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21 Novembro, 2016
  • Banco do Brasil anuncia fechamento de postos de trabalho

    Por: Juliana Donato, Conselheira de Administração do Banco do Brasil

    No domingo (20), o Conselho de Administração do Banco do Brasil anunciou um amplo processo de reestruturação. Segundo o anúncio, serão fechadas 402 agências e 379 serão transformadas em Posto Avançado de Atendimento (PAA). O Banco estima uma economia de R$ 750 milhões, sendo R$ 450 milhões decorrentes da nova estrutura organizacional e R$ 300 milhões da redução de gastos com transporte de valores, segurança, locação e condomínios, manutenção de imóveis, entre outras.

    Além disso, o Banco do Brasil vai estabelecer um Plano de Aposentadoria Incentivada (PAI) que tem como público alvo 18 mil funcionários em condições hoje para se aposentar. Funcionários que trabalham em unidades estratégicas e têm jornada de 8 horas poderão migrar para 6 horas, com redução salarial. O plano prevê a extinção de 9 mil vagas.

    A redução no número de funcionários nas estatais iniciou no governo Dilma (PT) e se aprofunda com o governo Temer (PMDB). De acordo com o relatório do Ministério do Planejamento, o número de funcionários caiu de 494.370 há dois anos, antes da onda de PDVs, para 481.460 até setembro de 2016.

    As medidas mostram que a direção do BB e o governo Temer querem cobrar dos seus funcionários e dos trabalhadores em geral a conta da crise econômica do país. A população pobre vai ser ainda mais expulsa das agências bancárias. Aqueles que não têm acesso à internet terão que procurar correspondentes bancários para ter algum tipo de acesso aos serviços bancários.

    A economia que este plano vai gerar é muito menor que o prejuízo que o Banco acumula com a inadimplência das grandes empresas. Somente a OI e a Sete Brasil, que estão em recuperação judicial, têm dívidas que somam mais de R$ 8 bilhões com o Banco do Brasil. Só esses exemplos demonstram que não são os custos administrativos os responsáveis pela queda da lucratividade do BB.

    Os trabalhadores brasileiros precisam de um BB que atue como banco público. O atual modelo, que prioriza a concessão de crédito para as grandes empresas e um atendimento que expulsa a população pobre das agências, não atende às necessidades da sociedade e dos funcionários do banco.

    A CONTRAF/CUT tem obrigação de propor um plano de lutas em nível nacional para barrar a restruturação. É importante combinar a luta contra esta reestruturação com a luta geral dos trabalhadores. A reestruturação do Banco do Brasil é parte dos planos de ajuste que sacrificam os direitos dos trabalhadores em nome dos lucros dos banqueiros e das grandes empresas.

    Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

  • Resposta ao Parente: o compromisso pela vida na Petrobras

    Por: Everton Bertucchi, do ABC paulista

    Caros Presidente e Diretoria da Petrobras, partimos de um mesmo ponto de vista que vocês, a vida deve ser colocada em primeiro lugar, mas não sentimos confiança nos métodos aplicados. A recomposição do efetivo é a melhor maneira de diminuir os acidentes e treinar as pessoas, pois evita a sobrecarga de tarefas e horas extras.
    Algumas empresas concorrentes têm escondido o número de mortes de seus relatórios anuais, como a BW-Offshore e a British Petroleum. Utilizar a taxa de acidentes registráveis somente como parâmetro parece equivocado.

    Os PIDVs e a diminuição do efetivo
    Os PIDVs 2014 , 2015 na BR e 2016 vão na direção oposta do compromisso com a vida. Sendo que nem começou a recomposição de efetivo do PIDV 2014 do qual a premissa é de 60% entre os anos 2014 e 2018. Logo após a saída dos nossos colegas de trabalho, já abriu outro.

    O primeiro desligou 8298 Petroleiros, 12%, e agora este número pode chegar a 11704, 16%. Um dos maiores ativos de toda empresa são seus funcionários, pois podem garantir a sua própria integridade física e dos demais com a sua experiência adquirida através de décadas de trabalho e sabemos que a maioria dos que sairão são os mais experientes. O processo não está contemplando de maneira adequada esta transferência de conhecimento e a taxa de acidentes tende a aumentar nesta situação.

    No ano de 2015, o número de mortes, 16, aumentou por causa da precarização das condições de trabalho. O caso mais simbólico foi o arrendamento do navio plataforma FPSO Cidade de São Mateus da petroleira britânica BW. O acidente ocasionou em nove mortes.

  • Somos Dandaras, Terezas e Luizas: somos mulheres negras e nossas vidas importam

    Por: Elita Isabella, de Maceió, AL

    (…) Não fomos vencidas pela anulação social,
    Sobrevivemos à ausência na novela, no comercial
    O sistema pode até me transformar em empregada
    Mas não pode me fazer raciocinar como criada
    Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo
    As negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo. (Eduardo Facção Central)

    Combater a violência machista significa dar uma batalha sem trégua contra o racismo e o mito da democracia racial 
    Nesta semana, temos duas datas importantes de luta contra as opressões, o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra e o dia 25, Dia Latino Americano e Caribenho de Luta Contra a Violência à Mulher. No Brasil, foram assassinadas mais 66,7% mulheres negras do que brancas. Precisamos refletir sobre esses números e sobre o seu significado, não apenas sob o ponto de vista das relações machistas no Brasil, mas a partir da combinação de outro elemento, que é o profundo significado do racismo na história de vida dessas mulheres. O Brasil é o quinto país no mundo com as maiores taxas de feminicídio, ou seja, é o quinto país no mundo com mortes de mulheres pela sua condição de gênero. As mulheres negras são as maiores vítimas da violência feminicida no Brasil, segundo dados já divulgados pelo Mapa da Violência e pelo IPEA.

    Estudos recentes do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sobre a mortalidade de mulheres por agressões no Brasil, apontam para o fato de que a Lei Maria da Penha não causou o impacto necessário já que, ao longo dos seus dez anos de existência, a mortalidade de mulheres aumentou, especialmente entre as mulheres negras. Esse aspecto é importante e merece ser destacado porque as principais medidas do governo Temer afetam principalmente os gastos com investimentos em importantes áreas sociais, como os gastos com programas de combate à violência contra a mulher. Portanto, para nós, mulheres negras, o combate à violência machista que mata milhares de mulheres, significa um combate sem trégua ao racismo.

    O mito da democracia racial reproduziu a concepção, arraigada até nossos dias, de que as relações raciais no Brasil foram pacíficas, de que somos uma ‘grande mistura de todas as raças’, e de que, sendo assim, não teríamos porque discutir racismo no Brasil. A verdade é que essa ‘mistura de raças’, difundida pelo mito da democracia racial, é apenas mais uma tentativa de anular a nossa história e de impedir uma discussão real e séria sobre o racismo institucional brasileiro. A tal da ‘grande mistura de raças’ tanto apregoada pelas teorias racistas no Brasil, esconde a exploração sexual, a violência do estupro e da objetificação dos corpos das mulheres negras ao longo de todo um processo histórico. Não somos dizimadas apenas pelo machismo. O racismo também nos dizima.

    “A carne mais barata do mercado(…)”
    Se a violência machista tem como seu principal alvo a mulher negra, no mercado de trabalho e nas relações de emprego isso não seria diferente. As mulheres negras encontram-se nos empregos mais precarizados e recebendo os menores salários. Mesmo com a diminuição das diferenças salariais entre homens e mulheres, no caso da mulher negra essa situação ainda persiste, e, segundo dados divulgados pelo IPEA, as mulheres negras recebem menos de 40% do que homens brancos. A falta de escolas e creches em tempo integral, que proporcione às mulheres melhores condições de participar do mercado de trabalho, torna-se um impeditivo ainda maior para as mulheres negras que são a maioria nas grandes periferias. Sem local para deixar seus filhos, são obrigadas a desistir de estudar, o que interfere diretamente nas suas possibilidades de conseguir espaço no mercado de trabalho e as lançam nos empregos mais precarizados, especialmente os terceirizados.

