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20 Setembro, 2016
  • Lula agora é réu na Lava Jato: três perguntas diretas e três respostas frontais

    Por: Valério Arcary, colunista do Esquerda Online

    1. O PT governou o Brasil em colaboração com banqueiros e grandes industriais, e recebeu o aplauso do imperialismo. Lula não viveu um processo de aburguesamento corrupto? Lula não era o máximo líder de uma organização corrupta que financiou o PT e o enriqueceu? Não deve ser condenado? Se condenado, não é justo que não possa se candidatar?

    Não, não é justo que seja Sérgio Moro a decidir o futuro de Lula. Os trabalhadores devem castigar Lula e o PT retirando apoio ao lulismo nos sindicatos, nos movimentos e nas urnas. Não Sergio Moro.
    Não só não apoiamos o projeto de uma Frente Ampla em torno de Lula em 2018, como consideramos chave para o futuro da esquerda começar desde já a construção de uma Frente da Esquerda Socialista independente do PT e seus aliados. Mas, defenderemos o direito de o PT poder apresentar Lula como candidato.

    Sim, o PT e Lula governaram para a classe dominante, e isso merece ser denunciado, mas isso não é ilegal. Pode ser, politicamente, imoral, mas não é ilegal. Temos diferenças irreconciliáveis com o lulismo, mas não podemos ser cúmplices de uma investigação policial que criminaliza o PT e Lula.

    Sim, Lula passou a viver um estilo de vida incompatível com uma identidade socialista. Foi algo que Pepe Mujica evitou no Uruguai, embora tenha, programaticamente, seguido uma orientação de colaboração de classes muito semelhante à de Lula. Mas, isso não é um crime. É imoral, mas não é ilegal. O aburguesamento do modo de vida como, por exemplo, o consumo de luxo proporcionado pela condição de Presidente da República merece ser julgado como imoral.

    Para aqueles que abraçam uma perspectiva de esquerda, a orientação de colaboração de classes foi errada, ou foi uma capitulação, ou foi uma traição, de acordo com a maior ou menor radicalização de cada um de nós. Mas, essa é uma denúncia política, e até moral. Sim, também, é moral, na medida em que a defesa de políticas reacionárias como, por exemplo, a manutenção do tripé macro econômico dos governos FHC, com superávit primário elevado, câmbio flutuante e taxa Selic elevada, merecem ser denunciadas como imorais pelos sacrifícios desproporcionais que recaíram sobre os ombros de quem trabalha.

    Mas, de novo, são denúncias políticas. Não fundamentam um processo de investigação criminal. A tese central da denúncia que apresenta Lula como o líder de uma quadrilha, apoiada na premissa, supostamente com fundamento jurídico, a teoria do ‘domínio de fato’ não é senão uma construção política para criminalizar Lula, ajudar a blindagem do governo Temer e impedir uma possível candidatura em 2018.

    A razão é simples: tem medo do apelo eleitoral que Lula ainda poderá exercer em 2018, depois de dois anos de exercício de poder por Temer e o arco de alianças que lhe garante 400 votos no Congresso Nacional.

    2. O triplex e o sítio não são dele? As palestras pagas a 250 mil dólares não eram partes de um esquema de corrupção?

    Os procuradores da Lava Jato imortalizaram a frase mais absurda do mês: “Temos convicção, mas não temos provas”. Não há provas de que o apartamento do Guarujá ou o sítio de Atibaia sejam propriedade de Lula. E estas propriedades não são incompatíveis com sua renda. Há indícios de que Lula pode ter negociado com empreiteiras reformas nestes imóveis como retribuição de favores, e isso seria imoral, se ele fosse o dono e as reformas não viessem a ser pagas.
    Mas, em não havendo provas, não sustentam o indiciamento.

    Não surpreende que Sergio Moro tenha aceito a denúncia. Os abusos no episódio da publicidade da gravação da conversa telefônica entre e Dilma e Lula já o desqualificaram como um juiz idôneo.

    As palestras milionárias de Lula são uma forma imoral de ganhar dinheiro, mas não são ilegais. Revelam que suas opiniões eram, seriamente, consideradas pelos mesmos capitalistas do Brasil que agora sustentam Temer. São imorais porque uma liderança dos trabalhadores não deve se prestar ao triste papel de conselheiro dos patrões. Mas, não são uma atividade mais criminosa do que as palestras de Fernando Henrique Cardoso, ou qualquer outro líder burguês.

    O ônus da prova em qualquer investigação de Justiça civilizada deve ser de quem acusa. A presunção da inocência não deve ser compreendida como um excesso de legalismo. Em um país como o Brasil, em que a classe dominante governou tanto tempo, e tantas vezes, destruindo as mais elementares liberdades democráticas, a esquerda tem o dever de saber dizer não a qualquer abuso de autoridade da Justiça.

    3. Só é possível ser contra o indiciamento, se acreditarmos na inocência de Lula?
    Não. Não devemos nos iludir sobre a inocência de Lula.

    Lula e a direção do PT não são inocentes. São, politicamente, culpados.

    Sim, Lula mudou e para pior e muito.

    Não obstante, não foi provado que Lula teve enriquecimento ilícito por atividade de corrupção, não foi provado que ele articulou a rede de financiamento do PT via superfaturamento de contratos da Petrobrás, e não foi provado que foi beneficiado nas reformas dos imóveis.

    Esses são os nós da questão no processo jurídico em que agora é réu.

    Não devemos ser cúmplices de uma operação política reacionária que pretende levar Lula à prisão, enquanto os líderes dos partidos financiados pelas grandes corporações ficam blindados para garantir a governabilidade de Temer.

    Quem deve julgar Lula pelos seus crimes políticos são os trabalhadores, a juventude e o povo. E não queremos esperar a vitória da revolução brasileira para este julgamento. Aqueles que foram oposição de esquerda ao lulismo devem combater para o que o lulismo seja julgado a partir de agora nas nossas organizações, nas lutas e nas eleições. Assim se poderá abrir o caminho para a superaração das ilusões no lulismo. Uma prisão de Lula pela Justiça deste Estado não derrotará a política do lulismo, ao contrário, o fortalecerá, interrompendo a experiência.

    Ser a favor da aceitação do indiciamento pelo juiz Sergio Moro é uma capitulação ao governo Temer, porque é o passo seguinte que tenta legitimar o impeachment de Dilma Rousseff.

    Não foi a frustração, a perplexidade, ou a indiferença dos trabalhadores com o governo Dilma Rousseff que abriram o caminho para o impeachment.

    Temer chegou ao poder ao final de uma campanha reacionária que levou milhões de acomodados às ruas, e uniu a burguesia em torno a um programa de choque neoliberal.

    O juiz de Curitiba poderá até decretar a prisão provisória de Lula.

    Aqueles que na esquerda não se opuserem a este arbítrio, mesmo que se dediquem por anos a pedir prisão para Aécio Neves e Renan Calheiros, ficarão para sempre cobertos pela vergonha.

