Indivíduo e socialismo

Por: Henrique Canary, colunista do Esquerda Online

O liberalismo burguês não cumpriu sua promessa em relação ao indivíduo. Ao destruir os laços que uniam o servo medieval à sua comunidade, o capitalismo forneceu apenas liberdades vazias: a liberdade de ir e vir, desde que se tenha dinheiro; a liberdade de votar em seus governantes, mas não de exercer efetivamente o poder político; a liberdade de vender sua força de trabalho para não morrer de fome.

O socialismo tem como objetivo o fim da alienação, e portanto, a libertação completa da personalidade humana, quer dizer: o seu pleno desenvolvimento dentro dos limites impostos pelo tempo histórico e pelas necessidades gerais da sociedade. A Revolução Russa, em seus primeiros anos, promoveu um desenvolvimento do indivíduo e da personalidade humana que nenhuma outra sociedade ou período histórico jamais viu.

As enormes conquistas da Rússia revolucionária, não apenas na arena econômica e social, mas principalmente na arte, na cultura, na ciência e no esporte, são a prova de que o socialismo é o único sistema social que oferece as condições necessárias para o pleno florescimento da individualidade humana. A contrarrevolução stalinista significou também, entre outras coisas, o esmagamento do indivíduo, a interrupção de seu desenvolvimento, a sua derrota histórica perante o terror burocrático.

E no entanto, Marx jamais entendeu o gênero humano como um mero aglomerado de indivíduos. Para ele, a sociedade era uma síntese superior, que não poderia ser igualada à soma de suas partes constitutivas. Ele arrancou o ato histórico do mundo nebuloso das ideias e das mãos dos heróis, e o entregou ao gênero humano: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”.

Assim como ocorre com a sociedade, uma organização política não é um aglomerado de indivíduos. Menos ainda se esta organização se coloca como tarefa a derrubada revolucionária de toda ordem existente. A militância em uma organização socialista pressupõe a adesão voluntária a um projeto coletivo. Este projeto, que é a bandeira mais nobre que a humanidade já levantou, exige entrega e dedicação. E uma certa disciplina. Isto não significa que deva existir, por definição, qualquer incompatibilidade entre os desejos pessoais do militante socialista e as necessidades do coletivo a que pertence. Se se trata de uma organização democrática e saudável, então ela promoverá o crescimento e o desenvolvimento de cada um de seus membros em sintonia com seus próprios objetivos gerais.

Quando um trabalhador entrelaça seus braços com os braços de outro trabalhador em um piquete de greve, ele contrai aí um compromisso, está preso por uma certa disciplina. Mas ao mesmo tempo, ele adquire poderes que jamais teria enquanto indivíduo isolado: o poder de resistir, de parar a produção. Para ele, a disciplina não é um fardo. Ao contrário, é a condição da vitória.

É nessa ação coletiva, consciente e disciplinada que ele afirma sua individualidade de trabalhador explorado. Como disse o revolucionário italiano Antônio Gramsci: “Associar-se a um movimento significa assumir uma parte das responsabilidades dos acontecimentos que se preparam, tornar-se destes acontecimentos os artífices diretos. Um jovem que se inscreve no movimento juvenil socialista cumpre um ato de independência e de libertação. Disciplinar-se é torna-se independente e livre”.

Ou, ainda, nas palavras de Trotski: “É necessária uma disciplina absoluta, mas que deve provir de uma compreensão comum. Se essa disciplina é imposta de fora, é um jugo. Se vem da compreensão, é a expressão da personalidade, mas sem isso, é um jugo. Portanto, a disciplina é a expressão da minha livre individualidade. Não é uma oposição entre a vontade pessoal e o partido, porque eu aderi a ele pela minha própria vontade”.

Os socialistas devem ser capazes de criar uma organização política que promova o desenvolvimento da personalidade humana, que fomente o crescimento de cada um de seus militantes. Mas nunca devem esquecer que isso é apenas o efeito colateral positivo de um regime interno sadio e de uma política organizativa correta. Não é o próprio fim da organização, porque um partido não é um clube de amigos, nem um grupo de auto-libertação. É uma organização política que tem um projeto de poder.

A solução do dilema “indivíduo-coletivo” não reside, portanto, no abandono da luta coletiva em benefício da luta individual, supostamente livre de qualquer amarra, nem em um regime interno ideal, mas na construção de um partido de militantes conscientes, marxistas, que aderiram livremente ao programa e aos estatutos da organização porque chegaram à consciência desta necessidade. Para estes militantes, a disciplina do dia a dia, as derrotas ocasionais e as exigências da luta não serão um jugo exterior, mas a expressão de sua própria liberdade.

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