    A crise econômica afeta ainda mais essas mulheres, as negras são maioria na fila dos desempregados. O governo Temer tem imposto medidas que, longe de ter como finalidade combater a crise econômica, tem como finalidade retirar direitos históricos dos trabalhadores e trabalhadoras afim de garantir os lucros da Casa Grande, daqueles de que sempre se beneficiaram da exploração dos negros e negras no Brasil. Nesse sentido, medidas como a PEC 55, que congela por 20 anos os gastos com investimentos sociais, especialmente os gastos com saúde e educação, é um grave ataque aos trabalhadores, mas um golpe ainda mais duro para as mulheres negras, pois significa reduzir ainda mais as possibilidades dessas mulheres de terem acesso à educação e saúde de qualidade. Temer propõe reduzir e congelar gastos sociais por 20 anos, mas não explica como boa parte de toda a riqueza produzida pelo país serve para encher os bolsos dos banqueiros.

    A única saída é a luta
    Para nós, negros e negras, todos os dias são dia 20, todos os dias são dia e consciência negra. No dia 25 de novembro, um dia de luta contra a violência à mulher, é importante que saibamos que as principais vítimas da violência machista são as mulheres negras. Temos essa certeza porque é a nossa negritude e a força da nossa ancestralidade que nos mantém de pé e resistindo até hoje, e para nós, mulheres negras, as mais afetadas pelas mazelas do sistema capitalista, não há outra saída que não seja a luta diária contra o racismo e toda forma de opressão. Seguiremos resistindo aos ataques de Temer e de todos os governos aos nossos direitos, seguiremos resistindo ao machismo cotidiano que nos massacra e que objetifica nossos corpos. Seguiremos firmes, porque vidas negras importam.

    Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

  • O servidor público brasileiro diante de uma tarefa histórica

    Por: Guilherme Barbosa, de Fortaleza, CE

    Com a construção do Estado de Bem Estar Social na Europa pós Segunda Guerra Mundial como política para permitir ao capitalismo um novo ciclo de expansão e de geração de riqueza, o investimento em seguridade social se tornou uma ação prioritária dos governos europeus entre 1945-1973. Tal investimento permitiu um crescimento massivo do emprego público e, em poucos anos, os trabalhadores do setor da educação pública, saúde pública e outros já haviam se tornado uma força política poderosa.

    Com alto nível intelectual, grande capacidade de mobilização e fortes sindicatos, os servidores públicos tornaram-se o setor da classe trabalhadora melhor localizados para lutar pela ampliação ou manutenção do Estado de Bem Estar. A demonstração dessa força se deu em diferentes momentos da história, por exemplo, os servidores públicos conseguiram por meio de greves gerais barrar as políticas neoliberais contidas no plano Juppé em 1995. Após a crise de 2008, os servidores públicos realizaram diversas mobilizações e greves gerais em países como Itália, Grécia e Espanha.

    O Brasil, apesar de não possuir em sua história uma experiência com esse Estado, viu nos anos do governo do PT um aumento expressivo do emprego público, principalmente na área educacional com a construção de novas universidades e institutos federais. Como na Europa, isso tornou mais forte este setor e seus sindicatos como o ANDES e SINASEFE. A derrubada do governo Dilma a partir de um golpe de setores conservadores e reacionários criou a impressão de uma situação desfavorável na correlação de forças entre trabalhadores e burgueses. O avanço de ideias reacionárias contribui para essa impressão. Certamente, alguns elementos são alarmantes.

    A pesquisa ICS – Índice de Confiança Social realizada Pelo IBOPE em julho 2015 apontou que numa escala de 0 a 100 como grau de confiança, a instituição “Igrejas” pontua 71, Forças Armadas 63 e o Poder Judiciário 46. Uma pesquisa parecida realizada no primeiro semestre de 2016 pela FGV relata que 59% dos entrevistados confiam nas Forças Armadas, 57% na Igreja Católica e 29% no Poder Judiciário. Uma outra pesquisa também parece preocupante, o Latinobarometro em pesquisa divulgada em 2016 aponta que entre 2010 e 2015, houve uma queda no apoio ao regime democrático no Brasil de 54% para 32%.

    Mas, nem tudo é negativo e cabe a nós enxergarmos as contradições do processo. Na pesquisa do IBOPE, enquanto o Governo Federal pontua 30 e o Congresso Nacional 22, os sindicatos pontuam 41 e as Organizações da Sociedade Civil 53. Na pesquisa da FGV, enquanto o índice de confiança registrado ao Congresso Nacional foi de 10% e da Presidência da República 11%, os sindicatos pontuaram 24%. Isso mostra que as organizações da classe possuem mais representatividade que parlamentares e executivos burgueses. Além disso, só em um momento, o apoio da democracia foi menor que o atual segundo a Latinobarometro. No fim do governo FHC, em 2001, o apoio era de 30%, já no período de Lula isso aumentou expressivamente.

    O governo Temer, apesar de altos gastos com publicidade, apoio das grandes mídias e das instituições, falha em conseguir recuperar índices mínimos da economia e mostra que não tem nenhum compromisso em combater a corrupção. O resultado disso é que seu apoio popular só diminui, como mostra uma pesquisa realizada pela CNI em outubro de 2016. A situação é tão complicada para Temer que 68% dos entrevistados não confiam em seu governo, 39% acham ruim ou péssimo e 31% acham pior do que o de Dilma. Com um governo com baixa popularidade e dificuldade em fazer o país voltar a crescer, o incômodo dos brasileiros com Temer cresce a cada dia, e isso é demonstrado no apoio às mobilizações.

    A maioria da população apoiou as ocupações de escola pelos secundaristas e repudiou as ações dos direitistas do MBL. As ocupações de escolas foram o primeiro passo para organizar uma luta nacional contra a PEC, que corta gastos em setores públicos. Um passo muito importante. Chegou o momento dos trabalhadores e trabalhadoras do serviço público tomarem para si a tarefa de lutar contra a PEC do corte de gastos. A experiência dos trabalhadores europeus mostra que é possível barrar grandes ataques aos direitos dos trabalhadores se for realizada uma luta ainda maior.

    O governo Temer possui um apoio aparente, ilusório, o mesmo que Eduardo Cunha tinha até ter recebido míseros dez votos contra a sua cassação. Lembremos que os mesmos ratos oportunistas que apoiavam Cunha agora apoiam Temer. Estas senhoras e senhores são medalhistas olímpicos em saltos ornamentais para fugir de um barco naufragando. Destruiremos então o barco de Temer. A luta dos servidores é assim histórica, é histórica na defesa dos direitos da classe trabalhadora, é histórica porque pode mostrar aos outros setores da classe que é possível vencer, e que estudantes, trabalhadores do serviço público e os outros setores da classe podem, quando unidos, construir o futuro do jeito que quiserem.

    Foto: José Cruz/ Agência Brasil

  • Geddel Vieira Lima, persona non grata

    Por: Carlos Zacarias, de Salvador, BA

    Figura fácil na política baiana, Geddel Viera Lima tem ainda maiores ambições no plano nacional. Não é por outro motivo que agora é o pivô do mais novo escândalo do desgoverno de Michel Temer. Com a queda do ministro da Cultura Marcelo Calero, que responsabilizou o todo poderoso ministro chefe da Secretaria de Governo de Temer de fazer pressão para liberação de uma construção de um empreendimento embargado pelo IPHAN nacional, Geddel se move na política como um elefante em uma loja de cristais.

    No recente episódio, Calero alega que o baiano lhe telefonou para pedir a liberação da obra, um prédio de 30 andares numa das áreas mais nobres de Salvador onde o ministro tem um apartamento. O embargo da obra atende a um princípio definido pela legislação, que define com o máximo de dez andares o gabarito das construções na região, uma das mais visadas pela especulação imobiliária. Pelo que disse o ministro demissionário, o todo poderoso Geddel ameaçou ir a Temer para pedir a cabeça do presidente do IPHAN, caso a questão não fosse resolvida a contento.

    Pelo que se viu até aqui, e pelo muito que pode ser ainda revelado, há mesmo algo de muito podre em Brasília, e Geddel Vieira Lima não está em cena por acaso. Desde tempos remotos, o peemedebista baiano, que nunca mudou de partido, vem se envolvendo em escaramuças ligadas à corrupção e à malversação do dinheiro público. Ainda na década de 1990, foi implicado no escândalo dos Anões do Orçamento por sua ligação com João Alves, principal personagem do esquema de deputados que apresentavam emendas ao orçamento a soldo de empreiteiras e outras empresas interessadas no dinheiro público. Geddel não chegou a ser condenado, e seguiu sua carreira de deputado sendo eleito para sucessivas legislaturas no Congresso Nacional.