    Foto: Roberto Parizotti / Cut

  • O Gaúcho: os bons, os maus e os feios

    Por: Setembrino Dal Bosco*

    Na região platina [Rio Grande do Sul, Argentina, Paraguai e Uruguai] um personagem polêmico ocupa lugar de destaque na historiografia sul-rio-grandense contemporânea: o gaúcho-gaucho. De consenso historiográfico, apenas a sua origem: o gaúcho teria se formado do nativo destribalizado, desgarrado, do contato do europeu com o indígena e vagueava pelos campos platinos. Nos períodos setecentista-oitocentista os trabalhadores do campo eram identificados como peões, cavaleiros, gaúchos, camiluchos, gaudérios, gauchos e changadores e considerados a ralé do Rio da Prata e Brasil. Colonos contrabandistas que comercializavam, ilegalmente, couros de gado.

    Os couros eram entregues aos traficantes europeus. Viviam as margens da lei. Homens de má índole. Aproveitavam-se das guerras territoriais fronteiriças entre Portugal e Espanha para pilhar gado nas estâncias portuguesas. A caça ao gado era a principal atividade do gaucho e lhes rendia algum dinheiro e produtos como a aguardente, garantindo assim, sua sobrevivência e seu modo de vida. Donos de uma liberdade invejável com moral, gosto e costumes irrefreável pela ordem social vigente.

    Eram excelentes cavaleiros e se identificavam com o cavalo. O cavalo era sua extensão. Sentia-se um homem superior no lombo de um cavalo. A pé, era “um homem ordinário”. A habilidade no cavalgar estava, em certa medida, definida antes mesmo que o gaucho tivesse condições de determiná-la. Ainda crianças, essa atividade era o principal meio de sobrevivência dos gauchos. Manuseavam com maestria a boleadeira, lança, facão e laço. Passavam as noites ao relento e se alimentavam basicamente de carne.

    A maioria dos viajantes que estiveram pelo território sul-rio-grandense, no século 19, referem-se aos gauchos como um ser irresponsável, que não se apegava à família, ao trabalho, era um ladrão de gado e passava a maior parte do tempo nos bolichos-pulperias, bebendo, cantarolando e jogando cartas.

    Peão de estância
    O gaúcho contemporâneo idealizado e materializado no Rio Grande do Sul resulta da unificação dos modos e costumes do peão de estância, trabalhador assalariado, que vendia a sua força de trabalho ao estancieiro, com o gaucho ladrão de gado, contrabandista, sem chefe, sem lei, sem polícia e sem governo. Os peões de estância eram, na sua grande maioria, nativos guaranis. Devido as suas habilidades na montaria e domesticação do gado, sobretudo, cavalar-muar, eram muito requisitados para trabalho nas Estâncias do Rio Grande do Sul. Eram os trabalhadores das lides do campo, responsáveis pelo amansamento e vigilância dos rebanhos.

    Deduz-se nos relatos dos viajantes que estiveram nos territórios do Rio Grande do Sul que os nativos, com a destruição dos sete povos em meados do século 18, acabaram se estabelecendo nas estâncias exercendo o trabalho de peão. Os gauchos se empregavam esporadicamente como peões de estância, quando estavam sem dinheiro.

    O contato dos imigrantes interno e externo com os peões nativos, trabalhadores escravizados e com o gaucho nas lides campeiras aproximou costumes e modos de vida diferenciados. Os primeiros já domesticados e estabelecidos nos limites da estância. O segundo levando uma vida sem chefes, sem leis e sem polícia, mas com uma habilidade enorme em laçar, caçar, courear, cavalgar, arrebanhar, vigiar etc., permitindo a apropriação por parte dos peões das qualidades dos gaúchos.

    O mito do bom gaúcho
    Possivelmente, o mito do bom gaúcho tenha surgido de uma forma paralela e concomitante, acompanhando a evolução de outro mito da historiografia sul-rio-grandense: a democracia pastoril. De uma maneira geral, a historiografia tradicional do Rio Grande do Sul apresenta uma sociedade homogeneizada, onde a atividade pastoril imprime traços característicos especiais ao gaúcho, de simplicidade e igualdade. Onde todos cultivam os mesmo ideais, hábitos e costumes. Em um ambiente que não tem diferenças sociais, o esforço é o trabalho comum entre latifundiários e seus servidores. Gerando homens leais e corajosos, dispostos a qualquer ato de heroísmo ou bravura pelo bem comum.

    No contexto do desenvolvimento da sociedade pastoril latifundiária do século 19, onde o fazendeiro, dono da estância, era, de acordo com o mito da democracia pastoril, benevolente até mesmo com seus trabalhadores escravizados, aos poucos, de uma forma lenta e gradual, o mito ideológico do bom gaúcho foi sendo construído, desconsiderando as características do gaucho histórico, suprimindo os seus defeitos e preservando as suas qualidades.

    Decretou-se a morte do gaúcho real e, de suas cinzas, como uma fênix grega, renasceu o gaúcho sul-rio-grandense idealizado – romanceado. Um trabalhador sincero, franco, bondoso, honesto, servil, ético, patriótico, etc. um exemplo de dedicação ao estancieiro.

    O gaúcho idealizado
    O gaúcho apareceu, na sua feição primitiva, em terras do rio da Prata. E começou a esboçar-se, como tipo social, a partir de 1536, data da primeira fundação de Buenos Aires. Apesar de existirem traços comuns entre os gauchos que vagueavam na região platina, como o cavalo e o boi; a carne assada e o mate amargo; o couro e o sebo; o luxo dos aperos e outros apetrechos de montaria; indumentárias de uso comum – chiripá; armas – a faca, a lança e as boleadeiras – etc., a historiografia tradicional sul-rio-grandense defendeu, e defende com unhas e dentes, que naquela região existiriam três tipos de gaúchos: o argentino, o uruguaio e o rio-grandense.

    Escorando-se no mito da democracia pastoril, a figura do bom gaúcho sul-rio-grandense começou a ser construída na literatura romântica, em 1868, tendo o jornalista e professor Apolinário Porto Alegre como um dos principais construtores desse mito. Apolinário foi um personagem atuante na literatura sul-rio-grandense do século 19. Foi poeta, contista, romancista, dramaturgo, ensaísta, pesquisador, crítico literário etc., e um dos principais fundadores do Partenon Literário. O Paternon literário foi fundado em 1868 por literatos liberais, republicanos e abolicionistas de Porto Alegre, entre eles Apolinário Porto Alegre e o romancista Caldre e Fião, com o objetivo de agregar intelectuais para discutir filosofia, política, cultura e comportamento e sociedade.

    A tese orientadora do “bom gaúcho” provavelmente tem origem nas elaborações do tradicionalista Antônio Augusto Fagundes, por volta de 1940, que escreveu sobre os hábitos e costumes diferenciados dos gaúchos sul-rio-grandenses, em relação aos diferentes tipos de gaúchos que vagueavam pelos campos da região platina. O eixo central das elaborações apresenta o gaúcho dos pampas do Rio Grande do Sul como um homem honrado, destemido, bondoso, valente, franco, defensor da pátria, honesto, etc. Ataca ferozmente a visão pangauchista e, sobretudo, os historiadores que andam em busca do gaúcho real.

    Sem chefes, sem lei, sem polícia
    Enquanto os gaúchos da banda de cá eram enaltecidos pelos literatos sul-rio-grandenses como sinônimo de liberdade, honradez, valentia, bravura, hospitaleiros, responsáveis, honrados, violentos apenas quando “lhe pisavam no poncho”, o gaucho da banda de lá – Argentina, Uruguai e Paraguai – eram estereotipados como selvagens, violentos, assassinos, ladrões de gado, saqueadores, mulherengos, bêbados, jogadores, irresponsáveis etc. apesar de que, na sua origem, possuíssem as mesmas características.

    Os gauchos construíram um modo de vida próprio, um grupo social que vivia sem chefes, sem leis, sem polícia. A desobediência dos gauchos das normas e regulamentações vigentes, sua relutância em se estabelecer definitivamente, despertou nos estancieiros da região platina, à vontade de enquadrá-los no modelo de organização social existente. Os estancieiros na tentativa de refrear o modo de vida dos gaúchos impunham regramentos inócuos, sem efeito prático, aos bolicheiros, como fechar o estabelecimento aos domingos, proibição dos jogos de cartas, da venda de bebidas alcoólicas.

    Gaúchos diversos e difusos
    Na tentativa de encontrar uma justificação plausível para diferenciar o bom gaúcho sul-rio-grandense do mau gaúcho que vagueava pelos pampas da Argentina, Uruguai e Paraguai, criou-se um processo evolutivo de gaúcho: gaudérios, guaso, gaucho, gaúcho. A figura do pré-gaúcho exerceu importante papel na construção do mito do bom gaúcho. No começo o conceito gaúcho era muito vago. Por ser vago açambarcava todos os errantes e vagos dos pampas platinos – gaudérios, changadores, guapos, gaúcho malo, gauchos e gaúchos – sob sua guarda. Em regra, os adjetivos que acompanhavam o personagem eram depreciativos.

    No entanto, nos relatos dos viajantes que aqui estiveram, e presenciaram in loco o modo de vida daquele ser de disposições taciturnas e apáticas, todos eram nascidos na região platina, tocavam muito mal uma guitarra, cantavam desafinadamente, caçavam gado com suas boleadeiras e lanças, comiam carne assada, dormiam ao relento, eram bons cavaleiros, usavam botas, esporas de latão, sombrero, poncho, chiripá, ganhavam dinheiro com o contrabando de couro, não tinham patrão, não trabalhavam a terra, não sabiam o que era governo, freqüentavam bolichos-pulperias onde jogavam, bebiam aguardente e se divertiam com as mulheres.

    A historiografia tradicional sul-rio-grandense tratou de diferenciar cada um deles. Os de boa índole, os bons, habitavam única e exclusivamente os pampas do Rio Grande do Sul. Os de má índole, os maus e os feios – gaudério, guapo, gaúcho malo, gaucho etc. – habitavam os territórios pampeanos do Paraguai, Uruguai e Argentina. Utilizando este expediente, sem sequer ficarem enrubescidos, nossos historiadores tradicionais determinaram que o gaúcho violento, mau caráter, ladrão de gado, eterno inimigo da sociedade, indomável, aventureiro, jogador. etc. pertencia às populações castelhanas. Por outro lado, o gaúcho do Rio Grande do Sul era sóbrio e ordeiro. Um exemplo!

    Todos gaúchos platinos
    Apesar dos criadores do mito do bom gaúcho sul-rio-grandense terem e continuarem se esforçando ao máximo para tentar sustentar a surrada tese, justificando esta tentativa de diferenciação em gaúchos diversos e difusos como gaudério, guapo, gaúcho malo, gaucho. todos adjetivos que identificam o gaúcho da banda de lá, ou seja, o mau gaúcho, criando, inclusive, numa concepção darwinista, a existência do pré-gaúcho, não há mais espaço para negar que o gaúcho do Rio Grande do Sul era o mesmo gaucho da região platina.

    O gaucho real morreu com o cercamento dos campos em 1870. A cerca transformou o gaucho em invasor. O roubo do gado, que nas palavras do viajante francês August Saint-Hilaire, que esteve nos pampas do RS em 1820, era considerado como “cousa legítima”, passou a ser tratado como crime de abigeato passível de condenação pela justiça. O gaucho ultrapassava a cerca, caçava o gado e era preso e condenado.

    Aos poucos, com a evolução da atividade pastoril latifundiária na região do Prata, a estância foi engolindo o gaucho real, reduzindo seu espaço vitalício, demarcando os pampas sul-rio-grandense e platino e, o seu lugar foi tomado pelo peão de estância, que possuía algumas características dos gaúchos como agilidade no laço, bons nas lides campeiras e no cavalo mas que não era o gaúcho histórico, pois o peão de estância aceitava de uma forma passiva e submissa a exploração da sua força de trabalho pelo latifundiário.

    Acordo historiográfico há quando se trata da origem do gaúcho. Não há acordo quando se trata da possível diferenciação existente entre as características do gaucho da região platina com o gaúcho do Rio Grande do Sul. O gaúcho – gaucho era o ser errante e vago que, no lombo de um cavalo, portando apenas suas armas para caçar e se defender, campeava pelos campos da região do Prata tendo uma vastidão ao seu alcance. E as autoridades do Rio Grande do Sul insistem em enaltecer, anualmente, em setembro, durante a Semana Farroupilha, a eternização do mito.

    Fontes
    Fonte da foto: http://www.museopagodeloslobos.com.ar/2010/05/gauchos-frontera-de-la-civilizacion-y.html
    ALBECHE, Daysi Lange. Imagens do gaúcho: história e mitificação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.
    BAGUET. A. Viagem ao Rio grande do Sul. Santa Cruz do Sul. Santa Cruz do Sul: EDUNISC; Florianópolis: PARULA, 1997.
    BOSCO. Eduardo Jorge. El gaúcho a través de los testimonios extrangeros 1773-1780. Buenos Aires: Emece Editores S.A. 1947.
    BRAZ, Evaldo Munõz. Manifesto gaúcho. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2000.
    DREYS, Nicolau. Notícias descritivas da província do RS de São Pedro do Sul. 4 ed. Porto Alegre: Nova Dimensão, EdiPUCRS, 1990.
    Evaldo Munõz. Retratos do gaúcho antigo: a gênese de uma cultura. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2002.
    GOULART, Jorge Salis. A formação do Rio Grande do Sul. Caxias do Sul: Martins Livreiro, 1985.
    HERNADEZ, José. El gaúcho Martin Fierro. [Trad. Walmir Ayala]. Rio de Janeiro: EDIOURO S.A. 1991.
    HÖRMEYER, Joseph. O Rio Grande do Sul de 1850: descrição da Província do Rio Grande do Sul no Brasil meridional. Porto Alegre: D.C. Luzzatto Ed. EDUNI-SUL, 1986.
    ISABELLE, Arsène. Viagem ao Rio Grande do Sul, 1833-1834. Trad. e notas de Dante de Laytano. 2 ed. Porto Alegre:Martins Livreiro, 1983.
    MAESTRI, Mário. Uma história do Rio Grande do Sul: a ocupação do território. 2 ed. Passo Fundo: EdiUPF, 2000.
    MAESTRI, Mário. Deus é grande o mato é maior: História, trabalho e resistência dos trabalhadores escravizados no RS. Passo Fundo: EdiUPF, 2002.
    NICHOLS, Madaline Wallis. O gaúcho: caçador de gado – cavaleiro ideal de romance. [Trad. e notas Castilhos Goycochêa]. Rio de Janeiro: Zelio Valverde, 1946.
    QUESADA, Maria Sáenz. Los estancierios. Buenos Aires: Sudamericana, 1980.
    REVERBEL, Carlos. O Gaúcho: aspectos de sua formação no Rio Grande do Sul e no Rio da Prata. Porto Alegre: L&PM, 2002.
    SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul 1820-1821. Trad. Leonam de Azeredo Penna. Belo Horizonte: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1974.

    *Setembrino Dal Bosco, 49. Historiador. Coordenador da Secretaria de Imprensa do Sindicato dos Bancários de Passo Fundo e Região.

  • O tema racial não é um ‘recorte’

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    Quando pensamos no programa e nas práticas socialistas dentro das organizações da esquerda revolucionária, vemos em mente o debate que a priori deve se ater às teorias dos grande sociólogos marxistas e de como devemos interligar estas teorias com a realidade concreta e conjuntura atual da nossa sociedade.

    Na prática, as organizações de esquerda tem como debate inicial, o tema de classes e de como a realidade econômica do indivíduo interfere nas suas atitudes, é a classe social quem determina o seu nível educacional, o seu conceito de moral e valores, e o modo como você vai ser visto e respeitado socialmente via de regras. Entretanto, devemos pensar que a luta de classes nos países colonizados começa a partir de um olhar negro, começa portanto, a partir da escravidão e por conseguinte do racismo.

    Primeiramente, é necessário que façamos a separação do que é o racismo hoje e que não foi o racismo o propulsor da escravidão, mas o oposto. A escravidão é uma forma antiga de se criar monopólios, e sim, em África também existiu escravidão, porém, ao contrário do que ocorrera no Brasil, Estados Unidos e afins, a escravidão em África não gerava lucratividade e nem era um meio de produção, e a condição humana dos escravizados não lhes eram negados. A escravidão começa a priori por xenofobia, o eurocentrismo acreditava portanto que aqueles seres não eram civilizados, pois a sua cultura, suas vestes e a sua comunicação eram tipicamente “animalescas”. Uma das principais características do escravismo brasileiro, era a rebeldia de seus escravizados, mulheres matavam seus filhos, abortavam quando podiam, se suicidavam, alguns matavam seus senhores, se rebelavam e por fim, se organizavam em quilombos. Portanto, podemos afirmar categoricamente que as organizações escravocratas eram sem sombra de dúvidas, movimentações “trabalhistas”, mesmo que a estes nenhum direito de trabalho, nem mesmo pagamento fosse concedido.

    Hoje, a mão de obra que mais trabalha e que é menos remunerada, é a negra. Qualquer estatística de mercado confirma que existe uma hierarquia de gênero e raça no Brasil no que diz respeito à salários e qualidade de vida, tendo as mulheres negras em último lugar em ambos aspectos e sendo em sua grande maioria, chefes das famílias mais pobres da sociedade. As mulheres e homens negros ainda estão alocados nas grandes periferias urbanas, com péssimas condições de moradia e estando em grandes números nos dados de desemprego, as mulheres negras que quando mães estão em maior número nos dados de mãe solteira, não conseguem sustentar a rotina de trabalho e estudo por falta de amparo estatal para uma educação integral de seus filhos, e entre desistir de estudar e/ou trabalhar, os sustento sempre falará mais alto, fazendo com que essas mulheres não consigam realizar seus estudos ou demorem muitos mais anos para isso.

    Temos portanto, que absolver a ideia de que falar de classe é intrinsecamente falar de raça, é impossível realizar a separação de temas ou tratar a questão racial como recorte, não existe a possibilidade de anexarmos a questão de raça na luta de classes, porque a luta de classes no Brasil começa pela luta da libertação de negras e negros, pela luta das primeiras organizações de trabalhadores que exigiam ser tratados como gente, que exigiam que fossem construídos direitos para aqueles que enriqueciam o que era portanto a primeira classe burguesa do país.

    A classe trabalhadora é negra, e essa é a que mais tem resistido desde o início da colonização do pais, não há como discordar quando dizemos que “A revolução socialista será negra ou não será”

  • Manipulação fotográfica: de Stalin à Articulação Sindical

    Por Juliana Donato, de São Paulo, SP

    Em meio à greve nacional bancária, uma fotografia surpreende: tirada em Belo Horizonte, nela ativistas e dirigentes sindicais exibem seus cartazes. Até aí, tudo normal. No entanto, na versão para ser publicada no jornal do sindicato, quatro pessoas simplesmente desaparecem: Carine Martins, bancária da CEF, militante da Oposição Bancária de BH e candidata a vereadora pelo MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista), além de Fernando Neiva, Conselheiro de Administração da CEF, eleito pelos empregados, Leonardo de Souza e Warley Costa, todos diretores do sindicato, mas que romperam com a sua direção majoritária, a Articulação Sindical Bancária, e hoje fazem oposição a ela.

    A comparação com Stalin é inevitável. Para assegurar seu poder e sua estrategia, que levou a revolução socialista de outubro de 1917 à derrota, o ditador soviético utilizou inúmeros métodos, dentre eles a falsificação de material fotográfico. Não bastava eliminar fisicamente seus opositores, como fez com Trotsky. Era preciso apagá-los da história. Stalin e seu regime destruíram a revolução. Não há continuidade política entre Lenin e Stalin e foi preciso manipular a realidade para fazer parecer que havia, engrandecendo Stalin, mostrando-o junto a Lenin e eliminando Trotsky. Essa foi uma das funções da adulteração de fotografias.
    unnamed-1unnamedMas, para quê a burocracia sindical falsifica fotografias?

    Guardadas as devidas proporções, assim como Stalin, a burocracia sindical, quando falsifica fotografias, tem o objetivo de engrandecer o seu papel na história, ao mesmo tempo em que elimina o de seus opositores. Isso não é prática incomum. Muitas vezes, esta falsificação é feita de maneira mais discreta, mas não menos grave. Por exemplo, ao fotografarem somente os dirigentes sindicais quando estão presentes também ativistas de oposição. Mas, desta vez, a falsificação é tão evidente e grosseira que não foi possível disfarçar.

