Um paradoxo da esquerda brasileira
Publicado em: 22 de outubro de 2016
Colunistas
Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
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Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Não se pode, portanto, ser contra o impeachment e apoiar a Lava Jato.
Nenhuma destas duas posições faz sentido. Porque o pacote é indivisível. Falta coerência, nexo, coesão interna.
A chave da resposta a esta contradição lógica está na evidência de que a Lava Jato é muito popular. E o que é muito popular, porque unifica os humores das diferentes classes sociais que, em outras circunstâncias, estão divididas, é raro e tem muita força.
A consciência dos trabalhadores oscila sempre.
Ela é uma expressão da luta entre as ideias da classe dominante e as lições duras de suas experiências práticas de vida.
Só para relembrarmos um exemplo, a mobilização de apoio ao Papa João Paulo II no estádio do Morumbi, no início dos anos oitenta, foi uma mobilização muito popular, porém, ultra-reacionária. Juntou dezenas de milhares de trabalhadores e não se ouviu um só “Abaixo a ditadura”. O objetivo da visita do Papa, depois da onda de greves que sacudiu a ditadura militar no final dos anos setenta, era apoiar o projeto de transição gradual, lenta, controlada que estava sendo operado desde Brasília por Golbery e Figueiredo, com o apoio de Carter e, depois, de Reagan, no contexto da última etapa da guerra fria.
Temiam o perigo de uma ruptura.
Queriam evitar que a ditadura fosse derrubada.
Trabalhavam associados com Washington para garantir um projeto inspirado no Pacto de La Moncloa, que garantiu a transição no Estado Espanhol, sem a queda da monarquia, sem que se abrisse uma crise revolucionária.
Lula fez questão, nas cerimônias fúnebres do Papa polonês, de lembrar que esteve presente, o que, para dizer o mínimo, foi triste, ou lamentável.
Felizmente, a maioria da esquerda brasileira de então não caiu na armadilha. Não convocou para ir ao estádio do Morumbi ouvir o Papa polonês Woytila.
Outro exemplo: quando Tancredo faleceu em 1985 ocorreram grandes manifestações, em São Paulo, e as massas comovidas saíram aos milhares para saudá-lo. O mesmo aconteceu, também, em Minas Gerais. Muitos se perguntavam até se Tancredo não teria sido assassinado. Embora muito massivas foram ações dos setores mais atrasados e confusos.
Podemos lembrar, também, o apoio popular intenso ao Plano Cruzado, em 1986, que teve apoio de grupos com origem na esquerda, como o MR-8, ou, até pior, ao Plano Real em 1993. Ambos muito populares.
Um programa é a forma de traduzir a defesa de interesses.
A geografia é uma ciência linda.
A melhor proposta é aquela que coloca as massas em movimento.
A política marxista tem, portanto, limites de classe.
Não deve ser um vale tudo.
O empirismo é mal conselheiro.
Esse é o problema da palavra de ordem:
“Lava Jato até o fim”.
Há um plano político por trás da Lava Jato.
Esta operação não é uma investigação independente.
Ela é indivisível do Fora Dilma e Fora PT, que levou milhões às ruas para entregar o poder ao Congresso.
Que o devolveu a Temer.
A burguesia esteve dividida, seriamente, em relação a este projeto durante, pelo menos, um ano e meio. Esperou para verificar se o segundo mandato de Dilma Rousseff poderia fazer o ajuste.
Só a partir do final de 2015, foi se constituindo uma maioria. E houve frações burguesas derrotadas, justamente, porque temiam o preço da Lava Jato.
Eis o plano: criminalizar a direção do PT, e deslocar o bloco político que ofereceu sustentação aos seus governos, desembaraçando-se, se necessário, também, dos líderes das oligarquias e frações mais atrasadas e corruptas, para abrir um caminho para uma nova hegemonia. Conseguiram unir a a maioria da burguesia, mesmo com uma fração do empresariado indo para a cadeia, apoiando-se na classe média, para tentar levar até o fim um ajuste liberal: quem o dirige é Meirelles.
Sejamos claros: nunca houve e não haverá capitalismo sem corrupção, nem aqui, nem na Suécia, para que o exemplo seja claro. As taxas da infecção podem variar, mas o vírus é mutante, se adapta, resiste. É um parasita da acumulação de capital.
O regime de presidencialismo de coalizão favoreceu a metástase.
Por muitas e variadas razões: a oportunidade de negócios milionários nas privatizações; a impunidade histórica que protege a riqueza rápida; a inexistência de um partido burguês liberal de dimensão nacional; processos eleitorais, estupidamente, caros; e, claro, as peculiaridades brasileiras do processo de seleção dos quadros políticos dirigentes.
Podemos denunciar a corrupção, inclusive dos dirigentes do PT, sem apoiar a Lava Jato.
Os limites de classe da Lava Jato não tardarão a ficar claros.
A esquerda socialista não deve cair nesta armadilha.
Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil
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