    Como deputado, Geddel, típico político do PMDB, se acostumou a nadar com a correnteza. Por conta disso foi um dos principais articuladores do golpe que derrubou Dilma Rousseff em 2016. Atuando em Brasília através do irmão Lúcio Vieira Lima, Geddel, que estava sem mandato, logo se cacifou para ocupar um importante ministério ligado à difícil articulação política do impopular e ilegítimo governo Temer. Nesses poucos meses, Geddel protagonizou episódios que o tornam um aliado incômodo de um governo odiado pela maioria dos brasileiros. Ainda em maio, ao responder a uma internauta que lhe perguntou, pelo twiter, sobre qual a sensação de assumir um cargo no Executivo sem voto popular, Geddel foi taxativo ao dizer que a sensação era “gostosa”. Mas que não se pense que Geddel foi sempre golpista e opositor do PT.

    Na Bahia, Geddel transitou desde o carlismo até as franjas do lulismo na virada do século. Depois de romper com ACM na altura em que o chefe político baiano teve que renunciar por ter violado o painel do Senado, Geddel se aproximou de Jaques Wagner nos anos 2000, ajudando a eleger o novo cabeça branca da Bahia com o espólio do mandonismo carlista no interior do estado. Na altura da ruptura com ACM, Geddel se meteu em uma situação inusitada, ao adentrar ao salão nobre da reitoria da UFBA ocupado por centenas de estudantes e trabalhadores que pediam a cassação do Malvadeza. Geddel foi escorraçado quando alguém notou a sua presença e puxou “É ou não é/piada de salão/Geddel Vieira Lima/Contra a corrupção”. A cena, descrita pelos presentes como catártica, sinalizou para um sentimento corrente entre a vanguarda que não via nenhum tipo de afinidade com o político peemedebista, herdeiro das oligarquias locais.

    Não obstante, como prêmio pela sua dedicação para eleição de Jaques Wagner em 2006, Geddel ganhou do governo Lula o Ministério da Integração Nacional, ocupando o cargo até 2010. Como ministro de Lula, o peemedebista rompeu com Wagner no estado e ainda ajudou a reeleger o odiado prefeito João Henrique ao executivo municipal. A reeleição só foi possível em função do fato de que o Ministério, comandado por Geddel, destinou milhões de reais em recursos para a capital baiana para que o prefeito fizesse uma enorme maquiagem para diminuir a sua impopularidade. Depois se soube que não apenas Salvador foi desproporcionalmente beneficiada em função de interesses eleitorais, como várias outras cidades do estado, que abocanharam cerca de 90% das verbas da pasta da Integração Nacional.

    O resultado da investida de Geddel em Salvador ajudou a eleger aquele que era considerado o pior prefeito do Brasil, derrotando a candidatura petista de Walter Pinheiro, rifada em função dos acordos nacionais do PT com o PMDB, algo que contribuiu para a saída de Pinheiro da legenda petista em 2016. Com a manobra, também se garantiu o renascimento do DEM, pois se evitou que o PT, que governava o estado, tivesse alguma chance de eleger o prefeito de Salvador nos anos seguintes (ACM Neto foi eleito e depois reeleito com o apoio de Geddel).

    Geddel ainda disputaria as eleições para governador da Bahia em 2010 e depois tentaria uma vaga ao senado 2014, sendo derrotado pelo próprio Jaques Wagner e depois por Otto Alencar (PSD), outro egresso do carlismo e depois fiel aliado dos petistas no estado e no plano nacional. Todavia, Geddel não ficou sem cargo, pois foi indicado por Dilma Rousseff para a vice-presidência jurídica da Caixa Econômica Federal (CEF) em 2011, ocupando o cargo até se tornar um dos principais articuladores políticos do golpe que seria desfechado em 2016.

    Por toda essa história, será possível que Geddel ainda venha a ocupar o centro das atenções do tumultuado e odioso governo de Temer nas próximas semanas. Em vista disso, não pode ser descartada a hipótese de Geddel vir a ser afastado do governo,como forma de evitar ainda mais desgaste. Para os que moram no andar de baixo, não
    sonham com um apartamento no controvertido edifício La vue e sequer desconfiam que os interesses do ministro vão muito além do apartamento de 259 m², avaliado em 2,5 milhões de reais, Geddel Viera Lima continuará a ser um desses personagens odiosos da política. Personagens esses que nos causam uma sensação gostosa de regozijo quando
    vemos caírem em função das falcatruas que cometem contra os trabalhadores e a juventude do país.

    Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

  • Naufrágio econômico e mal estar social

    EDITORIAL 21 DE NOVEMBRO – Os apologistas do golpe parlamentar profetizaram a retomada da economia no segundo semestre do ano. Nos meses que se seguiram ao impeachment, embalados pela promessa do choque de ‘austeridade’, os empresários se mostravam mais otimistas, a Bolsa exibia notáveis altas e as agências internacionais asseguravam o “rumo certo” adotado pelo novo governo. O sopro de esperança, baseado mais no desejo do que em fatos reais, parecia indicar que o pior havia ficado para trás.

    Porém, mais uma vez, o auto-engano prevaleceu – ou melhor, a propaganda enganosa se revelou. De acordo com os indicadores do Banco Central, a economia teve novo encolhimento no terceiro trimestre do ano, próximo de 1%. A previsão de retração do PIB de 2016, que estava em 3,1% em setembro, agora subiu para 3,4%. O desemprego, em crescimento contínuo, já atinge mais de 11,6 milhões de pessoas.

    O cenário se torna ainda mais sombrio quando observamos os números da indústria de transformação. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a indústria nacional passa pelo seu pior momento em pelo menos 16 anos. O uso da capacidade instaladas das fábricas caiu para 73,9% nesse ano, o nível mais baixo desde 2001. A indústria de aço, por exemplo, opera com apenas 60% da capacidade. E as más notícias não param aí. Os investimentos em máquinas, equipamentos e materiais de construção (medida importante para avaliar a dinâmica da economia) levaram um tombo de 5,02% entre julho e agosto, de acordo com FGV.

    Economia e política
    Demonstra-se, desse modo, que os agressivos cortes de gastos públicos, o chamado ‘ajuste fiscal’, iniciado por Dilma (PT) e aprofundado agora por Michel Temer (PMDB), ao invés de reanimar a economia, está agravando a crise econômica e social. Há uma combinação explosiva de desemprego em alta, salários em baixa, endividamento crescente e serviços públicos em ruína. O mal estar social cresce no ritmo da piora de vida das camadas populares. Os planos do governo Pezão (PMDB) de sequestro de salários e direitos, que está provocando a revolta dos servidores públicos no Rio, indica o grau de violência das medidas pretendidas pela classe dominante, e também as possibilidades de resistência.

    Os fatores políticos tampouco contribuem para a melhora de expectativas. Na esfera internacional, a vitória de Donald Trump nos EUA abriu uma era de incertezas e pessimismo. É inevitável que as nuvens carregadas que começam a se formar na arena internacional impactem negativamente o desempenho da economia brasileira. No âmbito doméstico, as sucessivas incursões da Operação Lava Jato, que agora ameaça atingir o núcleo dirigente do PMDB, constituem um elemento de instabilidade e insegurança que muito preocupa pesos pesados do empresariado nacional.

    As evidências sugerem que a retomada econômica não está no horizonte próximo. Ainda que a economia venha a parar de cair em 2017, saindo tecnicamente do estado de recessão, os efeitos negativos sobre as condições de vida e de trabalho se acentuarão. Afinal, a burguesia, comandada pelo capital financeiro, está determinada na aplicação de um ajuste estrutural por meio de contrarreformas que visam destruir direitos (previdenciários e trabalhistas) e enxugar o Estado (via privatizações e enxugamento de gastos públicos – PEC 55).

    Organizar e fortalecer a resistência operária e popular, para barrar ofensiva da direita e derrotar o governo Temer, é a tarefa imediata da esquerda brasileira.

    Foto: Gilson Abreu/FIEP/ ANPr

  • Qual o caráter político, econômico e de classe da Operação Lava Jato? (Parte 1)

    Por: Euclides de Agrela, de Fortaleza, CE

    As recentes prisões de Cunha Golpista (PMDB), ex-presidente da Câmara dos Deputados e Sérgio Cabral (PMDB), ex-governador do Rio de Janeiro, pela Operação Lava Jato, realizadas pela Polícia Federal a mando do Juiz Sérgio Moro, causaram uma verdadeira comoção nacional. O prestígio do Juiz Sérgio Moro e da Polícia Federal diante do povo em geral aumentou mais ainda depois dessas prisões.

    Muitos ativistas, militantes e até mesmo dirigentes da esquerda socialista têm comemorado essas prisões como uma vitória do movimento de massas. Mas, como diz o velho ditado: esmola grande demais o cego desconfia. E é exatamente esta desconfiança que nos motivou a escrever a presente série de 3 artigos que serão publicados um por dia pelo Portal Esquerda Online até quarta-feira.

    PARTE 1
    As perguntas que não querem calar
    Até agora a Operação Lava Jato tinha prendido apenas grandes dirigentes do PT, como José Dirceu, Antônio Palocci e Genoíno Neto e peixes pequenos de partidos burgueses menos importantes. Com as prisões de Cunha e Cabral, as perguntas que não querem calar são: Essas prisões sinalizam uma devassa nos quadros do PMDB, atingirá o governo Golpista, os figurões do PSDB e DEM, chegando até Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, sem esquecer de Jair Bolsonaro (PSC)? Seria a Operação Lava Jato um golpe mortal na corrupção governamental no Brasil e o Juiz Sérgio Moro o “caçador de marajás” do século XXI?

    Essas são perguntas chaves para entender o caráter da Operação Lava Jato, na medida em que, até agora, esta limitou-se, fundamentalmente, a fazer do PT e de seus quadros dirigentes os bodes expiatórios da corrupção governamental e das relações promíscuas entre políticos e partidos com empreiteiras, bancos e grandes empresas no que diz respeito a obras públicas, compras governamentais, processos de privatização e terceirização, tudo isso amalgamado com o financiamento privado de campanhas eleitorais, Caixa 2 e lavagem de dinheiro.

    Justiça seja feita ao PT: o partido de Lula é um aluno do nível básico na escola da corrupção governamental. Neste terreno, os grandes partidos burgueses como o PMDB, PSDB e DEM são pós-graduados. O drama do PT é que, depois de generosos serviços prestados ao capital financeiro durante 14 anos dos governos de Lula e Dilma, a burguesia e o imperialismo resolveram pôr fim à sucessão de governos petistas da forma mais agressiva e desmoralizante possível, sem se limitar ao calendário eleitoral, através de um golpe parlamentar que levou ao impeachment da presidente Dilma e pode redundar, quase seguramente, à prisão ou, no mínimo, à inabilitação da candidatura de Lula a presidente em 2018.

    Ainda no terreno da análise e da caracterização da Operação Lava Jato cabe perguntar: Por que o Supremo Tribunal Federal (STF) permite que um juiz de primeira instância, até então um ilustre desconhecido do grande público, assuma o papel de supremo juiz da corrupção política, partidária e governamental? Por que o STF não chamou para si essa responsabilidade e a deixou alegremente nas mãos de Sérgio Moro? Quem é Sérgio Moro? A quem ele presta contas? Quais seus interesses políticos? Quais suas relações com os poderes político e econômico? Por que o Ministério Público adquiriu tamanha força na Operação Lava Jato, particularmente no Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro?

    Todas essas perguntas precisam ser debatidas e respondidas pela esquerda socialista com vistas a entender o significado, magnitude e objetivos estratégicos da Operação Lava Jato, na medida em que a bandeira do combate à corrupção está sendo usada habilmente para hipertrofiar o Poder Judiciário e a Polícia Federal, como parte de um processo de endurecimento do regime político que passa a adquirir traços cada vez mais autoritários.