    O objetivo da falsificação é mostrar aos trabalhadores que, por trás dos sindicatos, estão eles, e que qualquer vitória vem do esforço deles, os heróis, os dirigentes sindicais. Querem, com isso, mostrar resultado, ganhar prestígio, mas, acima de tudo, querem garantir a reeleição, ou seja, querem continuar no poder da máquina sindical, que traz para eles privilégios materiais e políticos. Por isso, assim como Stalin e os homens que o rodeavam, chamamo-lhes burocratas. São homens e mulheres do aparato. E pelo poder dos aparatos é que guiam suas ações.

    Infelizmente, este tipo de atitude tem afastado os trabalhadores dos sindicatos e enfraquecido a luta coletiva. Muitos não se sentem mais representados por estas entidades, não as vêem como suas. Isso é muito ruim, não para os dirigentes sindicais, mas para nós mesmos, os trabalhadores. Os sindicatos devem ser instrumentos de luta da classe trabalhadora. Mas, para que o sejam, devemos ocupar seus espaços e fazer ouvir a nossa voz. Na greve bancária e em todas as lutas, precisamos mostrar que quem manda somos nós, os trabalhadores, e não os burocratas sindicais.

    Sobre a fotografia, exigimos explicação e retratação pública dos dirigentes do Sindicato dos Bancários de BH, que utilizaram o jornal da categoria para falsificar de forma grosseira a realidade. E avisamos: fingir que os opositores não existem não nos fará desaparecer.

  • Acampamento com 650 famílias em Itirapina, SP, pede solidariedade

    Da Redação

    Trabalhadores sem terra de São Carlos e Itirapina, em São Paulo, pedem solidariedade à ocupação no Horto Florestal de Itirapina. A ocupação aconteceu na madrugada do dia 3 de setembro, um sábado e reúne aproximadamente 650 famílias que dependem da terra para moradia e sobrevivência. Uma campanha de terror vem sendo orquestrada contra a ocupação, com o objetivo de afastar os novos moradores do local. Em carta, eles explicam os motivos da ocupação e a origem do terreno que se encontrava improdutivo.

    De acordo o relato escrito por um dos ocupantes, a área é de uma antiga fazenda conhecida como Horto de Itirapina, de propriedade da Secretaria do Meio Ambiente do Governo do Estado de São Paulo. “Uma grande propriedade que há muito tempo vem sendo arrendada a grandes empresários para a extração de resina e madeira, enquanto nós e outras pessoas do povo não temos dinheiro para comprar um caixão, muito menos um pedaço de terra para enterrar nossos mortos”, destaca a carta.

    Os que argumentam contra a ocupação afirmam que esta poderia provocar poluição da área, informação refutada pelos ocupantes. O local era antes utilizado para experimentos do estado, mas hoje se encontra replantada com pinheiros, enquanto condomínios em volta à represa, localizados em área de preservação de fato, continuam poluindo a região.

    “Que as riquezas produzidas no Horto de Itirapina sirvam à nossa gente, e não mais para encher os cofres de grandes empresas”, conclui o pedido de solidariedade.

    Leia a carta na íntegra:

    Carta dos Sem Terra do Acampamento do Horto de Itirapina – SP

    Apresentação: Somos Trabalhadores de São Carlos e Itirapina. Lutamos por um futuro melhor para nós e para nossos filhos e, também, para nossa gente de Itirapina e região.

    Porque Lutamos: A Fazenda conhecida como Horto de Itirapina de propriedade da secretaria do meio ambiente do governo do estado de São Paulo é uma grande propriedade que há muito tempo vem sendo arrendada a grandes empresários para a extração de resina e madeira, enquanto nós e outras pessoas do povo não temos dinheiro para compra um caixão, muito menos um pedaço de terra para enterrar nossos mortos.

    Cumprimentos de Lei: O estatuto da terra, lei 4504 de 30 de novembro de 1964, diz que a reforma agraria deve ser feita prioritariamente em terras da união dos estados e dos municípios. Entre outras leis consta o projeto de lei 249/2013 votado em 07/06/2016 que institui a venda de 24 propriedades do estado, no qual a prioridade de compra será para a união, para a reforma agrária. Essas terras não devem ser vendidas para grandes empresários ou latifundiários a preço de banana, à custa da exploração de nosso povo.

    O que queremos: Somos trabalhadores brasileiros e não podemos ficar calados, vendo terras do povo sendo exploradas, promovendo lucro a grandes empresários, enquanto nós e outras pessoas do povo sofremos dificuldades e a esperança de um futuro de prosperidade está cada vez mais distante.

    Pedimos apoio: Sabemos que a luta não será fácil e que ainda vamos passar por grandes dificuldades, mas preferimos viver lutando ao invés de ficar acomodados. Precisamos de apoio de cada morador de Itirapina e região, e, principalmente, de nossas autoridades.

    Nossa vitória será a vitória de todos
    Mais trabalho, mais renda, mais oportunidade, mais desenvolvimento. Que as riquezas produzidas no Horto de Itirapina sirvam a nossa gente, e não mais para encher os cofres de grandes empresas.

    (Escrita pelo Sr. Mauro, do acampamento, no calor da ocupação, durante a madrugada)

  • Temer quer educadores na sala de aula no 22 de setembro, dia de paralisação

    Por: Carolina Burgos, da Redação

    O presidente ilegítimo Michel Temer (PMDB) parece estar muito preocupado com o desdobramento das paralisações que ocorrerão no dia 22 de setembro, convocadas pelas centrais sindicais e movimentos sociais. Para a data, professores e servidores públicos organizam protestos em todo o país contra o ajustes fiscal, o PLP 257, a PEC 241 e a Reforma da Previdência. Temer teria alegado que os professores não deveriam realizar paralisações, pois o país precisaria desses profissionais na sala de aula.

    O receio de Temer é previsível, de que esta data sirva como pontapé para outras iniciativas que massifiquem o questionamento ao governo. Só em São Paulo, 30 mil docentes se reuniram na Praça da República e aprovaram o dia 22 para paralisação. Também contestaram o projeto de Reforma da Previdência do governo peemedebista.

    Além dos protestos que já acontecem em todo o país pedindo a saída imediata de Temer da Presidência da República, como o que reuniu mais de cem mil pessoas na Avenida Paulista, agora categorias podem entrar em cena de forma organizada, o que impactaria ainda mais os serviços e a produção.

    Além dos educadores e servidores, os metalúrgicos articulam para o próximo dia 29 de setembro, paralisação nacional contra as demissões e a retirada de direitos.  Outros setores, como bancários e trabalhadores dos Correios já se encontram em greve. Com a intransigência dos bancos e do governo, a de bancários vai para a terceira semana e não tem previsão de acabar. Em São Paulo, a categoria fez uma passeata nesta segunda-feira (19) em defesa dos direitos.

    Com toda essa dinâmica, o apelo de Temer de que o país precisaria dos trabalhadores e que por isso não deveriam protestar, parece não surtir efeito. As mobilizações prometem se intensificar e o ‘Fora Temer’ é visto em todos esses processos.

