedir a cabeça de Temer. Mesmo nesse caso, este movimento seguirá tendo um caráter reacionário.

    Só é possível dividir a classe média, arrastando um setor dela para um movimento progressivo, se os trabalhadores e a juventude entram em ação de modo independente, apresentando à Nação um programa próprio para saída da crise e o desenvolvimento do país.

    É necessário, sim, articular a luta contra o ajuste neoliberal com a pauta democrática de combate anticapitalista à corrupção. Mas é preciso ter a coragem de dizer aos trabalhadores que a corrupção não é o principal problema do país, e sim a exploração, o desemprego e o ajuste burguês. É preciso ter a coragem de dizer que a Lava Jato não acabará com a corrupção, que seu verdadeiro objetivo não é este, mas sim construir uma saída regressiva à crise. É preciso ter a coragem de dizer que Moro e seus homens estão submetidos a interesses imperialistas de rapina do Brasil, que preservam o PSDB e pisam em direitos democráticos básicos, operando uma escalada autoritária.

    A esquerda que capitula à ofensiva reacionária da Lava Jato e às manifestações da direita, semeando a ilusão de que é possível vencer no campo do inimigo, uma vez que este hoje tem ampla popularidade nas massas, desarma a vanguarda perante as difíceis e complexas tarefas do momento presente.

    Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil