A consciência para além do ‘Novembro Negro’

Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

O novembro negro tem uma enorme significância para os movimentos de reivindicações racial. Este é o mês em que se levanta a bandeira da resistência quilombola para a emancipação de um povo que lutou sozinho pela sua libertação, contrariando o lado burguês da história do Brasil, cuja afirmação da abolição da escravatura circula em torno de uma concessão da coroa.

“A forma mais extrema de alienação humana é a redução ao status de propriedade”, segundo Ângela Davis.

A consciência para o povo negro ultrapassa a barreira da mente. A consciência negra é corporal, é física, espiritual, começa nas pontas dos cabelos e desce até a raiz de nossas almas que se desacorrentam da alienação do ‘não ser’. Essa consciência que gira em torno da auto afirmação e do auto reconhecimento de nós mesmos, tem um valor histórico que vai de encontro a toda ideologia que nos foi empurrada goela abaixo durante 500 anos de um país que embora vivamos, ainda não nos pertence. E não nos pertence porque a nossa cultura, a nossa religião, os nossos traços faciais nos são negados como um crime irreparável de existirmos e sermos negros.

“(…)Ser negro é tomar consciência do processo ideológico que, por meio de um discurso mítico acerca de si, engendra uma estrutura de desconhecimento que o aprisiona numa imagem alienada, na qual se reconhece. Ser negro é tomar posse dessa consciência que reassegure o respeito às diferenças e que reafirme uma dignidade alheia a qualquer nível de exploração. Assim, ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro”, segundo Neuza Santos Souza.

Revolucionar as ações dos indivíduos de maneira particular e coletiva é dar-lhes armas o suficiente para reconhecer as correntes sociais que os aprisionam, para, portanto, reconhecermos o inimigo e atacá-lo em conjunto. Assim, reconhecer-se enquanto negro não é só tomar consciência de sua existência e colocação racial na sociedade para lutar contra o racismo, é entender que existimos a partir de um cultura que nos foi negada, que nos foi delegado um papel de absolver apenas o que não nos contempla como sujeitos protagonistas de nossas histórias. E todo este conjunto de ação nos levou à subjugação de periféricos, de subumanos, até que, aos poucos, o ‘ser negro’ passe a ser marginal e impuro.

Por isso, debater a nossa consciência está para além das datas, está todos os dias nas vielas de corpos desfalecidos no chão, de mulheres restituídas que por falta de oportunidade precisam sustentar seus filhos, está nas lavadeiras, nas donas de casa que suportaram a perda de seus filhos, nos jovens que saem às ruas gritando por seus direitos, nos que invadem cada vez mais as universidades, ou politizam a periferia.

A consciência negra está em nós, como a nossa própria carne. Ela não descansa, como a nossa própria resiliência manda e que, por si só, é revolucionária.

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil (04/12/2015)

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