    Foto: Beto Barata/PR

  • 22 de setembro: um passo para derrotar o ajuste de Temer

    A semana do impeachment de Dilma surpreendeu a todos e provavelmente até mesmo o PT. As mobilizações do Fora Temer se espalharam por todo país.

    Uma parte da população entendeu a manobra reacionária do Congresso Nacional. Temer não conseguiu “pacificar o Brasil”. A instabilidade continua.

    Um poderoso bloco entre os de cima
    A articulação política que levou ao impeachment de Dilma Roussef tem um projeto nítido.  Em 2015 fizeram pelo menos dois dias de atos expressivos em março e agosto, moveram uma base social de classe média alta.

    Fazem parte deste bloco reacionário a maioria do Congresso Nacional, a grande mídia, as Federações patronais, a FIESP, FIRJAM, FIEMG, os bancos e o capital financeiro.

    O plano é: corte de direitos, ajuste fiscal, reforma da previdência, reforma trabalhista, etc. Em resumo: os trabalhadores tem que pagar a conta da crise.

    A linha ideológica é evidente, se apoiam na Lava Jato e na grande mídia para convencer a população que o “problema do Brasil” é a corrupção e o PT. Assim buscam através de mecanismos jurídicos e escândalos políticos passar uma mensagem: toda a esquerda é corrupta, eles não podem governar.

    O ódio de classe que faltou à Lula e ao PT, sobra para eles. O bloco dos de cima tem ódio dos pobres.

    Única saída
    Não nos enganemos mais uma vez. A saída Lula 2018 não resolve o problema dos trabalhadores. Até lá Temer já terá aplicado uma mudança profunda na legislação brasileira. Retrocederemos décadas.  O ajuste precisa cair agora. Temer precisa ser derrotado nas ruas.

    Além disso “Lula 2018” não pode ser a estratégia da esquerda. Este caminho foi testado, exaustivamente. É preciso coragem para superar o petismo. A conciliação de classes já mostrou sua falência como mecanismo de transformação social.

    Quando tem crescimento econômico o capital ganha e distribui migalhas, quando tem crise jogam a conta nas costas dos trabalhadores. É  o que estão fazendo agora, precisamos tirar lições do passado.

    Dia 22 e 29 de setembro
    As centrais sindicais e os movimentos sociais estão convocando mais dois dias de luta neste mês: 22 e 29 de setembro. No dia 22 sairão às ruas os professores e servidores públicos em geral contra o PLP 257, a PEC 241 e a reforma da previdência.

    No dia 29 os metalúrgicos articulam uma paralisação nacional contra as demissões e a retirada de direitos. 

    Será um teste na disposição em mobilizar a classe trabalhadora para barrar o ajuste, já que os sindicatos ainda são majoritariamente conduzidos pelo PT.

    Não temos dúvida que é preciso ir às ruas. Colocar o time em campo. Unificar todos os setores. Nenhuma categoria sozinha pode enfrentar o bloco que hoje governa o país. As campanhas salariais não tem futuro sem unidade. Um bloco dos de baixo unificado tem muito poder.

    Empregados de carteira assinada, servidores públicos, terceirizados, empregados precários, desempregados, jovens que não conseguiram nem o primeiro emprego, idosos que se aposentaram, mas não conseguem sobreviver, negros, mulheres, LGBT’s que dependem do seu próprio esforço pra viver….

    Somos milhões. É preciso entrar em movimento e barrar os planos de Temer. Vamos dar um passo em frente no dia 22 de setembro.

    Atos do dia 22 de setembro
    São Paulo: 16h, MASP.
    Rio de Janeiro: 16h, Candelária.
    Belo Horizonte: 9h, Praça da Estação (Frente Povo em medo e Brasil Popular). 14h, Praça Sete (Ato Unificado das Centrais Sindicais).
    Fortaleza: 8h,  Av. Duque de Caxias. 13h, Av. Borges de Melo.

    Mande as informações da sua cidade: portalesquerdaonline@gmail.com

  • Temer pretende reformar o ensino médio através de Medida Provisória

    Por William Mota, Belém, PA

    Na quinta-feira, 22 de setembro, o governo Temer deverá editar uma Medida Provisória com um projeto de reforma do ensino médio brasileiro. A idéia de Temer e Mendonça Filho, o famigerado ministro da educação, é acelerar a tramitação do projeto no Congresso para ser implantado já em 2017. Isso, por si só, já é escandaloso, pois demonstra o total desprezo deste governo ilegítimo pelo debate e pela participação popular na construção de políticas públicas.

    Mas o problema não está apenas na forma autoritária como o governo pretende encaminhar esta reforma, que terá grande impacto se for efetivada. Está também no conteúdo da proposta.

    Mendonça Filho e Michel Temer querem flexibilizar o currículo do Ensino Médio, tornando-o mais enxuto, aligeirado e recriando as habilitações em cinco áreas específicas, a saber: linguagens, matemática, ciências humanas, ciências da natureza e ensino técnico. O primeiro ano seria comum a todas as áreas e os dois anos restantes seriam específicos da área escolhida pelo estudante. Além disso, se o estudante quiser seguir seus estudos no nível superior, ele só poderá se candidatar a uma vaga em um curso que seja de uma área afim à sua habilitação no ensino médio. Exemplo: se um estudante de Ensino Médio optar pela habilitação em Ciências Humanas, ele não poderá tentar cursar Medicina ou Engenharia na Universidade.

    O objetivo do governo com essa reforma é reduzir o número de disciplinas de 13 para cerca de 6 ou 7, fragmentar o acesso ao conhecimento, esvaziar o conteúdo crítico dos currículos, aprofundar a divisão já existente entre as áreas do conhecimento e consolidar a segregação entre escolas para ricos e escolas para pobres.  

    Trata-se de um modelo que remonta à reforma educacional do período da ditadura militar ou mesmo à década de 1940, durante a reforma Capanema da ditadura de Getúlio Vargas, como analisa o Professor do IFRN Dante Moura.

    Esta reforma obviamente que está sintonizada com o Projeto da Escola sem Partido, com a PEC 241/2016 que pretende congelar os gastos com educação por 20 anos e o conjunto da obra do ajuste fiscal e demais contra-reformas que retiram direitos.

    É urgente que os movimentos sociais que atuam em defesa da educação pública, trabalhadores da educação, pais e alunos se apropriem desta discussão e enfrentem mais este ataque à educação e à juventude. Está aí mais uma razão para fortalecer a luta pelo Fora Temer e o Fora Mendonça.

    Foto: Michel Temer junto com o Ministro da Educação Mendonça Filho, Imagem retirada do site Pragmatismo Político

  • Peço licença, mas preciso falar de quem me protege

    Por Laura Daltro, São Paulo, SP

    O texto pode ser longo…

    Eu sou filha de Obaluaê, com Oxalá e Iansã. Meus orixás, regentes da minha vida e dos meus caminhos.

    Sou do Maranhão, de São Luís, sou neta de Francisca Salazar­, Xica Salazar,­ que foi mãe de santo em São Luís e que morreu há muitos anos, bem antes de eu nascer. Carrego minha bisavó comigo, sei que ela sempre está por perto, zelando por toda minha família carnal, hoje, sei que ela anda ainda mais perto.

    Tenho também meus guardiões, meu exu, minha pombo gira, meu erê, meus caboclos, meu preto velho, que caminham comigo por onde vou, me protegendo e quebrando as demandas que aparecem no meu caminho.

    É por toda essa ancestralidade, proteção e cuidado vindos dos meus guias, e ancestrais que escrevo este texto.

    Muito se fala sobre a intolerância às religiões de matrizes africanas. Intolerância que tem matado no Brasil inteiro e que aprendemos a odiar ou ter medo ainda na escola. É preciso falar dessa intolerância, mas neste texto quero apresentar um pouco a diversidade dessa religião.

    O Candomblé e a Umbanda no Brasil são religiões herdadas por negros trazidos ao Brasil para serem escravizados.

    O processo de escravidão trouxe ao Brasil negros de todas as partes da África, juntando dessa forma negros dos mais diversos países da África em uma fazenda.

    Os mais velhos nos barracões costumam contar que essa mistura de nações fez surgir o que hoje conhecemos como Candomblé e Umbanda. Dizem que  uma tribo especifica da Áfricapoderia ser de um Orixá ­por exemplo, em Angola, digamos que o Orixá que regia a cabeça de todos os homens e mulheres nascidos ali, seja Oxalá, em Guiné­Bissau Iansã, e assim sucessivamente, cada tribo um Orixá.

    Durante o processo de invasões e destruição das tribos para o tráfico negreiro, negros de diferentes tribos eram vendidos para diferentes fazendas, limitando, dessa forma, o culto ao Orixá que regia sua cabeça e dono de sua tribo.

    A saída para que a o culto aos seus respectivos orixás não deixasse de existir, era se juntar e a cultuar a todos os Orixás. Assim se dá o que conhecemos hoje. Um terreiro onde as pessoas tem diferentes Orixás e entidades.

    A religião de matriz africana no Brasil é diversa! Existe a Nação Ketu de Candomblé, A Angola. Existe os Terreiros de Mina no Maranhão­ conhecido por seus caboclos e vodus. Existe a Umbanda. Cada terreiro é regido por um pai ou mãe de santo, que é regido por um Orixá ou entidade.

    São religiões distintas,onde os santos são cultuados de maneiras distintas, mas que são marcadas por uma coisa em comum, a resistência após anos de violência e recriminação.

    Laroyê!

    Exu é um dos mais famosos Orixás, mas que vem também como entidade. Exu é temido e repreendido por aqueles que não conhecem sua missão. Exu é o mensageiro, guardião, protetor, conhecido também por abrir caminhos.

    Quando o chicote estralava em nossas costas ainda em tempos de escravidão, durante os rituais de culto aos nossos Orixás, as mães de santo chamavam por Exu na esperança e certeza de que ele protegeria os momentos de culto da repressão vinda da Casa grande.

    Muitas vezes os donos da Casa grande temiam Exu quando queriam acabar com os rituais, por isso o associavam ao diabo ou aos demônios. Atributo que ainda hoje é muito dado aos Exus e Pombo Giras.

    Por terem esse significado de protetor, mensageiro e guardião, os quartos de Exu são sempre o primeiro compartimento dos terreiros e barracões. Eles geralmente ficam nas portas ou portões dos terreiros, guardando os filhos e os segredos de dentro do barracão, seja nas festas ou nos rituais internos.

    A imagem que vendem dos Exus e Pombo giras é uma imagem distorcida do que eles significam e do papel que cumprem.

    Exu e Pombo Gira andam juntos, abrindo os caminhos e guardando seus filhos. Na verdade, os dois são o retrato mais próximo do ser humano. Não fazem questão de serem apresentados como bondosos­ nenhuma entidade sente essa necessidade.

    São responsáveis também pela virilidade, por isso são muito associados a sexualidade.

    As pombo giras, são as mulheres que trabalham também nessa linha de Exu. Conhecidas como Exu­Pombo Giras.

    Em suas histórias sempre carregam o peso de uma relação abusiva, um amor perdido ou a vida na prostituição. Muitas contam que morreram por violência de seus companheiros. São conselheiras, sempre com palavras, as vezes duras, mas que ensinam que as mulheres são lindas como são, e que devem se amar em primeiro lugar. Trabalham na linha do amor e também são protetoras, guardiãs e mensageiras.

    Costumo dizer que elas, são as mulheres mais feministas que conheço.

    Nossos orixás e entidades nos ensinam acima de tudo, a caridade.

    O ajudar ao próximo independente de onde vem ou do que fez.

    Num barracão aprendemos a ser humildes, aprendemos a aprender, isso torna cada experiência nossa com nossos Orixás uma parte do renascimento que para nós também é um resgate da nossa ancestralidade. Não existe um que é maior que o outro, existe os que ensinam e o que aprende para um dia ensinar.

    É uma casa e uma família, como a que temos em casa que se reúne na intenção de relembrar e cultuar não só nossos Orixás, mas também nossos ancestrais que são os nossos protetores e guias, nossos conselheiros, e guardiões, nossos erês, nossos velhos.

    Acredito que esse é o maior retrato da resistência do povo negro, mesmo diante do massacre racista que tenta nos exterminar a mais de 400 anos.

    Resistimos e existimos e eles resistem conosco!

     

  • Alguns motivos para não votarmos em Fernando Haddad

    Por: Edu, de São Paulo, SP

    Nos últimos anos, o nosso país foi marcado por uma série de mobilizações populares progressistas, desde a luta pela redução da tarifa do transporte público, até a atual luta contra Temer e suas reformas. Comum a todas elas é a participação majoritária da juventude, entregando à luta toda a disposição de tomar as ruas e nelas permanecer.

    As jovens secundaristas foram reprimidas pela polícia militar enquanto lutavam contra o fechamento de escolas e, por isso, não hesitam em rejeitar o PSDB de João Dória, enquanto alternativa de governo para a cidade. A jovem trabalhadora da periferia, atendente do telemarketing, tem visto poucos direitos trabalhistas sendo reduzidos ainda mais por Temer e pelo PMDB e, assim, sabe também que quem está associada com esse projeto não lhes serve, como é o caso de Marta. Já a jovem LGBT, que passeava na rua com sua companheira antes de ser brutalmente agredida, sabe mais do que ninguém que a LGBTfobia não deve ser aceita, muito menos incentivada, como fazem os principais apoiadores de Celso Russomanno, do PRB.

    A juventude, em sua maioria, portanto, divide-se entre Fernando Haddad (PT) e Luiza Erundina (PSOL). Entretanto, acredito que apenas Erundina é uma alternativa de esquerda para a juventude, como exporto no texto ‘Eleições São Paulo: necessidade de programa para combater cidade negócio’. Quero agora, na verdade, discutir com os jovens leitores porque não devemos votar em Fernando Haddad.

