Suicídio LGBT: as manchas de sangue da discriminação

Por Hammel Phillipe, de Maceió (AL)

Este mês a Associação Brasileira de Psiquiatria iniciou uma campanha de alerta contra as crescentes taxas de suicídio, não somente em nosso país, mas em todo o mundo. O Setembro Amarelo tem como objetivo conscientizar a população sobre os fatores de riscos do suicídio e o que propriamente implica neste ato, cujas grandes causas são os transtornos mentais, especialmente a Depressão. Vivemos em uma sociedade com o ritmo cada vez mais acelerado de trabalho, com maiores exigências e menos direitos; muitas vezes impedidos de exercer nossa própria sociabilidade e estando mais expostos a frustrações afetivas e profissionais. Estes e outros fatores influenciam demais no adoecimento psíquico.

Todavia, para além de todos os fatores que participam do adoecimento da população geral, o setor LGBT da sociedade tem que conviver com mais um: a discriminação. A LGBTfobia se traduz em diversas formas de violência, entre elas a física – que foi responsável por 318 mortes por LGBTfobia em 2015 no Brasil, cerca de uma a cada 28 horas – e a psicológica. Os LGBTs comumente são excluídos de vários grupos sociais, seja pelos próprios pais, famílias e ou pela sociedade, tendo constantemente sua orientação e/ou identidade questionados. O bullying começa desde muito cedo e está relacionado a uma reação à quebra dos padrões sociais de gênero. Se uma criança tem pênis, é esperado um comportamento social masculino e vice-versa – caso fuja disso, ela vira motivo de chacota e pode ser agredida de diversas formas. A discriminação, notavelmente, gera uma série de efeitos negativos sobre a saúde mental do indivíduo e contribui mais tarde para o seu adoecimento.

Para se ter uma ideia em 2012 realizou-se um estudo na Universidade de Columbia nos Estados Unidos para avaliar a relação entre orientação sexual e o suicídio de pessoas jovens com cerca de 32.000 participantes anônimos, alunos de escola pública entre 13 e 17 anos. Os resultados foram nefastos: adolescentes lésbicas, gays, bissexuais e transexuais estão cinco vezes mais propensos a tentar suicídio que heterossexuais. A pesquisa também concluiu que o ambiente influencia bastante. Quando mais receptivo menores as taxas de suicídio.

Em outra pesquisa realizada na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) em 2013, com 1.600 participantes, entre 12 e 60 anos, sendo 72% de homossexuais e 28% de bissexuais, 59% do sexo masculino e 41% do sexo feminino, os resultados também chamaram atenção. De acordo com o estudo, 78% dos entrevistados já tiveram a sensação de “sumir”, enquanto que 49% disse já ter desejado não viver mais. Paralelo a isso, 15% dos entrevistados revelaram ter coragem de tirar a própria vida e 10% já teve vontade ou até mesmo tentou tirar a própria vida, mas acha que hoje não conseguiria mais realizar o ato. Os entrevistados apontaram que o que poderia levá-los a tirar a própria vida seria a falta de apoio espiritual, seguida de sentimentos gerados por outros dois outros motivos: indiferença e preconceito.

Ainda que tenhamos poucos dados e pesquisas no Brasil sobre esta questão, os já poucos dados permitem concluir que suicídio LGBT é um problema da nossa realidade, e uma vez que conhecemos as causas, podemos sim, combatê-las. Desse modo, a luta contra a LGBTfobia é sim, uma luta pela vida. É preciso exigir não somente políticas públicas, mas a criminalização da LGBTfobia e a conscientização constante sobre a questão de gênero. Afinal, enquanto tivermos grupos exigindo por exemplo o fim da “ideologia de gênero nas escolas” ou seja, o debate sobre a realidade dos LGBTs, os grupos marginalizados pelo preconceito continuarão achando que estão sozinhos no mundo e adoecerão, sejam eles adultos ou jovens. O desenvolvimento da sexualidade e da identidade de gênero é um debate muito necessário para ser evitado, como querem vários grupos religiosos que ocupam várias bancas do Congresso Nacional, com a finalidade da manutenção de uma estrutura familiar arcaica, que tenta de todas as formas restringir o amor e a realidade humana.

Participe da consulta pública no senado sobre a criminalização da lgbtfobia.

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