    Coligações com a direita
    Para isso, devemos voltar no tempo por alguns anos. Mais exatamente, 18 de junho de 2012. Nesse dia, na véspera da campanha que acabou elegendo Haddad, o atual prefeito e Lula visitaram aquele que se tornaria um dos seus principais aliados, Paulo Maluf, líder do PP. Essa coligação reproduziria a aliança que desde 2004 o PT havia firmado com o Partido Progressista, quando cedeu a este o Ministério das Cidades. Não é nem preciso dizer muito para tornar evidente os problemas disso. Maluf se tornou famoso, entre outras coisas, por seu bordão “ROTA na rua”. Quem mora na periferia, quem é negro, ou negra, sabe o seu real significado. Esse agrupamento da polícia é, na verdade, um esquadrão genocida, responsável pelo assassinato de centenas de jovens periféricos.

    Na atual disputa eleitoral, Haddad encontra-se coligado com o PR e com o PROS. Os dois partidos, somados, cederam trinta votos a favor do impeachment de Dilma na votação da Câmara dos Deputados, de um total de 46. No Senado, toda a bancada do PR, com quatro senadores, votou a favor do impedimento de Dilma. O PROS não possui senadores. Não bastasse essa enorme contradição, que, inclusive, se repete em centenas de cidades, talvez o leitor se lembre que um dos senadores do PR é Magno Malta, figura que hoje é o principal defensor e impulsionador do projeto de lei ‘Escola sem Partido’. Este projeto significa, basicamente, o aniquilamento da educação enquanto ferramenta de crítica político-social, isto é, a sua transformação em instrumento de alienação da juventude para servir, sem reclamar, aos interesses dos empresários e poderosos. Em resumo, esse projeto nada é do que uma resposta pela direita à luta dos secundaristas.

    Essa associação de Haddad e do PT com a direita que, segundo afirmam, apenas retoricamente, pretendem combater, não significa apenas o rebaixamento de um programa possivelmente mais alinhado com os interesses da juventude e da classe trabalhadora, como já se provou. Na questão das eleições proporcionais, o voto em qualquer candidato do PT, como é o caso de Suplicy, que ainda possui grande simpatia de ativistas da esquerda, serve para eleger vereadores também do PR e do PROS, em função da coligação. Assim, não é um argumento exagerado, como querem os petistas, afirmar que o PT fortalece a direita. Votar em candidatos do PT na atual eleição para vereador significa eleger também candidatos da direita.

    As alianças com os setores mais reacionários da política que Haddad e o PT possuem, o seu apoio direto à repressão policial em junho de 2013 e o aumento sucessivo da tarifa são apenas alguns, entre vários, exemplos que demonstram que Haddad e o PT não são, de forma alguma, alternativas para a juventude. É preciso, nessas eleições, fortalecer uma alternativa à esquerda do PT, que se coloque verdadeiramente à serviço da luta contra Temer e suas reformas, que seja irredutivelmente contrária à repressão dos movimentos sociais, que entenda que nós possuímos direito ao transporte público, gratuito e de qualidade, que, enfim, defenda uma cidade para a juventude e para os trabalhadores. Coloco minha militância a serviço desse projeto, por isso que estou com Erundina nessas eleições.

    Contraditoriamente, Haddad ainda discursou em um dos atos pelo Fora Temer na Paulista, no dia 11 de setembro, criticando Temer e os golpistas. Usou o vídeo, inclusive, no seu programa para a televisão, tentando transformar o ato em seu palanque eleitoral. Foi vaiado por boa parte do público, que dizia “se ele se associa aos reacionários, nós não nos associamos”.

    Repressão policial
    Pois bem, mesmo assim Haddad venceu as eleições em 2012, assumindo o mandato em 2013. Novamente, viajamos para o mês de junho. Ganham corpo as manifestações de rua contra o aumento da tarifa de ônibus, trem e metrô para $3,20. Na mesma medida em que cresce a quantidade de jovens na rua, cresce também a violência da repressão policial. No dia 12, quarta-feira, Haddad e Alckmin, que estavam juntos em Paris, foram à imprensa defender o aumento da tarifa e criticar a onda de violência e depredações protagonizada pelos manifestantes. O dia seguinte, dia 13, entrou para os livros da história política do país como a ‘quinta-feira sangrenta’.

    É verdade que Haddad e Alckmin acabaram derrotados e sendo obrigados a, novamente juntos, anunciarem o retorno da tarifa para três reais. Infelizmente, isso não significou que o petista e o pessedebista tivessem entendido que, sendo o transporte um direito, era preciso garantir acesso de todos a ele. Tratou-se apenas de um recuo tático. No ano seguinte, no dia 26 de dezembro, Haddad anunciou, se antecipando até mesmo a Alckmin, o reajuste da tarifa para $3,50. Com isso, ele esperava reter qualquer tentativa de mobilização contrária ao aumento, nos moldes de junho de 2013, em função das festas de fim de ano. Tática que teve sucesso e que tornou a adotar em 9 de janeiro deste ano, quando aumentou a tarifa para os atuais e absurdos $3,80.

    Pode-se argumentar, por outro lado, que Haddad criou o passe livre estudantil, como uma espécie de política de redução dos danos causados pelos sucessivos aumentos da tarifa. Em primeiro lugar, a história não é bem assim. O passe livre estudantil foi uma conquista das mobilizações populares que se fortalecem em junho de 2013 e que seguem ocorrendo até este ano, apesar de menores. Outra prova de que o passe livre estudantil é, na verdade, uma derrota de Haddad é que, nesse ano também, iniciou o processo de licitação dos serviços de ônibus na capital, que pretende manter por mais vinte anos o nosso direito ao transporte público nas mãos das máfias que controlam as empresas de ônibus, cuja lógica de operação é apenas a do lucro (mesmo que ainda um pouco menor): quanto mais velho o ônibus e quanto mais lotado, melhor.

    No que se refere é repressão policial, seria possível contestar nossos argumentos afirmando que é responsável apenas aquele que manda diretamente nos agentes da repressão, que, no caso, seria Geraldo Alckmin. Não achamos isso. Aquele que manifesta apoio à determinada ação se torna, em algum grau, responsável por ela e, sobretudo, por suas consequências. Agora, segundo essa mesma tese, Haddad é o comandante direto da Guarda Civil Metropolitana e, portanto, sem dúvida alguma pode e deve ser responsabilizado pelas ações desta. E a GCM, no período de Haddad na prefeitura, seguiu cumprindo seu papel de reprimir com violência ocupações urbanas, o comércio ambulante e os moradores de rua. Suas ações geraram, inclusive, um protesto no último dia 13, em que o prefeito era acusado de “higienista” por um grupo de moradores de rua. Nesse sentido, Haddad manteve a lógica de Kassab, que faz da GCM nada além de uma versão municipal da PM.

    Foto: Wilson Dias/Agência Brasil